{"id":18606,"date":"2015-03-05T15:22:35","date_gmt":"2015-03-05T15:22:35","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=130309"},"modified":"2015-03-05T15:22:35","modified_gmt":"2015-03-05T15:22:35","slug":"mulheres-vitimas-de-violencia-de-genero-sem-protecao-na-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/03\/ultimas-noticias\/mulheres-vitimas-de-violencia-de-genero-sem-protecao-na-india\/","title":{"rendered":"Mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero sem prote\u00e7\u00e3o na \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_130311\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/violencia_domestica-629x472.jpg\"><img class=\"wp-image-130311\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/violencia_domestica-629x472.jpg\" alt=\"Estudos oficiais revelam que 40% das mulheres da \u00cdndia sofreram viol\u00eancia no lar, mas ativistas acreditam que o n\u00famero real esteja pr\u00f3ximo de 84%. Foto: Stella Paul\/IPS\" width=\"540\" height=\"405\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Estudos oficiais revelam que 40% das mulheres da \u00cdndia sofreram viol\u00eancia no lar, mas ativistas acreditam que o n\u00famero real esteja pr\u00f3ximo de 84%. Foto: Stella Paul\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mumbai, \u00cdndia, 5\/3\/2015 \u2013 \u201cUma vez meu marido come\u00e7ou a me esbofetear t\u00e3o forte, porque n\u00e3o havia cozinhado o arroz como ele gostava, que o beb\u00ea que eu tinha nos bra\u00e7os caiu\u201d, contou Suruchi, de 47 anos, \u00e0 IPS. Hist\u00f3rias iguais a essa, h\u00e1 milh\u00f5es na \u00cdndia. Durante 20 anos, Suruchi suportou agress\u00f5es f\u00edsicas e verbais dentro de sua casa. Seu marido costumava deix\u00e1-la do lado de fora do apartamento \u00e0 noite e, inclusive, um dia tentou estrangul\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u201cNunca sabia o que poderia deix\u00e1-lo furioso, podia ser falar com um vizinho ou olhar pela janela. Pela manh\u00e3 me preparava para ir trabalhar e, de repente, ele anunciava que eu tinha que ficar em casa o dia todo\u201d, contou Suruchi, que mora Mumbai, grande cidade costeira da \u00cdndia. Ela n\u00e3o tinha acesso \u00e0s economias, porque era obrigada a entregar o sal\u00e1rio \u00e0 fam\u00edlia de seu marido. \u201cNas raras ocasi\u00f5es em que me queixei, me bateram\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Seus pais se davam conta de que n\u00e3o era feliz, mas Suruchi nunca lhes contou toda a hist\u00f3ria. Tinha apenas 20 anos quando se casou. A viol\u00eancia constante deixou profundas marcas nela e nos filhos, em especial no rapaz que sofre de ansiedade e \u00e9 muito pouco comunicativo.<\/p>\n<p>Mas, no dia em que sofreu uma crise nervosa depois de um epis\u00f3dio mais violento do que o habitual, decidiu dar um basta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. \u201cTinha esperan\u00e7as de que, se o obedecesse, as coisas melhorariam. Enquanto me recuperava no hospital, compreendi que minha atitude fomentava o abuso e que deveria me afastar, por mim e por meus filhos\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Suruchi conseguiu deixar o passado para tr\u00e1s. Agora \u00e9 independente e estuda direito, mas nem todas as v\u00edtimas de viol\u00eancia dentro da fam\u00edlia conseguem isso. A \u00faltima pesquisa familiar, de 2006, mostra que 40% das mulheres indianas sofrem viol\u00eancia dentro de suas casas. A popula\u00e7\u00e3o feminina constitui 48% dos 1,2 bilh\u00e3o de habitantes da \u00cdndia, assim, centenas de milh\u00f5es de mulheres vivem um pesadelo em suas casas em uma das consideradas maiores democracias do mundo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, muitos especialistas estimam que um estudo realizado em 2003 por uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, com apoio da Comiss\u00e3o de Planejamento da \u00cdndia, \u00e9 muito mais realista ao elevar a propor\u00e7\u00e3o de mulheres maltratadas a 84%. Isso \u201cnos diz que h\u00e1 muitos casos n\u00e3o denunciados\u201d, afirmou Rashmi Anand, uma sobrevivente de viol\u00eancia dentro da fam\u00edlia e encarregada de um servi\u00e7o de ajuda e assist\u00eancia legal, com apoio da pol\u00edcia, para mulheres v\u00edtimas de maus tratos em Nova D\u00e9lhi.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que os n\u00fameros dessa viol\u00eancia, que aparecem nas estat\u00edsticas de crimes em muitos Estados, sejam significativamente maiores do que as que figuram em escala nacional.