{"id":18328,"date":"2015-01-06T13:27:25","date_gmt":"2015-01-06T13:27:25","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127329"},"modified":"2015-01-06T13:27:25","modified_gmt":"2015-01-06T13:27:25","slug":"exploracao-sexual-infantil-a-face-oculta-do-uruguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/exploracao-sexual-infantil-a-face-oculta-do-uruguai\/","title":{"rendered":"Explora\u00e7\u00e3o sexual infantil, a face oculta do Uruguai"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127331\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/exploracaosexualinfantil.jpg\"><img class=\"wp-image-127331\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/exploracaosexualinfantil.jpg\" alt=\"exploracaosexualinfantil Explora\u00e7\u00e3o sexual infantil, a face oculta do Uruguai\" width=\"580\" height=\"354\" title=\"Explora\u00e7\u00e3o sexual infantil, a face oculta do Uruguai\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um dos cartazes da campanha em massa N\u00e3o H\u00e1 Desculpas, realizada por Conapees, Instituto da Crian\u00e7a e do Adolescente do Uruguai e Unicef. Foto: Cortesia do Conapees<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Montevid\u00e9u, Uruguai, 6\/1\/2015 \u2013 Karina N\u00fa\u00f1ez Rodr\u00edguez tinha apenas 12 anos quando se viu empurrada para a prostitui\u00e7\u00e3o. Agora, com meio s\u00e9culo de vida e seis filhos, \u00e9 uma das vozes mais eloquentes contra a explora\u00e7\u00e3o sexual de meninas e adolescentes no Uruguai, pa\u00eds que insiste em n\u00e3o reconhecer essa crescente chaga.<\/p>\n<p>Seu sobrenome materno, Rodr\u00edguez, \u201ctem tudo a ver com o que fa\u00e7o e com o que sou\u201d, disse \u00e0 IPS esta mulher ao explicar porque deseja usar ambos. Apesar de suas m\u00faltiplas contribui\u00e7\u00f5es, ela n\u00e3o tem outra renda que n\u00e3o a procedente do trabalho sexual.<\/p>\n<p>Tal como sua av\u00f3, sua m\u00e3e tamb\u00e9m foi uma menina explorada. Agora ela se orgulha de ter quebrado este c\u00edrculo familiar de servid\u00e3o e marca uma data simb\u00f3lica: quando sua filha mais nova completou 12 anos sendo uma menina alegre e pronta para entrar no ensino secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>No Uruguai, uma grande quantidade de menores, a grande maioria de meninas, \u00e9 arrancada de sua inf\u00e2ncia e oferecida como mercadoria em troca de pagamentos vari\u00e1veis: um ma\u00e7o de cigarros, uma dose de droga, um cart\u00e3o de telefone celular, comida, roupa, abrigo ou dinheiro. S\u00e3o explorados por membros de suas fam\u00edlias, vizinhos ou redes criminosas, pequenas ou mais organizadas.<\/p>\n<p>A dona de um neg\u00f3cio alimentar organiza bailes em sua loja nos dias de pagamento dos pe\u00f5es rurais do lugar e convida meninas de 12 anos da vizinhan\u00e7a. Estas passam suas noites bebendo, dan\u00e7ando e mantendo rela\u00e7\u00f5es sexuais nas instala\u00e7\u00f5es externas de uma capela pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>O propriet\u00e1rio, de 74 anos, de um hotel em uma zona tur\u00edstica paga a viagem de uma jovem de 15 anos, que vive a centenas de quil\u00f4metros, para ter sexo com ela. Depois, envia dinheiro aos seus exploradores, mas evita ser processado alegando ignorar que a adolescente era menor de 18 anos.<\/p>\n<p>Um alto funcion\u00e1rio de uma prov\u00edncia organiza uma festa com adolescentes, \u00e1lcool e coca\u00edna em um pr\u00e9dio governamental e \u00e9 pego em flagrante quando, j\u00e1 b\u00eabado, se vai em seu autom\u00f3vel com uma das jovens.