{"id":18360,"date":"2015-01-12T13:18:13","date_gmt":"2015-01-12T13:18:13","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127628"},"modified":"2015-01-12T13:18:13","modified_gmt":"2015-01-12T13:18:13","slug":"as-negociacoes-secretas-entre-j-f-kennedy-e-fidel-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/as-negociacoes-secretas-entre-j-f-kennedy-e-fidel-castro\/","title":{"rendered":"As negocia\u00e7\u00f5es secretas entre J. F. Kennedy e Fidel Castro"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127629\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/John_F._Kennedy_White_House_photo_portrait_looking_up.jpg\"><img class=\"wp-image-127629\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/John_F._Kennedy_White_House_photo_portrait_looking_up.jpg\" alt=\"John F. Kennedy White House photo portrait looking up As negocia\u00e7\u00f5es secretas entre J. F. Kennedy e Fidel Castro\" width=\"380\" height=\"485\" title=\"As negocia\u00e7\u00f5es secretas entre J. F. Kennedy e Fidel Castro\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">John F. Kennedy. Foto: http:\/\/en.wikipedia.org\/<\/p><\/div>\n<p>White Pains, Estados Unidos, janeiro\/2015 \u2013 No dia do assassinato do presidente John F. Kennedy (JFK), 22 de novembro de 1963, um de seus emiss\u00e1rios manteve uma reuni\u00e3o secreta com o l\u00edder cubano Fidel Castro na praia de Varadero, em Cuba, para discutir as condi\u00e7\u00f5es que poriam fim ao embargo dos Estados Unidos contra a ilha e que iniciariam o processo de distens\u00e3o entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Isso foi h\u00e1 mais de 50 anos e agora, finalmente, o presidente Barack Obama retoma o processo de converter o sonho de JFK em realidade mediante o restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Cuba.<\/p>\n<p>Essas conversa\u00e7\u00f5es clandestinas na resid\u00eancia de veraneio de Castro em Varadero aconteciam h\u00e1 meses, tendo evolu\u00eddo junto com a melhoria nas rela\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, depois da crise dos m\u00edsseis em Cuba de 1962.<\/p>\n<p>Durante essa crise, JFK e o l\u00edder sovi\u00e9tico, Nikita Kruschov, os dois enfrentados com seus pr\u00f3prios militares de linha dura, desenvolveram um respeito m\u00fatuo, inclusive cordial, um pelo outro. Um pacto secreto entre eles aplainou o caminho para a retirada dos m\u00edsseis sovi\u00e9ticos de Cuba e dos m\u00edsseis J\u00fapiter norte-americanos da Turquia, dessa forma salvando a honra dos dois lados.<\/p>\n<p>Castro, por sua vez, estava furioso porque os russos ordenaram a retirada dos m\u00edsseis sem consult\u00e1-lo. Ap\u00f3s a crise, Kruschov convidou o ressentido Fidel \u00e0 R\u00fassia para suavizar a ira do l\u00edder cubano.<\/p>\n<p>Ambos passaram seis semanas juntos, enquanto o l\u00edder russo insistia com Fidel para que buscasse a distens\u00e3o e a paz com o presidente Kennedy.<\/p>\n<p>\u201cMeu pai e Fidel desenvolveram uma rela\u00e7\u00e3o de mestre e disc\u00edpulo\u201d, escreveria mais tarde Sergei, filho de Kruschov.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo queria convencer Castro de que JFK era digno de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Fidel recordou que \u201cdurante horas\u201d Kruschov \u201cme leu muitas mensagens do presidente Kennedy, \u00e0s vezes entregues por Robert Kennedy\u201d. Castro voltou para Cuba decidido a buscar o caminho da aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA) espionava todo mundo. Em um comunicado secreto enviado no dia 5 de janeiro de 1963 aos seus companheiros, o agente Richard Helms, que se converteria em diretor da ag\u00eancia em 1966, advertia que, \u201ca pedido de Kruschov, Castro regressava a Cuba com a inten\u00e7\u00e3o de adotar uma pol\u00edtica conciliadora em rela\u00e7\u00e3o ao governo de Kennedy, no momento\u201d.<\/p>\n<p>JFK era aberto a esses avan\u00e7os. No outono de 1961, ele e seu irm\u00e3o Robert enviaram James Donovan, um advogado de Nova York, e John Nolan, um amigo e conselheiro de meu pai, Robert Kennedy, para negociarem a liberta\u00e7\u00e3o de 1.500 presos cubanos que Castro capturou ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos, em abril de 1961.<\/p>\n<p>Donovan e Nolan desenvolveram uma amizade cordial com Castro, com quem viajaram juntos pelo pa\u00eds. Fidel os levou pelo campo de batalha da Ba\u00eda dos Porcos e para assistir tantos jogos de beisebol que Nolan jurou que nunca mais voltaria a ver esse esporte, segundo me contou.