{"id":18656,"date":"2015-03-16T12:25:50","date_gmt":"2015-03-16T12:25:50","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=130876"},"modified":"2015-03-16T12:25:50","modified_gmt":"2015-03-16T12:25:50","slug":"terramerica-catastrofe-socioambiental-surge-das-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/03\/ultimas-noticias\/terramerica-catastrofe-socioambiental-surge-das-cinzas\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 Cat\u00e1strofe socioambiental surge das cinzas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_130878\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Ter714Argentina1.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-130878\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Ter714Argentina1.jpg\" alt=\"O lago Cholila, \u00e0 direita, com parte de seu vale envolto em fuma\u00e7a, no dia 12 de mar\u00e7o, na prov\u00edncia de Chubut, na Patag\u00f4nia argentina. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O lago Cholila, \u00e0 direita, com parte de seu vale envolto em fuma\u00e7a, no dia 12 de mar\u00e7o, na prov\u00edncia de Chubut, na Patag\u00f4nia argentina. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn<\/p><\/div>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 16 de mar\u00e7o de 2015 (Terram\u00e9rica).- Ap\u00f3s o inc\u00eandio que arrasou mais de 34 mil hectares de florestas, algumas milenares, na Patag\u00f4nia, sul da Argentina, as autoridades dever\u00e3o apagar chamas n\u00e3o menos graves: as novas cat\u00e1strofes socioambientais que v\u00e3o surgir de suas cinzas.<\/p>\n<p>O pior inc\u00eandio florestal da hist\u00f3ria do pa\u00eds demorar\u00e1 a ser extinto plenamente nos arredores de Cholila, um povoado entre lagos, vales e montanhas, a noroeste da prov\u00edncia de Chubut. Seus dois mil habitantes esperam pelo in\u00edcio, em abril, da \u00e9poca de chuvas nessa regi\u00e3o encostada na Cordilheira dos Andes e lim\u00edtrofe com o Chile.<\/p>\n<p>Mas na localidade \u2013 que entre suas atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas tem o fato de ter sido esconderijo, em 1902, dos lend\u00e1rios bandoleiros norte-americanos Butch Cassidy e Sundance Kids \u2013 o grande temor \u00e9 o que vir\u00e1 depois do inc\u00eandio, que come\u00e7ou no dia 15 de fevereiro e foi extinto oficialmente no dia 6 deste m\u00eas, embora a fumaceira e pequenas l\u00ednguas de fogo ainda persistir\u00e3o por mais um m\u00eas, segundo especialistas.<\/p>\n<p>\u201cEstamos muito angustiados. Perdemos o marco natural que escolhemos para viver e consequentemente a atividade econ\u00f4mica se ressentir\u00e1\u201d, afirmou ao Terram\u00e9rica, por telefone, o aviador Daniel Wegrzyn, que precisou fechar sua hospedaria no lago Cholila, que n\u00e3o foi afetada pelas chamas, mas funcionou como abrigo para as v\u00edtimas do inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Esses inc\u00eandios \u201cpodem afetar a qualidade do ar e a sa\u00fade\u201d pela fuma\u00e7a e pelo p\u00f3 na atmosfera durante \u201cmeses ou anos depois\u201d, explicou ao Terram\u00e9rica o especialista em florestas patag\u00f4nias Thomas Kitzberger, da Universidade Nacional de Comahue. O fogo devastou \u00e1reas de pastoreio bovino. Mas a pecu\u00e1ria e o ecoturismo est\u00e3o longe de serem as \u00fanicas perdas. \u201cO dano ecol\u00f3gico \u00e9 o que vem\u201d, afirmou Wegrzyn.<\/p>\n<p>O inc\u00eandio arrasou florestas de ciprestes, \u00f1irres (<em>Nothofagus antartica<\/em>), lengas (<em>Nothofagus pumilio<\/em>), coihues (<em>Nothofagus dombeyi<\/em>), bambus colihue (<em>Chusquea culeou<\/em>) e de esp\u00e9cies milenares como o alerce (<em>Fitzroya cupressoides<\/em>). O fogo tamb\u00e9m matou ou fez migrar a fauna end\u00eamica, como veados, lagartixas, aves e raposas, e inclusive esp\u00e9cies em extin\u00e7\u00e3o, como os cervos sul-andinos.<\/p>\n<p>Kitzberger explicou que esses ecossistemas abrigam plantas \u201crelativamente bem adaptadas ao fogo, como as de matagais e estepes\u201d, que s\u00e3o resilientes e \u201crapidamente rebrotam do fogo\u201d. Outros como as florestas de coihues, ciprestes ou alerces, com resili\u00eancia moderada, \u201cpodem sobreviver ao fogo e recolonizar \u00e1reas queimadas\u201d.