{"id":18261,"date":"2014-12-17T12:55:24","date_gmt":"2014-12-17T12:55:24","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=126947"},"modified":"2014-12-17T12:55:24","modified_gmt":"2014-12-17T12:55:24","slug":"o-ultimo-cravo-no-caixao-da-primavera-arabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/12\/ultimas-noticias\/o-ultimo-cravo-no-caixao-da-primavera-arabe\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo cravo no caix\u00e3o da Primavera \u00c1rabe"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_126949\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/agipto.jpg\"><img class=\"wp-image-126949\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/agipto.jpg\" alt=\"agipto O \u00faltimo cravo no caix\u00e3o da Primavera \u00c1rabe\" width=\"529\" height=\"349\" title=\"O \u00faltimo cravo no caix\u00e3o da Primavera \u00c1rabe\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O ex\u00e9rcito eg\u00edpcio bloqueia uma rua no Cairo, em fevereiro de 2011. Foto:\u00a0 Mohammed Omer\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Washington, Estados Unidos, 17\/12\/2014 \u2013 Com a absolvi\u00e7\u00e3o do ex-presidente do Egito, Mohamed Hosni Mubarak, foi colocado o \u00faltimo cravo no caix\u00e3o da chamada Primavera \u00c1rabe e nos levantes por justi\u00e7a, dignidade e liberdade que sacudiram esse e outros pa\u00edses da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio em 2011. O juiz Mahmud Kamel al-Rashidi e seus colegas do tribunal, que absolveram os ex-mandat\u00e1rio no dia 29 de novembro, s\u00e3o, na verdade, um vest\u00edgio da era Mubarak (1981-2011).<\/p>\n<p>A justi\u00e7a, o atual regime militar encabe\u00e7ado por Abdel Fatah al Sisi e os complacentes meios de comunica\u00e7\u00e3o eg\u00edpcios foram o pano de fundo da decis\u00e3o do tribunal, que revela como uma revolu\u00e7\u00e3o popular pode derrubar um presidente, mas n\u00e3o os c\u00edrculos de poder enquistados no regime. De fato, nenhum observador s\u00e9rio do Egito se surpreenderia com a absolvi\u00e7\u00e3o de Mubarak e seus colaboradores, acusados da morte de dezenas de manifestantes pac\u00edficos na Pra\u00e7a Tahrir em janeiro de 2011, que um m\u00eas depois tiraram Mubarak do poder.<\/p>\n<p>Os autocratas \u00e1rabes no Egito, Emirados \u00c1rabes Unidos, na Ar\u00e1bia Saudita e em outros pa\u00edses trabalharam sem descanso para acabar com qualquer vest\u00edgio das revolu\u00e7\u00f5es de 2011. Aproveitaram o sectarismo sangrento e a amea\u00e7a do terrorismo para deslegitimar os protestos populares e desacreditar as demandas por uma verdadeira reforma pol\u00edtica.\u00a0 A absolvi\u00e7\u00e3o de Mubarak colocou um selo oficial \u00e0 tentativa do ditador eg\u00edpcio de reescrever a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe de Estado, que em junho de 2013 derrubou o presidente Mohamed Morsi, que continua na pris\u00e3o devido a acusa\u00e7\u00f5es falsas, os ditadores \u00e1rabes incentivaram Al Sisi com milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Embora a senten\u00e7a n\u00e3o tenha a ver com a aplica\u00e7\u00e3o da lei, mas com a pol\u00edtica e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o, a pouco surpreendente decis\u00e3o oferece li\u00e7\u00f5es importantes para a regi\u00e3o e os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Os regimes autorit\u00e1rios \u00e1rabes, sejam dinastias ou rep\u00fablicas presidenciais, aperfei\u00e7oaram a arte da sobreviv\u00eancia, o amiguismo, a corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e o controle dos poss\u00edveis rivais. Utilizaram o Isl\u00e3 para seus fins c\u00ednicos, instaram os servi\u00e7os de seguran\u00e7a a silenciarem a oposi\u00e7\u00e3o, e incentivaram os meios de comunica\u00e7\u00e3o complacentes a expressarem o discurso do regime.<\/p>\n<p>Para controlar o Estado, os ditadores \u00e1rabes da regi\u00e3o criaram sistemas judiciais favor\u00e1veis ao regime, for\u00e7as armadas e servi\u00e7os de seguran\u00e7a confi\u00e1veis e bem financiados, parlamentos obedientes, conselhos de ministros receptivos e m\u00eddia flex\u00edvel e controlada. Os autocratas tamb\u00e9m asseguraram a lealdade mediante o clientelismo e as amea\u00e7as de repres\u00e1lias. O poder de elementos influentes nos governos est\u00e1 diretamente vinculado ao ditador.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia do ditador e de seu regime se baseia na suposi\u00e7\u00e3o profundamente arraigada de que compartilhar o poder com o povo \u00e9 prejudicial para o governo e a estabilidade do pa\u00eds. Esse princ\u00edpio direcionou a pol\u00edtica no Egito, Ar\u00e1bia Saudita, Bahrein, Emirados \u00c1rabes Unidos e v\u00e1rios outros pa\u00edses desde o come\u00e7o da Primavera \u00c1rabe.