<\/p>\n<p>Um estudo de 2013, do Conselho Nacional de Pesquisa sobre Economia Aplicada, com sede em Nova D\u00e9lhi, diz que as mulheres casadas consultadas disseram apanhar por sair de casa sem permiss\u00e3o (54%), por n\u00e3o cozinhar bem (35%) e por pagamento insuficiente do dote (36%). O dote est\u00e1 proibido por lei, mas continua sendo uma pr\u00e1tica muito generalizada na \u00cdndia.<\/p>\n<p>Outra pesquisa, de 2014, da revista <em>Population and Development Review<\/em>, mostra que as mulheres com maior forma\u00e7\u00e3o do que seus maridos correm um risco maior de serem maltratadas, pois os homens recorrem \u00e0 viol\u00eancia para refor\u00e7ar seu poder e seu controle sobre elas.<\/p>\n<p>Em 1983, a viol\u00eancia dentro da fam\u00edlia foi reconhecida como crime no artigo 498-A do C\u00f3digo Penal. Mas somente em 2005 foi aprovada uma lei espec\u00edfica contra esse flagelo. A lei, entre outras coisas, define a viol\u00eancia dentro do lar e amplia seu alcance para abuso verbal, econ\u00f4mico e emocional. Tamb\u00e9m leva em conta a necessidade de apoio econ\u00f4mico para as mulheres, as protege de serem expulsas de casa e disp\u00f5e sobre assist\u00eancia econ\u00f4mica e cust\u00f3dia tempor\u00e1ria dos filhos.<\/p>\n<p>Desde a aprova\u00e7\u00e3o dessa lei, houve aumento no n\u00famero de mulheres que buscam ajuda. \u201cAntes, as mulheres s\u00f3 procuravam ajuda legal quando eram postas para fora de suas casas\u201d, explicou C. P. Nautiyal, que apoia v\u00edtimas de viol\u00eancia dentro da fam\u00edlia em Nova D\u00e9lhi. \u201cA maioria das mulheres pensava ser um comportamento aceit\u00e1vel sofrer abuso verbal ou receber bofetadas do marido. Desde a aprova\u00e7\u00e3o da lei, h\u00e1 maior consci\u00eancia sobre a viol\u00eancia no lar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Mas ainda existe um estigma vinculado ao <em>status<\/em> de divorciada, o que impede que muitas procurem ajuda. \u201cEm mat\u00e9ria econ\u00f4mica, as mulheres conseguiram grandes progressos, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim no tocante ao seu crescimento pessoal\u201d, pontuou Anand. \u201cH\u00e1 muita press\u00e3o para que continuem casadas\u201d, concordou a advogada Flavia Agnes, defensora dos direitos das mulheres. \u201cMesmo as mulheres de classe alta n\u00e3o gostam de dizer que est\u00e3o divorciadas ou separadas. \u00c9 como ser violada, v\u00e3o esconder o m\u00e1ximo que puderem\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>As mulheres com menos capacita\u00e7\u00e3o e menos privil\u00e9gios s\u00e3o as que mais pedem ajuda, afirmam especialistas. E \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a elas que o sistema mais falha. O que mais se percebe \u00e9 a inexist\u00eancia de abrigos estatais adequados. \u201cFico procurando lugares para onde enviar mulheres pobres e maltratadas\u201d, lamentou Anand. Dos cinco abrigos para situa\u00e7\u00f5es de crise em Nova D\u00e9lhi, apenas dois funcionam. E estes podem abrigar apenas 30 mulheres, somente por um m\u00eas e s\u00f3 com seus filhos menores de sete anos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 urgente a necessidade de contar com tribunais r\u00e1pidos. A justi\u00e7a \u00e9 lenta, o processo pode demorar anos e at\u00e9 d\u00e9cadas. S\u00f3 com leis n\u00e3o se pode conter a viol\u00eancia dentro de casa, avivada por comportamentos arraigados em uma sociedade fortemente patriarcal. A \u00faltima Pesquisa Nacional de Sa\u00fade Familiar, de 2006, mostra que mais de 51% dos homens consultados declararam que n\u00e3o lhes parecia errado bater em suas esposas. E, pior, 54% das mulheres entrevistadas afirmaram que em certas circunst\u00e2ncias os maus tratos se justificavam. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Esta reportagem faz parte de uma s\u00e9rie de artigos elaborados pela IPS por ocasi\u00e3o do Dia Internacional da Mulher.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mumbai, &Iacute;ndia, 5\/3\/2015 &ndash; &ldquo;Uma vez meu marido come&ccedil;ou a me esbofetear t&atilde;o forte, porque n&atilde;o havia cozinhado o arroz como ele gostava, que o beb&ecirc; que eu tinha nos bra&ccedil;os caiu&rdquo;, contou Suruchi, de 47 anos, &agrave; IPS. Hist&oacute;rias iguais a essa, h&aacute; milh&otilde;es na &Iacute;ndia. 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