{"id":18393,"date":"2015-01-19T13:32:33","date_gmt":"2015-01-19T13:32:33","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=127943"},"modified":"2015-01-19T13:32:33","modified_gmt":"2015-01-19T13:32:33","slug":"o-antidoto-contra-o-terrorismo-esta-na-reforma-do-isla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/01\/ultimas-noticias\/o-antidoto-contra-o-terrorismo-esta-na-reforma-do-isla\/","title":{"rendered":"O ant\u00eddoto contra o terrorismo est\u00e1 na reforma do Isl\u00e3"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127945\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/terrorismoisla629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-127945\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/terrorismoisla629x419.jpg\" alt=\"terrorismoisla629x419 O ant\u00eddoto contra o terrorismo est\u00e1 na reforma do Isl\u00e3\" width=\"580\" height=\"386\" title=\"O ant\u00eddoto contra o terrorismo est\u00e1 na reforma do Isl\u00e3\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O mestre sufi Shaykh Hisham Kabbani fala a milhares de seguidores em Jacarta. Foto: Mohammad Revaldi\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Washington, Estados Unidos, 19\/1\/2015 \u2013 O horrendo atentado contra a o seman\u00e1rio sat\u00edrico franc\u00eas <em>Charlie Hebdo<\/em> trouxe de volta a quest\u00e3o da viol\u00eancia e do Isl\u00e3. Por que, perguntam alguns, s\u00e3o cometidos tantos atos de terrorismo em nome do Isl\u00e3 e por que os jihadistas buscam a justificativa para suas a\u00e7\u00f5es violentas em sua religi\u00e3o?<\/p>\n<p>Independente de Said e Cherif Kouachi, os dois irm\u00e3os que atacaram a <em>Charlie Hebdo<\/em>, no dia 7 deste m\u00eas, serem devotos ou se comportarem de maneira pouco isl\u00e2mica em sua vida pessoal, o fato \u00e9 que celebraram sua viol\u00eancia com modismos isl\u00e2micos, como \u201cAllahu Akbar\u201d (Deus \u00e9 Grande). Outros terroristas isl\u00e2micos tamb\u00e9m recorreram a frases semelhantes no passado.<\/p>\n<p>Embora numerosos l\u00edderes e te\u00f3logos mu\u00e7ulmanos de todo o mundo tenham denunciado o ataque \u00e0 revista com sede em Paris, muitos autocratas isl\u00e2micos continuam se aproveitando do Isl\u00e3 com fins ego\u00edstas. Por exemplo, na mesma semana dos atentados na Fran\u00e7a, a Ar\u00e1bia Saudita condenou um de seus blogueiros a uma extensa pena de pris\u00e3o, com enorme multa e mil a\u00e7oites. Seu \u201ccrime\u201d foi pedir a reforma do regime saudita.<\/p>\n<p>Desde os atentados contra os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, os eruditos exploram os fatores que fomentam o radicalismo isl\u00e2mico e os motivos pelos quais os ativistas radicais se \u201capropriaram\u201d da corrente principal do Isl\u00e3.<\/p>\n<p>Com base em pesquisas de opini\u00e3o e an\u00e1lises de especialistas, a maioria dos observadores considera que dois fatores fundamentais contribu\u00edram com a radicaliza\u00e7\u00e3o e o terrorismo: a pol\u00edtica interna e externa dos regimes de governo e a ideologia isl\u00e2mica salafista-wahabita, conservadora e intolerante, que surge principalmente na Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 15 anos, a an\u00e1lise sugere que os Estados \u00e1rabes isl\u00e2micos, os eruditos mu\u00e7ulmanos e os pa\u00edses ocidentais poderiam tomar medidas espec\u00edficas para neutralizar esses fatores. Mas essa an\u00e1lise reconhece que os resultados desejados exigem tempo, recursos, valor e, sobretudo, vis\u00e3o e compromisso.