{"id":18365,"date":"2015-01-13T16:20:46","date_gmt":"2015-01-13T16:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127680"},"modified":"2015-01-13T16:20:46","modified_gmt":"2015-01-13T16:20:46","slug":"os-assassinatos-de-paris-uma-armadilha-mortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/os-assassinatos-de-paris-uma-armadilha-mortal\/","title":{"rendered":"Os assassinatos de Paris: uma armadilha mortal"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127682\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/16070327047_8965a570a4_o.jpg\"><img class=\"wp-image-127682\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/16070327047_8965a570a4_o-1024x682.jpg\" alt=\"16070327047 8965a570a4 o 1024x682 Os assassinatos de Paris: uma armadilha mortal\" width=\"580\" height=\"387\" title=\"Os assassinatos de Paris: uma armadilha mortal\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Marcha hist\u00f3rica pela liberdade re\u00fane mais de 1 milh\u00e3o de pessoas em Paris. Foto: France Diplomatie<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o Salvador, Bahamas, janeiro\/2015 \u2013 \u00c9 triste ver como um continente que foi ber\u00e7o de uma civiliza\u00e7\u00e3o marcha cegamente para uma armadilha: a de uma guerra santa contra o Isl\u00e3. Para isso bastaram tr\u00eas terroristas mu\u00e7ulmanos e um ataque assassino ao seman\u00e1rio parisiense <em>Charlie Hebdo<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso sair da compreens\u00edvel onda do \u201ctodos somos <em>Charlie Hebdo<\/em>\u201d para examinar os fatos e entender que estamos em m\u00e3os de uns poucos extremistas, nos colocando em seu pr\u00f3prio n\u00edvel.<\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o do conflito entre o Ocidente e o Isl\u00e3 ter\u00e1 consequ\u00eancias terr\u00edveis.<\/p>\n<p>O Isl\u00e3 \u00e9 a segunda religi\u00e3o do mundo, com 1,6 bilh\u00e3o de pessoas. Os mu\u00e7ulmanos s\u00e3o maioria em 49 pa\u00edses do mundo e constituem 23% da humanidade.<\/p>\n<p>Nesse quadro, os \u00e1rabes s\u00e3o 317 milh\u00f5es dos 1,6 bilh\u00e3o. Quase dois ter\u00e7os dos mu\u00e7ulmanos (62%) vivem na regi\u00e3o \u00c1sia-Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Estudos do Centro de Pesquisa Pew sobre o mundo mu\u00e7ulmano indicam que os mu\u00e7ulmanos do sul da \u00c1sia s\u00e3o mais radicais quanto \u00e0 observ\u00e2ncia e pontos de vista religiosos.<\/p>\n<p>No sul da \u00c1sia, 81% est\u00e3o de acordo com o castigo corporal severo para os criminosos, contra 57% no Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica. A favor da execu\u00e7\u00e3o dos que renunciam ao Isl\u00e3, est\u00e3o 76% no Sul da \u00c1sia contra 56% no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 claro que a hist\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio explica a especificidade dos \u00e1rabes no conflito com o Ocidente.<\/p>\n<p>E aqui h\u00e1 quatro raz\u00f5es principais.<\/p>\n<p>Primeiro: todos os pa\u00edses \u00e1rabes s\u00e3o artificiais. Em maio de 1916, Fran\u00e7ois Georges-Picot, pela Fran\u00e7a, e Mark Sykes, pela Gr\u00e3-Bretanha, acordaram a divis\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), mediante um tratado secreto que contou com apoio do Imp\u00e9rio Russo e do reino da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Assim, os pa\u00edses \u00e1rabes atuais nasceram como resultado de uma divis\u00e3o entre Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha, sem considerar as realidades \u00e9tnicas, religiosas ou hist\u00f3ricas. Alguns desses pa\u00edses, como o Egito, tinham uma identidade hist\u00f3rica, enquanto isso n\u00e3o acontecia com os outros, como Ar\u00e1bia Saudita, Jord\u00e2nia, Iraque, ou mesmo os Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p>Vale a pena recordar que o problema dos 30 milh\u00f5es de curdos divididos entre quatro pa\u00edses tamb\u00e9m foi criado pelas pot\u00eancias europeias.<\/p>\n<p>Segundo: as pot\u00eancias coloniais instalaram reis e xeques nos pa\u00edses que criaram. Para dirigir estes Estados artificiais exigiu-se m\u00e3o de ferro. Portanto, desde o princ\u00edpio, houve uma total falta de participa\u00e7\u00e3o da sociedade em um sistema pol\u00edtico fora de sintonia com o processo democr\u00e1tico que estava em curso na Europa.<\/p>\n<p>Com a ben\u00e7\u00e3o europeia, estes pa\u00edses ficaram congelados na \u00e9poca feudal.<\/p>\n<p>Terceiro: as pot\u00eancias europeias nunca investiram no desenvolvimento industrial ou em um verdadeiro desenvolvimento. A explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo estava nas m\u00e3os de empresas estrangeiras e s\u00f3 depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o consequente processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, o petr\u00f3leo ficou em m\u00e3os locais.