{"id":18486,"date":"2015-02-04T12:12:45","date_gmt":"2015-02-04T12:12:45","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=128869"},"modified":"2015-02-04T12:12:45","modified_gmt":"2015-02-04T12:12:45","slug":"mulheres-com-problemas-mentais-abandonadas-e-abusadas-na-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/02\/ultimas-noticias\/mulheres-com-problemas-mentais-abandonadas-e-abusadas-na-india\/","title":{"rendered":"Mulheres com problemas mentais, abandonadas e abusadas na \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_128871\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Indiamulheres.jpg\"><img class=\"wp-image-128871\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Indiamulheres.jpg\" alt=\"Indiamulheres Mulheres com problemas mentais, abandonadas e abusadas na \u00cdndia\" width=\"550\" height=\"400\" title=\"Mulheres com problemas mentais, abandonadas e abusadas na \u00cdndia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">As mulheres internadas em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental na \u00cdndia sofrem um abuso sistem\u00e1tico que inclui deten\u00e7\u00e3o, neglig\u00eancia e viol\u00eancia. Foto: Shazia Yousuf\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mumbai, \u00cdndia, 4\/2\/2015 \u2013 Ap\u00f3s o nascimento de seu terceiro filho, Smita, moradora na capital da \u00cdndia, sentia-se \u201cdesconectada e deprimida\u201d, \u00e0s vezes por v\u00e1rios dias seguidos. \u201cMuito depois me disseram que eu tive uma grave depress\u00e3o p\u00f3s-parto, mas na \u00e9poca n\u00e3o fizeram um bom diagn\u00f3stico sobre minha sa\u00fade. Meu casamento n\u00e3o estava bem, e como os sintomas n\u00e3o desapareciam, meu marido estava disposto a pedir o div\u00f3rcio, mas eu resisti\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Depois de passar por uma sess\u00e3o terap\u00eautica, Smita teve diagnosticado transtorno bipolar, uma desordem psiqui\u00e1trica caracterizada por oscila\u00e7\u00f5es man\u00edaco-depressivas. \u201cNingu\u00e9m sugeriu realizar uma segunda consulta e meus pais e meu marido aceitaram esse diagn\u00f3stico. Certo dia, durante um severo ataque de p\u00e2nico, Smita encontrou dez policiais do lado de fora de sua casa.<\/p>\n<p>\u201cMe levaram a um conhecido hospital de Nova D\u00e9lhi, onde os m\u00e9dicos me sedaram sem me examinar. Quando acordei depois de uma semana descobri que haviam tirado meu telefone e minha carteira\u201d, contou Smita. Todas as suas s\u00faplicas para falar com seu marido e seus pais foram ignoradas. Foi o come\u00e7o de um pesadelo que durou quase dois meses, a maior parte do tempo em isolamento.<\/p>\n<p>\u201cAs enfermeiras eram desagrad\u00e1veis e cru\u00e9is. Lembro uma vez em que meu corpo do\u00eda todo e a enfermeira me cravou uma seringa sem perguntar qual era o problema\u201d, acrescentou Smita. Outra vez, quando deixou de comer em protesto por lhe negarem dar um telefonema, foi arrastada pela sala. \u201cAlgumas mulheres me contaram que eram agredidas e abusadas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>De fato, nem todas as pacientes que est\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es mentais sofrem realmente de problemas ps\u00edquicos. Algumas est\u00e3o internadas porque tinham amantes ou estavam envolvidas em disputas familiares pela propriedade de algum bem.<\/p>\n<p>Poucos dias depois de receber alta, o marido de Smita apresentou o pedido de div\u00f3rcio alegando sua instabilidade ps\u00edquica. \u201cMe dei conta de que preparava tudo para ficar com a guarda das crian\u00e7as\u201d, contou. Isolada e com medo, Smita n\u00e3o encontrou for\u00e7as nem apoio para se defender. Pouco depois, seu marido conseguiu a guarda dos filhos do casal. \u201cMeu m\u00e9dico disse que estou bem, n\u00e3o tomo nenhuma medica\u00e7\u00e3o, mas ainda carrego o estigma. N\u00e3o posso ver meus filhos e j\u00e1 n\u00e3o confio em meus pais\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>O grau de viol\u00eancia que sofrem as mulheres nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental da \u00cdndia ficou evidente no informe <em>Tratadas Pior do que Animais<\/em>, publicado pela organiza\u00e7\u00e3o Human Rights Watch (HRW), que tem sede central em Nova York. Ratnaboli Ray, que trabalha na \u00e1rea de direitos de sa\u00fade mental no Estado de Bengala Ocidental h\u00e1 20 anos, afirmou que, em m\u00e9dia, uma em cada tr\u00eas mulheres \u00e9 internada nessas institui\u00e7\u00f5es sem justificativa m\u00e9dica.