{"id":1834,"date":"2006-06-02T00:00:00","date_gmt":"2006-06-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1834"},"modified":"2006-06-02T00:00:00","modified_gmt":"2006-06-02T00:00:00","slug":"religiao-literal-demolicao-da-tolerancia-na-malasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/06\/mundo\/religiao-literal-demolicao-da-tolerancia-na-malasia\/","title":{"rendered":"Religi\u00e3o: Literal demoli\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia na Mal\u00e1sia"},"content":{"rendered":"<p>Kuala Lumpur, 02\/06\/2006 &ndash; &quot;Por que est\u00e3o demolindo?&quot;, solu\u00e7ava A. Kanagamah, empregada de um hospital da capital da Mal\u00e1sia, enquanto oper\u00e1rios municipais, protegidos por policiais antidist\u00farbios, punham por terra um templo hindu com 107 anos de antiguidade. <!--more--> Centenas de pessoas contemplavam horrorizadas como os trabalhadores, na maioria mu\u00e7ulmanos, punham abaixo telhado, muros e objetos religiosos que os ancestrais de outros trabalhadores trouxeram do sul da \u00cdndia para que tivessem paz em um pa\u00eds estranho. &quot;Somos pobres. Nosso \u00fanico luxo s\u00e3o os templos, e agora tamb\u00e9m os perdemos&quot;, disse Kanagamah, em tamil, a l\u00edngua da maioria dos descendentes de imigrantes indianos, que constituem 8% dos 26 milh\u00f5es de habitantes da Mal\u00e1sia.   <\/p>\n<p>Este setor da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 marginalizado econ\u00f4mica e politicamente, em compara\u00e7\u00e3o com os malaios mu\u00e7ulmanos &#8211; metade da popula\u00e7\u00e3o &#8211; e a comunidade de origem chinesa, 24% dos habitantes e dominante no com\u00e9rcio. J\u00e1 era freq\u00fcente na Mal\u00e1sia as autoridades municipais ordenarem a demoli\u00e7\u00e3o de templos, argumentando que eram constru\u00e7\u00f5es ilegais. Por\u00e9m, em per\u00edodos anteriores os que sofriam esse destino eram pequenos santu\u00e1rios \u00e0 margem das estradas. Nos \u00faltimos anos, foram destru\u00eddos v\u00e1rios grandes templos erguidos durante a era colonial brit\u00e2nica, de aproximadamente um s\u00e9culo de antiguidade, ap\u00f3s serem considerados &quot;estruturas ilegais&quot;.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 comum ver grandes constru\u00e7\u00f5es hindus reduzidas a escombros, e os trabalhadores mu\u00e7ulmanos destruindo \u00eddolos hindus \u00e0 vista de desconsolados seguidores dessa religi\u00e3o. &quot;As demoli\u00e7\u00f5es s\u00e3o indiscriminadas, ilegais e contradizem todas as garantias constitucionais de liberdade religiosa&quot;, disse \u00e0 IPS o advogado especialista em direitos humanos, P. Uthayakumar. As mesmas autoridades locais que qualificam os templos de &quot;estruturas ilegais&quot; imp\u00f5em obst\u00e1culos burocr\u00e1ticos que impedem a constru\u00e7\u00e3o de locais de ora\u00e7\u00e3o para os n\u00e3o-mu\u00e7ulmanos, afirmou Uthayakumar. O advogado mencionou o caso de uma igreja perto da cidade de Shah Alam, para cuja constru\u00e7\u00e3o a comunidade cat\u00f3lica do lugar teve de trabalhar durante 30 anos. &quot;O que dizer da liberdade de cultos?&quot;, perguntou.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s meses sofrendo as demoli\u00e7\u00f5es em sil\u00eancio, hindus e membros de outras comunidades religiosas protestaram esta semana. Mulheres, crian\u00e7as e homens carregaram cartazes e rezaram acompanhados por advogados, ativistas de direitos humanos e dirigentes de oposi\u00e7\u00e3o. &quot;O governo parece ter uma pol\u00edtica extra-oficial voltada a &#039;limpar&#039; a Mal\u00e1sia de templos hindus&quot;, disse P. Waytha Moorthy, presidente da For\u00e7a de A\u00e7\u00e3o pelos Direitos Hindus, que re\u00fane meia centena de organiza\u00e7\u00f5es dessa comunidade. &quot;Nove templos foram demolidos nos \u00faltimos tr\u00eas meses&quot;, afirmou Moorthy, atribuindo a campanha a funcion\u00e1rios p\u00fablicos mu\u00e7ulmanos. &quot;Nos preocupa que alguns hindus recorram \u00e0 viol\u00eancia&quot; para demonstrar seu descontentamento, alertou.