{"id":18600,"date":"2015-03-04T13:15:58","date_gmt":"2015-03-04T13:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=130206"},"modified":"2015-03-04T13:15:58","modified_gmt":"2015-03-04T13:15:58","slug":"quando-uma-arvore-e-mais-efetiva-do-que-o-governo-do-nepal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/03\/ultimas-noticias\/quando-uma-arvore-e-mais-efetiva-do-que-o-governo-do-nepal\/","title":{"rendered":"Quando uma \u00e1rvore \u00e9 mais efetiva do que o governo do Nepal"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_130208\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal1-629x420.jpg\"><img class=\"wp-image-130208\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal1-629x420.jpg\" alt=\"Todas as manh\u00e3s Raj Kumari Chaudhari reza para a mangueira na qual subiu durante as inunda\u00e7\u00f5es de 2014 no centro-oeste do Nepal. Foto: Mallika Aryal\/IPS\" width=\"540\" height=\"361\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Todas as manh\u00e3s Raj Kumari Chaudhari reza para a mangueira na qual subiu durante as inunda\u00e7\u00f5es de 2014 no centro-oeste do Nepal. Foto: Mallika Aryal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bardiya, Nepal, 4\/3\/2015 \u2013 \u201cEsta \u00e1rvore n\u00e3o d\u00e1 frutos, mas salvou minha fam\u00edlia da morte\u201d, contou Raj Kumari Chaudhari, ao lado de uma enorme e majestosa mangueira, cujos ramos se estendem al\u00e9m da vista. \u201cS\u00f3 ela fez mais por minha fam\u00edlia em tempos dif\u00edceis do que o pr\u00f3prio governo do Nepal\u201d, afirmou a camponesa. Todas as manh\u00e3s Chaudhari se dirige \u00e0 outra ponta da aldeia apenas para rezar para a \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Na noite de 14 de agosto do ano passado, Chaudhari perdeu sua casa quando a \u00e1gua arrasou toda a aldeia de Padnaha, no distrito de Bardiya, no centro-oeste do Nepal. Seu marido pegou sua filha mais velha enquanto ela carregava as g\u00eameas em suas costas e fugiram. Quando chegaram na outra ponta da aldeia se deram conta de que n\u00e3o tinham escapat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Subiram na \u00e1rvore mais pr\u00f3xima para se protegerem. Em quest\u00e3o de minutos outras 11 pessoas fizeram o mesmo. \u201cMeu beb\u00ea de seis meses era o menor de todos, o prendi com meu xale para que n\u00e3o ca\u00edsse\u201d, contou outra moradora, Kalpana Gurung.<\/p>\n<p>Bardiya \u00e9 um dos tr\u00eas distritos do centro-oeste mais atingidos pelas inunda\u00e7\u00f5es de 2014. O Comit\u00ea para a Aten\u00e7\u00e3o de Desastres informa que mais de 93 mil pessoas foram prejudicadas. A torrente de \u00e1gua deixou 32 mortos e 13 desaparecidos. Quase cinco mil sofreram as consequ\u00eancias das inunda\u00e7\u00f5es em Padnaha.<\/p>\n<p>O ano passado j\u00e1 figurava como o mais mort\u00edfero da hist\u00f3ria do Nepal em termos de desastres naturais. Segundo o Minist\u00e9rio do Interior, morreram 492 pessoas e mais de 37 mil moradias foram destru\u00eddas pelos desastres ocorridos entre abril do ano passado e fevereiro de 2015. Os especialistas criticam que apesar disso o governo ainda n\u00e3o formulou nenhuma resposta de longo prazo para casos como o da fam\u00edlia de Chaudhari, que sobreviveu \u00e0 cat\u00e1strofe.<\/p>\n<div id=\"attachment_130209\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal2.jpg\"><img class=\"wp-image-130209\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal2.jpg\" alt=\"Raj Kumari e Hira Lal Chaudhari, sua filha de 11 anos e as g\u00eameas de oito, sobreviveram \u00e0s inunda\u00e7\u00f5es de agosto de 2014 no centro-oeste do Nepal subindo em uma mangueira, onde esperaram as \u00e1guas baixarem. Foto: Mallika Aryal\/IPS\" width=\"540\" height=\"376\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Raj Kumari e Hira Lal Chaudhari, sua filha de 11 anos e as g\u00eameas de oito, sobreviveram \u00e0s inunda\u00e7\u00f5es de agosto de 2014 no centro-oeste