{"id":18578,"date":"2015-02-27T13:25:32","date_gmt":"2015-02-27T13:25:32","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=129982"},"modified":"2015-02-27T13:25:32","modified_gmt":"2015-02-27T13:25:32","slug":"tsunami-humano-causa-tragedia-em-serras-argentinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/02\/ultimas-noticias\/tsunami-humano-causa-tragedia-em-serras-argentinas\/","title":{"rendered":"Tsunami humano causa trag\u00e9dia em serras argentinas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_129984\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Argentina-1-629x472.jpg\"><img class=\"wp-image-129984\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Argentina-1-629x472.jpg\" alt=\"Um riacho que transborda e uma estrada danificada no munic\u00edpio de Rio Ceballos, nas Sierras Chicas, prov\u00edncia de C\u00f3rdoba, na Argentina, ap\u00f3s as inunda\u00e7\u00f5es do dia 15 deste m\u00eas. Ricardo Su\u00e1rez, diretor do Projeto de Conserva\u00e7\u00e3o e Reflorestamento das Serras de C\u00f3rdoba atribui os danos ao alto desmatamento na \u00e1rea. Foto: Cortesia do bi\u00f3logo Ricardo Su\u00e1rez\" width=\"540\" height=\"405\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um riacho que transborda e uma estrada danificada no munic\u00edpio de Rio Ceballos, nas Sierras Chicas, prov\u00edncia de C\u00f3rdoba, na Argentina, ap\u00f3s as inunda\u00e7\u00f5es do dia 15 deste m\u00eas. Ricardo Su\u00e1rez, diretor do Projeto de Conserva\u00e7\u00e3o e Reflorestamento das Serras de C\u00f3rdoba atribui os danos ao alto desmatamento na \u00e1rea. Foto: Cortesia do bi\u00f3logo Ricardo Su\u00e1rez<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>C\u00f3rdoba, Argentina, 27\/2\/2015 \u2013 Fen\u00f4menos pluviais at\u00edpicos e cada vez mais frequentes na Argentina, como os que provocaram as inunda\u00e7\u00f5es na prov\u00edncia de C\u00f3rdoba, centro do pa\u00eds, indicam a necessidade cada vez mais imperiosa de pol\u00edticas de reordenamento territorial e de um combate efetivo ao desmatamento.<\/p>\n<p>Definidas pelo governador de C\u00f3rdoba, Jos\u00e9 Manuel de la Sota, como \u201cum tsunami que caiu do c\u00e9u\u201d, as chuvas do dia 15 deste m\u00eas afetaram 320 quil\u00f4metros quadrados do cord\u00e3o montanhoso de Sierras Chicas, no noroeste da prov\u00edncia, deixaram oito mortos e 1.500 casas destru\u00eddas. Ontem, outro forte temporal, desta vez no leste e sudeste de C\u00f3rdoba, voltou a inundar v\u00e1rios povoados e obrigou \u00e0 evacua\u00e7\u00e3o de mais de 800 pessoas, segundo dados provis\u00f3rios, mas sem v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>\u201cFoi uma cat\u00e1strofe: pontes quebradas, casas destru\u00eddas, uma pra\u00e7a com sua \u00e1rea esportiva j\u00e1 n\u00e3o existe, v\u00e1rias centenas de metros de tubula\u00e7\u00e3o que abastecem de \u00e1gua desapareceram. E o mais lament\u00e1vel, a morte de pessoas\u201d, contou \u00e0 IPS o ambientalista Ricardo Su\u00e1rez, morador do munic\u00edpio de R\u00edo Ceballos, uma das localidades mais afetadas pelas inunda\u00e7\u00f5es do dia 15.<\/p>\n<p>Mas o \u201ctsunami\u201d desse dia, uma met\u00e1fora para os 320 mil\u00edmetros de chuva que ca\u00edram em 12 horas nessa regi\u00e3o de 300 mil habitantes, \u201cn\u00e3o caiu do c\u00e9u\u201d, segundo Ra\u00fal Montenegro, presidente da Funda\u00e7\u00e3o para a Defesa do Meio Ambiente. \u201cSierras Chicas depredadas, loteadas por imobili\u00e1rias, e sem popula\u00e7\u00f5es preparadas, causaram a trag\u00e9dia\u201d, resumiu \u00e0 IPS este bi\u00f3logo, pr\u00eamio Nobel Alternativo, entregue anualmente no parlamento sueco aos que lutam por um futuro melhor para o planeta.<\/p>\n<p>\u201cA m\u00e3o humana interveio para que isso se agravasse\u201d, acrescentou Su\u00e1rez, diretor do Projeto de Conserva\u00e7\u00e3o e Reflorestamento das Sierras Chicas de C\u00f3rdoba. \u201cPra\u00e7as sobre o rio, casas constru\u00eddas em suas margens, lixo sem recolher, plantio de \u00e1rvores ex\u00f3ticas que n\u00e3o se adaptam \u00e0s cheias, pontes para pedestres e particulares para carros, por todo lado falta de planejamento, de alertas e de preven\u00e7\u00e3o\u201d, detalhou.