{"id":18381,"date":"2015-01-15T13:27:31","date_gmt":"2015-01-15T13:27:31","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127831"},"modified":"2015-01-15T13:27:31","modified_gmt":"2015-01-15T13:27:31","slug":"no-sri-lanka-nao-matam-os-caricaturistas-eles-desaparecem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/no-sri-lanka-nao-matam-os-caricaturistas-eles-desaparecem\/","title":{"rendered":"No Sri Lanka n\u00e3o matam os caricaturistas, eles desaparecem"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_127834\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/eknaligoda-629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-127834\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/eknaligoda-629x419.jpg\" alt=\"eknaligoda 629x419 No Sri Lanka n\u00e3o matam os caricaturistas, eles desaparecem\" width=\"580\" height=\"386\" title=\"No Sri Lanka n\u00e3o matam os caricaturistas, eles desaparecem\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Prageeth Eknaligoda, colunista e desenhista do Sri Lanka, est\u00e1 desaparecido h\u00e1 quase cinco anos. Foto: Vikalpa\/Groundviews\/CPA\/CC-BY-2.0<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Colombo, Sri Lanka, 15\/1\/2015 \u2013 O massacre de dez jornalistas e dois policiais no atentado contra o seman\u00e1rio sat\u00edrico franc\u00eas <em>Charlie Hebdo<\/em> ocupou as manchetes de todo o mundo desde que dois homens abriram fogo no escrit\u00f3rio da revista em Paris, no dia 7. Milh\u00f5es de pessoas marcharam pelas ruas contra o que se considera um ataque \u00e0 liberdade de express\u00e3o, e a obra dos desenhistas do seman\u00e1rio ganhou uma popularidade viral nas redes sociais.<\/p>\n<p>Mas v\u00e1rios milhares de quil\u00f4metros a leste da capital da Fran\u00e7a, no Sri Lanka, um tipo diferente de ataque \u00e0 liberdade de express\u00e3o n\u00e3o recebeu nem mesmo um piscar da aten\u00e7\u00e3o dada ao ocorrido na <em>Charlie Hebdo<\/em>. Talvez porque, nesta trag\u00e9dia espec\u00edfica, o protagonista n\u00e3o foi assassinado, mas desapareceu sem deixar rastro.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que se soube de Prageeth Eknaligoda foi em 24 de janeiro de 2010. Pouco depois das dez da noite, ele telefonou para avisar sua mulher, Sandhya, que sa\u00eda do trabalho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua casa. Mas nunca chegou. Sandhya buscou respostas sobre seu paradeiro por todos os lados, desde as delegacias locais at\u00e9 o escrit\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) em Genebra, mas n\u00e3o encontrou nenhuma.<\/p>\n<p>Grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, acreditam que as autoridades t\u00eam a ver com seu desaparecimento. Seus vizinhos informaram ter visto uma caminhonete branca sem identifica\u00e7\u00e3o estacionada diante de sua casa naquele dia, um ve\u00edculo que habitualmente \u00e9 vinculado aos desaparecimentos for\u00e7ados no Sri Lanka.<\/p>\n<p>Caricaturista e colunista no Lanka eNews, Eknaligoda costumava utilizar sua pena para chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre a corrup\u00e7\u00e3o, as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e a deteriora\u00e7\u00e3o da democracia neste pa\u00eds de 20 milh\u00f5es de habitantes do sul da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Em um de seus desenhos mais compartilhados se v\u00ea uma mulher seminua diante de um grupo de homens rindo. Na parede atr\u00e1s dela est\u00e1 escrito \u201ca prefer\u00eancia da maioria \u00e9 a democracia\u201d, que alguns comentaristas interpretaram como uma refer\u00eancia \u00e0 falta de poder das minorias neste pa\u00eds de maioria cingalesa-budista.<\/p>\n<p>Ekinaligoda tamb\u00e9m aplicou seu talento inquisitivo na educa\u00e7\u00e3o, revelando o impacto que um sistema escolar d\u00e9bil tem na juventude. Um de seus desenhos representa o tr\u00e1gico suic\u00eddio de uma aluna em uma destacada escola para meninas em Colombo.<\/p>\n<p>O Sri Lanka ocupa o quarto lugar, atr\u00e1s de Iraque, Som\u00e1lia e Filipinas, no \u00cdndice de Impunidade elaborado pela organiza\u00e7\u00e3o independente Comit\u00ea para a Prote\u00e7\u00e3o dos Jornalistas (CPJ).<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 provas demonstrando que Eknaligoda sofreu o mesmo destino dos 19 jornalistas assassinados desde 1992 neste pa\u00eds, o caricaturista n\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo nas estat\u00edsticas dos que pagaram com suas vidas por seu trabalho jornal\u00edstico. De fato, o outrora promotor-geral Mohan Peiris assegurou ao Comit\u00ea das Na\u00e7\u00f5es Unidas Contra a Tortura, em 2011, que Eknaligoda estava vivo em um pa\u00eds estrangeiro. Uma declara\u00e7\u00e3o da qual se retratou.