<\/p>\n<p>Depois de libertar os \u00faltimos 1.200 prisioneiros no dia de Natal de 1962, Castro perguntou a Donovan como proceder para normalizar as rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos. \u201cDa maneira como o porco-espinho faz amor, com muito cuidado\u201d, foi a resposta.<\/p>\n<p>Meu pai e JFK tinham uma enorme curiosidade sobre Castro e exigiam de Donovan e Nolan descri\u00e7\u00f5es detalhadas, muito pessoais, do l\u00edder cubano. A imprensa norte-americana havia apresentado Fidel como b\u00eabado, sujo, irasc\u00edvel, violento e indisciplinado.<\/p>\n<p>\u201cNossa impress\u00e3o n\u00e3o se enquadraria com a imagem comumente aceita. Castro nunca foi irrit\u00e1vel, nunca foi b\u00eabado, nunca foi sujo\u201d, declarou Nolan. Ele e Donovan descreveram o l\u00edder cubano como mundano, engenhoso, curioso, bem informado, de impec\u00e1vel apar\u00eancia e conversa atraente.<\/p>\n<p>Em suas viagens com Castro e ap\u00f3s testemunharem as ova\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas quando ele entrava nos est\u00e1dios de beisebol com sua pequena mas profissional equipe de seguran\u00e7a, ambos confirmaram as informa\u00e7\u00f5es internas da CIA que indicavam a imensa popularidade que tinha o l\u00edder entre o povo cubano.<\/p>\n<p>JFK sentiu uma simpatia intuitiva com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cubana. Seu assistente pessoal e bi\u00f3grafo, Arthur Schlesinger, escreveu que \u201cKennedy tinha uma simpatia natural pelos desvalidos da Am\u00e9rica Latina e entendia a origem do ressentimento generalizado contra os Estados Unidos\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Schlesinger, \u201ca longa hist\u00f3ria de abuso e explora\u00e7\u00e3o fez Fidel se voltar contra os Estados Unidos e para os sovi\u00e9ticos em um momento em que poderia ter dado um giro para o Ocidente. A obje\u00e7\u00e3o de JFK foi pelo papel de Cuba como t\u00edtere sovi\u00e9tico e plataforma para fomentar a revolu\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o sovi\u00e9tica em toda a Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p>Castro tinha suas pr\u00f3prias raz\u00f5es nacionalistas para recha\u00e7ar a depend\u00eancia sovi\u00e9tica, particularmente depois da crise dos m\u00edsseis. Deixou claro seu desejo de uma aproxima\u00e7\u00e3o nas conversa\u00e7\u00f5es privadas com a jornalista da rede de televis\u00e3o ABC, Lisa Howard, que funcionou como outra emiss\u00e1ria informal entre JFK e Fidel.<\/p>\n<p>Howard informou \u00e0 Casa Branca que Castro \u201cestava disposto a discutir o pessoal e os equipamentos sovi\u00e9ticos em solo cubano, a indeniza\u00e7\u00e3o pelas terras e pelos investimentos norte-americanos expropriados, a quest\u00e3o de Cuba como base para a subvers\u00e3o comunista em todo o hemisf\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>Quando os presos cubanos foram libertados, JFK considerou seriamente o rein\u00edcio das rela\u00e7\u00f5es com Castro. Esse impulso o levou a navegar por \u00e1guas perigosas. S\u00f3 a men\u00e7\u00e3o de uma distens\u00e3o com Fidel era dinamite pol\u00edtica diante da proximidade das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1964 nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Tanto Barry Goldwater, o candidato presidencial pelo Partido Republicano, quanto Richard Nixon, o vice-presidente durante o governo de Dwight D. Eisenhower (1953-1961) e advers\u00e1rio de JFK \u00e0 Presid\u00eancia em 1960, e Nelson Rockefeller, o advers\u00e1rio de Goldwater na nomea\u00e7\u00e3o republicana para a Presid\u00eancia, consideravam Cuba como o maior capital pol\u00edtico de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Alguns exilados cubanos, homicidas e violentos, e seus contatos na CIA acreditavam que a coexist\u00eancia com Cuba era uma trai\u00e7\u00e3o infernal.<\/p>\n<p>Em setembro de 1963, JFK pediu a William Attwood, ex-jornalista e diplomata norte-americano junto \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que mantivesse negocia\u00e7\u00f5es secretas com Castro.<\/p>\n<p>Attwood conhecia Fidel desde 1959, quando cobriu a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana para a revista <em>Look<\/em>, antes que o l\u00edder se voltasse contra os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Nesse m\u00eas, meu pai pediu a Attwood que encontrasse um lugar seguro para manter conversa\u00e7\u00f5es secretas com Fidel.<\/p>\n<p>Em outubro, Castro come\u00e7ou a organizar o voo clandestino de Attwood a uma remota pista de pouso em Cuba para iniciar as negocia\u00e7\u00f5es sobre a distens\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia 18 de novembro de 1963, quatro dias antes do assassinato de JFK em Dallas, Castro escutou a conversa telef\u00f4nica de seu ajudante, Ren\u00e9 Vallejo, com Attwood e acordou a ordem do dia para a reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia, JFK preparou o caminho para a aproxima\u00e7\u00e3o com uma mensagem p\u00fablica clara.