<\/p>\n<p>Segundo Montenegro, a trag\u00e9dia teve duas causas principais: \u201cprecipita\u00e7\u00f5es extensas em um curto espa\u00e7o de tempo e ambientes serranos desmatados\u201d, onde os principais cursos de \u00e1gua nascem. \u201cA deteriora\u00e7\u00e3o ambiental das serras as transformou em perigosos e imprevis\u00edveis tobog\u00e3s que enchem rapidamente os cursos de \u00e1gua\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Federico Kopta, bi\u00f3logo e presidente do F\u00f3rum Ambiental de C\u00f3rdoba, explicou \u00e0 IPS a fun\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa nas montanhas. \u201cAtua como uma esp\u00e9cie de guarda-chuva, evitando que a \u00e1gua tenha impacto direto e desagregue o solo\u201d, explicou. Al\u00e9m disso, junto com suas ra\u00edzes, \u201cfunciona como uma esp\u00e9cie de rede que sustenta o solo e evita que seja arrastado ladeira abaixo\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m age como uma \u201cesp\u00e9cie de esponja, retendo a \u00e1gua na parte superior das serras e administrando-a lentamente\u201d, acrescentou Kopta. Quando essa vegeta\u00e7\u00e3o desaparece \u201caumenta a vaz\u00e3o da \u00e1gua na superf\u00edcie\u201d e com a eros\u00e3o h\u00eddrica e as inunda\u00e7\u00f5es \u201cresta menos reserva de \u00e1gua durante a esta\u00e7\u00e3o seca\u201d, ressaltou o especialista.<\/p>\n<div id=\"attachment_129985\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/chica-argentina-2.jpg\"><img class=\"wp-image-129985\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/chica-argentina-2.jpg\" alt=\"A outra face da moeda, o dique La Quebrada, a sete quil\u00f4metros de Rio Ceballos, com a \u00e1gua em seu mais baixo n\u00edvel hist\u00f3rico, em novembro de 2013, como consequ\u00eancia da seca que na \u00e9poca afetou o cord\u00e3o montanhoso de Sierras Chicas, em C\u00f3rdoba, na Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"540\" height=\"405\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A outra face da moeda, o dique La Quebrada, a sete quil\u00f4metros de Rio Ceballos, com a \u00e1gua em seu mais baixo n\u00edvel hist\u00f3rico, em novembro de 2013, como consequ\u00eancia da seca que na \u00e9poca afetou o cord\u00e3o montanhoso de Sierras Chicas, em C\u00f3rdoba, na Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o Greenpeace atribuiu o aumento de inunda\u00e7\u00f5es na Argentina \u00e0 alta taxa de desmatamento, apesar da entrada em vigor, no final de 2007, da Lei para a Prote\u00e7\u00e3o das Florestas Nativas, com or\u00e7amento espec\u00edfico para sua restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Kopta destacou que em C\u00f3rdoba restam menos de 4% de suas florestas originais. Isso depois que, entre 1998 e 2007, o desmatamento na prov\u00edncia, a segunda mais habitada do pa\u00eds, chegou aos 247.967 hectares, e depois que, entre 2007 e 2013, foram eliminados 44.823 hectares, dos quais 10.796 eram florestas protegidas por lei.<\/p>\n<p>\u201cOs desmatamentos para desenvolvimento agropecu\u00e1rio e urbano arrasaram as florestas nativas fr\u00e1geis perdendo a prote\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o frente \u00e0s fortes chuvas\u201d, diz o Greenpeace em um comunicado do dia 18 deste m\u00eas. \u201cIronicamente, desmatamento, inc\u00eandios e avan\u00e7o imobili\u00e1rio sobre as serras causam duas crises que se contrap\u00f5em: rios sem \u00e1gua no inverno e perigosamente transbordando durante as chuvas de ver\u00e3o\u201d, disse Montenegro, ao recordar que em C\u00f3rdoba praticamente foram eliminados dois de seus tr\u00eas grandes ecossistemas.<\/p>\n<p>O desmatamento \u201cmais violento\u201d, segundo Montenegro, foi na d\u00e9cada de 1990 e coincidiu com a introdu\u00e7\u00e3o na prov\u00edncia de cultivos transg\u00eanicos (geneticamente modificados) de soja, milho e algod\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios, ind\u00fastrias e grandes complexos tur\u00edsticos tamb\u00e9m impulsionou o desmatamento em C\u00f3rdoba, que contribuiu com 8% para o produto interno bruto argentino.