<\/p>\n<p>Os templos hindus foram constru\u00eddos por imigrantes em terrenos privados ou abandonados, depois adquiridos por autoridades do Estado. A maioria dos fi\u00e9is tem baixa renda, segundo o ativista. &quot;Os trabalhadores s\u00e3o pobres, politicamente fracos e n\u00e3o podem optar por a\u00e7\u00f5es legais para proteger seus templos ou recha\u00e7ar a a\u00e7\u00e3o das autoridades&quot;, disse Moorthy. A demoli\u00e7\u00e3o de templos contradiz o artigo 11 da Constitui\u00e7\u00e3o, que garante a liberdade religiosa. &quot;T\u00e1mb\u00e9m \u00e9 um crime, segundo o par\u00e1grafo 295 do C\u00f3digo Penal, o dano a um local de ora\u00e7\u00e3o&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Os manifestantes entregaram uma peti\u00e7\u00e3o ao primeiro-ministro, Abdullah Badawi, pedindo que instrua as autoridades federais e locais para que parem com a demoli\u00e7\u00e3o de templos hindus. Contudo, pedidos anteriores semelhantes foram ignorados. &quot;As demoli\u00e7\u00f5es s\u00e3o algo brutal e enfurece os hindus&quot;, disse Sanusi Osman, acad\u00eamico e dirigente do Partido Justi\u00e7a Nacional, opositor ao governo. &quot;As autoridades deveriam conversar com os hindus e lhes dar locais alternativos antes de p\u00f6r seus templos abaixo&quot;, acrescentou. Estes incidentes ocorrem no momento em que surgem sinais de uma crescente intoler\u00e2ncia por parte da maioria malaia.<\/p>\n<p>Neste pa\u00eds, que em outros tempos ser orgulhava de seu car\u00e1ter aberto, tolerante e multi\u00e9tnico, agora est\u00e1 assolado por uma perigosa combina\u00e7\u00e3o de fundamentalismo isl\u00e2mico e nacionalismo malaio de forte conte\u00fado \u00e9tnico. A intoler\u00e2ncia racial religiosa e cultural se converteu em um fen\u00f4meno de todos os dias. Algumas autoridades locais pretendem perseguir os casais que caminham pelas ruas de m\u00e3os dadas porque consideram um comportamento antiisl\u00e2mico. No \u00faltimo Natal, as autoridades demoliram uma igreja da comunidade ind\u00edgena orang asli, pois consideravam que havia sido constru\u00edda sem permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo, a pol\u00edcia emitiu uma ordem a sua corpora\u00e7\u00e3o feminina: devem usar o tudung (v\u00e9u isl\u00e2mico malaio). Algumas autoridades locais chegaram, inclusive, a proibir ou restringir a propriedade de c\u00e3es, animal considerado sujo por mu\u00e7ulmanos conservadores. No dia 14 de maio, meio milhar de mu\u00e7ulmanos interromperam um encontro de advogados e ativistas, convocado para examinar os direitos das minorias religiosas diante do avan\u00e7o da sharia (lei isl\u00e2mica) em algumas jurisdi\u00e7\u00f5es. Os policiais presentes n\u00e3o deteram os mu\u00e7ulmanos. Pelo contr\u00e1rio, obrigaram os organizadores a cancelarem o encontro.<\/p>\n<p>&quot;Os n\u00e3o-mu\u00e7ulmanos se sentem cada vez mais estrangeiros em seu pa\u00eds de nascimento&quot;, disse \u00e0 IPS o dirigente oposicionista Tien Chua, do Partido pela Justi\u00e7a do Povo. &quot;Como nunca antes, neste governo, os malaios usam o Isl\u00e3 como fator de unidade. \u00c9 uma tend\u00eancia preocupante&quot;. A &quot;aterradora islamiza\u00e7\u00e3o coloca em risco o car\u00e1ter secular, multirreligioso e multirracial de nosso pa\u00eds&quot;, disse o tamb\u00e9m dirigente de oposi\u00e7\u00e3o Lim Kit Siang. &quot;A destrui\u00e7\u00e3o de qualquer local de ora\u00e7\u00e3o \u00e9 inaceit\u00e1vel. O governo de Abdullah Badawi deve intervir urgentemente&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>O fundamentalismo isl\u00e2mico tamb\u00e9m tem suas ra\u00edzes na competi\u00e7\u00e3o entre a governante e moderada Organiza\u00e7\u00e3o Nacional Isl\u00e2mica Malaia e seu tradicional rival, o mais conservador Partido Isl\u00e2mico Pan-Malaio. Cada um desses setores se apresenta perante a maioria malaia como representante do Isl\u00e3. Ambos competem por seus votos. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kuala Lumpur, 02\/06\/2006 &ndash; &quot;Por que est\u00e3o demolindo?&quot;, solu\u00e7ava A. 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