<\/p>\n<p>Mas, no caso dos alerces que suportaram fogo severo, seus viveiros morreram e essa perda \u00e9 praticamente irrecuper\u00e1vel, porque seriam necess\u00e1rios v\u00e1rios s\u00e9culos para formar uma nova floresta. Tamb\u00e9m \u201ca lenga \u00e9 incapaz de se regenerar nesses locais (onde o inc\u00eandio foi intenso) ou o faz de maneira muito lenta, e por isso demoraria muitos s\u00e9culos para se recuperar\u201d, ressaltou Kitzberger.<\/p>\n<p>O especialista destacou que as florestas s\u00e3o habitadas por numerosas esp\u00e9cies e \u201ccriam condi\u00e7\u00f5es localmente est\u00e1veis para as fun\u00e7\u00f5es ecossist\u00eamicas\u201d. Ao queimarem, \u201cd\u00e3o lugar a formas mais arbustivas ou herb\u00e1ceas, que n\u00e3o substituem essas fun\u00e7\u00f5es\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Por isso, segundo a bi\u00f3loga Silvia Ortubay, haver\u00e1 altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que se estender\u00e3o a outros ecossistemas. \u201cMudam os regimes de ventos, a disponibilidade de oxig\u00eanio, diminuem a umidade ambiental e a evapotranspira\u00e7\u00e3o, aumentam a temperatura, a radia\u00e7\u00e3o solar, a luminosidade e o efeito estufa\u201d, detalhou Ortubay ao Terram\u00e9rica desde a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A bi\u00f3loga alertou que existe o risco de inunda\u00e7\u00f5es e secas acentuadas e por isso \u00e9 \u201cpriorit\u00e1rio delinear um plano de restaura\u00e7\u00e3o\u201d. Tamb\u00e9m ressaltou que a vegeta\u00e7\u00e3o, a mat\u00e9ria org\u00e2nica e as ra\u00edzes arb\u00f3reas atuam como camada protetora do solo e barreira natural da \u00e1gua, e, com as primeiras chuvas e a dispers\u00e3o de cinzas, haver\u00e1 eros\u00e3o e a terra perder\u00e1 sua fertilidade. Por outro lado, aumentar\u00e3o as correntes de \u00e1gua nos terrenos, causando deslizamento de lodo onde a inclina\u00e7\u00e3o \u00e9 maior.<\/p>\n<p>Em escala regional, \u201cquando a cobertura florestal \u00e9 eliminada por inc\u00eandios severos que afetam altas bacias, se degrada, por exemplo, a capacidade de regula\u00e7\u00e3o e provis\u00e3o de \u00e1gua de qualidade\u201d, e altera-se a const\u00e2ncia no fornecimento energ\u00e9tico, gerado por represas situadas bacia abaixo, refor\u00e7ou Kitzberger.<\/p>\n<p>O transporte de sedimentos pode turvar lagos patag\u00f4nios, \u201cconsiderados os mais transparentes do mundo\u201d, enquanto a degrada\u00e7\u00e3o de bacias, com caudais menores no ver\u00e3o austral e maiores no inverno, propiciar\u00e1 cheias ou secas, afirmou Ortubay. Al\u00e9m disso, a degrada\u00e7\u00e3o florestal gerar\u00e1 pradarias que atrair\u00e3o o gado, criando obst\u00e1culo para o \u201cestabelecimento de sementes e a regenera\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea\u201d, acrescentou. J\u00e1 o gado, por meio de suas fezes dispersar\u00e1 sementes de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras, como a rosa mosqueta, um de seus alimentos preferidos.<\/p>\n<p>Wegrzyn questionou a falta de avalia\u00e7\u00e3o de riscos e \u201ca demora em agir\u201d, enquanto realiza sobrevoos na regi\u00e3o, que o levaram a alertar para o perigo de reativa\u00e7\u00e3o de alguns focos. Era sabido que seria um \u201cano cr\u00edtico\u201d por causa de um fen\u00f4meno que ocorre a cada meio s\u00e9culo: o florescimento e a morte do bambu colihue, que \u00e9 altamente combust\u00edvel quando seco, afirmou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma seca muito acentuada e as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas favoreciam ventos e altas temperaturas, \u201cdecisivos para a expans\u00e3o do fogo\u201d, que chegou a se propagar ao ritmo de um quil\u00f4metro por hora. Segundo Wegrzyn, como alerta teriam bastado torres de vigia em pontos estrat\u00e9gicos, um bom sistema de r\u00e1dio e patrulhas a\u00e9reas.<\/p>\n<p>O ativista Dar\u00edo Fern\u00e1ndez afirmou ao Terram\u00e9rica, de Cholila, que tamb\u00e9m \u201co fogo poderia ter sido apagado com p\u00e1s\u201d, evitando recorrer a brigadas nacionais, avi\u00f5es e helic\u00f3pteros lan\u00e7adores de \u00e1gua que chegaram como apoio do Chile.<\/p>\n<div id=\"attachment_130879\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Ter714Argentina2.