{"id":18470,"date":"2015-02-02T11:26:46","date_gmt":"2015-02-02T11:26:46","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=128690"},"modified":"2015-02-02T11:26:46","modified_gmt":"2015-02-02T11:26:46","slug":"cuba-e-estados-unidos-esquadrinhando-o-futuro-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/02\/ultimas-noticias\/cuba-e-estados-unidos-esquadrinhando-o-futuro-possivel\/","title":{"rendered":"Cuba e Estados Unidos: Esquadrinhando o futuro poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_127187\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/Barack-Obama-telefona-para-Raul-Castro-para-retomar-relacoes-diplomaticas-entre-Estados-Unidos-e-Cuba-foto-Pete-Souza-TWH_201412160003.jpg\"><img class=\"wp-image-127187\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/Barack-Obama-telefona-para-Raul-Castro-para-retomar-relacoes-diplomaticas-entre-Estados-Unidos-e-Cuba-foto-Pete-Souza-TWH_201412160003-1024x682.jpg\" alt=\"Barack Obama telefona para Raul Castro para retomar relacoes diplomaticas entre Estados Unidos e Cuba foto Pete Souza TWH 201412160003 1024x682 Cuba e Estados Unidos: Esquadrinhando o futuro poss\u00edvel\" width=\"550\" height=\"367\" title=\"Cuba e Estados Unidos: Esquadrinhando o futuro poss\u00edvel\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Barack Obama telefona para Ra\u00fal Castro e retoma rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre Estados Unidos e Cuba. Foto: Pete Souza\/ TWH (16\/12\/2014)\/ Fotos P\u00fablicas<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Havana, Cuba, fevereiro\/2014 \u2013 Todos os cubanos, de um lado ou de outro do estreito da Fl\u00f3rida, e tamb\u00e9m de Espanha, Fran\u00e7a ou Groenl\u00e2ndia (que l\u00e1 tamb\u00e9m h\u00e1 um par de cubanos), sentimos que no dia 17 de dezembro, quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com Cuba, ap\u00f3s mais de meio s\u00e9culo de ruptura, estava se produzindo um momento hist\u00f3rico que, de alguma forma, inclu\u00eda cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Os que vivem em Cuba, precisamente por viver na ilha, e aqueles na di\u00e1spora, pelas raz\u00f5es que, em diferentes momentos e por diversos motivos, os levaram a emigrar e reescrever suas vidas.<\/p>\n<p>Uma grande maioria reagiu com j\u00fabilo e esperan\u00e7as, uma porcentagem menor com sentimento de derrota e at\u00e9 de trai\u00e7\u00e3o, e outra quantidade poss\u00edvel com poucas expectativas a respeito do que essa decis\u00e3o pode provocar para o curso de suas exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 indiscut\u00edvel \u00e9 que cada um de n\u00f3s se sentiu tocado pelo an\u00fancio que alguns meios de imprensa qualificaram como a \u201cnot\u00edcia do ano\u201d, algo muito not\u00e1vel (mesmo considerando exagerado) tratando-se apenas da normaliza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es entre Estados Unidos e um pequeno territ\u00f3rio do Caribe que n\u00e3o decide a economia da regi\u00e3o e, sup\u00f5e-se, n\u00e3o influi nas grandes pol\u00edticas mundiais.<\/p>\n<p>Entretanto, a pequenez geogr\u00e1fica e econ\u00f4mica de Cuba h\u00e1 anos n\u00e3o corresponde \u00e0 sua proje\u00e7\u00e3o internacional, e a chamada \u201cnot\u00edcia do ano\u201d o foi (ou pode ter sido) por v\u00e1rias raz\u00f5es, al\u00e9m das sentimentais que afetam todos os cubanos.<\/p>\n<p>Por seu car\u00e1ter simb\u00f3lico como ato de distens\u00e3o e ponto final do dilatado ep\u00edlogo da Guerra Fria, como reconhecimento de um erro pol\u00edtico sustentado pelos Estados Unidos durante muito tempo, por seu peso nas rela\u00e7\u00f5es interamericanas e por seu car\u00e1ter humanista gra\u00e7as ao qual o primeiro passo do acordado foi uma troca de prisioneiros, algo sempre comovedor e humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m o foi porque em um mundo cada vez mais carregado de m\u00e1s not\u00edcias, o fato de dois pa\u00edses que se enfrentam politicamente por meio s\u00e9culo superarem diferen\u00e7as e optarem pelo di\u00e1logo \u00e9 algo reconfortante.