{"id":18745,"date":"2015-04-01T12:24:28","date_gmt":"2015-04-01T12:24:28","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=131956"},"modified":"2015-04-01T12:24:28","modified_gmt":"2015-04-01T12:24:28","slug":"fazer-as-malas-para-ganhar-respeito-como-policiais-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/04\/ultimas-noticias\/fazer-as-malas-para-ganhar-respeito-como-policiais-na-argentina\/","title":{"rendered":"Fazer as malas para ganhar respeito como policiais na Argentina"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_131958\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/argentina-chica-1-629x472.jpg\"><img class=\"wp-image-131958\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/argentina-chica-1-629x472.jpg\" alt=\"As mulheres j\u00e1 s\u00e3o uma presen\u00e7a comum nas atua\u00e7\u00f5es das diferentes for\u00e7as policiais da Argentina, inclu\u00eddas as de controle de manifesta\u00e7\u00f5es, como esta linha de conten\u00e7\u00e3o de agentes femininas da Pol\u00edcia da Prov\u00edncia de Buenos Aires, durante uma concentra\u00e7\u00e3o nas ruas de um sub\u00farbio da capital. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"540\" height=\"405\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">As mulheres j\u00e1 s\u00e3o uma presen\u00e7a comum nas atua\u00e7\u00f5es das diferentes for\u00e7as policiais da Argentina, inclu\u00eddas as de controle de manifesta\u00e7\u00f5es, como esta linha de conten\u00e7\u00e3o de agentes femininas da Pol\u00edcia da Prov\u00edncia de Buenos Aires, durante uma concentra\u00e7\u00e3o nas ruas de um sub\u00farbio da capital. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 1\/4\/2015 \u2013 Quando ingressaram em suas for\u00e7as de seguran\u00e7a, Marina Faustino e Silvia Miers eram minoria e, para se imporem entre os homens, era preciso \u201cfazer a mala\u201d. Agora, gra\u00e7as a uma pol\u00edtica de igualdade de g\u00eanero, h\u00e1 cada vez mais mulheres policiais na Argentina, combatendo preconceitos sexistas, al\u00e9m do crime.<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o de Faustino, que aos 39 anos \u00e9 oficial principal (cargo abaixo de subcomiss\u00e1rio) da Pol\u00edcia Federal Argentina (PFA), come\u00e7ou quando era adolescente, por admira\u00e7\u00e3o ao seu pai, ent\u00e3o policial dessa for\u00e7a. \u201cEu via meu pai desfilar e queria ser como ele. Mas ele me dizia: a pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 uma passarela\u201d, contou \u00e0 IPS esta policial que na adolesc\u00eancia foi modelo.<\/p>\n<p>Faustino conseguiu entrar na PFA, contra a resist\u00eancia de seu pai. \u201cDizia que era uma institui\u00e7\u00e3o machista, que eu ia sofrer, que a mulher n\u00e3o era considerada\u201d, recordou. E, de fato, sofrimento n\u00e3o faltou desde que aos 20 anos come\u00e7ou os dois anos de instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNaquela \u00e9poca, as mulheres policiais mais antigas usavam cabelo curto. Tinha que se parecer com um homem, e eu dizia: n\u00e3o me vejo assim, sou feminina, que respeitem minha identidade, minha condi\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou Faustino, ao explicar porque nunca cortou seus cabelos ruivos.<\/p>\n<p>Passaram muitos anos para conseguir esse respeito. \u201cNa pol\u00edcia existia um profundo senso de misoginia\u201d, pontuou \u00e0 IPS Natalia Federman, advogada especialista em direitos humanos. Ela foi, entre 2010 e dezembro de 2014, a primeira diretora nacional de Direitos Humanos dentro do Minist\u00e9rio de Seguran\u00e7a, e desenvolveu sua estrat\u00e9gia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>O processo come\u00e7ou com a designa\u00e7\u00e3o pela presidente Cristina Fern\u00e1ndez de uma primeira mulher como ministra dessa pasta, Nilda Garr\u00e9 (2010-2013), que proibiu restri\u00e7\u00f5es ou teto no acesso feminino nas quatro for\u00e7as policiais nacionais e suas escolas, vinculadas ao Minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, nesse per\u00edodo tamb\u00e9m foi determinada a aceita\u00e7\u00e3o de efetivos e oficiais travestis, transexuais e transg\u00eaneros. Garr\u00e9 tamb\u00e9m ordenou respeito \u00e0 identidade de g\u00eanero em todas as inst\u00e2ncias e atua\u00e7\u00f5es das quatro pol\u00edcias, como parte do combate a condutas homof\u00f3bicas e transf\u00f3bicas.