{"id":18326,"date":"2015-01-06T13:08:51","date_gmt":"2015-01-06T13:08:51","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127325"},"modified":"2015-01-06T13:08:51","modified_gmt":"2015-01-06T13:08:51","slug":"espanha-reflexoes-sobre-a-corrupcao-e-a-regeneracao-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/espanha-reflexoes-sobre-a-corrupcao-e-a-regeneracao-politica\/","title":{"rendered":"Espanha, reflex\u00f5es sobre a corrup\u00e7\u00e3o e a regenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Espanha.jpg\"><img class=\"alignleft wp-image-127327\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Espanha-1024x640.jpg\" alt=\"Espanha 1024x640 Espanha, reflex\u00f5es sobre a corrup\u00e7\u00e3o e a regenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\" width=\"380\" height=\"238\" title=\"Espanha, reflex\u00f5es sobre a corrup\u00e7\u00e3o e a regenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\" \/><\/a>Madri, Espanha, janeiro\/2015 \u2013 A corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e institucional, indicam as pesquisas, se converteu na principal preocupa\u00e7\u00e3o dos espanh\u00f3is, depois do desemprego e dos dram\u00e1ticos efeitos sociais da crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Seu car\u00e1ter sist\u00eamico, como reconhece a maioria dos analistas, mas que \u00e9 negado pelo primeiro-ministro, Mariano Rajoy, do direitista Partido Popular (PP), e a irritante coincid\u00eancia com o empobrecimento da maioria social e o enriquecimento de uns poucos, a convertem em um fator de rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica atual e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, quando n\u00e3o de rebeldia social.<\/p>\n<p>Como escreve Manuel Vicent, \u201c\u00e9 a ang\u00fastia social criada pela crise, n\u00e3o a moral da sociedade, que nos abre os olhos diante do lixo pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>No passado, enquanto viv\u00edamos na grande festa da bolha irrespons\u00e1vel, quando foram incubados grandes esc\u00e2ndalos que agora s\u00e3o julgados, \u00e0s pessoas n\u00e3o importava muito que houvesse certa corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2011, 39% dos candidatos acusados de corrup\u00e7\u00e3o em toda Espanha foram reeleitos, segundo um informe da organiza\u00e7\u00e3o Politikon. Inclusive alguns not\u00f3rios corruptos afirmaram que \u201co julgamento favor\u00e1vel dos eleitores\u201d supunha uma esp\u00e9cie de absolvi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a indiferen\u00e7a diante da corrup\u00e7\u00e3o se transformou em intoler\u00e2ncia quando chegou a crise e come\u00e7aram a aflorar os esc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Em outubro de 2004, segundo o bar\u00f4metro do Centro de Pesquisas Sociais, apenas 0,6% dos entrevistados colocavam a corrup\u00e7\u00e3o entre suas preocupa\u00e7\u00f5es principais; em outubro passado, segundo a mesma fonte, 42,3% a situavam em segundo lugar.<\/p>\n<p>Os cidad\u00e3os acabaram colocando a corrup\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o direta com a crise, o desperd\u00edcio, o desemprego, o empobrecimento, a desigualdade e uma maneira de fazer pol\u00edtica. Depois, muitos conclu\u00edram, esporeados pela obscena contempla\u00e7\u00e3o da ostenta\u00e7\u00e3o e impunidade dos corruptos, que a torna mais irritante e provocadora, que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel erradic\u00e1-la sem uma profunda mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 de estranhar o \u00eaxito crescente do Podemos, o movimento-partido que prop\u00f5e uma mudan\u00e7a radical. Criado em janeiro de 2014, uma pesquisa publicada no dia 7 de dezembro pelo jornal <em>El Pa\u00eds <\/em>lhe atribui 25% das inten\u00e7\u00f5es de voto.<\/p>\n<p>Os partidos, aproveitando os defeitos da lei eleitoral e certos v\u00edcios de origem, midiatizaram a vontade dos eleitores criando com isso uma crise de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A legalidade se converteu em um \u201cburladero\u201d (barreira nas arenas para proteger o toureiro) de condutas ileg\u00edtimas e claramente imorais.