<\/p>\n<p>Embora o juiz Rashid tenha tido a ousadia de afirmar que a absolvi\u00e7\u00e3o de Mubarak \u201cn\u00e3o teve nada a ver com a pol\u00edtica\u201d, na realidade a senten\u00e7a se deveu a uma decis\u00e3o previamente ordenada pelo regime de Al Sisi, para virar a p\u00e1gina da revolu\u00e7\u00e3o de 25 de janeiro.<\/p>\n<p>Se Al Sisi tiver raz\u00e3o em sua interpreta\u00e7\u00e3o do estado de \u00e2nimo popular, ent\u00e3o os autocratas \u00e1rabes receber\u00e3o a absolvi\u00e7\u00e3o de Mubarak com os bra\u00e7os abertos, na cren\u00e7a de que os protestos pela democracia e pelos direitos humanos ser\u00e3o, segundo um ditado \u00e1rabe, como uma \u201cnuvem de ver\u00e3o que logo se dissipar\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Por exemplo, o rei Hamad, do Bahrein, felicitou Mubarak no dia em que foi dada a senten\u00e7a, segundo a ag\u00eancia de not\u00edcias oficial desse pa\u00eds do Golfo P\u00e9rsico. Mas a maioria dos estudiosos da regi\u00e3o acredita que o apoio que os ditadores \u00e1rabes d\u00e3o ao regime de Al Sisi \u00e9 m\u00edope e carente de toda avalia\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da regi\u00e3o. Muitos afirmam que a frustra\u00e7\u00e3o popular com a intransig\u00eancia e a repress\u00e3o estatal levar\u00e3o \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o e ao aumento do terrorismo.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do grupo extremista Estado Isl\u00e2mico \u00e9 o \u00faltimo exemplo de como a frustra\u00e7\u00e3o popular, especialmente entre os mu\u00e7ulmanos sunitas, pode impulsionar uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista. Esse fen\u00f4meno lamentavelmente \u00e9 evidente no Egito, Bahrein, S\u00edria, Iraque, I\u00eamen, L\u00edbia, Arg\u00e9lia e outros pa\u00edses. E como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia popular, os regimes desses pa\u00edses responderam com mais repress\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na verdade, Al Sisi e outros autocratas \u00e1rabes n\u00e3o aprenderam ainda a li\u00e7\u00e3o fundamental da Primavera \u00c1rabe: n\u00e3o se pode obrigar o povo a estar ajoelhado para sempre. Concentrados na pol\u00edtica de Al Sisi para seu povo, os autocratas \u00e1rabes parecem menos atentos \u00e0 postura de Washington na regi\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas d\u00e9cadas, na cren\u00e7a de que carece de rumo e se ocupa em excesso de considera\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos pronunciam elevados discursos em apoio aos valores democr\u00e1ticos e direitos humanos, mas depois os pol\u00edticos norte-americanos ficam ombro a ombro com os ditadores, o que diminui o respeito por esse pa\u00eds. Embora a absolvi\u00e7\u00e3o de Mubarak j\u00e1 n\u00e3o ocupe as manchetes da imprensa eg\u00edpcia, a luta dos povos \u00e1rabes pelos direitos humanos, pelo p\u00e3o, pela dignidade e pela democracia continuar\u00e1.<\/p>\n<p>Al Sisi acredita que Washington considera o Egito um aliado fundamental na regi\u00e3o, sobretudo por seu tratado de paz com Israel, e, portanto, n\u00e3o reduzir\u00e1 a ajuda militar apesar de sua atroz hist\u00f3ria em mat\u00e9ria de direitos humanos. Com base nessa cren\u00e7a, o Egito continua ignorando as consequ\u00eancias de suas pr\u00f3prias pol\u00edticas destrutivas.<\/p>\n<p>Talvez seja hora de Washington reexaminar sua postura em rela\u00e7\u00e3o ao Egito e reafirmar seu apoio aos direitos humanos e \u00e0s transi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas no mundo \u00e1rabe. Se os Estados Unidos t\u00eam interesse em conter o crescimento do terrorismo na regi\u00e3o, definitivamente deve se concentrar nas causas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais que empurram os jovens \u00e1rabes mu\u00e7ulmanos ao extremismo violento. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Emile Nakhleh<\/strong> \u00e9 professor pesquisador da Universidade do Novo M\u00e9xico, membro do Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e autor de <\/em>A Necessary Engagement: Reinventing America\u2019s Relations With the Muslim World<em> (Um Compromisso Necess\u00e1rio: A Reivindica\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos com o Mundo Mu\u00e7ulmano).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Washington, Estados Unidos, 17\/12\/2014 &ndash; Com a absolvi&ccedil;&atilde;o do ex-presidente do Egito, Mohamed Hosni Mubarak, foi colocado o &uacute;ltimo cravo no caix&atilde;o da chamada Primavera &Aacute;rabe e nos levantes por justi&ccedil;a, dignidade e liberdade que sacudiram esse e outros pa&iacute;ses da &Aacute;frica e do Oriente M&eacute;dio em 2011. 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