<\/p>\n<p>Quando as pot\u00eancias coloniais se retiraram, os pa\u00edses \u00e1rabes n\u00e3o tinham um sistema pol\u00edtico, infraestruturas, nem gest\u00e3o local modernas. Quando a It\u00e1lia abandonou a L\u00edbia (sem saber que tinha petr\u00f3leo), unicamente tr\u00eas l\u00edbios tinham forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Quarto: nos Estados que n\u00e3o proporcionaram educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade aos seus cidad\u00e3os, a piedade mu\u00e7ulmana assumiu a tarefa de dar aquilo que o Estado negava. Foram criadas grandes redes de escolas religiosas e hospitais.<\/p>\n<p>Quando as elei\u00e7\u00f5es foram finalmente autorizadas, estas se converteram na base da legitimidade e no voto para os partidos mu\u00e7ulmanos. Tomando o exemplo de dois pa\u00edses importantes, Arg\u00e9lia e Egito, onde os partidos isl\u00e2micos ganharam, os golpes militares com a coniv\u00eancia do Ocidente passaram a ser o \u00fanico recurso para det\u00ea-los.<\/p>\n<p>Esta s\u00edntese de tantas d\u00e9cadas em poucas linhas \u00e9, naturalmente, superficial e omite muitas outras quest\u00f5es. Mas este processo hist\u00f3rico abreviado \u00e9 \u00fatil para a compreens\u00e3o de como a ira e a frustra\u00e7\u00e3o se espalham agora por todo o Oriente M\u00e9dio e a forma que assume a atra\u00e7\u00e3o para o movimento extremista Estado Isl\u00e2mico (EI) nos setores pobres.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos esquecer que este cen\u00e1rio hist\u00f3rico, embora remoto para os jovens, se mant\u00e9m vivo devido \u00e0 domina\u00e7\u00e3o israelense do povo palestino. O apoio cego do Ocidente a Israel, especialmente dos Estados Unidos, \u00e9 visto pelos \u00e1rabes como uma humilha\u00e7\u00e3o permanente e a expans\u00e3o dos assentamentos continua eliminando a possibilidade de um Estado palestino vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>O bombardeio de Gaza em julho e agosto, que produziu um d\u00e9bil protesto do Ocidente e nenhuma a\u00e7\u00e3o real, \u00e9 a prova clara para o mundo \u00e1rabe de que a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mant\u00ea-los submetidos, aliando-se apenas com corruptos e legitimando governos indesej\u00e1veis.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o ocidental cont\u00ednua no L\u00edbano, Iraque e S\u00edria, e avi\u00f5es teledirigidos que bombardeiam por toda parte s\u00e3o vistos pelos 1,6 bilh\u00e3o de mu\u00e7ulmanos como um Ocidente historicamente comprometido em manter o Isl\u00e3 curvado, como observa em sua conclus\u00e3o o informe do Centro Pew.<\/p>\n<p>Deve-se recordar que o Isl\u00e3 tem v\u00e1rias pr\u00e1ticas internas, e entre elas a divis\u00e3o entre sunitas e xiitas \u00e9 a maior. Enquanto entre os \u00e1rabes pelo menos 40% dos sunitas n\u00e3o reconhecem um xiita como outro mu\u00e7ulmano, fora da zona \u00e1rabe isto tende a desaparecer.<\/p>\n<p>Na Indon\u00e9sia, apenas 26% se identificam como sunitas, enquanto 56% se dizem \u201capenas mu\u00e7ulmano\u201d. No mundo \u00e1rabe, somente no Iraque e L\u00edbano, onde as duas comunidades viviam lado a lado, a grande maioria dos sunitas reconhecia os xiitas como outro mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>O fato de os xiitas, que representam apenas 13% dos mu\u00e7ulmanos, serem a imensa maioria no Ir\u00e3, enquanto a Ar\u00e1bia Saudita lidera a corrente sunita, explica o conflito interno em curso na regi\u00e3o, convulsionada pelas duas lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>A Al Qaeda na Mesopot\u00e2mia, ent\u00e3o encabe\u00e7ada pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi (1966-2006), imp\u00f4s com \u00eaxito uma pol\u00edtica de polariza\u00e7\u00e3o no Iraque, atacando os xiitas, que causou uma limpeza \u00e9tnica de um milh\u00e3o de sunitas em Bagd\u00e1.<\/p>\n<p>Agora o EI, o califado radical que igual ao Ocidente est\u00e1 desafiando todo o mundo \u00e1rabe, atraiu muitos sunitas do Iraque, que haviam sofrido repres\u00e1lias por parte dos xiitas.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que centenas de \u00e1rabes morrem cotidianamente devido ao conflito interno.<\/p>\n<p>Os terroristas que atacaram o Ocidente, em Ottawa, Londres ou Paris, t\u00eam o mesmo perfil: um jovem nascido no pa\u00eds, que n\u00e3o prov\u00e9m de pa\u00edses \u00e1rabes, que n\u00e3o era religioso durante sua adolesc\u00eancia, que de alguma maneira \u00e9 um solit\u00e1rio errante, e que n\u00e3o encontra trabalho.<\/p>\n<p>Em quase todos os casos esse jovem tinha alguma conta a acertar com a justi\u00e7a. S\u00f3 nos \u00faltimos anos se converteu em um praticante que aceitou os chamamentos do EI para matar infi\u00e9is. Em sua opini\u00e3o, com isto encontraria uma justificativa para sua vida e se converteria em um m\u00e1rtir em outro mundo.