{"id":185,"date":"2005-01-23T00:00:00","date_gmt":"2005-01-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=185"},"modified":"2005-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-23T00:00:00","slug":"desafios-20042005-sim-no-h-mundo-unipolar-o-que-segunda-e-ltima-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/desafios-20042005-sim-no-h-mundo-unipolar-o-que-segunda-e-ltima-parte\/","title":{"rendered":"Desafios 2004\/2005: Sim, n&atilde;o h&aacute; mundo unipolar, o que? &#8211; Segunda e &uacute;ltima parte"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 23\/01\/2005 &ndash; A vis&atilde;o de um mundo dominado pelos Estados Unidos, no papel de uma Nova Roma sem rivais, parece cada vez mais um sonho dos neoconservadores que cercam o presidente reeleito George W. Bush, devido aos d&eacute;ficits comercial e or&ccedil;ament&aacute;rio sem precedentes e &agrave; paralisa&ccedil;&atilde;o a qual levou a ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque. Se n&atilde;o se impor ao mundo a &quot;Pax Americana&quot; sonhada pela coaliz&atilde;o de neoconservadores, nacionalistas agressivos e crist&atilde;os direitistas que impulsionou a guerra no Iraque, o que acontecer&aacute;? Tr&ecirc;s possibilidades s&atilde;o a mais discutidas em Washington por especialistas em pol&iacute;tica internacional.<br \/> <!--more--> <br \/> Entre as elites alheias ao governo predomina a id&eacute;ia de que se voltar&aacute; a uma &quot;filosofia realista&quot; como a do governo de George Bush pai (1989-1993), de modo que Washington manter&aacute; uma hegemonia mundial afetada por sua relativa debilidade econ&ocirc;mica, e dever&aacute; ter em conta os interesses de outras pot&ecirc;ncias quando adotar suas principais decis&otilde;es em mat&eacute;ria de pol&iacute;tica internacional. Esta vis&atilde;o, que &eacute; mantida pelo ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) e foi defendida com &ecirc;nfase este ano pelo candidato presidencial opositor John Kerry, derrotado por Bush em 2 de novembro, d&aacute; prioridade ao fortalecimento das alian&ccedil;as tradicionais de Washington, em especial com a Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado do Atl&acirc;ntico Norte (Otan).<\/p>\n<p> Os &quot;realistas&quot; preferem a a&ccedil;&atilde;o multilateral e ap&oacute;iam a &quot;interven&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria&quot; em certas circunst&acirc;ncias, sobretudo com patroc&iacute;nio da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas ou da Otan, como ocorreu nos Balc&atilde;s, no Haiti e em Timor Leste. A segundo alternativa, que &eacute; a preferida por Fran&ccedil;a e China, se baseia em conceber os Estados Unidos como uma entre v&aacute;rias pot&ecirc;ncias de um mundo que &eacute; ou tende ser &quot;multipolar&quot;, e no qual a interven&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria ou contra &quot;Estados renegados&quot; deve ser autorizada e coordenada pelo Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU, talvez com mais integrantes e mais representativo da comunidade internacional. Essa vis&atilde;o, como a de Bush pai, visa assegurar a estabilidade, embora &agrave; custa do predom&iacute;nio de Washington.<\/p>\n<p> Caso o mundo se ordene dessa maneira, uma pot&ecirc;ncia n&atilde;o poderia exercer a viol&ecirc;ncia de forma unilateral contra a vontade das demais, como fizeram os Estados Unidos no Iraque, j&aacute; que seria contida atrav&eacute;s da diplomacia, de san&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas ou, ainda, pelo uso da for&ccedil;a. Quando as a&ccedil;&otilde;es unilaterais foram cometidas por Washington, e devido &agrave; sua superioridade militar, o modo mais prov&aacute;vel de fre&aacute;-las seria o econ&ocirc;mico, por exemplo, negando-lhe apoio econ&ocirc;mico crucial para suas aventuras b&eacute;licas, ou de maneira ainda mais potente, atrav&eacute;s da venda de d&oacute;lares para for&ccedil;ar sua desvaloriza&ccedil;&atilde;o, embora isso colocasse em perigo a economia internacional. Este tipo de ordenamento internacional come&ccedil;a a tomar forma aceleradamente. Segundo indicou o colunista Fred Kaplan no jornal The New York Times h&aacute; poucos dias, os bancos centrais dos pa&iacute;ses produtores de petr&oacute;leo do Oriente M&eacute;dio, junto com R&uacute;ssia e China, est&atilde;o passando maiores porcentagens de suas reservas para euros, em lugar de d&oacute;lares.<\/p>\n<p> Isso se deve a uma estrat&eacute;gia &quot;desenhada especificamente para desafiar a hegemonia mundial do d&oacute;lar&quot;, afirmou T. R. Reid, correspondente do jornal The Washington Post, em seu novo livro, intitulado &quot;Os Estados Unidos da Europa: A nova superpot&ecirc;ncia e o fim da supremacia norte-americana&quot;. Inclusive no campo militar, desenvolve-se o que os partid&aacute;rios do &quot;realismo&quot; chamam de contrapeso do poder norte-americano, e no final do ano R&uacute;ssia e China anunciaram que realizar&atilde;o suas primeiras manobras conjuntas em grande escala, com participa&ccedil;&atilde;o de submarinos e provavelmente tamb&eacute;m de bombardeiros estrat&eacute;gicos.