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito pol\u00edtico nacional, as quest\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais d\u00e3o lugar ao discurso radical e empoderam os ativistas extremistas, tais como ditaduras, repress\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o, desemprego, falta de educa\u00e7\u00e3o, pobreza, escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel, de alimentos e eletricidade, al\u00e9m das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>O desemprego, de 25% a 50% na faixa et\u00e1ria de 15 a 29 anos na maioria dos pa\u00edses \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos, criou uma gera\u00e7\u00e3o de jovens pobres, alienados, raivosos e com escassa educa\u00e7\u00e3o formal, que n\u00e3o se identificam com o Estado. Muitos recorrem \u00e0 viol\u00eancia e ao terrorismo e acabam como combatentes \u201cjihadistas\u201d nas organiza\u00e7\u00f5es terroristas, entre elas o Estado Isl\u00e2mico (EI) e a Al Qaeda na Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica.<\/p>\n<p>Os regimes autocr\u00e1ticos de v\u00e1rios pa\u00edses \u00e1rabes e isl\u00e2micos ignoraram essa situa\u00e7\u00e3o bem com as reclama\u00e7\u00f5es populares durante anos, mantendo-se no poder. Os \u201cmodernos fara\u00f3s\u201d e potentados din\u00e1sticos continuam praticando suas pol\u00edticas repressivas em todo Oriente M\u00e9dio, alheios \u00e0 dor e ao sofrimento de seu povo e \u00e0 desesperan\u00e7a de sua juventude.<\/p>\n<p>No campo da pol\u00edtica externa, as pesquisas de opini\u00e3o na regi\u00e3o revelam que as pol\u00edticas de Washington para os \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos provocaram uma grave fissura entre os Estados Unidos e o mundo mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>Entre essas pol\u00edticas dos Estados Unidos se incluem o que se percebe com uma guerra de Washington contra o Isl\u00e3, a deten\u00e7\u00e3o de mu\u00e7ulmanos na pris\u00e3o de Guant\u00e2namo, em Cuba, o inquebrant\u00e1vel apoio \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o israelense dos territ\u00f3rios palestinos, a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos dos mu\u00e7ulmanos em nome da guerra contra o terrorismo e a cumplicidade com ditadores \u00e1rabes isl\u00e2micos.<\/p>\n<p>Os radicais isl\u00e2micos difundiram a no\u00e7\u00e3o, de grande repercuss\u00e3o entre muitos mu\u00e7ulmanos, de que seus governantes, ou o \u201cinimigo pr\u00f3ximo\u201d, est\u00e3o apoiados, financiados e armados pelos Estados Unidos e por outras pot\u00eancias ocidentais, o \u201cinimigo distante\u201d. Portanto, a \u201cjihad\u201d, ou guerra santa, se converte em um \u201cdever\u201d contra esses \u201cinimigos\u201d.<\/p>\n<p>Embora muitos mu\u00e7ulmanos encontrem alguma validade no argumento radical de que a pol\u00edtica nacional e externa frequente sustenta e justifica a jihad, atribuem grande parte da viol\u00eancia e do terrorismo a interpreta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas extremistas e intolerantes do Isl\u00e3 sunita, que em sua maioria s\u00e3o encontradas nos ensinamentos da escola hanbali da jurisprud\u00eancia seguida pelo Estado e o estabelecimento religioso sauditas.<\/p>\n<p>Alguns pensadores isl\u00e2micos contempor\u00e2neos argumentam que o Isl\u00e3 deve passar por um processo de reforma que desloque a religi\u00e3o do s\u00e9culo 12 da Ar\u00e1bia, onde o Cor\u00e3o foi revelado ao profeta Maom\u00e9, para este mundo globalizado do s\u00e9culo 21, que transcende a Ar\u00e1bia e a tradicional \u201cmorada do Isl\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Pensadores isl\u00e2micos reformistas, como o s\u00edrio Muhammad Shahrur, os iranianos Abdul Karim Soroush e Mohsen Kadivar, o su\u00ed\u00e7o-eg\u00edpcio Tariq Ramadan, o eg\u00edpcio-norte-americano Khaled Abu El Fadl, o sudan\u00eas-norte-americano Abdullahi Ahmed An-Naim, o eg\u00edpcio Nasr Hamid Abu Zayd, e os mal\u00e1sios Anwar Ibrahim e Farish Noor, defendem uma reinterpreta\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3.