{"id":18379,"date":"2015-01-14T16:39:02","date_gmt":"2015-01-14T16:39:02","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127794"},"modified":"2015-01-14T16:39:02","modified_gmt":"2015-01-14T16:39:02","slug":"a-distensao-emboscada-cuba-e-estados-unidos-no-governo-de-kennedy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/a-distensao-emboscada-cuba-e-estados-unidos-no-governo-de-kennedy\/","title":{"rendered":"A distens\u00e3o emboscada: Cuba e Estados Unidos no governo de Kennedy"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127482\" style=\"width: 325px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Robert-F-Kennedy-Jr-Cortes%C3%ADa-del-autor-315x472.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-127482\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Robert-F-Kennedy-Jr-Cortes%C3%ADa-del-autor-315x472.jpg\" alt=\"Robert F Kennedy Jr Cortes\u00eda del autor 315x472 A distens\u00e3o emboscada: Cuba e Estados Unidos no governo de Kennedy\" width=\"315\" height=\"472\" title=\"A distens\u00e3o emboscada: Cuba e Estados Unidos no governo de Kennedy\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Robert F. Kennedy Jr. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>White Plains, Estados Unidos, janeiro\/2015 \u2013 Fui criado em Hickory Hill, o lar da minha fam\u00edlia em Virg\u00ednia, onde frequentemente nos visitavam veteranos da falida invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos.<\/p>\n<p>Meu pai, Robert F. Kennedy, que admirava o valor desses ex-combatentes e sentia uma culpa esmagadora por ter colocado os cubanos em perigos durante essa invas\u00e3o mal planejada, assumiu pessoalmente a responsabilidade de encontrar casa e trabalho para eles, e inclusive facilitou a incorpora\u00e7\u00e3o de muitos deles nas For\u00e7as Armadas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, na medida em que se desenvolveu o processo de distens\u00e3o, as suspeitas e a indigna\u00e7\u00e3o se generalizaram tanto que inclusive esses cubanos, que adoravam meu pai e sempre visitavam Hickory Hill quando eu era crian\u00e7a, deixaram de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Para a Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA), a distens\u00e3o representava a sedi\u00e7\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cLamentavelmente, a CIA continua encarregada de Cuba\u201d, afirmou Adlai Stevenson, na \u00e9poca embaixador dos Estados Unidos junto \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), ao presidente John F. Kennedy (JFK). A ag\u00eancia, segundo ele, n\u00e3o permitiria jamais a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>JFK participou de negocia\u00e7\u00f5es secretas com Fidel Castro, destinadas a evitar o Departamento de Estado e os agentes da CIA, mas esta \u00faltima sabia dos contatos extraoficiais entre os dois mandat\u00e1rios e procurava sabotar as iniciativas de paz com manobras de espionagem.<\/p>\n<p>Em abril de 1963, funcion\u00e1rios da CIA salpicaram com veneno um traje de mergulho com que os emiss\u00e1rios de JFK, James Donovan e John Nolan, presenteariam Castro. A ag\u00eancia pretendia assassinar o l\u00edder cubano, responsabilizar o presidente Kennedy pelo crime e desacredit\u00e1-lo por completo, tanto ele quanto sua gest\u00e3o de paz.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a CIA entregou em Paris uma caneta esferogr\u00e1fica envenenada ao sic\u00e1rio Rolando Cubelo, com instru\u00e7\u00f5es para us\u00e1-la para matar Fidel. A ag\u00eancia adotou uma atitude do tipo \u201cao diabo com o presidente ao qual jurou servir\u201d, afirmaria mais adiante William Attwood, ex-jornalista e diplomata norte-americano junto \u00e0 ONU a quem JFK encomendou negocia\u00e7\u00f5es secretas com Castro.