<\/p>\n<p> Em mar&ccedil;o, a China realizou junto com a marinha de guerra da Fran&ccedil;a as maiores manobras militares conjuntas de sua hist&oacute;ria, e n&atilde;o demorou a rea&ccedil;&atilde;o do Pent&aacute;gono (Minist&eacute;rio de Defesa dos EUA), que lan&ccedil;ou uma forte campanha para que a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia n&atilde;o levantasse o embargo de venda de armas imposto &agrave; China h&aacute; 15 anos, pela matan&ccedil;a de dissidentes da Pra&ccedil;a Tiananmen de Pequim. Esta campanha foi acompanhada por forte press&atilde;o contra Israel para que cessasse a venda &agrave; China de todo tipo de equipamento militar, e inclusive a restaura&ccedil;&atilde;o de equipamentos antigos. Uma terceira possibilidade manejada pelos especialistas, n&atilde;o necessariamente incompat&iacute;vel com a segunda, &eacute; a de um caos internacional, caso as grandes pot&ecirc;ncias n&atilde;o possam impor ordem e estabilidade em grandes &aacute;reas do planeta, e em alguns casos nem mesmo em suas pr&oacute;prias zonas de influ&ecirc;ncia direta, como ocorreu com a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia na ex-Iugosl&aacute;via no in&iacute;cio dos anos 90, nem os Estados Unidos no Haiti, em 2004.<\/p>\n<p> Um grave &quot;vazio de poder&quot; pode levar ao &quot;an&aacute;rquico pesadelo de uma nova Idade Escura, de imp&eacute;rios minguantes, fanatismo religioso, saque end&ecirc;mico e pilharem nas regi&otilde;es esquecidas do mundo, paralisa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e retirada da civiliza&ccedil;&atilde;o para escassos enclaves fortificados&quot;, afirmou o historiador neoconservador brit&acirc;nico Niall Ferguson, na edi&ccedil;&atilde;o de ver&atilde;o (boreal) da revista especializada norte-americana Foreign Policy. Os &uacute;nicos poss&iacute;veis rivais do &quot;hiperpoder&quot; norte-americano, Uni&atilde;o Europ&eacute;ia e China, s&atilde;o muito mais d&eacute;beis do que parecem, porque o envelhecimento da popula&ccedil;&atilde;o e a decrescente natalidade levam a Europa a &quot;declinar em termos de influ&ecirc;ncia e import&acirc;ncia internacionais&quot;, enquanto a China pode seguir rumo a uma grave crise devido &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, falta de governabilidade, forte depend&ecirc;ncia das exporta&ccedil;&otilde;es e fraco sistema financeiro, afirmou.<\/p>\n<p> Fergusson tamb&eacute;m admitiu, penalizado, que o colosso norte-americano tem &quot;p&eacute;s de barro&quot;, pelo desequil&iacute;brio entre seu &quot;poder duro&quot; (coercitivo) e seu &quot;poder brando&quot; (de atra&ccedil;&atilde;o&quot;, real depend&ecirc;ncia de capitais externos e pela falta de experi&ecirc;ncia e paci&ecirc;ncia para construir na&ccedil;&otilde;es e manter o imp&eacute;rio. Neste novo mandato de Bush a pergunta &eacute; para qual alternativa se inclinar&aacute;, volunt&aacute;ria ou involuntariamente, o governo, que reviveu uma ret&oacute;rica multilateralista mas ainda parece desejoso de controlar um mundo unipolar. &quot;O isolacionismo sempre &eacute; a op&ccedil;&atilde;o por defeito&quot; da pol&iacute;tica externa norte-americana, disse Kenneth Adelman, um destacado neoconservador que integrou a Mesa de Pol&iacute;ticas de Defesa do pent&aacute;gono no in&iacute;cio da &quot;guerra contra o terrorismo&quot; lan&ccedil;ada por Bush depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington.<\/p>\n<p> De fato, nos &uacute;ltimos 21 meses, a frustra&ccedil;&atilde;o pela guerra do Iraque e pela aus&ecirc;ncia de apoio a essa campanha e &agrave; posterior ocupa&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio iraquiano por parte dos tradicionais aliados de Washington aumentaram a hostilidade contra essas na&ccedil;&otilde;es, incluindo as &aacute;rabes e a Fran&ccedil;a, bem com contra a ONU e ao multilateralismo em geral. Esse tipo de sentimento, alimentado pelas pretens&otilde;es de superioridade moral da Direita Crist&atilde; e dos neoconservadores, tem uma representa&ccedil;&atilde;o mais forte do que nunca nos poderes Executivo e Legislativo. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 23\/01\/2005 &ndash; A vis&atilde;o de um mundo dominado pelos Estados Unidos, no papel de uma Nova Roma sem rivais, parece cada vez mais um sonho dos neoconservadores que cercam o presidente reeleito George W. Bush, devido aos d&eacute;ficits comercial e or&ccedil;ament&aacute;rio sem precedentes e &agrave; paralisa&ccedil;&atilde;o a qual levou a ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque. Se n&atilde;o se impor ao mundo a &quot;Pax Americana&quot; sonhada pela coaliz&atilde;o de neoconservadores, nacionalistas agressivos e crist&atilde;os direitistas que impulsionou a guerra no Iraque, o que acontecer&aacute;? Tr&ecirc;s possibilidades s&atilde;o a mais discutidas em Washington por especialistas em pol&iacute;tica internacional.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/desafios-20042005-sim-no-h-mundo-unipolar-o-que-segunda-e-ltima-parte\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":104,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-185","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=185"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}