<\/p>\n<p>Em declara\u00e7\u00e3o \u00e0 Sociedade Interamericana de Imprensa, no cora\u00e7\u00e3o da comunidade de exilados cubanos em Miami, o presidente declarou que a pol\u00edtica dos Estados Unidos n\u00e3o era a de \u201cditar a na\u00e7\u00e3o alguma como organizar sua vida econ\u00f4mica. Cada na\u00e7\u00e3o \u00e9 livre para dar forma \u00e0 sua pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica conforme suas pr\u00f3prias necessidades e vontades nacionais\u201d.<\/p>\n<p>Um m\u00eas antes, JFK havia aberto outra via secreta para Castro por meio do jornalista franc\u00eas Jean Daniel, diretor do jornal socialista <em>Le Nouvel Observateur<\/em>.<\/p>\n<p>A caminho de entrevistar Fidel em Cuba, no dia 24 de outubro de 1963, Daniel visitou a Casa Branca, onde JFK conversou com ele sobre as rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em uma mensagem a Castro, JFK criticou energicamente o l\u00edder cubano por precipitar a crise dos m\u00edsseis. Depois mudou de tom, expressando a mesma empatia em rela\u00e7\u00e3o a Cuba que havia mostrado pelo povo russo em seu discurso de 10 de junho de 1963 na Universidade Americana, em Washington, ao anunciar o tratado de proibi\u00e7\u00e3o dos testes nucleares com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Kennedy se estendeu sobre a extensa hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos com o regime corrupto e tir\u00e2nico de Fulgencio Batista. JFK disse a Daniel que havia apoiado o Manifesto de Sierra Maestra no come\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n<p>Entre 19 e 22 de novembro de 1963, Castro teve suas pr\u00f3prias entrevistas com Daniel, nas quais interrogou cuidadosa e meticulosamente o jornalista franc\u00eas sobre seu encontro com JFK, particularmente quanto ao forte apoio deste \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Castro manteve um sil\u00eancio reflexivo, compondo uma resposta cuidadosa que sabia que JFK aguardava. \u201cCreio que Kennedy \u00e9 sincero. Tamb\u00e9m creio que expressar hoje essa sinceridade pode ter significado pol\u00edtico\u201d, afirmou ao final, medindo cada palavra.<\/p>\n<p>E seguiu com uma cr\u00edtica detalhada dos governos de Kennedy e Eisenhower, que haviam atacado sua Revolu\u00e7\u00e3o Cubana \u201cmuito antes de existir o pretexto e da desculpa do comunismo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMas sinto que Kennedy herdou uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil: n\u00e3o creio que o presidente dos Estados Unidos seja realmente livre alguma vez, e tamb\u00e9m creio que est\u00e1 neste momento sentindo o impacto de sua falta de liberdade. Tamb\u00e9m acredito que ele agora entende o grau de seu engano, especialmente, por exemplo, com a resposta de Cuba durante a invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos\u201d, continuou Castro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o posso evitar ter a esperan\u00e7a de que um l\u00edder vir\u00e1 \u00e0 frente na Am\u00e9rica do Norte (Kennedy, por que n\u00e3o?, tem muitas coisas a seu favor) que ter\u00e1 a coragem de lidar com a impopularidade, combater\u00e1 os monop\u00f3lios, dir\u00e1 a verdade e, o mais importante, deixar\u00e1 as na\u00e7\u00f5es atuarem como elas decidirem. Kennedy ainda poderia ser esse homem\u201d, disse Castro ao jornalista.<\/p>\n<p>\u201cEle ainda tem a oportunidade de se converter, aos olhos da hist\u00f3ria, no maior presidente dos Estados Unidos, o l\u00edder que pode finalmente entender que pode haver coexist\u00eancia entre capitalistas e socialistas, inclusive no continente americano. Seria, ent\u00e3o, um presidente ainda maior do que Lincoln\u201d, ressaltou Fidel Castro. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Robert F. Kennedy Jr.<\/strong> \u00e9 advogado do National Resources Defense Council e de Hudson Riverkeeper e presidente da Waterkeeper Alliance. Tamb\u00e9m \u00e9 professor e advogado supervisor da Cl\u00ednica Processual Ambiental da Faculdade de Direito da Universidade Pace e coapresentador do Ring of Fire na Air America Radio. No passado foi promotor-geral adjunto da cidade de Nova York. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>White Pains, Estados Unidos, janeiro\/2015 &ndash; No dia do assassinato do presidente John F. 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