<\/p>\n<p>Federman instituiu a estrat\u00e9gia Construindo Institui\u00e7\u00f5es Sens\u00edveis ao G\u00eanero, que regulamentou assuntos como licen\u00e7a maternidade e amamenta\u00e7\u00e3o e foi considerada em 2014 como uma das melhores em sua \u00e1rea pelo Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). \u201cBuscamos formar uma cultura institucional democr\u00e1tica, que promover\u00e1 a igualdade de g\u00eanero e os direitos humanos na \u00e1rea de seguran\u00e7a. Simultaneamente, colocou-se a viol\u00eancia de g\u00eanero como um tema central da seguran\u00e7a cidad\u00e3\u201d, explicou.<\/p>\n<div id=\"attachment_131959\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Argentina2.jpg\"><img class=\"wp-image-131959\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Argentina2.jpg\" alt=\"A inspetora da Pol\u00edcia de Seguran\u00e7a Aeroportu\u00e1ria, Silvia Miers (esquerda), e Marina Faustino, oficial principal da Pol\u00edcia Federal Argentina, contaram \u00e0 IPS suas experi\u00eancias nas for\u00e7as de seguran\u00e7a, antes e depois da aplica\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia sens\u00edvel \u00e0 igualdade de g\u00eanero. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"540\" height=\"405\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A inspetora da Pol\u00edcia de Seguran\u00e7a Aeroportu\u00e1ria, Silvia Miers (esquerda), e Marina Faustino, oficial principal da Pol\u00edcia Federal Argentina, contaram \u00e0 IPS suas experi\u00eancias nas for\u00e7as de seguran\u00e7a, antes e depois da aplica\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia sens\u00edvel \u00e0 igualdade de g\u00eanero. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2011, sua equipe fez uma pesquisa interna para detectar as \u201climita\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas ou regulamentares\u201d que exclu\u00edam as mulheres de determinados cargos. O estudo mostrou que \u201c37,7% das mulheres e 55,1% dos homens opinavam que os homens est\u00e3o mais capacitados para as tarefas de preven\u00e7\u00e3o, conten\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a em manifesta\u00e7\u00f5es\u201d, citou Federman.<\/p>\n<p>Miers, que saiu da For\u00e7a A\u00e9rea para a Pol\u00edcia de Seguran\u00e7a Aeroportu\u00e1ria (PSA), enfrentou esses estere\u00f3tipos. Hoje a PSA \u00e9 a for\u00e7a nacional com maior porcentagem de mulheres, 38% do total de efetivos, seguida da PFA com 23% de mulheres oficiais ou suboficiais, a Gendarmaria Nacional com 18%, e a da Prefeitura com 9%.<\/p>\n<p>Mas a situa\u00e7\u00e3o era muito diferente quando Miers come\u00e7ou sua carreira e como respons\u00e1vel por uma maioria de homens teve que mostrar \u201cextrema seriedade\u201d e \u201cdureza\u201d para ser respeitada. \u201cTodos lembram de mim como a pior de todas\u201d, recordou \u00e0 IPS a agora inspetora da PSA, com 80 pessoas sob sua dire\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o h\u00e1 outra alternativa, se uma dava um pouquinho de confian\u00e7a ou simpatia, era considerada a que andava com todos, ou a que chegou a determinado espa\u00e7o profissional porque saiu com o chefe\u201d, acrescentou esta oficial de 38 anos.