{"id":18510,"date":"2015-02-11T11:48:02","date_gmt":"2015-02-11T11:48:02","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=129249"},"modified":"2015-02-11T11:48:02","modified_gmt":"2015-02-11T11:48:02","slug":"o-futuro-da-china-quatro-mil-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/02\/ultimas-noticias\/o-futuro-da-china-quatro-mil-anos-depois\/","title":{"rendered":"O futuro da China, quatro mil anos depois"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_129251\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/galt.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-129251\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/galt.jpg\" alt=\"galt O futuro da China, quatro mil anos depois\" width=\"300\" height=\"225\" title=\"O futuro da China, quatro mil anos depois\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Johan Galtung. Foto: IPS<\/p><\/div>\n<p>Penang, Mal\u00e1sia, 11\/2\/2015 \u2013 Ao observar um mapa que combine a hist\u00f3ria do mundo com a geografia, o tempo e o espa\u00e7o, por quatro mil anos a China aparece como um conjunto de dinastias relativamente coerentes com transi\u00e7\u00f5es complexas.<\/p>\n<p>Em contraste, o Ocidente surge como imp\u00e9rios com nascimento, crescimento, auge, decad\u00eancia e queda, como nos casos dos imp\u00e9rios romano, brit\u00e2nico e o atual norte-americano.<\/p>\n<p>A China deixou de lado o espa\u00e7o habitado pelos b\u00e1rbaros do sul, oeste, norte e leste fora do \u201cbols\u00e3o chin\u00eas\u201d entre as montanhas do Himalaia, o deserto de Gobi, a tundra e o mar, com a exce\u00e7\u00e3o das rotas da seda entre China oriental e o leste da \u00c1frica, destru\u00eddas por Portugal e Inglaterra a partir de 1.500, e colonizou Macau e Hong Kong.<\/p>\n<p>Um dos objetivos que tem a atual pol\u00edtica externa chinesa \u00e9 restaurar as rotas da seda com trens de alta velocidade pela Eur\u00e1sia, mediante a coopera\u00e7\u00e3o para o beneficio m\u00fatuo e equitativo, ou seja, a harmonia.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos deixaram de lado o tempo ao fazer caso omisso da hist\u00f3ria passada, e com a ideia de que cria come\u00e7os novos para os imigrantes, e uma Hist\u00f3ria Nova para si mesmo, para outros pa\u00edses e para o mundo inteiro.<\/p>\n<p>Para o tao\u00edsmo, o conhecimento v\u00e1lido \u00e9 hol\u00edstico e dial\u00e9tico, baseado em grandes e complexas unidades de pensamento (os seres humanos inteiros, a China, o mundo), marcadas por for\u00e7as e contrafor\u00e7as, o yin e o yang, o bem diante do mal. O que se suprime, cresce, e o que \u00e9 dominante decai at\u00e9 o pr\u00f3ximo ciclo.<\/p>\n<p>Para o Ocidente, o conhecimento v\u00e1lido se baseia na subdivis\u00e3o e no ac\u00famulo de conhecimentos sobre os elementos, entretecidos nas teorias.<\/p>\n<p>Para Mao Zedong (1893-1976), a contradi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica residia no imperialismo estrangeiro, com os propriet\u00e1rios diante do povo: estudantes, camponeses, trabalhadores. A revolu\u00e7\u00e3o de 1949 come\u00e7ou uma dial\u00e9tica de distribui\u00e7\u00e3o frente ao crescimento, com saldos a cada nove anos (1958-1967-1976). A morte de Mao trouxe quatro anos ca\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Para Deng Xiapeng (1904-1997), a contradi\u00e7\u00e3o jazia na mis\u00e9ria diante da falta de crescimento.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1980 acumulou capital entre os agricultores pr\u00f3ximos \u00e0s cidades e em Shenzen, com crescimento anual de 26%, e recriou a classe mercantil. Ent\u00e3o sucederam-se ciclos de nove anos de distribui\u00e7\u00e3o <em>versus<\/em> crescimento, a partir de 1989, com os protestos da pra\u00e7a Tiananmen, e depois em 1998, 2007 e 2016, com um novo enfoque no crescimento.<\/p>\n<p>A China se baseia nos princ\u00edpios tao\u00edstas, nas ideias confucianas de hierarquias com harmonia e na igualdade budista das pequenas comunidades: o budismo para a distribui\u00e7\u00e3o, o confucionismo para o crescimento e o tao\u00edsmo para os saltos entre ambos.<\/p>\n<p>O Ocidente poderia ter tomado os aspectos positivos do juda\u00edsmo, do cristianismo e do Isl\u00e3, mas centrou-se nos aspectos negativos da discrimina\u00e7\u00e3o, dos preconceitos, da guerra e do genoc\u00eddio, agora sob a forma de judeu-crist\u00e3o <em>versus<\/em> Isl\u00e3, com sinergias sem empregar.<\/p>\n<p>Os governantes madarins chineses combinaram o poder com normas da alta cultura para os agricultores e artes\u00e3os, estando os comerciantes marginalizados na parte inferior.