<\/p>\n<p>Kopta considera que \u201ca m\u00e3o do homem\u201d influiu duplamente na cat\u00e1strofe. Em um contexto global, recordou que o aquecimento do planeta gera maior frequ\u00eancia de eventos clim\u00e1ticos extremos, \u201calgo que os cordobeses n\u00e3o podem manejar\u201d. Em um contexto mais local, acrescentou, a trag\u00e9dia est\u00e1 relacionada com o incorreto uso dos recursos naturais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, segundo Kopta, a \u201cdevasta\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa\u201d na cabeceira das bacias, causada por inc\u00eandios florestais, desmatamento e invas\u00e3o de esp\u00e9cies de fora, al\u00e9m do pastoreio em altura, \u201cmudam a din\u00e2mica h\u00eddrica do lugar. \u00c9 urgente limitar os grandes empreendimentos imobili\u00e1rios e as urbaniza\u00e7\u00f5es nas montanhas, que agravam o desmatamento, enfatizou.<\/p>\n<p>Kopta acrescentou que essas urbaniza\u00e7\u00f5es se multiplicaram nos \u00faltimos 20 anos, \u201cpela grande demanda de gente que, trabalhando na cidade de C\u00f3rdoba, utiliza Sierras Chicas como dormit\u00f3rio\u201d, o que, por sua vez, gerou ocupa\u00e7\u00f5es em lugares inund\u00e1veis. A capital provincial, de mesmo nome, \u00e9 a segunda cidade do pa\u00eds e concentra mais de 40% da popula\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia.<\/p>\n<p>\u201cEntende-se que cada vez somos mais e necessitamos de moradia digna, mas \u00e9 t\u00e3o pouco o controle que, por exemplo, se autorizou a constru\u00e7\u00e3o de duas casas pr\u00f3ximas a um riacho e, naturalmente, hoje est\u00e3o inundadas e a rua destru\u00edda pelo desvio do pr\u00f3prio riacho\u201d, apontou Su\u00e1rez. Montenegro pediu que sejam reativados os comit\u00eas de bacias h\u00eddricas para evitar essas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>Por sua vez, Kopta cobrou a aplica\u00e7\u00e3o das leis de planejamento urbano e prote\u00e7\u00e3o florestal, para reordenar e proteger o territ\u00f3rio, incluindo a assessoria de ge\u00f3logos e especialistas em morfologia da terra. Tamb\u00e9m considera necess\u00e1rio que as obras de infraestrutura contemplem a nova realidade clim\u00e1tica. \u201c\u00c0s vezes, quando as pontes n\u00e3o s\u00e3o suficientemente altas, atuam como diques, onde param os troncos e restos de \u00e1rvores, o que leva \u00e0s cheias, fazendo a \u00e1gua subir e inundar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Suarez se referiu a outros casos de \u201cmau planejamento de obras\u201d, como o de estradas, \u201cque n\u00e3o t\u00eam avalia\u00e7\u00e3o de impacto ambiental\u201d.<\/p>\n<p>Kopta recordou que alguns engenheiros prop\u00f5em obras preventivas com \u201clagoas de reten\u00e7\u00e3o\u201d, para diminuir o escorrimento da \u00e1gua. Mas, ressaltou, antes de tudo \u201c\u00e9 preciso aumentar a superf\u00edcie de florestas nativas, o controle de esp\u00e9cies de fora e o cuidado com florestas e pastagens, para evitar que se coloque fogo em \u00e1reas de sobrepastoreio\u201d.<\/p>\n<p>Esses fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos \u201cj\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o at\u00edpicos\u201d, destacou Su\u00e1rez, para quem n\u00e3o \u00e9 paradoxal \u201cque hoje vivemos inunda\u00e7\u00f5es e h\u00e1 um ano lut\u00e1vamos por uma gota de \u00e1gua\u201d. Alertou que \u201cisso \u00e9 o que vamos viver devido ao dano ambiental sofrido. A prov\u00edncia j\u00e1 n\u00e3o possui resist\u00eancia ambiental e qualquer evento se transformar\u00e1 em uma trag\u00e9dia\u201d, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; C&oacute;rdoba, Argentina, 27\/2\/2015 &ndash; Fen&ocirc;menos pluviais at&iacute;picos e cada vez mais frequentes na Argentina, como os que provocaram as inunda&ccedil;&otilde;es na prov&iacute;ncia de C&oacute;rdoba, centro do pa&iacute;s, indicam a necessidade cada vez mais imperiosa de pol&iacute;ticas de reordenamento territorial e de um combate efetivo ao desmatamento. 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