<\/p>\n<p>Faustino tamb\u00e9m sofreu quando muito jovem teve como subalternos em uma delegacia homens que por suas idades \u201cpoderiam ser meus pais\u201d, ou jovens que brincavam dizendo \u201ca\u00ed vem a ruiva\u201d. Ressaltou que precisou \u201canalisar o que fazer porque n\u00e3o podia simplesmente dizer \u2018eu sou a chefe, eu decido\u2019. Precisava aprender com sua experi\u00eancia para n\u00e3o me colocar contra eles\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa revelou situa\u00e7\u00f5es mais graves, como a de 13,8% que sofreram ass\u00e9dio sexual, muitas vezes por parte de superiores masculinos, e que s\u00f3 8% das afetadas haviam denunciado o caso. Agora existem Centros de Aten\u00e7\u00e3o de G\u00eanero na pol\u00edcia que recebem den\u00fancias internas de ass\u00e9dio, discrimina\u00e7\u00e3o sexual e viol\u00eancia no trabalho, bem como requerimentos para conciliar fam\u00edlia e profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Miers, com dois filhos e em processo de div\u00f3rcio, teve esse problema ao aceitar um cargo importante. Um \u201chomem n\u00e3o o faria com sua esposa\u201d, mas ela consultou seu marido por medo de que, \u201cquando chegasse em casa, o encontrasse de cara fechada\u201d. \u201cAntes, com hor\u00e1rio de 8h \u00e0s 14h, fazia a tarefa com meus filhos, cozinhava. Disse ao meu marido: \u2018nossa vida n\u00e3o ser\u00e1 a mesma. A partir de agora irei pela manh\u00e3 ao aeroporto, mas n\u00e3o sei que horas voltarei, pe\u00e7o que me entenda, que n\u00e3o fique com raiva e nem com ci\u00fames\u2019, porque eu estava cercada de homens\u201d, acrescentou Miers.<\/p>\n<p>Faustino destacou que enquanto em 2010 havia s\u00f3 uma mulher comiss\u00e1ria-inspetora, atualmente \u00e9 uma mulher, Mabel Franco, a comiss\u00e1ria-geral da PFA. \u201cN\u00e3o existe perspectiva de g\u00eanero sem mulheres que a levem adiante\u201d, ressaltou a atual ministra de Seguran\u00e7a, Cecilia Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais teto\u201d para promo\u00e7\u00f5es, comemorou Miers, esclarecendo que \u201co respeito se ganha com base no esfor\u00e7o e \u00e0s vezes redobrando o de um homem. \u00c9 preciso estudar muito, se capacitar, se de verdade deseja chegar a um espa\u00e7o de dire\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo Federman, faltam v\u00e1rias promo\u00e7\u00f5es para que as mulheres alcancem postos mais altos, para avaliar se conseguiram \u201cuma real igualdade\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, \u00e9 preciso combater estere\u00f3tipos como o de que os atributos indispens\u00e1veis para ser um bom policial s\u00e3o aqueles vinculados \u201ca uma masculinidade hegem\u00f4nica\u201d (lideran\u00e7a, for\u00e7a f\u00edsica, valentia), afirmou Federman. Esses preconceitos relegam outros atributos, \u201ct\u00e3o ou mais necess\u00e1rios para se ter um bom servi\u00e7o policial, como capacidade de empatia, facilidade para o di\u00e1logo, a negocia\u00e7\u00e3o e para incentivar o pessoal, muitos dos quais historicamente s\u00e3o atribu\u00eddos \u00e0s mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Valores que, segundo Faustino, lhe serviram, por exemplo, para controlar nos est\u00e1dios as \u201cbarras bravas\u201d (torcida violenta) da popular equipe de futebol Boca Juniors, tarefa que exerceu por 12 anos. \u201cPodemos fazer um trabalho policial e t\u00e1tico, e sorrir, oferecer um copo de \u00e1gua, falar, e te respeitam\u201d, afirmou. Ela os tratou como \u201ccavalheiros\u201d, aprendeu \u201cseu c\u00f3digo\u201d e conseguiu.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m atravessou situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. Faustino contou que, certa vez, um torcedor \u201cme disse uma <i>guarangada<\/i> (grosseria), e respondi com o que mais lhe do\u00eda: impedi-lo de entrar no est\u00e1dio. \u201cN\u00e3o digo as coisas aos gritos e obtenho mais resultados\u201d, acrescentou. Agora estuda psicologia para apoiar-se na media\u00e7\u00e3o de conflitos, como aqueles vinculados \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero. \u201c\u00c0s vezes as mulheres funcionam como mediadoras, evitamos o choque. Ouvimos. A cortesia n\u00e3o impede o valente\u201d, destacou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Buenos Aires, Argentina, 1\/4\/2015 &ndash; Quando ingressaram em suas for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, Marina Faustino e Silvia Miers eram minoria e, para se imporem entre os homens, era preciso &ldquo;fazer a mala&rdquo;. 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