{"id":18122,"date":"2014-11-17T11:06:58","date_gmt":"2014-11-17T11:06:58","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=125113"},"modified":"2014-11-17T11:06:58","modified_gmt":"2014-11-17T11:06:58","slug":"terramerica-o-auge-dos-bairros-nauticos-agrava-inundacoes-na-argentina-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/11\/ultimas-noticias\/terramerica-o-auge-dos-bairros-nauticos-agrava-inundacoes-na-argentina-2\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 O auge dos bairros n\u00e1uticos agrava inunda\u00e7\u00f5es na Argentina"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_125115\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ter708Argentina1.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-125115\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ter708Argentina1.jpg\" alt=\"Ter708Argentina1 Terram\u00e9rica   O auge dos bairros n\u00e1uticos agrava inunda\u00e7\u00f5es na Argentina\" width=\"340\" height=\"227\" title=\"Terram\u00e9rica   O auge dos bairros n\u00e1uticos agrava inunda\u00e7\u00f5es na Argentina\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Parte da megaurbaniza\u00e7\u00e3o n\u00e1utica de Nordelta, no delta do rio Paran\u00e1, que inaugurou a tend\u00eancia dos bairros fechados nas margens de rios e canais da Grande Buenos Aires. J\u00e1 s\u00e3o 11 bairros que se converteram em uma \u201ccidade-povoado\u201d, no munic\u00edpio de Tigre. Foto: Elinmobiliario.com.<\/p><\/div>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 17 de novembro de 2014 (Terram\u00e9rica).- O fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico da sudestada deixou sob as \u00e1guas, na primeira semana de novembro, 19 munic\u00edpios da plan\u00edcie de Buenos Aires, na Argentina, em inunda\u00e7\u00f5es com efeitos dram\u00e1ticos devido ao avan\u00e7o imobili\u00e1rio desenfreado. Nos anos 1990, come\u00e7ou um auge residencial que privatiza bairros sobre ecossistemas vitais e constr\u00f3i muros socioecon\u00f4micos na Regi\u00e3o Metropolitana de Buenos Aires, e agora tamb\u00e9m ambientais.<\/p>\n<p>A sudestada \u00e9 um fen\u00f4meno pr\u00f3prio do rio da Prata, de r\u00e1pida rota\u00e7\u00e3o de fortes ventos seguida por redemoinhos de ar e chuvas. Desta vez os ventos superaram os 70 quil\u00f4metros por hora e houve mais precipita\u00e7\u00f5es em dois dias do que as previstas para dois meses, o que fez transbordar rios, alagou amplas \u00e1reas e obrigou mais de cinco mil pessoas a se deslocarem. Jorge Capitanich, chefe de Gabinete do governo de Cristina Fern\u00e1ndez, atribuiu as inunda\u00e7\u00f5es a \u201cuma combina\u00e7\u00e3o de sudestada, chuvas copiosas e satura\u00e7\u00e3o de bacias h\u00eddricas\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, Patricia Pintos, do Centro de Pesquisas Geogr\u00e1ficas da Universidade de La Plata, apontou que essa conflu\u00eancia de fatores se agravou pela \u201cdifus\u00e3o de um fen\u00f4meno urbanizador\u201d, com a prolifera\u00e7\u00e3o de bairros \u201cn\u00e1uticos\u201d ou \u201curbaniza\u00e7\u00f5es fechadas aqu\u00e1ticas\u201d. Essa oferta imobili\u00e1ria de cidades amuralhadas \u201cbusca gerar paisagens pr\u00f3ximas ou ligadas a corpos de \u00e1gua artificiais ou naturais\u201d, explicou ao Terram\u00e9rica a ge\u00f3grafa, coautora do livro <em>A Privatopia Sacr\u00edlega. Efeitos do Urbanismo Privado na Baixa do Rio Luj\u00e1n<\/em>.<\/p>\n<p>Muitos desses bairros privados de luxo ocuparam plan\u00edcies de inunda\u00e7\u00e3o de rios e vastas superf\u00edcies de mangues, considerados vitais no curso h\u00eddrico natural, para o escorrimento da \u00e1gua quando esta sobe. \u201cO que ocorreu com esse fen\u00f4meno urbanizador \u00e9 que avan\u00e7aram sobre o lugar que funcionava como amortecedor das cheias\u201d, detalhou Pintos.<\/p>\n<p>Os mangues \u201cforam cobertos com urbaniza\u00e7\u00f5es que, paradoxalmente, promovem um estilo de vida associado ao desfrute da \u00e1gua e da natureza\u201d, apontou ao Terram\u00e9rica a urbanista Laila Robledo, da Universidade Nacional de General Sarmiento.