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o a tudo isto \u00e9 uma nova campanha no Ocidente contra o Isl\u00e3. O \u00faltimo n\u00famero da revista <em>The New Yorker<\/em> publicou um duro artigo que define o Isl\u00e3 n\u00e3o como uma religi\u00e3o, mas como uma ideologia.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, a Liga Norte, o partido direitista anti-imigrantes, condenou publicamente o papa Francisco por convidar o Isl\u00e3 para um di\u00e1logo, e o comentarista conservador Giuliano Ferrara disse na televis\u00e3o que \u201cnos encontramos em uma guerra santa\u201d.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o global europeia e norte-americana \u00e9 de denunciar os assassinatos de Paris como o resultado de uma \u201cideologia mortal\u201d, como a definiu o presidente da Fran\u00e7a, Fran\u00e7ois Hollande.<\/p>\n<p>Estudos realizados em toda a Europa indicam que a imensa maioria dos imigrantes se integrou com \u00eaxito na economia. Informes da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) tamb\u00e9m demonstram que a Europa, com sua queda demogr\u00e1fica, precisa de uma imigra\u00e7\u00e3o de pelo menos 20 milh\u00f5es de pessoas at\u00e9 2050, se deseja que sobreviva seu modelo de bem-estar social e seja competitiva no mundo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o que estamos conseguindo? Os partidos de direita xen\u00f3foba condicionam na Europa os governos de Dinamarca, Gr\u00e3-Bretanha, Holanda e Su\u00e9cia, e parecem a ponto de ganhar as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Naturalmente, o que aconteceu em Paris foi um crime atroz e a livre express\u00e3o de opini\u00f5es \u00e9 essencial para a democracia, mas deve-se acrescentar que pouqu\u00edssimos alguma vez leram a <em>Charlie Hebdo <\/em>e conhecem seu n\u00edvel de provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobretudo porque, como Tariq Ramadan disse no <em>The Guardian<\/em>, no dia 10 deste m\u00eas, em 2008 a <em>Hebdo<\/em> demitiu um desenhista que fez uma piada sobre um v\u00ednculo judeu do filho do presidente Sarkozy.<\/p>\n<p>A <em>Charlie Hebdo <\/em>\u00e9 uma voz em defesa da superioridade e da supremacia cultural da Fran\u00e7a no mundo. Contava com um pequeno n\u00famero de leitores, que conseguiu vendendo provoca\u00e7\u00f5es. Exatamente o contr\u00e1rio da vis\u00e3o de um mundo baseado no respeito e na coopera\u00e7\u00e3o entre as diferentes culturas e religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas agora todos somos Charlie, como todo o mundo est\u00e1 dizendo. Entretanto, radicalizar o choque entre as duas maiores religi\u00f5es do mundo n\u00e3o \u00e9 um assunto menor<\/p>\n<p>Devemos lutar contra o terrorismo, seja este mu\u00e7ulmano ou n\u00e3o. \u00c9 preciso recordar que Anders Behring Breivik, um noruegu\u00eas que queria manter seu pa\u00eds a salvo da penetra\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana, assassinou 91 de seus concidad\u00e3os em 2011.<\/p>\n<p>No entanto, estamos caindo em uma armadilha mortal, ao fazermos exatamente o que deseja o islamismo radical. Declarar uma guerra santa contra o Isl\u00e3 equivaleria a empurrar a imensa maioria dos mu\u00e7ulmanos para a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato de os partidos europeus de extrema direita colherem os benef\u00edcios desta radicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito bem-vindo pelos mu\u00e7ulmanos radicais. Eles sonham com uma luta mundial para impor o Isl\u00e3 como a \u00fanica religi\u00e3o. E n\u00e3o qualquer Isl\u00e3, mas a interpreta\u00e7\u00e3o fundamentalista do sunismo.<\/p>\n<p>Em lugar de adotar uma estrat\u00e9gia de isolamento, estamos nos comprometendo com uma pol\u00edtica de enfrentamento. As perdas de vidas no 11 de setembro de 2001 em Nova York foram min\u00fasculas em compara\u00e7\u00e3o com o que est\u00e1 acontecendo no mundo \u00e1rabe, onde em um s\u00f3 pa\u00eds, a S\u00edria, 50 mil pessoas perderam a vida em 2014.<\/p>\n<p>Como podemos cair cegamente em uma armadilha, sem nos darmos conta de que estamos participando de um terr\u00edvel conflito em escala mundial?<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio <\/strong>\u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor da Newsletter Other News.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; S&atilde;o Salvador, Bahamas, janeiro\/2015 &ndash; &Eacute; triste ver como um continente que foi ber&ccedil;o de uma civiliza&ccedil;&atilde;o marcha cegamente para uma armadilha: a de uma guerra santa contra o Isl&atilde;. 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