<\/p>\n<p>\u201cA lei estabelece que s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio um psiquiatra disposto a certificar que uma pessoa tem algum problema psiqui\u00e1trico para institucionaliz\u00e1-lo\u201d, explicou Ray, que criou a Anjali, uma organiza\u00e7\u00e3o que trabalha com tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental em Bengala Ocidental. \u201cMuitas fam\u00edlias usam isso como artimanha para privar as mulheres de dinheiro, propriedade ou vida familiar. Uma vez que entram nesses lugares perdem a cidadania e seus direitos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Ray contou o caso de Neeti, internada em um hospital psiqui\u00e1trico com pouco mais de 20 anos porque disse que ouvia vozes. \u201cQuando a conhecemos tinha cerca de 40 anos e estava totalmente recuperada, mas sua fam\u00edlia n\u00e3o a queria de volta porque havia interesses imobili\u00e1rios em jogo\u201d, explicou. Com ajuda da Anjali, Neeti lutou e conseguiu acesso ao que lhe cabia da propriedade familiar e pode abandonar o hospital.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 apenas ar ou luz. Ao contr\u00e1rio dos homens que t\u00eam permiss\u00e3o para alguma mobilidade dentro da institui\u00e7\u00e3o, as mulheres s\u00e3o tratadas como gado\u201d, denunciou Ray. Em muitos hospitais n\u00e3o lhes d\u00e3o roupas nem absorventes. Os abusos sexuais s\u00e3o impressionantes \u201cporque est\u00e1 fora do espa\u00e7o p\u00fablico e h\u00e1 uma falta de legitimidade assumida no que dizem, suas queixas ficam invalidadas por estarem loucas\u201d, acrescentou. Gravidez n\u00e3o desejada e abortos for\u00e7ados impactam na sa\u00fade mental e f\u00edsica. As mulheres permanecem anos internadas, descuidadas e desatendidas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar o flagrante contraste entre os setores masculino e feminino\u201d, disse Vaishnavi Jaikumar, cofundadora da organiza\u00e7\u00e3o The Banyan, que oferece assist\u00eancia psicol\u00f3gica em Chennai, capital do Estado de Tamil Nadu. Na ala masculina se v\u00ea \u201cesposas e m\u00e3es visitando seus familiares com alimentos e roupa limpa, enquanto os setores femininos est\u00e3o vazios\u201d, contou. Al\u00e9m disso, o n\u00famero de altas entre as mulheres \u00e9 muito menor.<\/p>\n<p>A sa\u00fade mental est\u00e1 entre as \u00faltimas preocupa\u00e7\u00f5es do sistema de sa\u00fade p\u00fablica da \u00cdndia. Segundo documento da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), o governo indiano destina apenas 0,06% do or\u00e7amento para a sa\u00fade \u00e0 aten\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica e psicol\u00f3gica. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade informou que entre 6% e 7% da popula\u00e7\u00e3o sofre problemas psicossociais, mas h\u00e1 apenas um psiquiatra para cada 343 mil habitantes.<\/p>\n<p>A \u00cdndia conta com apenas 43 hospitais psiqui\u00e1tricos em todo o pa\u00eds, uma grave car\u00eancia para uma popula\u00e7\u00e3o de 1,2 bilh\u00e3o de habitantes. O Programa de Sa\u00fade Mental por Distrito est\u00e1 presente em apenas 123 dos 650 existentes no pa\u00eds, segundo a HRW; o progn\u00f3stico para as pessoas com problemas psiqui\u00e1tricos \u00e9 desolador.<\/p>\n<p>As mulheres sofrem o dobro de depress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Os especialistas dizem que a pobreza, a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e a viol\u00eancia sexual s\u00e3o fatores que deixam as mulheres em uma situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade diante dos transtornos psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n<p>Gopikumar, da organiza\u00e7\u00e3o The Banyan, prop\u00f5e solu\u00e7\u00f5es criativas mais humanas, como o Housing First, no Canad\u00e1, que inclui tanto pessoas sem teto como as que sofrem problemas psiqui\u00e1tricos. Atualmente, a The Banyan realiza uma experi\u00eancia de aten\u00e7\u00e3o baseada na comunidade e financiada pela Funda\u00e7\u00e3o Bill e Melinda Gates e pelo governo canadense.<\/p>\n<p>\u201cNosso modelo se baseia na moradia e em um modelo inclusivo como ferramenta para a integra\u00e7\u00e3o na comunidade\u201d, explicou Gopkumar. \u201cAs pessoas mais pobres do mundo s\u00e3o as que t\u00eam defici\u00eancias e na maioria s\u00e3o mulheres. Sofrem a pobreza tanto por discrimina\u00e7\u00e3o de casta como de g\u00eanero. \u00c9 hora de abrirmos os olhos para o problema\u201d, destacou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mumbai, &Iacute;ndia, 4\/2\/2015 &ndash; Ap&oacute;s o nascimento de seu terceiro filho, Smita, moradora na capital da &Iacute;ndia, sentia-se &ldquo;desconectada e deprimida&rdquo;, &agrave;s vezes por v&aacute;rios dias seguidos. &ldquo;Muito depois me disseram que eu tive uma grave depress&atilde;o p&oacute;s-parto, mas na &eacute;poca n&atilde;o fizeram um bom diagn&oacute;stico sobre minha sa&uacute;de. 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