{"id":18343,"date":"2015-01-08T12:18:27","date_gmt":"2015-01-08T12:18:27","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127485"},"modified":"2015-01-08T12:18:27","modified_gmt":"2015-01-08T12:18:27","slug":"coletoras-de-fezes-se-rebelam-contra-seu-destino-na-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/coletoras-de-fezes-se-rebelam-contra-seu-destino-na-india\/","title":{"rendered":"Coletoras de fezes se rebelam contra seu \u201cdestino\u201d na \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127487\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/dal-629x420.jpg\"><img class=\"wp-image-127487\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/dal-629x420.jpg\" alt=\"dal 629x420 Coletoras de fezes se rebelam contra seu \u201cdestino\u201d na \u00cdndia\" width=\"529\" height=\"353\" title=\"Coletoras de fezes se rebelam contra seu \u201cdestino\u201d na \u00cdndia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Mulher dalit junto ao banheiro de uma casa de casta alta na localidade indiana de Mainpuri, onde houve atos de viol\u00eancia contra os que tentaram abandonar a profiss\u00e3o de \u201ccoletores manuais\u201d. Foto: Shai Venkatraman\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mumbai, \u00cdndia, 8\/1\/2015 \u2013 Vendo Bittal Devi tecer com destreza os fios de diferentes cores em uma colcha de retalhos, fica dif\u00edcil imaginar que esta mulher de 46 anos passou a maior parte de sua vida limpando privadas com suas m\u00e3os. Nascida em Sava, povoado no Estado de Rajast\u00e3o, noroeste da \u00cdndia, Devi pertence a um setor da popula\u00e7\u00e3o que trabalha, h\u00e1 s\u00e9culos, como \u201ccoletores manuais\u201d.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o condena em sua maioria as mulheres, mas tamb\u00e9m os homens, a limpar manualmente os excrementos humanos dos banheiros e a lev\u00e1-los sobre a cabe\u00e7a para jogar em lix\u00f5es. Muitos tamb\u00e9m limpam encanamentos, fossas s\u00e9pticas e drenagens abertas sem equipamento de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o chamados bhangis, que se traduz como \u201cidentidade quebrada\u201d. A maioria \u00e9 de dalits, a casta mais baixa e marginalizada da sociedade, os chamados \u201cintoc\u00e1veis\u201d, condenados \u00e0s tarefas consideradas abaixo da dignidade das castas superiores.<\/p>\n<p>\u201cComecei este trabalho aos 12 anos. Acompanhava minha m\u00e3e quando ia limpar os banheiros das casas dos thakurs, ou castas superiores, \u201cem nosso povoado, todos os dias\u201d, contou Devi. \u201cRecolh\u00edamos as fezes em uma cesta com uma escova e um prato. Depois descarreg\u00e1vamos a cesta nos arredores da aldeia\u201d, explicou. Pela limpeza di\u00e1ria de 15 vasos sanit\u00e1rios recebiam pouco mais de US$ 6 por m\u00eas, al\u00e9m de roupa usada que os propriet\u00e1rios das casas onde trabalhavam lhes davam uma vez ao ano.<\/p>\n<p>Devi passou mal em sua primeira semana de trabalho. \u201cVomitava cada vez que ia comer\u201d, contou. Mais dif\u00edcil era suportar as brincadeiras dos companheiros de classe. \u201cTapavam o nariz e diziam que tinha mau cheiro. As crian\u00e7as da minha casta tinham que se sentar longe das demais\u201d, acrescentou. Acabou abandonando a escola.<\/p>\n<p>\u201cDesde que nascemos, diziam, para mim e as demais crian\u00e7as da minha comunidade, que esta era nossa hist\u00f3ria e nosso destino. Era a tradi\u00e7\u00e3o de nossos antepassados que t\u00ednhamos que respeitar\u201d, contou Devi. A discrimina\u00e7\u00e3o por casta, ou a intocabilidade, est\u00e1 proibida na \u00cdndia desde 1955. Diversas leis e pol\u00edticas ao longo de d\u00e9cadas pretenderam acabar com a cruel tradi\u00e7\u00e3o da coleta manual de fezes humanas.<\/p>\n<p>Em setembro de 2013, o governo tornou ilegal o emprego de pessoas para fazer esse trabalho. Mas, na realidade, essas medidas n\u00e3o tiveram efeito, j\u00e1 que as pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o aplicadas adequadamente, as pessoas n\u00e3o sabem que podem rejeitar esse tipo de trabalho, e os que se negam a faz\u00ea-lo sofrem viol\u00eancia e amea\u00e7a de despejo.<\/p>\n<p>A Rede de Solidariedade Internacional Dalit, que trabalha pela erradica\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o por castas, calcula que h\u00e1 1,3 milh\u00e3o de \u201ccoletores manuais\u201d na \u00cdndia, em sua maioria mulheres. As organiza\u00e7\u00f5es ativistas afirmam que as mulheres s\u00e3o v\u00edtimas duplamente. S\u00e3o mal vistas pelas castas superiores e seus maridos as obrigam a continuar com uma tradi\u00e7\u00e3o que eles mesmos consideram degradante.