<\/p>\n<p>Frequentemente, a lassid\u00e3o das normas, a excessiva dura\u00e7\u00e3o dos procedimentos penais, os reduzidos prazos de prescri\u00e7\u00e3o e os mais variados artif\u00edcios de engenharia jur\u00eddica convertem em impunes fatos e condutas que lesam o interesse comum e s\u00e3o causa de esc\u00e2ndalo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Com raz\u00e3o disse recentemente o presidente do Conselho Geral do Poder Judici\u00e1rio, Carlos Lesmes, que \u201ctemos um modelo de organiza\u00e7\u00e3o criminosa que est\u00e1 pensado para o ladr\u00e3o de galinhas, mas n\u00e3o para o grande fraudador, n\u00e3o para os casos como os que estamos vivendo agora, de tanta corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Hoje as pessoas est\u00e3o conscientes da rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e corrup\u00e7\u00e3o. A tal ponto que um dos efeitos mais perniciosos da onipresen\u00e7a do fen\u00f4meno \u00e9 que ocupa e condiciona o debate pol\u00edtico, debilitando as institui\u00e7\u00f5es que, como o Congresso e o pr\u00f3prio governo, deveriam centrar sua aten\u00e7\u00e3o na solu\u00e7\u00e3o dos problemas de fundo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica est\u00e1 bloqueada. Os acordos se tornam invi\u00e1veis porque o pa\u00eds se dividiu em torno de dois impulsos contr\u00e1rios e reativos, entre os quais est\u00e3o os indignados com a \u201ccasta\u201d e que buscam uma alternativa radical, e os que, assustados diante do que, com raz\u00e3o, consideram uma amea\u00e7a para seus interesses, convertem em priorit\u00e1ria a ofensiva contra os primeiros e tentam nos convencer de que lutam contra a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No ponto em que estamos, a corrup\u00e7\u00e3o e o descr\u00e9dito da classe pol\u00edtica n\u00e3o tem apenas a ver com o crescimento do Podemos, mas s\u00e3o vistos como chagas inclusive pelo estamento empresarial, que considera o fen\u00f4meno um obst\u00e1culo para a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Assim, em uma pesquisa com 500 participantes do recente Congresso da Empresa Familiar, a valoriza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica obteve apenas 1,08 ponto, em nove poss\u00edveis, contra 1,66 no ano passado.<\/p>\n<p>A democracia n\u00e3o cria corruptos, mas estes acabam corrompendo a democracia, e a corrup\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, se converte em um problema estrutural, sist\u00eamico. Os m\u00faltiplos abscessos se convertem em gangrena e, a partir da\u00ed, para acabar com a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso sanear o pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n<p>A luta contra a corrup\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, no contexto mais amplo da regenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e institucional. Assim parecem entender os que pedem regenera\u00e7\u00e3o e, n\u00e3o vendo vontade pol\u00edtica para isso nos partidos estabelecidos, declaram a inten\u00e7\u00e3o de votar no Podemos.<\/p>\n<p>As medidas propostas at\u00e9 agora pelo governo contra a corrup\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de serem em si mesmas modestas \u2013 incluindo as do opositor Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol (PSOE), que, embora de maneira um tanto confusa, v\u00e3o al\u00e9m das do PP \u2013, carecem de profundidade porque prescindem da necess\u00e1ria conex\u00e3o entre corrup\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel lutar contra a corrup\u00e7\u00e3o com efic\u00e1cia sem reformar o modelo bipartid\u00e1rio, introduzindo democracia interna e sem uma reforma profunda da justi\u00e7a, como pedem ju\u00edzes e magistrados, que garanta a independ\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica segue associada ao exerc\u00edcio do poder, seja em Andaluzia (PSOE), na Catalunha (Converg\u00eancia e Uni\u00e3o), em Valencia (PP) ou no conjunto do pa\u00eds (PP). Por isso, a exist\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es de controle, a divis\u00e3o real de poderes e a liberdade e independ\u00eancia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o imprescind\u00edveis para combat\u00ea-la.<\/p>\n<p>Mesmo admitindo que mais importante do que regenera\u00e7\u00e3o \u00e9 acabar com a pobreza e o desemprego, n\u00e3o vejo como se pode conseguir o segundo sem resolver o primeiro.<\/p>\n<p>Est\u00e1 muito difundida a ideia de que a crise econ\u00f4mica gerou uma crise pol\u00edtica, mas n\u00e3o \u00e9 menos certo o contr\u00e1rio, de forma que estamos diante do que surgiu primeiro, o ovo ou a galinha.<\/p>\n<p>Durante um tempo, na Espanha se quis enfrentar a crise econ\u00f4mica deixando de lado a crise pol\u00edtica e o resultado foi nefasto. Vivemos isso agora. O mau \u00e9 que o primeiro-ministro n\u00e3o v\u00ea assim e acredita que a apregoada recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ser\u00e1 o b\u00e1lsamo de Ferrabr\u00e1s. O resultado est\u00e1 \u00e0 vista. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* <strong><em>Guillermo Medina<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e ex-deputado do extinto partido Uni\u00e3o de Centro Democr\u00e1tico.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, janeiro\/2015 &ndash; A corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e institucional, indicam as pesquisas, se converteu na principal preocupa&ccedil;&atilde;o dos espanh&oacute;is, depois do desemprego e dos dram&aacute;ticos efeitos sociais da crise econ&ocirc;mica. 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