<\/p>\n<p>Para os familiares, o desaparecimento \u00e9 um destino pior do que a morte. \u201cN\u00e3o saber onde est\u00e1 um ente querido \u00e9 uma tortura mental. E \u00e9 pior do que a tortura f\u00edsica, j\u00e1 que ao menos o mundo pode ver as marcas de seu sofrimento\u201d, disse Sandhya, em uma entrevista \u00e0 IPS em 2012.<\/p>\n<p>No dia 7, quando os mandat\u00e1rios do mundo inteiro viram as not\u00edcias sobre o massacre na <em>Charlie Hebdo<\/em>, o ent\u00e3o presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, imediatamente apresentou suas condol\u00eancias \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas. Os que acompanham de perto o caso de Eknaligoda consideraram hip\u00f3crita esse gesto, devido \u00e0 suposta indiferen\u00e7a do governo com a liberdade de imprensa no Sri Lanka.<\/p>\n<p>Assim, quando Rajapaksa perdeu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais do dia 8 deste m\u00eas e um dia depois o governo foi assumido por Maithripala Sirisena, ex-ministro e ex-secret\u00e1rio do at\u00e9 agora partido governante, especialistas e ativistas come\u00e7aram, timidamente, a abrigar uma esperan\u00e7a de justi\u00e7a. \u201cA assombrosa vitoria de Sirisena \u00e9 uma oportunidade para que o Sri Lanka melhore o clima da liberdade de imprensa\u201d, disse Sumit Galhotra, pesquisador do CPJ.<\/p>\n<p>\u201cComo se comprometeu a erradicar a corrup\u00e7\u00e3o e garantir maior transpar\u00eancia, vigiaremos atentamente para ver se acompanha essas promessas com a\u00e7\u00f5es concretas\u201d, afirmou Galhotra \u00e0 IPS. \u201cUma forma segura de reverter a perigosa trajet\u00f3ria que o Sri Lanka tomou na \u00faltima d\u00e9cada \u00e9 atender seriamente \u00e0s s\u00faplicas daqueles como Sandhya Eknaligoda, e iniciar a luta contra a cultura de impunidade que floresceu no pa\u00eds quando se trata da viol\u00eancia contra a imprensa\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Na longa lista de atrocidades sofridas pela comunidade jornal\u00edstica do Sri Lanka, se destaca o assassinato de Lasantha Wickrematunge, em plena luz do dia, em 8 de janeiro de 2009. Fundador e redator do importante seman\u00e1rio em ingl\u00eas <em>Sunday Leader<\/em>, o jornalista denunciava abertamente todo tipo de abuso de poder e viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Perante cerca de 50 pessoas reunidas em seu t\u00famulo na manh\u00e3 das elei\u00e7\u00f5es presidenciais do dia 8, exatamente seis anos depois da morte de Lasantha, seu irm\u00e3o, Lal Wickrematunge, chamou a aten\u00e7\u00e3o para a falta de avan\u00e7o nos \u201cnumerosos esquadr\u00f5es destinados a lidar com as investiga\u00e7\u00f5es do assassinato\u201d.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a receber\u00e1 um novo impulso agora que Sirisena assumiu o poder, afirmam alguns ativistas. Embora ainda seja cedo, j\u00e1 foram dados alguns passos positivos. \u201cAlgumas das p\u00e1ginas na internet que estavam bloqueadas, como o TamilNet e o Lanka eNews, agora est\u00e3o acess\u00edveis, e esses s\u00e3o bons sinais\u201d, afirmou Ruki Fernando, destacado ativista.<\/p>\n<p>\u201cMas h\u00e1 v\u00e1rios casos, como o de Prageeth, Lasantha e muitos, muitos mais, inclu\u00eddos numerosos casos contra o <em>Uthayan<\/em>\u201d, um jornal em l\u00edngua t\u00e2mil com sede na cidade de Jaffna, \u201cque devem ser acelerados\u201d, destacou Fernando. \u201cIsso n\u00e3o significa que Lal ou Sandhya estejam pedindo favores pol\u00edticos. S\u00f3 querem que a justi\u00e7a siga seu curso normal, que estava obstru\u00eddo at\u00e9 o momento, para proceder de uma maneira independente e sem interfer\u00eancias pol\u00edticas\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>\u201cEssas s\u00e3o as coisas que esperamos do novo regime em seus primeiros cem dias. At\u00e9 que sejam implantadas, n\u00e3o tenho muita confian\u00e7a. Apenas esperan\u00e7a\u201d, enfatizou Fernando. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Colombo, Sri Lanka, 15\/1\/2015 &ndash; O massacre de dez jornalistas e dois policiais no atentado contra o seman&aacute;rio sat&iacute;rico franc&ecirc;s Charlie Hebdo ocupou as manchetes de todo o mundo desde que dois homens abriram fogo no escrit&oacute;rio da revista em Paris, no dia 7. 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