{"id":18271,"date":"2014-12-19T14:17:51","date_gmt":"2014-12-19T14:17:51","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127139"},"modified":"2014-12-19T14:17:51","modified_gmt":"2014-12-19T14:17:51","slug":"imigrantes-tem-o-sonho-europeu-barrado-em-tripoli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/12\/ultimas-noticias\/imigrantes-tem-o-sonho-europeu-barrado-em-tripoli\/","title":{"rendered":"Imigrantes t\u00eam o sonho europeu barrado em Tr\u00edpoli"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127141\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/chica-barrenderos-uno-629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-127141\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/chica-barrenderos-uno-629x419.jpg\" alt=\"chica barrenderos uno 629x419 Imigrantes t\u00eam o sonho europeu barrado em Tr\u00edpoli\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"Imigrantes t\u00eam o sonho europeu barrado em Tr\u00edpoli\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Dois varredores de origem subsaariana com seus carrinhos de lixo na Cidade Velha de Tr\u00edpoli, capital da L\u00edbia. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tr\u00edpoli, L\u00edbia, 19\/12\/2014 \u2013 \u00c9 f\u00e1cil encontrar Saani Bubakar. Todos os dias, e sempre vestindo o caracter\u00edstico uniforme cor laranja dos funcion\u00e1rios da limpeza, empurra seu carrinho pelas estreitas ruas da cidade velha da capital da L\u00edbia. Assim tem sido nos \u00faltimos tr\u00eas anos de sua vida.<\/p>\n<p>\u201cSou de uma aldeia muito pobre do N\u00edger, onde nem mesmo tem \u00e1gua corrente\u201d, contou \u00e0 IPS esse jovem de 23 anos durante uma pausa em seu trabalho. \u201cNossos vizinhos nos contaram que um de seus filhos estava trabalhando em Tr\u00edpoli, por isso me animei a vir tamb\u00e9m\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Dos 250 dinares l\u00edbios que recebe por m\u00eas (US$ 154), Bubakar manda mais da metade para sua fam\u00edlia. Ele conta que o alojamento \u00e9 por conta do munic\u00edpio. \u201cSomos 50 em um apartamento perto daqui\u201d, explicou, garantindo que \u201clogo\u201d voltar\u00e1 ao seu pa\u00eds, n\u00e3o tanto pelas prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de trabalho, mas devido \u00e0 instabilidade em que a L\u00edbia se encontra atualmente.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois do levante que acabou com o regime e a vida de Muammar Gaddafi (1969-2011), a L\u00edbia vive em um estado de convuls\u00e3o pol\u00edtica que deixou o pa\u00eds \u00e0 beira da guerra civil. H\u00e1 dois governos e dois parlamentos: um com sede aqui em Tr\u00edpoli e outro na cidade de Tobruk, 1.200 quil\u00f4metros a leste da capital. Este \u00faltimo conta com o reconhecimento internacional, ap\u00f3s ser eleito em duas vota\u00e7\u00f5es realizadas em junho deste ano, que s\u00f3 tiveram 10% de participa\u00e7\u00e3o dos eleitores.<\/p>\n<p>Trata-se de um cen\u00e1rio no qual lutam diferentes mil\u00edcias agrupadas em duas alian\u00e7as paramilitares: Fayer (amanhecer, em \u00e1rabe), liderada pelas brigadas de Misrata, que atualmente controlam Tr\u00edpoli, e Karama (dignidade), dirigida por Jalifa Haftar, um ex-general do ex\u00e9rcito l\u00edbio. A popula\u00e7\u00e3o e sobretudo os trabalhadores estrangeiros s\u00e3o v\u00edtimas do fogo cruzado.<\/p>\n<p>\u201cO pior \u00e9 trabalhar \u00e0 noite porque os combates na cidade come\u00e7am quando o sol se p\u00f5e\u201d, explicou Odar Yahub, companheiro de trabalho e de alojamento de Bubakar. Com 22 anos, ele disse que voltar\u00e1 para N\u00edger quando tiver reunido dinheiro suficiente para se casar. Provavelmente mais tarde do que o previsto. \u201cEstamos h\u00e1 quatro meses sem receber, e ningu\u00e9m nos deu uma explica\u00e7\u00e3o\u201d, queixa-se o jovem enquanto descarrega seu carrinho no caminh\u00e3o de lixo.<\/p>\n<p>Embora a maioria dos varredores seja de origem subsaariana, tamb\u00e9m h\u00e1 muitos outros que chegaram da distante Bangladesh. \u00c9 o caso de Aaqib, que prefere n\u00e3o dar o nome completo. H\u00e1 quatro anos trabalha no bairro de Souk al Juma, leste de Tr\u00edpoli, e mant\u00e9m sua fam\u00edlia, em Daca, com o envio de quase todo o seu sal\u00e1rio de 450 dinares l\u00edbios (US$ 276). Ele tamb\u00e9m est\u00e1 h\u00e1 quatro meses sem receber.<\/p>\n<p>\u201cClaro que sonho em ir para a Europa, mas muitos morreram no mar\u201d, afirmou Aaqib, de 28 anos. \u201cIria somente de avi\u00e3o, e com os documentos em dia\u201d, destacou. Para isso precisa recuperar seu passaporte, que est\u00e1 com os contratantes. Todos os trabalhadores estrangeiros da limpeza entrevistados pela IPS afirmaram que seu documento de identidade est\u00e1 confiscado.