<\/p>\n<p>Muitos exilados cubanos expressaram abertamente seu desagrado com a \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d da Casa Branca e acusaram JFK de buscar a \u201ccoexist\u00eancia\u201d com Fidel. Alguns cubanos continuaram sendo leais ao meu pai, mas um pequeno n\u00famero de anticastristas de linha dura, ressentidos e homicidas, dirigiram sua f\u00faria contra JFK, e h\u00e1 provas veross\u00edmeis de que esses homens e seus contatos na CIA podem ter participado de conspira\u00e7\u00f5es para assassin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>No dia 18 de abril de 1963, Jos\u00e9 Mir\u00f3 Cardona, presidente do Conselho Revolucion\u00e1rio Cubano, renunciou com uma enxurrada de furiosas den\u00fancias contra JFK e meu pai. \u201cA luta por Cuba est\u00e1 em vias de ser sabotada pelo governo dos Estados Unidos\u201d, afirmou. \u201cResta apenas um caminho para seguir, e o seguiremos: a viol\u00eancia\u201d, prometeu.<\/p>\n<p>Centenas de exilados cubanos nas vizinhan\u00e7as de Miami expressaram seu descontentamento com a Casa Branca colando papel crepom preto em suas casas. Em novembro de 1963, os exilados divulgaram um panfleto elogiando o assassinato de JFK.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 um acontecimento\u201d, segundo o panfleto, poderia conduzir ao desaparecimento de Castro e ao retorno dos desterrados de seu amado pa\u00eds: \u201cse um ato de inspira\u00e7\u00e3o divina pusesse na Casa Branca nas pr\u00f3ximas semanas um texano conhecido por ser amigo de toda a Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p>Santo Trafficante, chefe da m\u00e1fia e czar dos cassinos de Havana, que manteve estreita colabora\u00e7\u00e3o com a CIA em v\u00e1rias conspira\u00e7\u00f5es para assassinar Fidel, disse aos seus c\u00famplices cubanos que JFK seria alvo de um atentado.<\/p>\n<p>No dia do assassinato do presidente norte-americano, Castro estava reunido, na resid\u00eancia presidencial de ver\u00e3o em Varadero, com o jornalista franc\u00eas Jean Daniel, diretor do jornal socialista <em>Le Nouvel Observateur<\/em> e um dos canais secretos de acesso de JFK ao l\u00edder cubano.<\/p>\n<p>\u00c0s 13 horas receberam um telefonema com a not\u00edcia de que haviam disparado contra o presidente norte-americano. \u201c<em>Voil\u00e0<\/em>, este \u00e9 o fim de sua miss\u00e3o de paz\u201d, disse Castro a Daniel.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte de JFK, o l\u00edder cubano pressionou com insist\u00eancia Lisa Howard, jornalista da rede de televis\u00e3o ABC que atuou como emiss\u00e1ria informal entre os dois mandat\u00e1rios, Stevenson, Attwood e outras pessoas para que solicitassem ao sucessor de Kennedy, Lyndon. B. Johnson, que reiniciasse o di\u00e1logo. Este ignorou os pedidos e Castro acabou desistindo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o assassinato de JFK surgiram muitas pistas, depois desacreditadas, sugerindo que Castro poderia ter orquestrado seu assassinato. Johnson e outros funcion\u00e1rios de sua administra\u00e7\u00e3o conheciam os rumores e aparentemente aceitaram sua implica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O novo presidente decidiu n\u00e3o prosseguir com a aproxima\u00e7\u00e3o a Castro depois que seu servi\u00e7o de intelig\u00eancia, inclu\u00eddo o chefe do Escrit\u00f3rio Federal de Investiga\u00e7\u00f5es (FBI), J. Edgar Hoover, informou que Lee Harvey Oswald poderia ter sido agente do governo cubano, apesar de sua postura anticastrista bem estabelecida.<\/p>\n<p>Depois da morte de JFK, meu pai continuou pressionando o Departamento\u00a0 de Estado do governo Johnson para analisar se era poss\u00edvel os \u201cEstados Unidos conviverem com Castro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAs atuais restri\u00e7\u00f5es \u00e0s viagens n\u00e3o condizem com as tradicionais liberdades norte-americanas\u201d, afirmou meu pai, naquele momento promotor-geral dos Estados Unidos, em um debate nos bastidores pela proibi\u00e7\u00e3o de viajar a Cuba imposta aos cidad\u00e3os norte-americanos.