<\/p>\n<p>Tr\u00eas semanas depois, a maquinaria dessa nova rela\u00e7\u00e3o foi posta para funcionar. \u00c0 v\u00e9spera da visita a Havana da secret\u00e1ria de Estado adjunta, Roberta Jacobson, para iniciar conversa\u00e7\u00f5es de alto n\u00edvel \u201c<em>face to face<\/em>\u201d com o governo de Havana, o presidente Obama anunciou a entrada em vigor de suas primeiras medidas de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Na lista se destacam as relacionadas com maior abertura de licen\u00e7as para que os norte-americanos possam viajar a Cuba, aumento no valor das remessas de dinheiro para a ilha, rein\u00edcio de interc\u00e2mbios financeiros e banc\u00e1rios, aumento das rela\u00e7\u00f5es comerciais em diversos setores e pretens\u00e3o de manter o crescimento da sociedade civil cubana por diferentes caminhos, entre eles da informa\u00e7\u00e3o, das comunica\u00e7\u00f5es e o poss\u00edvel apoio econ\u00f4mico aos empreendedores.<\/p>\n<p>Cuba, por sua vez, libertou prisioneiros pelos quais Washington havia demonstrado interesse.<\/p>\n<p>As medidas rec\u00e9m-implantadas por Obama podem ter uma transcend\u00eancia not\u00e1vel para Cuba. Primeiramente porque deixa a pol\u00edtica de embargo como uma camisa de for\u00e7a que se encheu de rasgos e praticamente converte sua revoga\u00e7\u00e3o em uma quest\u00e3o de tempo e, para come\u00e7ar, elimina muitos dos temores com que os investidores de outros pa\u00edses olhavam sua poss\u00edvel entrada na ilha.<\/p>\n<p>Por seu lado, Cuba espera ser retirada da lista de na\u00e7\u00f5es patrocinadoras do terrorismo, na qual est\u00e1 inclu\u00edda h\u00e1 anos e, de um e outro lado do estreito, os cidad\u00e3os cubanos olham com justificada incerteza o futuro da Lei de Ajuste Cubano, que garante a resid\u00eancia norte-americana a cada cidad\u00e3o da ilha que coloque um p\u00e9 em territ\u00f3rio norte-americano, n\u00e3o importando a via.<\/p>\n<p>Mas, enquanto os acordos pol\u00edticos seguem um ritmo que n\u00e3o deixa de surpreender, n\u00f3s cubanos insistimos em perguntar como se viver\u00e1 na ilha essa nova situa\u00e7\u00e3o criada a partir de 17 de dezembro e hoje em marcha por diversas maneiras.<\/p>\n<p>Porque as inten\u00e7\u00f5es de Obama de instrumentalizar uma mudan\u00e7a de pol\u00edtica, que leve ao mesmo fim (a mudan\u00e7a de sistema em Cuba) e seu \u00eaxito, mediam as decis\u00f5es que o governo cubano vai tomando para aproveitar o \u00fatil da nova rela\u00e7\u00e3o e eliminar perigos potenciais.<\/p>\n<p>A poss\u00edvel chegada em massa de norte-americanos a Cuba parece que poderia ser o primeiro efeito vis\u00edvel com vistas a um futuro que j\u00e1 come\u00e7ou a correr.<\/p>\n<p>Se hoje a ilha recebe por ano tr\u00eas milh\u00f5es de visitantes, essa quantidade poder\u00e1 duplicar com as novas regulamenta\u00e7\u00f5es anunciadas por Obama. Por isso, todos se perguntam se o pa\u00eds est\u00e1 preparado para semelhante circunst\u00e2ncia e as respostas n\u00e3o s\u00e3o muito animadoras.<\/p>\n<p>Depois de ter entrado em um longo per\u00edodo de crise com o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e de suas generosas subven\u00e7\u00f5es e com o recrudescimento do embargo norte-americano com as leis Torricelli e Helms-Burton (que inclusive alcan\u00e7aram efeito extraterritorial), Cuba hoje \u00e9 um pa\u00eds com s\u00e9rios problemas de infraestrutura nas comunica\u00e7\u00f5es, no sistema vi\u00e1rio, nos transportes e de moradia, entre outros setores.<\/p>\n<p>A car\u00eancia de recursos para fazer os necess\u00e1rios investimentos afeta tamb\u00e9m a compra de produtos que os supostos visitantes demandar\u00e3o e gerar\u00e1 dificuldades ao consumo interno, j\u00e1 por si s\u00f3 bem encarecido e, em ocasi\u00f5es, pouco abastecido.<\/p>\n<p>Talvez os primeiros beneficiados com essa chegada de norte-americanos \u00e0 costa cubana sejam os pequenos empres\u00e1rios da ilha que oferecem servi\u00e7o de hospedagem e alojamento (e as outras milhares de pessoas que giram em sua \u00f3rbita).<\/p>\n<p>Atualmente, em uma cidade como Havana, n\u00e3o h\u00e1 quartos suficientes nos hot\u00e9is (propriedade do Estado ou de capital ou administra\u00e7\u00e3o mista com empresas estrangeiras) e muito menos uma qualidade nos servi\u00e7os gastron\u00f4micos estatais que os fa\u00e7a competitivos.