{"id":18334,"date":"2015-01-07T12:58:56","date_gmt":"2015-01-07T12:58:56","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127414"},"modified":"2015-01-07T12:58:56","modified_gmt":"2015-01-07T12:58:56","slug":"petroleo-especie-aquatica-e-invasora-na-capital-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/petroleo-especie-aquatica-e-invasora-na-capital-do-carnaval\/","title":{"rendered":"Petr\u00f3leo, esp\u00e9cie aqu\u00e1tica e invasora na capital do carnaval"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127416\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/petroleo21-629x472.jpg\"><img class=\"wp-image-127416\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/petroleo21-629x472.jpg\" alt=\"petroleo21 629x472 Petr\u00f3leo, esp\u00e9cie aqu\u00e1tica e invasora na capital do carnaval\" width=\"529\" height=\"397\" title=\"Petr\u00f3leo, esp\u00e9cie aqu\u00e1tica e invasora na capital do carnaval\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Edif\u00edcio circular, com laborat\u00f3rios e escrit\u00f3rios do Cenpes, instalado em 1973 na Ilha da Cidade Universit\u00e1ria. Ao fundo o Complexo de Favelas da Mar\u00e9 e a Floresta da Tijuca, rodeada pela cidade do Rio de Janeiro. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 7\/1\/2015 \u2013 \u201cPercorremos a praia e nos defrontamos com um mar negro, cujas ondas n\u00e3o faziam barulho de \u00e1gua, mas um \u2018clac\u2019 de mingau\u201d. Alexandre Anderson de Souza descreve assim o vazamento de petr\u00f3leo na ba\u00eda de Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro, que o converteu em um ativista e l\u00edder entre os pescadores artesanais. O desastre, ocorrido em janeiro de 2000, \u00e9 um marco nas agress\u00f5es \u00e0 ba\u00eda, pela visibilidade do impacto repentino e esmagador dos 1,3 milh\u00e3o de litros de petr\u00f3leo que vazaram de um oleoduto.<\/p>\n<p>Mas a pesca sobreviveu nas \u00e1guas contaminadas tamb\u00e9m pelo despejo de esgoto n\u00e3o tratado da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro, embora o total de pescadores tenha diminu\u00eddo em 60% desde ent\u00e3o, para os nove mil atuais, contou Anderson. A amea\u00e7a de sua extin\u00e7\u00e3o deriva principalmente da redu\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pesqueiro, que h\u00e1 algumas d\u00e9cadas se estendia por 78% da superf\u00edcie da ba\u00eda e hoje se limita a 12%, acrescentou.<\/p>\n<p>A atividade petroleira, com suas instala\u00e7\u00f5es, seus dutos e navios, ocupa 46% da \u00e1rea e tende a se expandir, devido ao aumento da extra\u00e7\u00e3o em \u00e1guas profundas do Oceano Atl\u00e2ntico e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma segunda refinaria perto da ba\u00eda, com inaugura\u00e7\u00e3o prevista para 2016. \u201cA ind\u00fastria do petr\u00f3leo \u00e9 sin\u00f4nimo de fim: fim da pesca e fim dos peixes na ba\u00eda de Guanabara\u201d, definiu Anderson para a IPS.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de encurralar os pescadores, os numerosos dutos que cruzam a ba\u00eda alteram seu ambiente. O petr\u00f3leo \u00e9 transportado a alta temperatura, para ficar mais fluido, enquanto o g\u00e1s \u00e9 bombeado muito frio, dezenas de graus abaixo de zero. A Petrobras ocupa ilhas da ba\u00eda com instala\u00e7\u00f5es de regasifica\u00e7\u00e3o do g\u00e1s liquefeito e dep\u00f3sitos de hidrocarbonos, todos abastecidos por oleodutos ou gasodutos.<\/p>\n<p>A vida marinha tamb\u00e9m sofre os efeitos do barulho e da vibra\u00e7\u00e3o causados pelas toneladas de g\u00e1s e petr\u00f3leo bombeadas a forte press\u00e3o. \u201cImagine o impacto de tudo isso no fundo do mar\u201d, afirmou Anderson. Os pescadores s\u00e3o v\u00edtimas da forte transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que vive a Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro. Mais conhecida por sua produ\u00e7\u00e3o cultural, pelo turismo e pelo carnaval, essa regi\u00e3o tem sua din\u00e2mica atual baseada no petr\u00f3leo e na ind\u00fastria metalmec\u00e2nica.<\/p>\n<p>As reservas descobertas sob a camada de sal no fundo do Atl\u00e2ntico, o pr\u00e9-sal, a cerca de 300 quil\u00f4metros da costa do Rio de Janeiro, recuperou estaleiros que estavam praticamente inativos e atraiu grandes transnacionais de engenharia e servi\u00e7os petroleiros. Al\u00e9m disso, favoreceu a escolha de Itabora\u00ed, cidade a 60 quil\u00f4metros da Regi\u00e3o Metropolitana e perto da margem oriental da ba\u00eda de Guanabara, para a constru\u00e7\u00e3o do Complexo Petroqu\u00edmico do Rio de Janeiro (Comperj), limitado no momento a uma refinaria com capacidade para 165 mil barris di\u00e1rios.