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1963, o Departamento de Justi\u00e7a se preparava para levar a julgamento quatro integrantes do Comit\u00ea Estudantil de Viagens a Cuba, que havia levado um grupo de 59 universit\u00e1rios norte-americanos at\u00e9 Havana. Meu pai se op\u00f4s a esses processos e \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o de viajar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se manifestou a favor de \u201cretirar a normativa existente que pro\u00edbe as viagens de cidad\u00e3os norte-americanos a Cuba\u201d, em um memorando confidencial dirigido ao ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado, Dean Rusk, no dia 12 de dezembro de 1963.<\/p>\n<p>Meu pai sustentava que limitar o direito dos norte-americanos de viajar atentava contra as liberdades que havia jurado proteger como promotor-geral. Levantar a proibi\u00e7\u00e3o \u201cseria mais coerente com nossa vis\u00e3o de uma sociedade livre e contrastaria com quest\u00f5es como o Muro de Berlim e os controles comunistas \u00e0s viagens\u201d, argumentava.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Rusk o excluiu dos debates sobre assuntos exteriores. Embora continuasse sendo o promotor-geral de Johnson, j\u00e1 n\u00e3o dispunha da ampla margem que lhe permitiu dirigir a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos durante o governo de Kennedy.<\/p>\n<p>A CIA continuou com suas tentativas de assassinar Castro durante os dois primeiros anos de mandato de Johnson, embora este nunca tenha ficado sabendo. O senador George McGovern recebeu do pr\u00f3prio Fidel provas de pelo menos dez conspira\u00e7\u00f5es para assassin\u00e1-lo durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p>\u201cPosso lhes dizer que, no per\u00edodo em que aconteceu o assassinato de Kennedy (&#8230;) estava mudando sua pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a Cuba. Em certa medida, nos honrava ter um rival como ele. Era um homem extraordin\u00e1rio\u201d, afirmou Castro em 1978 a um grupo de legisladores norte-americanos em visita \u00e0 ilha.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tenho d\u00favidas. Se n\u00e3o tivesse ocorrido o atentado, provavelmente ter\u00edamos iniciado negocia\u00e7\u00f5es para normalizar as rela\u00e7\u00f5es com Cuba\u201d, afirmou Attwood, posteriormente.<\/p>\n<p>Quando conheci Castro, em 1999, este admitiu a ousadia de sua t\u00e1tica de propiciar a entrada de armas nucleares sovi\u00e9ticas em Cuba. \u201cFoi um erro colocar o mundo em t\u00e3o grave perigo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Naquele momento, eu fazia gest\u00f5es para que o l\u00edder cubano desistisse de instalar uma usina nuclear ao estilo de Chernobil na localidade cubana de Juragua.<\/p>\n<p>Em outra reuni\u00e3o com Fidel, em agosto de 2014, este expressou sua admira\u00e7\u00e3o pela lideran\u00e7a de JFK e observou que um interc\u00e2mbio nuclear durante a crise dos m\u00edsseis em Cuba teria arrasado a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, cinco d\u00e9cadas depois dos fatos, e com duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a partida sovi\u00e9tica de Cuba, colocamos fim a uma pol\u00edtica err\u00f4nea que fez muito pouco para promover a lideran\u00e7a internacional dos Estados Unidos ou seus interesses de pol\u00edtica externa. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Robert F. Kennedy Jr.<\/strong> \u00e9 advogado do National Resources Defense Council e da Hudson Riverkeeper e presidente da Waterkeeper Alliance. Tamb\u00e9m \u00e9 professor e advogado supervisor da Cl\u00ednica Processual Ambiental da Faculdade de Direito da Universidade Pace e coapresentador do Ring of Fire na Air America Radio. No passado foi promotor-geral adjunto da cidade de Nova York. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>White Plains, Estados Unidos, janeiro\/2015 &ndash; Fui criado em Hickory Hill, o lar da minha fam&iacute;lia em Virg&iacute;nia, onde frequentemente nos visitavam veteranos da falida invas&atilde;o da Ba&iacute;a dos Porcos. Meu pai, Robert F. 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