<\/p>\n<p>Na bacia baixa do rio Luj\u00e1n, esses bairros para setores ricos da popula\u00e7\u00e3o cresceram em quatro dos munic\u00edpios mais afetados: Pilar, Campana, Escobar e Tigre, que ocupam mais de sete mil hectares. \u201cA sucess\u00e3o de 65 urbaniza\u00e7\u00f5es como essas modificou a topografia do relevo na \u00e1rea de desembocadura do rio e freou a drenagem em eventos como os vividos este m\u00eas\u201d, afirmou Pintos.<\/p>\n<p>Esses bairros, que a especialista chama de \u201curbaniza\u00e7\u00f5es fechadas \u2018polderizadas\u2019\u201d (com terraplenagens perimetrais), \u201cimplicam uma profunda altera\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas naturais, n\u00e3o s\u00f3 para alcan\u00e7ar o n\u00edvel de piso habit\u00e1vel nas partes de uso residencial (recheio), como para gerar novos corpos de \u00e1gua\u201d (dragagem e desvio).<\/p>\n<p>Isso implica, por exemplo, escavar para criar lagos artificiais e utilizar essa terra para preencher \u00e1reas baixas. Al\u00e9m disso, como esses bairros est\u00e3o em \u00e1reas alag\u00e1veis, s\u00e3o constru\u00eddas terraplenagens perimetrais de seis a dez metros de altura para proteg\u00ea-los da entrada da \u00e1gua externa. \u201cServem de prote\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m funcionam como diques e geram situa\u00e7\u00f5es de alagamento em bairros vizinhos. O que os protege prejudica os que est\u00e3o fora\u201d, ressaltou a ge\u00f3grafa.<\/p>\n<p>Em Tigre, 10% de seus 350 mil habitantes vivem em bairros desse tipo, que ocupam metade do territ\u00f3rio, informou ao Terram\u00e9rica o secret\u00e1rio-geral do munic\u00edpio, Mart\u00edn Gianella. \u201c\u00c9 o que chamamos um modelo de segrega\u00e7\u00e3o socioterritorial. S\u00e3o divididos com muros territ\u00f3rios e sociedade\u201d, acrescentou, lembrando que Tigre, no norte da Grande Buenos Aires, \u00e9 historicamente inundado por sudestadas.<\/p>\n<p>\u201cA novidade que vivemos nos \u00faltimos cinco anos s\u00e3o inunda\u00e7\u00f5es por chuvas, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 comum que ocorram principalmente em bairros vizinhos a bairros fechados desenvolvidos na \u00faltima d\u00e9cada\u201d, pontuou Gianella. O funcion\u00e1rio pede que o munic\u00edpio controle e regule essas constru\u00e7\u00f5es e \u201cexija um imposto especial sobre esses megaprojetos para poder investir nas obras hidr\u00e1ulicas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Robledo destacou que as mudan\u00e7as dos regimes hidr\u00e1ulicos afetam n\u00e3o s\u00f3 as \u00e1reas vizinhas a bairros fechados, porque essa \u00e9 uma plan\u00edcie cortada por bacias hidrogr\u00e1ficas. \u201cA cidade \u00e9 parte de um metabolismo urbano, o que ocorre em um lugar afeta os demais\u201d, explicou, ressaltando que por isso as solu\u00e7\u00f5es devem ser \u201cinterjurisdicionais\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a urbanista, a constru\u00e7\u00e3o desses bairros fechados \u201cfavorece a privatiza\u00e7\u00e3o da cidade e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, em detrimento do resto da popula\u00e7\u00e3o\u201d. Com base em uma \u201cl\u00f3gica de rentabilidade\u201d sobre o valor do solo, \u201cas empresas compram \u00e1reas inund\u00e1veis e historicamente baratas, as preenchem para torn\u00e1-las habit\u00e1veis e geram lucros extraordin\u00e1rios\u201d, afirmou. \u201c\u00c9 resultado do crescimento de um modelo de desenvolvimento de cidade adotado por munic\u00edpios muito propensos a favorecer o desembarque de grandes correntes de investimento\u201d, acrescentou Pintos.<\/p>\n<div id=\"attachment_125116\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ter708Argentina2.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-125116\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ter708Argentina2.jpg\" alt=\"Ter708Argentina2 Terram\u00e9rica   O auge dos bairros n\u00e1uticos agrava inunda\u00e7\u00f5es na Argentina\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"Terram\u00e9rica   O auge dos bairros n\u00e1uticos agrava inunda\u00e7\u00f5es na Argentina\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">T\u00edpicas moradias em forma de palafita no munic\u00edpio de Tigre, no canal de Arias, no delta do rio Paran\u00e1. Esses bairros tradicionais sofrem o impacto ambiental e social do surgimento na \u00e1rea de luxuosas urbaniza\u00e7\u00f5es fechadas que se erguem sobre terras alagadas. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Ambas concordam que as normas e os mapas de risco socioambientais para regular essas constru\u00e7\u00f5es existem, mas n\u00e3o s\u00e3o utilizados. Os grandes empreendedores imobili\u00e1rios da prov\u00edncia de Buenos Aires, como Gonzalo Monarca, presidente do Grupo Monarca, negaram ser respons\u00e1veis pelo problema, que atribuem \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma argumenta\u00e7\u00e3o mentirosa\u201d, reagiu Robledo. \u201cA mudan\u00e7a clim\u00e1tica se evidencia em n\u00edvel mundial mas as consequ\u00eancias s\u00e3o menores ou maiores de acordo com a forma como a popula\u00e7\u00e3o esteja assentada nas cidades. \u201cSe ocupamos um vale de inunda\u00e7\u00e3o, que serve para a \u00e1gua ocup\u00e1-lo quando o rio cresce, \u00e9 \u00f3bvio que a \u00e1gua vai correr para outras \u00e1reas\u201d, destacou. Robledo considera que, se esse tipo de empreendimento n\u00e3o for regularizado ou proibido, as cidades ser\u00e3o inundadas por mais tempo e com maior frequ\u00eancia, at\u00e9 com chuvas menos intensas.<\/p>\n<p>Pintos vai mais longe, com solu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o \u201cpouco simp\u00e1ticas\u201d (politicamente) e \u201cmuito onerosas\u201d, mas que n\u00e3o devem ser descartadas diante do agravamento do problema. Ela recordou experi\u00eancias de reassentamento de popula\u00e7\u00f5es da margem do rio Mississipi, sobre a qual avan\u00e7ou historicamente a cidade norte-americana de Nova Orleans, com as consequ\u00eancias dram\u00e1ticas do furac\u00e3o Katrina em 2005.<\/p>\n<p>Outras solu\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias seriam proibir novos bairros privados em ecossistemas fr\u00e1geis, e as autoridades reverem as autoriza\u00e7\u00f5es concedidas para continuar construindo dentro deles. Pintos recomendou tamb\u00e9m que as empresas \u201cenfrentem os custos de remedia\u00e7\u00e3o\u201d, embora essas obras fossem \u201cum paliativo diante de uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, que poderia ter sido evitada se houvesse prevalecido a racionalidade\u201d.<\/p>\n<p>Leandro Silva, chefe de ambiente da Defensoria do Povo da Na\u00e7\u00e3o, afirmou ao Terram\u00e9rica que em 2010 esse \u00f3rg\u00e3o alertou os munic\u00edpios de Z\u00e1rate, Campana, Escobar, Tigre e San Fernando sobre os riscos da expans\u00e3o de bairros fechados no ecossistema do delta do rio Paran\u00e1, e pediu que respeitassem estudos de impacto ambiental e exercessem r\u00edgidos controles.<\/p>\n<p>\u201cA recorr\u00eancia das inunda\u00e7\u00f5es e dos impactos sobre os cidad\u00e3os mais vulner\u00e1veis torna necess\u00e1rio aprofundar esses mecanismos e exercer a preven\u00e7\u00e3o de modo ativo, utilizando nas bacias h\u00eddricas todos os instrumentos de gest\u00e3o ambiental que a legisla\u00e7\u00e3o exige: avalia\u00e7\u00f5es de impacto ambiental, participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, ordenamento ambiental do territ\u00f3rio e acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d, enfatizou Silva. Envolverde\/Terram\u00e9rica<\/p>\n<p><em>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigos relacionados da IPS <\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/noticias\/o-luxo-constroi-inundacoes-devastadoras-na-argentina\/\" >O luxo constr\u00f3i inunda\u00e7\u00f5es devastadoras na Argentina<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/diluvio-revela-tragicas-falhas-de-prevencao\/\" >Dil\u00favio revela tr\u00e1gicas falhas de preven\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2012\/11\/argentina-obras-contra-inundaciones-llegan-detras-de-la-tormenta\/\" >Obras contra inunda\u00e7\u00f5es chegam depois da tormenta, em espanhol<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 17 de novembro de 2014 (Terram&eacute;rica).- O fen&ocirc;meno meteorol&oacute;gico da sudestada deixou sob as &aacute;guas, na primeira semana de novembro, 19 munic&iacute;pios da plan&iacute;cie de Buenos Aires, na Argentina, em inunda&ccedil;&otilde;es com efeitos dram&aacute;ticos devido ao avan&ccedil;o imobili&aacute;rio desenfreado. 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