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-130879\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Ter714Argentina2.jpg\" alt=\"Fuma\u00e7a isolada no vale do rio Alerce, dia 11 de mar\u00e7o, depois de alguma chuva reparadora na \u00e1rea. A Patag\u00f4nia da Argentina sofreu o maior inc\u00eandio florestal da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Fuma\u00e7a isolada no vale do rio Alerce, dia 11 de mar\u00e7o, depois de alguma chuva reparadora na \u00e1rea. A Patag\u00f4nia da Argentina sofreu o maior inc\u00eandio florestal da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn<\/p><\/div>\n<p><strong>Inc\u00eandio provocado<\/strong><\/p>\n<p>O governo nacional demitiu o respons\u00e1vel pelo Plano Nacional de Manejo do Fogo por erros na gest\u00e3o do inc\u00eandio e denunciou que foi provocado. Essa tamb\u00e9m \u00e9 a tese do governador de Chubut, Mart\u00edn Buzzi, que vinculou o inc\u00eandio ao \u201cneg\u00f3cio imobili\u00e1rio\u201d, que diante da proibi\u00e7\u00e3o de cortar \u00e1rvores, patrim\u00f4nio do Estado, \u201cas fazem desaparecer\u201d. Para deter essa especula\u00e7\u00e3o, Buzzi anunciou medidas como a proibi\u00e7\u00e3o por dez anos de transfer\u00eancia de terras com florestas incendiadas e tamb\u00e9m uma comiss\u00e3o investigadora.<\/p>\n<p>Fern\u00e1ndez, que nasceu e sempre viveu em Cholila, e que havia antecipado que haveria inc\u00eandios intencionais, responsabiliza o \u201cneg\u00f3cio verde\u201d. Ele denunciou que, entre 2003 e 2011, o governador anterior, Mario das Neves, entregou terras fiscais por decreto, violando a Constitui\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia. E explicou que o \u201cneg\u00f3cio verde\u201d inclui desde clubes de campo e desenvolvimentos tur\u00edsticos at\u00e9 a ind\u00fastria florestal, que \u201cprecisa eliminar esp\u00e9cies nativas\u201d para introduzir pinhos comerciais, onde \u201co denominador comum \u00e9 o desmonte\u201d.<\/p>\n<p>Essas den\u00fancias contrariam a hip\u00f3tese de um raio ter sido a origem do fogo, tamb\u00e9m duvidosa para Kitzberger e Wegrzyn, porque a \u00faltima tempestade el\u00e9trica na regi\u00e3o foi em 3 de fevereiro, 12 dias antes de come\u00e7ar o inc\u00eandio, embora ambos tenham admitido que o fogo originado por um raio pode ficar latente de forma incandescente.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 improv\u00e1vel um tempo t\u00e3o prolongado entre a igni\u00e7\u00e3o e a propaga\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Kitzberger, mais ainda quando um dos primeiros focos foi detectado por sat\u00e9lite em um vale, sendo que \u201cos raios tendem a cair em picos ou em ladeiras, mais altos do que os vales\u201d. Mesmo assim, recordou que, desde a d\u00e9cada de 1990, no norte da Patag\u00f4nia h\u00e1 um acentuado aumento da frequ\u00eancia e magnitude de tempestades el\u00e9tricas e de secas, que intensificam os inc\u00eandios.<\/p>\n<p>Por exemplo, no Parque Nacional Nahuel Huapi, a 160 quil\u00f4metros de Cholila, a \u00faltima tempestade el\u00e9trica gerou oito focos de fogo, afirmou Kitzberger. \u201cDa pol\u00edtica \u00e0 m\u00e1fia h\u00e1 apenas uma fa\u00edsca\u201d, resumiu as d\u00favidas sobre o maior sinistro florestal argentino o jornal digital <em>Cholila Online<\/em>, criado por moradores aut\u00f3ctones da regi\u00e3o. Envolverde\/Terram\u00e9rica<\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigos relacionados da IPS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/petroleo-de-xisto-reativa-conflito-indigena-na-argentina\/\" >Petr\u00f3leo de xisto reativa conflito ind\u00edgena na Argentina<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/uma-reserva-de-vida-para-tornar-patagonia-sustentavel\/\" >Uma reserva de vida para tornar a Patag\u00f4nia sustent\u00e1vel<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/aldeias-ecologicas-no-auge\/\" >Aldeias ecol\u00f3gicas no auge<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o dos Programas das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 16 de mar&ccedil;o de 2015 (Terram&eacute;rica).- Ap&oacute;s o inc&ecirc;ndio que arrasou mais de 34 mil hectares de florestas, algumas milenares, na Patag&ocirc;nia, sul da Argentina, as autoridades dever&atilde;o apagar chamas n&atilde;o menos graves: as novas cat&aacute;strofes socioambientais que v&atilde;o surgir de suas cinzas. 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