<\/p>\n<p>Os mandat\u00e1rios aristocratas ocidentais combinaram o poder com a for\u00e7a, o com\u00e9rcio e a ben\u00e7\u00e3o do clero, que depois se converteriam no Estado, no capital e na burocracia. Uma diferen\u00e7a b\u00e1sica com a China era a marginaliza\u00e7\u00e3o diante da integra\u00e7\u00e3o dos comerciantes.<\/p>\n<p>Os imperadores chineses eram filhos celestiais que comercializavam com os que pagavam tributos ao imperador. No Ocidente, o Para\u00edso consistia em um \u00fanico Deus para todos e para a eternidade, que criava e tirava a vida. O monarca era a \u00fanica pessoa com o direito divino de tirar a vida, que tamb\u00e9m delegava ao seu ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Os ingleses se negaram a pagar esses tributos e recorreram \u00e0s guerras do \u00f3pio e \u00e0 \u201cdiplomacia dos canh\u00f5es\u201d para queimar, com os franceses, o pal\u00e1cio imperial. A China nunca foi violenta fora de seu \u201cbols\u00e3o\u201d, salvo quando a \u00cdndia a provocou em 1962.<\/p>\n<p>O mandato divino se perde quando o povo protesta nas ruas, e se recupera ao abordar as necessidades e ideias no antigo sistema de peti\u00e7\u00f5es, pela \u201cdemocracia das ideias, n\u00e3o a democracia aritm\u00e9tica\u201d, como faz o Ocidente com a contagem de votos em elei\u00e7\u00f5es nacionais livres e pluralistas.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cultural marchou nas ruas contra o poder confuciano de homens idosos com educa\u00e7\u00e3o superior da China oriental, preparando o caminho para os jovens, as mulheres e a China ocidental, e tamb\u00e9m para os 80 milh\u00f5es de membros do Partido \u201ccomunista\u201d, suficientemente s\u00e1bios para entenderem a dial\u00e9tica do yin e do yang.<\/p>\n<p>Tiananmen em 1989 n\u00e3o teve a ver com democracia, mas com a perda de sua posi\u00e7\u00e3o feudal diante dos agricultores ricos, dos comerciantes, dos capitalistas privados e estatais.<\/p>\n<p>A China est\u00e1 centrada em si mesma, a cultura profunda ainda \u00e9 hol\u00edstica-dial\u00e9tica com uma superf\u00edcie ocidental. A sinergia de tr\u00eas civiliza\u00e7\u00f5es est\u00e1 a\u00ed, em como a incapacidade da China para manejar o \u201cbols\u00e3o que representam Taiwan, Tibete, uigures, mong\u00f3is, vietnamitas e coreanos.<\/p>\n<p>Mas a China se globalizou ao comercializar com os b\u00e1rbaros e acumular enormes riquezas. Mao abriu a sociedade a enormes massas de chineses: os jovens, as mulheres e os do oeste.<\/p>\n<p>Deng tirou 300 ou 400 milh\u00f5es de chineses do fundo da sociedade entre 1991 e 2004, passando o foco comunista das necessidades dos mais necessitados para o capitalismo: o capicomunismo. Em Pequim, em 1980, havia seis milh\u00f5es de bicicletas e nenhum carro particular. Em 2010, essa propor\u00e7\u00e3o era de nenhuma bicicleta contra cinco milh\u00f5es de carros.<\/p>\n<p>O Ocidente, superado pelos pa\u00edses do Brics (\u00c1frica do Sul, Brasil, China, \u00cdndia, R\u00fassia), se dedicou mais a matar do que a aprender.<\/p>\n<p>A classe governante da China, imersa na cultura, vinculava os ciclos din\u00e1sticos ao pensamento do yin e do yang, e os comerciantes com os b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>Os governantes de hoje, ocupados em fazer dinheiro para engendrar mais dinheiro, vinculam o dinheiro \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Com a compet\u00eancia da Am\u00e9rica Latina mais \u00c1frica, e os protestos nas ruas, se aproxima o fim de uma dinastia.<\/p>\n<p>A lideran\u00e7a da China n\u00e3o \u00e9 para sempre. Nunca nada o \u00e9. Exceto, talvez, outra China: uma dinastia mais espiritual, depois do \u201ccomunismo\u201d materialista? Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Johan Galtung<\/strong> \u00e9 professor de estudos sobre a paz e reitor da Transcent Peace University (TPU). Tamb\u00e9m \u00e9 autor de 50 livros sobre paz e assuntos afins, entre eles <\/em>50 Years \u2013 100 Peace and Conflict Perspectives<em> (50 Anos \u2013 100 Perspectivas Sobre Paz e Conflitos).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Penang, Mal&aacute;sia, 11\/2\/2015 &ndash; Ao observar um mapa que combine a hist&oacute;ria do mundo com a geografia, o tempo e o espa&ccedil;o, por quatro mil anos a China aparece como um conjunto de dinastias relativamente coerentes com transi&ccedil;&otilde;es complexas. 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