<\/p>\n<p>Uma rede formada por caminhoneiros e os pais de duas das v\u00edtimas, obriga v\u00e1rias meninas a manterem rela\u00e7\u00f5es sexuais com motoristas de caminh\u00f5es em tr\u00eas povoados diferentes.<\/p>\n<p>Casos com esses s\u00e3o not\u00edcia a cada semana no Uruguai. Em 2010, o governo declarou 7 de dezembro como dia nacional contra a explora\u00e7\u00e3o sexual de meninos, meninas e adolescentes. Mas ainda n\u00e3o pode medir o alcance do crime, punido com at\u00e9 12 anos de pris\u00e3o por uma lei de 2004. A prostitui\u00e7\u00e3o adulta \u00e9 legal no pa\u00eds e regulada pelo Estado.<\/p>\n<p>Pelo menos 1,8 milh\u00e3o de menores s\u00e3o explorados na prostitui\u00e7\u00e3o ou pornografia no mundo, segundo a Ecpat, uma rede mundial de organiza\u00e7\u00f5es dedicadas a combater esses crimes. Quase 80% do tr\u00e1fico de pessoas \u00e9 para explora\u00e7\u00e3o sexual, e mais de 20% das v\u00edtimas s\u00e3o meninos e meninas. De 2010 a setembro do ano passado, a justi\u00e7a processou 79 casos envolvendo 127 acusados. Apenas 43 deles foram condenados, segundo um informe divulgado pelo Poder Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas as den\u00fancias policiais aumentam. Em 2007 foram 20, em 2011 chegaram a 40, em 2013 a 70, e nos dez primeiros meses de 2014 passaram de 80. \u201cCada caso afeta n\u00e3o s\u00f3 uma menina ou um menino. Pode implicar quatro ou cinco\u201d, disse \u00e0 IPS o presidente do Comit\u00ea Nacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Explora\u00e7\u00e3o Sexual Comercial e N\u00e3o Comercial de Meninas, Meninos e Adolescentes (Conapees), Luis Purtscher. Al\u00e9m disso, os violadores superam em n\u00famero as v\u00edtimas. \u201cEm uma s\u00f3 noite, uma menina pode manter dez rela\u00e7\u00f5es\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cinco anos, o Conapees treinou 1.500 funcion\u00e1rios p\u00fablicos, incluindo educadores, trabalhadores sociais, agentes policiais e fiscais. \u201cTemos tr\u00eas mil olhos e ouvidos a mais, com algum grau de treinamento para detectar e denunciar\u201d, afirmou Purtscher, como outro motivo para o aumento das den\u00fancias.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia de g\u00eanero tamb\u00e9m tem um papel relevante. Na lista de 12 pa\u00edses latino-americanos, mais Espanha e Portugal, o Uruguai tem a mais alta taxa de mulheres assassinadas por seus parceiros, atuais ou passados, para cada cem mil habitantes, segundo informe divulgado pelo Observat\u00f3rio de Igualdade de G\u00eanero da Am\u00e9rica Latina e do Caribe.<\/p>\n<p>Dentro da campanha de sensibiliza\u00e7\u00e3o, o Conapees publicou um aviso em jornais e revistas dizendo \u201cMeninas, muito meninas\u201d, seguido de um n\u00famero de telefone que recebeu cem chamadas no primeiro dia e 500 no primeiro final de semana.<\/p>\n<p>N\u00fa\u00f1ez Rodr\u00edguez se converteu em ativista ap\u00f3s presenciar o sofrimento de jovens submetidas ao \u201cprocesso de amaciar\u201d nas \u201cwhiskerias\u201d (prost\u00edbulos e locais de venda de bebida alco\u00f3lica): \u201ctorturas, penetra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e coletivas, golpes\u201d, destinadas a criar \u201ctal la\u00e7o de temor entre a v\u00edtima e o explorador que a menina possa ficar toda a noite parada em uma esquina em qualquer parte sem nem mesmo pensar em ir \u00e0 pol\u00edcia\u201d, descreveu.<\/p>\n<p>Ela contou como conseguiu apresentar 27 den\u00fancias \u00e0s autoridades. Desses casos, \u201cparticipei em nove processos e tenho a honra de as pessoas confiarem em mim e me apresentarem mais e mais provas concretas\u201d, detalhou. Revisa pessoalmente os dados e se apoia em uma rede de oito amigas e colegas em diferentes cidades do pa\u00eds. \u201cGra\u00e7as a Deus, temos WhatsApp\u201d, afirmou, sorrindo.