<\/p>\n<p>Do outro lado da ba\u00eda, a Petrobras tem, desde 1961, a refinaria Duque de Caxias, que processa 242 mil barris di\u00e1rios, completando o cerco petroleiro \u00e0s \u00e1guas da ba\u00eda, em cujas margens cresceu a Regi\u00e3o Metropolitana, de 12 milh\u00f5es de habitantes. \u201cCom o pr\u00e9-sal, o Brasil produzir\u00e1 entre 4,5 e 5,5 milh\u00f5es de barris di\u00e1rios nos pr\u00f3ximos 20 anos e poder\u00e1 exportar outros dois milh\u00f5es, se convertendo em grande exportador de petr\u00f3leo\u201d, afirmou Alexandre Szklo, professor de planejamento energ\u00e9tico na Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A recente queda nos pre\u00e7os internacionais do petr\u00f3leo, em cerca de 40%, n\u00e3o altera essa tend\u00eancia, porque, nas condi\u00e7\u00f5es brasileiras, \u201cvaria\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os s\u00f3 afetam a expans\u00e3o no longo prazo. A ind\u00fastria petroleira \u00e9 como o elefante, demora para come\u00e7ar a correr e tamb\u00e9m para parar\u201d, afirmou Szklo. A participa\u00e7\u00e3o brasileira na oferta mundial de petr\u00f3leo ser\u00e1 reduzida, apenas cerca de 5%, mas o Brasil responde por 60% das encomendas de plataformas e sistemas de explora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o mar\u00edtimos, por ter quase todas suas reservas costa afora, destacou o professor.<\/p>\n<p>\u00c9 uma oportunidade para o desenvolvimento da ind\u00fastria naval e de servi\u00e7os para o setor, beneficiando a economia do Estado do Rio de Janeiro, em cujas costas se concentram as principais jazidas do pr\u00e9-sal, que se estendem tamb\u00e9m a outros Estados ao norte e ao sul. Trata-se de uma grande riqueza da qual o Brasil pretende extrair recursos para melhorar sua educa\u00e7\u00e3o e seus sistemas de sa\u00fade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Mas algumas maldi\u00e7\u00f5es lhe s\u00e3o inerentes. Da principal delas, que \u00e9 sacrificar outros setores, especialmente a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, pela sobrevaloriza\u00e7\u00e3o cambi\u00e1ria, e ficar muito dependente da exporta\u00e7\u00e3o de hidrocarbonos, o Brasil est\u00e1 vacinado por ter um sistema produtivo diversificado, ao contr\u00e1rio de Ar\u00e1bia Saudita, R\u00fassia e Venezuela, pontuou Szklo.<\/p>\n<p>Mas a enfermidade holandesa local \u00e9 um fato. \u201cA produ\u00e7\u00e3o petroleira gera poucos empregos, mas ocupa m\u00e3o de obra qualificada de altos sal\u00e1rios que demandam servi\u00e7os caros, elevando os custos locais que enfraquecem outros segmentos industriais\u201d, apontou o professor.<\/p>\n<p>Nas proximidades de Campos, 280 quil\u00f4metros a nordeste da cidade do Rio de Janeiro, onde h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas se extrai muito petr\u00f3leo de \u00e1guas profundas, sem pr\u00e9-sal, o fen\u00f4meno ajudou a destruir a ind\u00fastria a\u00e7ucareira local e elevou o custo de vida a n\u00edveis de metr\u00f3poles ricas. O Rio de Janeiro j\u00e1 vive tamb\u00e9m esse processo que a tornou uma das cidades mais caras do mundo. Os im\u00f3veis em seus bairros de classe m\u00e9dia triplicaram de pre\u00e7o nos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>Isso justifica os tributos cobrados por munic\u00edpios e Estados produtores de petr\u00f3leo, como um recurso para preparar uma transi\u00e7\u00e3o futura da economia, ap\u00f3s o esgotamento das jazidas de petr\u00f3leo. Entretanto, s\u00e3o as maldi\u00e7\u00f5es sociais e ambientais as que repercutem mais r\u00e1pido e geram resist\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cEscolheu-se mal onde instalar o Comperg, entre \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental e um Parque Nacional, amea\u00e7ando rios ainda de boa qualidade e a \u00faltima \u00e1rea preservada da ba\u00eda de Guanabara\u201d, disse Breno Herrera, bi\u00f3logo e ex-chefe de uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o amea\u00e7ada, que impediu que se fizesse do rio Guaxindiba uma hidrovia para transportar equipamentos pesados com destino ao Complexo Petroqu\u00edmico.<\/p>\n<p>\u201cA dragagem poderia agitar metais pesados adormecidos no fundo do rio e contaminar peixes e pessoas\u201d, justificou Herrera ao movimento que, com apoio de moradores, cientistas e fiscais, travou os planos da Petrobras, dona do Comperj. A refinaria mal localizada provocar\u00e1 chuvas \u00e1cidas que poder\u00e3o destruir florestas e serras, para onde sobe o vento que levar\u00e1 contaminantes derivados do processamento do petr\u00f3leo, alertou.<\/p>\n<p>A refinaria Duque de Caxias, \u201cuma das piores fontes contaminadoras da ba\u00eda de Guanabara, polui tamb\u00e9m o ar dos bairros vizinhos, provocando doen\u00e7as respirat\u00f3rias, alergias e irrita\u00e7\u00e3o nos olhos\u201d, denunciou Sebasti\u00e3o Raulino, ativista do F\u00f3rum dos Afetados pela Ind\u00fastria do Petr\u00f3leo e Petroqu\u00edmica (FAPP). Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 7\/1\/2015 &ndash; &ldquo;Percorremos a praia e nos defrontamos com um mar negro, cujas ondas n&atilde;o faziam barulho de &aacute;gua, mas um &lsquo;clac&rsquo; de mingau&rdquo;. 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