<\/p>\n<p>A vizinha de Devi, Rani Devi Dhela, come\u00e7ou a trabalhar como coletora manual aos 12 anos e continuou quando se casou, j\u00e1 que seu marido estava desempregado. Dhela matriculou seus quatro filhos na escola, com a esperan\u00e7a de que a educa\u00e7\u00e3o mudasse seu futuro. Mas a realidade caiu sobre ela quando sua filha de 11 anos voltou chorando para casa. \u201cEla havia colocado roupa nova e as crian\u00e7as das castas superiores e as professoras zombaram dela dizendo que estava se gabando\u201d, contou a m\u00e3e \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Pretendiam que sua filha limpasse o v\u00f4mito de outro menino e os banheiros da escola. \u201cQuando ela se negou, disseram que esse era seu futuro como filha de uma bhangi, e que n\u00e3o tivesse ilus\u00f5es por frequentar a escola\u201d, acrescentou Dhela. \u201cInclusive um professor amea\u00e7ou jogar \u00e1cido em sua boca. Ent\u00e3o me dei conta de que nada mudaria, a menos que eu desafiasse essas pessoas. Larguei a cesta e decidi que preferiria morrer de fome a trabalhar nisso\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Dhela se viu sozinha. As castas superiores reagiram contra ela e sua comunidade n\u00e3o a apoiou. Pior ainda foi a rea\u00e7\u00e3o de seu marido e de seus sogros, que lhe deram uma surra. \u201cOs thakurs queimaram nossa cabana e disseram ao meu marido que nos despejariam. Mas meus filhos me apoiaram\u201d, contou.<\/p>\n<div id=\"attachment_127488\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/dali.jpg\"><img class=\"wp-image-127488\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/dali.jpg\" alt=\"dali Coletoras de fezes se rebelam contra seu \u201cdestino\u201d na \u00cdndia\" width=\"540\" height=\"358\" title=\"Coletoras de fezes se rebelam contra seu \u201cdestino\u201d na \u00cdndia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Dalits de Nova D\u00e9lhi queimam cestas usadas para recolher fezes humanas em sinal de protesto contra a pr\u00e1tica da \u201ccoleta manual\u201d. Foto: Shai Venkatraman\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o tempo tamb\u00e9m teve apoio de outras mulheres, incluindo Bittal Devi. Juntas foram a um povoado pr\u00f3ximo, no escrit\u00f3rio da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ong) Jan Sahas, que defende a erradica\u00e7\u00e3o da coleta manual h\u00e1 17 anos. \u201cTentamos fazer com que a comunidade desse povoado deixasse a coleta manual, mas tinham muito medo para fazer isso. Depois do que aconteceu com Dhela, alguns decidiram lutar\u201d, contou Sanjay Dumane, coordenador da Jan Sahas.<\/p>\n<p>Mas a pol\u00edcia local se negou a receber a den\u00fancia e aconselhou as mulheres a aceitarem seu lugar na sociedade. S\u00f3 foram tomadas medidas quando as v\u00edtimas recorreram \u00e0 pol\u00edcia distrital. \u201cV\u00e1rios ve\u00edculos policiais entraram no povoado com oficiais de alta patente que advertiram as castas superiores que iriam para a pris\u00e3o se violassem a lei sobre os coletores manuais\u201d, recordou Dumane.<\/p>\n<p>A coleta manual n\u00e3o \u00e9 praticada em Sava desde fevereiro de 2014. \u201cAlguns das castas superiores nos boicotaram. N\u00e3o nos convidavam para seus casamentos ou festivais. Mas meus filhos e meu marido est\u00e3o orgulhosos de mim e isso me deixa feliz\u201d, contou Dhela. \u201cMuitos me dizem que n\u00e3o tinha o direito de abandonar a profiss\u00e3o\u201d, contou Archana Balnik, de 28 anos e oriunda de Digambar, uma aldeia no Estado de Madhya Pradesh. \u201cMas quero mudar meu futuro e o das crian\u00e7as de meu povoado\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A maioria das mulheres que abandonou a coleta encontrou trabalho na constru\u00e7\u00e3o de estradas e pontes. Alguma recebem forma\u00e7\u00e3o em Dignidade e Desenho, uma iniciativa de baixo custo que a Jan Sahas oferece nos Estados de Bihar e Madhya Pradesh para a reabilita\u00e7\u00e3o dessas mulheres. \u201cOferecemos forma\u00e7\u00e3o em alfaiataria e bordado e criamos unidades para a confec\u00e7\u00e3o de bolsas, porta-moedas e produtos similares\u201d, explicou \u00e0 IPS Aashif Shaikh, fundador da ong. \u201cEsperamos fazer isso em toda a \u00cdndia, com apoio do governo e do setor privado\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Mas a mudan\u00e7a de atitudes \u00e9 uma batalha morro acima. A recente Pesquisa de Desenvolvimento Humano confirma o quanto est\u00e1 arraigada a ideia da pureza de casta na sociedade indiana contempor\u00e2nea, onde um quarto dos 1,21 bilh\u00e3o de habitantes praticam a intocabilidade ou marginaliza\u00e7\u00e3o das castas supostamente inferiores.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 sinais de mudan\u00e7a, sobretudo na gera\u00e7\u00e3o mais jovem, que est\u00e1 mais educada\u201d, afirmou Shaikh, cuja organiza\u00e7\u00e3o realiza campanhas de sensibiliza\u00e7\u00e3o nos centros de ensino. \u201cUm ser humano que transporta as fezes de outro sobre a cabe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas um problema dessa mulher ou da comunidade. \u00c9 a luta da popula\u00e7\u00e3o inteira deste pa\u00eds, e juntos poderemos erradicar essa pr\u00e1tica\u201d, assegurou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mumbai, &Iacute;ndia, 8\/1\/2015 &ndash; Vendo Bittal Devi tecer com destreza os fios de diferentes cores em uma colcha de retalhos, fica dif&iacute;cil imaginar que esta mulher de 46 anos passou a maior parte de sua vida limpando privadas com suas m&atilde;os. 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