{"id":18096,"date":"2014-11-13T16:24:17","date_gmt":"2014-11-13T16:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=124886"},"modified":"2014-11-13T16:24:17","modified_gmt":"2014-11-13T16:24:17","slug":"um-ou-muitos-mexicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/11\/ultimas-noticias\/um-ou-muitos-mexicos\/","title":{"rendered":"Um ou muitos m\u00e9xicos?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_124888\" style=\"width: 332px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/JoaquinRoy-photo304211-322x472.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-124888\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/JoaquinRoy-photo304211-322x472.jpg\" alt=\"JoaquinRoy photo304211 322x472 Um ou muitos m\u00e9xicos?\" width=\"322\" height=\"472\" title=\"Um ou muitos m\u00e9xicos?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Joaqu\u00edn Roy. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>San Miguel de Allende, M\u00e9xico, novembro\/2014 \u2013 O M\u00e9xico pode encantar, irritar, ferir, apaixonar, confundir, tanto o viajante espor\u00e1dico quanto o investigador consciente. Mas nunca deixar\u00e1 algu\u00e9m indiferente. O M\u00e9xico marca como uma pegada indel\u00e9vel.<\/p>\n<p>Para tentar entend\u00ea-lo, no entanto, cabalmente \u00e9 preciso assumir que n\u00e3o existe s\u00f3 um M\u00e9xico, mas muitos. \u00c9 o que, em parte, tornou famoso um livro de Lesley Byrd Simpson, <em>best seller <\/em>dos anos 1960, leitura obrigat\u00f3ria de viajantes e universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Um M\u00e9xico parece estar protegido por uma bolha de isolamento no tempo. Outro se abre cruelmente a quase todos os males e todas as trag\u00e9dias do tempo presente.<\/p>\n<p>Um vive no passado e outro n\u00e3o sabe bem se se integra no futuro. Um resume paz e alegria. Outro se mata sistematicamente. Um \u00e9 generoso e outro rouba com prazer e corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as vers\u00f5es do M\u00e9xico se exteriorizam com a trag\u00e9dia do desaparecimento e mais que prov\u00e1vel assassinato de 43 jovens estudantes de magist\u00e9rio rural no Estado de Guerrero.<\/p>\n<p>Por uma combina\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica de fome e pobreza com a corrup\u00e7\u00e3o governamental e privada, entrela\u00e7adas com o narcotr\u00e1fico, a profiss\u00e3o de docente que poderia ser uma modesta corre\u00e7\u00e3o da end\u00eamica desigualdade mexicana (e do resto do subcontinente latino-americano, l\u00edder nessa chaga) se converteu em v\u00edtima.<\/p>\n<p>Ignorado em outras ocasi\u00f5es, advertido at\u00e9 \u00e0 saciedade, o crime de deten\u00e7\u00e3o ilegal, sequestro e extors\u00e3o explodiu nas m\u00e3os dos tr\u00eas n\u00edveis de governos (municipal, estatal e federal) que pretendiam que o M\u00e9xico id\u00edlico fosse capaz de novamente esconder a realidade dos restos da \u201cditadura perfeita\u201d, feliz express\u00e3o de Mario Vargas Llosa, agora tema de um filme de sucesso de bilheteria.<\/p>\n<p>Restos da miragem do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d oferecido por Francis Fukuyama, o M\u00e9xico atual \u00e9 a teimosia \u00e0 vista da resist\u00eancia do M\u00e9xico aparentemente eterno que se nega a se desvanecer.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o que o populista, e de novo governante, Partido Revolucion\u00e1rio Institucional (PRI) rendeu aos Estados Unidos, ao manter a ordem interna em um pa\u00eds amea\u00e7ado de se converter em uma segunda Cuba de mais de cem milh\u00f5es de habitantes, reclama subsistir \u00e0 passagem de dois governos de seis anos cada do conservador Partido de A\u00e7\u00e3o Nacional (PAN).