<\/p>\n<p>Em geral, esses pensadores coincidem em quatro pontos fundamentais:<\/p>\n<ol>\n<li>O Isl\u00e3 \u00e9 produto de um lugar e um momento espec\u00edfico e responde a circunst\u00e2ncias e situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Por exemplo, certos cap\u00edtulos foram revelados a Maom\u00e9 em Medina enquanto combatia em v\u00e1rias batalhas e lutava para fundar seu \u201cEstado isl\u00e2mico baseado na umma (termo do Isl\u00e3 que se refere \u00e0 comunidade constitu\u00edda por todos os mu\u00e7ulmanos do mundo).<\/li>\n<li>Se o Isl\u00e3 pretende ser aceito como uma religi\u00e3o mundial com princ\u00edpios universais, os te\u00f3logos deveriam adapt\u00e1-lo ao mundo moderno, no qual milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos vivem como minorias em territ\u00f3rios n\u00e3o isl\u00e2micos, como China, \u00cdndia, as Am\u00e9ricas e a Europa. O conceito teol\u00f3gico da umma, que foi central para o Estado isl\u00e2mico de Maom\u00e9 em Medina, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido em um mundo complexo, multicultural e multirreligioso.<\/li>\n<li>Se os milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos que vivem fora do \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d do Isl\u00e3 aspiram se converter em cidad\u00e3os produtivos em seus pa\u00edses de ado\u00e7\u00e3o, dever\u00e3o ver a religi\u00e3o como uma liga\u00e7\u00e3o pessoal entre eles e seu Deus e n\u00e3o como um corpo comum de cren\u00e7as que ditam sua intera\u00e7\u00e3o social com os n\u00e3o mu\u00e7ulmanos ou com sua condi\u00e7\u00e3o de minoria. Se querem viver em paz com seus concidad\u00e3os nos pa\u00edses ocidentais laicos, dever\u00e3o respeitar os princ\u00edpios da toler\u00e2ncia do \u201coutro, a transig\u00eancia e a coexist\u00eancia pac\u00edfica com outras religi\u00f5es.<\/li>\n<li>A ideologia isl\u00e2mica radical e intolerante n\u00e3o representa a corrente majorit\u00e1ria da teologia mu\u00e7ulmana. Enquanto os terroristas, como Osama Bin Laden e Abu Bakr al-Baghdadi, citaram com frequ\u00eancia os cap\u00edtulos b\u00e9licos do Cor\u00e3o de Medina, a reforma isl\u00e2mica deveria se centrar nos cap\u00edtulos revelados a Maom\u00e9 em Meca, que defendem princ\u00edpios universalistas semelhantes aos do cristianismo e do juda\u00edsmo. Esses cap\u00edtulos tamb\u00e9m reconhecem Mois\u00e9s e Jesus como profetas e mensageiros de Deus.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os pensadores reformistas tamb\u00e9m coincidem em que os te\u00f3logos e eruditos mu\u00e7ulmanos de todo o mundo deveriam pregar aos radicais, especialmente, que o Isl\u00e3 n\u00e3o aprova o terrorismo e n\u00e3o deve ser invocado para justificar a viol\u00eancia. Embora nos \u00faltimos anos os aspirantes a terroristas invariavelmente busquem uma justificativa religiosa ou uma fatwa \u2013 o pronunciamento de um cl\u00e9rigo religioso para justificar suas atividades terroristas \u2013, um Isl\u00e3 \u201creformado\u201d proibiria a emiss\u00e3o dessas fatwas. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Emile Nakheleh<\/strong> \u00e9 professor pesquisador da Universidade de Novo M\u00e9xico, membro do Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e autor de <\/em>A Necessary Engagement: Reinventing America\u2019s Relations whit the Muslim World<em> (Um Compromisso Necess\u00e1rio: A Reinven\u00e7\u00e3o Das Rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos com o Mundo Mu\u00e7ulmano).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Washington, Estados Unidos, 19\/1\/2015 &ndash; O horrendo atentado contra a o seman&aacute;rio sat&iacute;rico franc&ecirc;s Charlie Hebdo trouxe de volta a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia e do Isl&atilde;. 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