do Nepal subindo em uma mangueira, onde esperaram as \u00e1guas baixarem. Foto: Mallika Aryal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_130210\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal3.jpg\"><img class=\"wp-image-130210\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal3.jpg\" alt=\"Demorou cinco meses para a comunidade de Padnaha recuperar sua vida. Doze fam\u00edlias puderam reconstruir suas casas. \u201cToda a aldeia ficou como um deserto depois das inunda\u00e7\u00f5es\u201d, contou Raj Kumari Chaudhari, uma das sobreviventes. Foto: Mallika Aryal\/IPS\" width=\"540\" height=\"360\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Demorou cinco meses para a comunidade de Padnaha recuperar sua vida. Doze fam\u00edlias puderam reconstruir suas casas. \u201cToda a aldeia ficou como um deserto depois das inunda\u00e7\u00f5es\u201d, contou Raj Kumari Chaudhari, uma das sobreviventes. Foto: Mallika Aryal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO governo n\u00e3o tem rumo nem planos para a reabilita\u00e7\u00e3o de sobreviventes. Os que perderam suas terras ficaram, basicamente, ap\u00e1tridas\u201d, lamentou Madhukar Upadhya, especialista em gest\u00e3o de bacias e deslizamentos de terras.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o transbordamento do rio Koshi em 2008, no leste do Nepal, o governo criou um centro para capacita\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o de desastres, a pol\u00edcia ganhou uma divis\u00e3o especial e o ex\u00e9rcito um departamento dedicado ao tema. Mas o interesse das autoridades est\u00e1 no resgate e no al\u00edvio, n\u00e3o na reabilita\u00e7\u00e3o nem no reassentamento, criticou Upadhya,<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Chaudhari e a maioria de seus vizinhos procedem da comunidade ind\u00edgena de tharu, no oeste do Nepal. Al\u00e9m disso, foram \u201ckamaiya\u201d, v\u00edtimas do opressivo sistema de trabalho for\u00e7ado que vigorou no Nepal at\u00e9 sua aboli\u00e7\u00e3o em 2002. Ap\u00f3s ser libertada, a fam\u00edlia foi expulsa de sua casa por seus \u201cdonos\u201d e tiveram que viver ao relento durante anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois, o governo finalmente os reassentou em Padnaha. \u201cDemoramos muito tempo para reconstruir nossas casas, as crian\u00e7as finalmente estavam assentando quando as inunda\u00e7\u00f5es arrasaram com tudo\u201d, lamentou Chaudhari.<\/p>\n<p>Depois de ficar por 24 horas na \u00e1rvore com a \u00e1gua correndo embaixo, Chaudhari e sua fam\u00edlia finalmente puderam descer e ser abrigar na escola. Quando se retirou, viu que tudo havia desaparecido. \u201cPerdemos nossas casas e nossos pertences, mas, ao contr\u00e1rio de outros sobreviventes de inunda\u00e7\u00f5es e deslizamentos de terra, ainda podemos regressar ao nosso terreno\u201d, disse Sangita, de 18 anos, que tamb\u00e9m se salvou gra\u00e7as \u00e0 mangueira.<\/p>\n<p>Com ajuda da organiza\u00e7\u00e3o Save the Children, que lhes deu os materiais, e ao programa Dinheiro por Trabalho, uma experi\u00eancia de 13 anos que paga US$ 3,50 por dia de trabalho, a comunidade p\u00f4de come\u00e7ar a reconstru\u00e7\u00e3o. Em poucos dias, 12 fam\u00edlias limparam os escombros e levantaram suas cho\u00e7as. Chaudhary j\u00e1 pode plantar algumas verduras na horta, uma fonte a mais de alimentos para sua fam\u00edlia. Mas se preocupa com a possibilidade de o ocorrido no ano passado se repetir, e se deu conta de que precisa estar preparada.