<\/p>\n<p>As reformas econ\u00f4micas que o atual presidente Enrique Pe\u00f1a Nieto, de apar\u00eancia moderna com arroubos \u201ckennedianos\u201d, havia implantado parecem castelos no ar. Um novo aeroporto para a capital, uma rede de ferrovias de alta velocidade e uma oferta espetacular de explora\u00e7\u00e3o privada de fontes de energia deveriam operar o milagre de lan\u00e7ar o M\u00e9xico a uma definitiva modernidade e progresso.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico bronco recordou ao seu presidente que nem tudo \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil. A insist\u00eancia na vig\u00eancia de todo os mitos nacionais n\u00e3o parece ser suficiente para apagar as car\u00eancias graves de um dos poucos pa\u00edses da terra com personalidade e solidez hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico, com cerca de 120 milh\u00f5es de habitantes, compete com o Brasil na lideran\u00e7a latino-americana e com um punhado de Estados espalhados pelo globo em presen\u00e7a internacional. Gaba-se de uma not\u00e1vel atividade banc\u00e1ria, \u00edm\u00e3 de investimentos e desenvolvimento de parques tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Suas ruas e autoestradas inundadas pelo tr\u00e1fego surpreendem pela quantidade de autom\u00f3veis de modelos superiores. Mas a maioria de seus cidad\u00e3os se v\u00ea obrigada a se mover a p\u00e9 ou em lotados \u00f4nibus para ir trabalhar, investindo uma parte escandalosa de sua vida di\u00e1ria nesse transtorno e recebendo sal\u00e1rios insultantes.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, os cidad\u00e3os do M\u00e9xico parecem ter mais otimismo do que muitos outros habitantes de pa\u00edses no resto do mundo e respondem com sinais de lealdade em datas hist\u00f3ricas, sob bandeiras enormes e inclusive colocadas acima da cruz crist\u00e3 que coroa as igrejas.<\/p>\n<p>Insiste-se que o M\u00e9xico \u00e9 eterno. Recorda-se que os olmecas, astecas e maias s\u00e3o parte consubstancial da na\u00e7\u00e3o. Cobre-se de maneira pudica o per\u00edodo da administra\u00e7\u00e3o colonial e o imp\u00e9rio, mas se reconhece generosamente com seriedade a contribui\u00e7\u00e3o espanhola ap\u00f3s a incorpora\u00e7\u00e3o de seu ex\u00edlio por obra do presidente L\u00e1zaro C\u00e1rdenas (1934-1940).<\/p>\n<p>O M\u00e9xico \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o da variante c\u00edvica, seguindo o modelo de inclus\u00e3o e a decis\u00e3o individual, n\u00e3o baseada na etnia, no sangue, na religi\u00e3o. O M\u00e9xico \u00e9 o futuro, sem renunciar ao legado do passado.<\/p>\n<p>Mas a lealdade sem fissuras se recompensa com um pagamento inaceit\u00e1vel. Recentemente o governo mexicano fixou o sal\u00e1rio m\u00ednimo em aproximadamente US$ 5 por dia. Do doutro lado da fronteira, o presidente norte-americano, Barack Obama, anunciou sal\u00e1rio m\u00ednimo de US$ 14 por hora.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deve estranhar que os mexicanos votem com os p\u00e9s e se refugiem no \u00edm\u00e3 dos Estados Unidos. Com mais de 40 milh\u00f5es de mexicanos residindo ao norte do rio Bravo ou rio Grande, a na\u00e7\u00e3o c\u00edvica \u00e9 uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Se essa na\u00e7\u00e3o depende do trabalho de alguns professores rurais, de base ind\u00edgena, com sal\u00e1rios de apenas subsist\u00eancia, discriminados, desaparecidos, assassinados, a tarefa de Pe\u00f1a Nieto e do novo PRI \u00e9 ut\u00f3pica. Muitos m\u00e9xicos continuar\u00e3o coexistindo. At\u00e9 quando?<\/p>\n<p><em>* <strong>Joaqu\u00edn Roy <\/strong>\u00e9 catedr\u00e1tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni\u00e3o Europeia da Universidade de Miami. jroy@Miami.edu <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>San Miguel de Allende, M&eacute;xico, novembro\/2014 &ndash; O M&eacute;xico pode encantar, irritar, ferir, apaixonar, confundir, tanto o viajante espor&aacute;dico quanto o investigador consciente. Mas nunca deixar&aacute; algu&eacute;m indiferente. 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