<\/p>\n<p>No mesmo bairro de Souk al Juma fica o escrit\u00f3rio de Mohamed Bilkhaire, ministro do Emprego do governo de Tr\u00edpoli, que n\u00e3o se surpreende com a aparente contradi\u00e7\u00e3o entre 35% de desocupa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, segundo seus dados, e que todos os trabalhadores de limpeza sejam estrangeiros. \u201cOs \u00e1rabes n\u00e3o varrem por raz\u00f5es socioculturais, nem aqui, nem no Egito, na Jord\u00e2nia, no Iraque&#8230; Precisamos de estrangeiros que fa\u00e7am esse servi\u00e7o\u201d, explicou o ministro, que est\u00e1 no cargo h\u00e1 dois meses.<\/p>\n<p>Sobre o confisco dos passaportes, afirmou que \u201cs\u00e3o guardados como garantia, porque a maioria dos trabalhadores estrangeiros quer seguir para a Europa\u201d. Segundo dados da Frontex, a ag\u00eancia respons\u00e1vel pelas fronteiras externas da Uni\u00e3o Europeia, dos mais de 42 mil imigrantes que desembarcaram na It\u00e1lia durante os quatro primeiros meses deste ano, 27 mil procediam da L\u00edbia.<\/p>\n<div id=\"attachment_127142\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/chica-barrenderos-dos.jpg\"><img class=\"wp-image-127142\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/chica-barrenderos-dos.jpg\" alt=\"chica barrenderos dos Imigrantes t\u00eam o sonho europeu barrado em Tr\u00edpoli\" width=\"580\" height=\"387\" title=\"Imigrantes t\u00eam o sonho europeu barrado em Tr\u00edpoli\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A maioria dos que trabalham na coleta de lixo na capital da L\u00edbia o fazem em condi\u00e7\u00f5es de semiescravid\u00e3o. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um informe divulgado em junho pela organiza\u00e7\u00e3o Humang Rights Watch (HRW) afirma que milhares de imigrantes permanecem retidos em centros de deten\u00e7\u00e3o l\u00edbios onde s\u00e3o v\u00edtimas de torturas e viola\u00e7\u00f5es constantes. \u201cOs detidos nos descreveram como os guardas revistam as mulheres nuas e atacam brutalmente os homens\u201d, diz no documento Gerry Simpson, alto investigador dessa organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria para os refugiados.<\/p>\n<p>Sobre os trabalhadores com contrato, como no caso dos varredores de rua, Hanan Salah, pesquisadora da HRW para a L\u00edbia assegurou \u00e0 IPS que \u201co desaparecimento do sistema judicial em muitas regi\u00f5es do pa\u00eds faz com que as condi\u00e7\u00f5es trabalhistas abusivas fiquem impunes perante a lei\u201d.<\/p>\n<p>Shokri Agmar, advogado em Tr\u00edpoli, fala de uma \u201ctotal falta de defesa\u201d. Em seu escrit\u00f3rio em Gargaresh, oeste da capital, explica que \u201co principal problema dos trabalhadores estrangeiros na L\u00edbia n\u00e3o \u00e9 o mero desamparo legal, mas o fato de carecerem de uma mil\u00edcia que os proteja\u201d. Gagaresh \u00e9 precisamente um dos bairros onde se re\u00fane diariamente um grande n\u00famero de imigrantes, \u00e0 espera de serem escolhidos para trabalhar em servi\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aghedo chegou da Nig\u00e9ria h\u00e1 tr\u00eas semanas. Para este jovem de 25 anos, Tr\u00edpoli n\u00e3o passa de uma escala entre uma extenuante odisseia atrav\u00e9s do deserto do Saara e uma perigosa travessia por mar at\u00e9 a It\u00e1lia. \u201cH\u00e1 dias em que nem mesmo nos pagam, mas em outros posso tirar at\u00e9 100 dinares\u201d (50 euros), contou este imigrante que segura uma p\u00e1 na m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>O jovem jamais baixa a guarda porque precisa distinguir entre dois tipos de picapes: as que oferecem um trabalho talvez remunerado e as da mil\u00edcia local, que o levar\u00e3o a um dos temidos centros de deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSei que poderia trabalhar de varredor, mas muitos deles est\u00e3o h\u00e1 meses sem receber e demoraris muito para reunir o dinheiro para uma passagem em um dos barcos\u201d que levam imigrantes clandestinamente para a It\u00e1lia, acrescentou Aghedo, sem desviar o olhar da estrada nem por um segundo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Tr&iacute;poli, L&iacute;bia, 19\/12\/2014 &ndash; &Eacute; f&aacute;cil encontrar Saani Bubakar. Todos os dias, e sempre vestindo o caracter&iacute;stico uniforme cor laranja dos funcion&aacute;rios da limpeza, empurra seu carrinho pelas estreitas ruas da cidade velha da capital da L&iacute;bia. 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