<\/p>\n<p>Assim, uma parte not\u00e1vel do dinheiro que circular passar\u00e1 por m\u00e3os dos empres\u00e1rios privados, um setor que mesmo tendo de pagar altos impostos ao Estado e elevad\u00edssimos pre\u00e7os para compra de insumos no mercado varejista (ainda n\u00e3o existe o reclamado mercado atacadista que os beneficie), obter\u00e1 importantes ganhos no cen\u00e1rio que hoje se desenha no horizonte pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>E esse fen\u00f4meno contribuir\u00e1 para aumentar ainda mais o cada vez menos homog\u00eaneo tecido social da na\u00e7\u00e3o caribenha.<\/p>\n<p>Outra grande expectativa nacional tem a ver com a possibilidade de os cubanos poderem viajar aos Estados Unidos pois, mesmo com a abertura maior nos anos recentes, para muitos cidad\u00e3os da ilha continua sendo um duro obst\u00e1culo a vencer o de obter o visto que lhes permita viajar para o pa\u00eds do norte. E, entre eles, h\u00e1 os que pretendem se radicar ali sob a Lei de Ajuste Cubano, agora com a possibilidade de n\u00e3o perder seus direitos civis na ilha, sob a prote\u00e7\u00e3o das leis migrat\u00f3rias aprovadas h\u00e1 dois anos pelo governo de Ra\u00fal Castro, que eliminaram a onerosa figura migrat\u00f3ria da \u201csa\u00edda definitiva do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>E, em um terreno menos concreto, mas n\u00e3o menos presente, cai o tema dos discursos e da ret\u00f3rica. Meio s\u00e9culo de hostilidade em muitos territ\u00f3rios, inclu\u00edda naturalmente a verbal, deve come\u00e7ar a ceder \u00e0 luz das novas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>O \u201cinimigo imperialista\u201d e o \u201cperigo comunista\u201d est\u00e3o sentados \u00e0 mesma mesa, buscando solu\u00e7\u00f5es negociadas, e a linguagem deve se adequar a essa nova realidade para se conseguir a necess\u00e1ria compreens\u00e3o e os esperados acordos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Por agora, os cubanos que vivem na ilha j\u00e1 sentem um not\u00e1vel primeiro beneficio dos acordos anunciados: sentimos como diminui a tens\u00e3o pol\u00edtica na qual vivemos por muitos anos e desde j\u00e1 podemos sentir que \u00e9 poss\u00edvel refazer nossa rela\u00e7\u00e3o com um vizinho extremamente poderoso e muito pr\u00f3ximo, e, se n\u00e3o de um modo amistoso, ao menos nos relacionarmos de uma forma cordial, civilizada.<\/p>\n<p>Por isso muitos \u2013 entre os quais me incluo \u2013 sentimos desde 17 de dezembro algo semelhante ao despertar de um pesadelo do qual quase nenhum de n\u00f3s acreditava poder escapar. E com os olhos abertos, agora esquadrinhamos o futuro, tentando dar-lhe siluetas mais precisas. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* <strong><em>Leonardo Padura<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e jornalista cubano, ganhador do Pr\u00eamio Nacional de Literatura 2012. Suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua novela mais recente, <\/em>Herejes<em>, \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre a liberdade individual. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Havana, Cuba, fevereiro\/2014 &ndash; Todos os cubanos, de um lado ou de outro do estreito da Fl&oacute;rida, e tamb&eacute;m de Espanha, Fran&ccedil;a ou Groenl&acirc;ndia (que l&aacute; tamb&eacute;m h&aacute; um par de cubanos), sentimos que no dia 17 de dezembro, quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a normaliza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es com Cuba, [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/02\/ultimas-noticias\/cuba-e-estados-unidos-esquadrinhando-o-futuro-possivel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1001,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,1],"tags":[1054,1072,1009,1232,3178],"class_list":["post-18470","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-ultimas-noticias","tag-cuba","tag-estados-unidos","tag-inter-press-service-colunistas","tag-internacional","tag-ips"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18470","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1001"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18470"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18470\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18473,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18470\/revisions\/18473"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18470"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}