<\/p>\n<p>Em 2007, junto com outras companheiras, criou o Grupo Vis\u00e3o Noturna, para promover uma postura independente das autoridades em quest\u00f5es de sa\u00fade vinculadas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o e para exigir respeito com as trabalhadoras sexuais.<\/p>\n<p>Em 2009, pouco depois de denunciar na delegacia de uma pequena cidade do interior que duas adolescentes seriam traficadas, um suposto cliente a convidou para seu carro. Viajaram 20 quil\u00f4metros at\u00e9 a periferia. \u201cNove homens me deram uma surra. Fiquei 11 dias sob cuidados intensivos e tr\u00eas meses sem poder caminhar\u201d, contou. Depois da recupera\u00e7\u00e3o, \u201cvoltei a denunciar o mesmo crime\u201d, destacou. Ela sofre amea\u00e7as de morte e disse que alguma pode se concretizar.<\/p>\n<p>Na zona oeste de Montevid\u00e9u, terminais de \u00f4nibus, parques, autopistas, cantinas e at\u00e9 casas particulares s\u00e3o os locais onde se comete crimes sexuais contra meninas e meninos, diz o informe <em>Um Segredo Em Voz Alta<\/em>, escrito por Purtscher e outros sete especialistas que entrevistaram mais de 50 pessoas.<\/p>\n<p>A \u00e1rea est\u00e1 atraindo grandes investidores e m\u00e3o de obra masculina, o que pode agravar a situa\u00e7\u00e3o, mas carece de mecanismos para ajudar as v\u00edtimas, segundo v\u00e1rias fontes. Tampouco o pa\u00eds os possui. Um programa governamental de assist\u00eancia criado em 2013 com esse fim est\u00e1 sem financiamento e conta com apenas duas equipes pr\u00f3prias. Essa lenta resposta oficial exaspera N\u00fa\u00f1ez Rodr\u00edguez. \u201cQuando uma crian\u00e7a \u00e9 explorada, n\u00e3o se pode esperar\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Por todos os lados<\/strong><\/p>\n<p>Denunciar \u00e9 perigoso, mas esses crimes e suas v\u00edtimas n\u00e3o est\u00e3o ocultos. A fot\u00f3grafa belga Susette Kok registrou muitos locais p\u00fablicos em uma exibi\u00e7\u00e3o e um livro em que retrata 27 pessoas que foram v\u00edtimas infantis de explora\u00e7\u00e3o sexual e agora, invariavelmente, s\u00e3o trabalhadoras sexuais. \u201cFoi muito f\u00e1cil encontrar a explora\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 por todos os lados\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A \u201ccasinha do amor\u201d, um conjunto de muros em peda\u00e7os, com o ch\u00e3o coberto por camisinhas usadas, aparece ao lado de uma igreja em Fray Bentos, no sudoeste uruguaio. Um enferrujado \u201ccont\u00eainer de paix\u00f5es\u201d emerge em uma instala\u00e7\u00e3o esportiva e, outra vez, ao lado de uma igreja, \u00e0 entrada de Young, no ocidente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dezenas de lugares semelhantes se espalham pelo pa\u00eds: um banco em um campo de futebol da vizinhan\u00e7a, uma grossa \u00e1rvore junto a uma ponte, que a ironia batizou de \u201csexo ecol\u00f3gico\u201d, cabanas, clubes e \u201cbares de camareiras\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Montevid&eacute;u, Uruguai, 6\/1\/2015 &ndash; Karina N&uacute;&ntilde;ez Rodr&iacute;guez tinha apenas 12 anos quando se viu empurrada para a prostitui&ccedil;&atilde;o. Agora, com meio s&eacute;culo de vida e seis filhos, &eacute; uma das vozes mais eloquentes contra a explora&ccedil;&atilde;o sexual de meninas e adolescentes no Uruguai, pa&iacute;s que insiste em n&atilde;o reconhecer essa crescente chaga. 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