<\/p>\n<div id=\"attachment_130211\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal4.jpg\"><img class=\"wp-image-130211\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal4.jpg\" alt=\"Kalpana Gurung em sua horta, onde espera colher verduras na primavera para alimentar sua fam\u00edlia. Ela est\u00e1 amamentando e teme n\u00e3o poder dar alimento suficiente para seu beb\u00ea de nove meses. Foto: Mallika Aryal\/IPS\" width=\"540\" height=\"360\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Kalpana Gurung em sua horta, onde espera colher verduras na primavera para alimentar sua fam\u00edlia. Ela est\u00e1 amamentando e teme n\u00e3o poder dar alimento suficiente para seu beb\u00ea de nove meses. Foto: Mallika Aryal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_130212\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal5.jpg\"><img class=\"wp-image-130212\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal5.jpg\" alt=\"Saraswati Chaudhari, de 11 anos, e suas irm\u00e3s g\u00eameas, Puja e Laxmi, prontos para irem \u00e0 escola. Especialistas afirmam que o governo deve criar um plano de gest\u00e3o de desastres integral para proteger as fam\u00edlias que vivem em zonas propensas a cat\u00e1strofes. Foto: Mallika Aryal\/IPS\" width=\"540\" height=\"360\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Saraswati Chaudhari, de 11 anos, e suas irm\u00e3s g\u00eameas, Puja e Laxmi, prontos para irem \u00e0 escola. Especialistas afirmam que o governo deve criar um plano de gest\u00e3o de desastres integral para proteger as fam\u00edlias que vivem em zonas propensas a cat\u00e1strofes. Foto: Mallika Aryal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_130213\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal6.jpg\"><img class=\"wp-image-130213\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/nepal6.jpg\" alt=\"Sangita, de 18 anos, recorda a noite em que acordou com a cama dentro da \u00e1gua. \u201cEssa \u00e1rvore salvou minha vida, mas quero esquecer aquela noite horr\u00edvel\u201d, disse, apontando para a mangueira onde subiu. Foto: Mallika Aryal\/IPS\" width=\"540\" height=\"360\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Sangita, de 18 anos, recorda a noite em que acordou com a cama dentro da \u00e1gua. \u201cEssa \u00e1rvore salvou minha vida, mas quero esquecer aquela noite horr\u00edvel\u201d, disse, apontando para a mangueira onde subiu. Foto: Mallika Aryal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Especialistas em clima afirmam que a pequena comunidade-modelo n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, pois a varia\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica faz com que em cada mon\u00e7\u00e3o possa haver inunda\u00e7\u00f5es e deslizamentos de terra nas regi\u00f5es vulner\u00e1veis do Nepal. Um estudo de 2014, da Alian\u00e7a Clima e Desenvolvimento (CDKN) conclui que a variabilidade clim\u00e1tica e os eventos extremos custam ao governo do Nepal o equivalente a 1,5% a 2% do produto interno bruto por ano.<\/p>\n<p>Doze grandes inunda\u00e7\u00f5es nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas custaram a cada fam\u00edlia afetada o equivalente a US$ 9 mil, em m\u00e9dia. Considerando que a renda familiar m\u00e9dia era de US$ 2,7 mil em 2011, esse montante representa uma grande carga suportada principalmente pelos mais pobres, que vivem em zonas propensas a desastres naturais, como a fam\u00edlia de Chaudhari.<\/p>\n<p>Anualmente, desde 1983, as inunda\u00e7\u00f5es no Nepal deixam uma m\u00e9dia de 283 mortos, oito mil casas destru\u00eddas e 30 mil fam\u00edlias que devem enfrentar as consequ\u00eancias do desastre. \u201cEstamos acostumados a reconstruir nossas vidas, mas espero que minhas filhas n\u00e3o tenham que fazer o mesmo uma e outra vez, como eu\u201d, ressaltou Chaudhari, com o olhar perdido na sagrada mangueira. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Bardiya, Nepal, 4\/3\/2015 &ndash; &ldquo;Esta &aacute;rvore n&atilde;o d&aacute; frutos, mas salvou minha fam&iacute;lia da morte&rdquo;, contou Raj Kumari Chaudhari, ao lado de uma enorme e majestosa mangueira, cujos ramos se estendem al&eacute;m da vista. &ldquo;S&oacute; ela fez mais por minha fam&iacute;lia em tempos dif&iacute;ceis do que o pr&oacute;prio governo do Nepal&rdquo;, afirmou a camponesa. 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