{"id":18808,"date":"2015-04-14T13:44:36","date_gmt":"2015-04-14T13:44:36","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=132557"},"modified":"2015-04-14T13:44:36","modified_gmt":"2015-04-14T13:44:36","slug":"a-politica-externa-esta-nas-maos-de-sonambulos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/04\/ultimas-noticias\/a-politica-externa-esta-nas-maos-de-sonambulos\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica externa est\u00e1 nas m\u00e3os de son\u00e2mbulos"},"content":{"rendered":"<p>Roma, It\u00e1lia, abril\/2015 \u2013 A Gr\u00e3-Bretanha \u00e9 acusada de \u201csonambulismo\u201d na crise da Ucr\u00e2nia. A imputa\u00e7\u00e3o vem nada mais nada menos do que da C\u00e2mara dos Lordes, que normalmente \u00e9 considerada um manancial de an\u00e1lises cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Em um severo informe, a C\u00e2mara dos Lordes observa que a Gr\u00e3-Bretanha e igualmente o resto da Uni\u00e3o Europeia (UE) atuam como son\u00e2mbulos, ao abordar um problema muito complexo sem ver as poss\u00edveis consequ\u00eancias, permitindo que os burocratas tomem decis\u00f5es pol\u00edticas cruciais.<\/p>\n<p>O informe destaca que, somente quando o conflito na Ucr\u00e2nia estava muito avan\u00e7ado, os l\u00edderes pol\u00edticos decidiram negociar o acordo de cessar-fogo de Minsk, acordado em 12 de fevereiro por Angela Merkel (Alemanha), Fran\u00e7ois Hollande (Fran\u00e7a), Vladimir Putin (R\u00fassia) e Petro Poroshenko (Ucr\u00e2nia), com a not\u00f3ria aus\u00eancia do primeiro-ministro brit\u00e2nico, David Cameron.<\/p>\n<p>De fato, a Europa deixou nas m\u00e3os dos burocratas da UE e da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) a tomada de decis\u00f5es relacionadas com a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>S\u00e3o da mesma classe de burocratas daqueles designados pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional, pelo Banco Mundial e pela Comiss\u00e3o Europeia, que com sua arrog\u00e2ncia habitual decidiram o resgate concedido \u00e0 Gr\u00e9cia, onde \u00e9 sabido que a prioridade foi reembolsar os bancos europeus, especialmente alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam uma grande responsabilidade nessas situa\u00e7\u00f5es. Em todos os conflitos dos \u00faltimos tempos, desde Kosovo at\u00e9 a L\u00edbia, a f\u00f3rmula tem sido muito simples: dividir os envolvidos em bons e maus. A norma \u00e9 repetir declara\u00e7\u00f5es dos \u201cbons\u201d e satanizar os \u201cmaus\u201d. A m\u00eddia pensa que \u00e9 prefer\u00edvel n\u00e3o entrar em exames anal\u00edticos, porque os leitores preferem ir diretamente ao assunto.<\/p>\n<p>O exemplo mais recente. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o informam sobre os combates do ex\u00e9rcito iraquiano contra as tropas invasoras do grupo extremista Estado Isl\u00e2mico (EI).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quanto tamb\u00e9m informam sobre o fato de dois ter\u00e7os do ex\u00e9rcito iraquiano, na realidade, serem soldados iranianos? E sobre os norte-americanos que participam da supervis\u00e3o da ofensiva e est\u00e3o de fato aceitando a coopera\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3, formalmente um grande inimigo, porque \u00e9 evidente que se este pa\u00eds for exclu\u00eddo n\u00e3o haver\u00e1 maneira de resolver os conflitos no Oriente M\u00e9dio?<\/p>\n<p>E quantos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o informam que todos os mu\u00e7ulmanos radicais recebem apoio financeiro da Ar\u00e1bia Saudita, que est\u00e1 empenhada em propagar o salafismo, o movimento radical sunita, que deu origem \u00e0 Al Qaeda e atualmente ao Estado Isl\u00e2mico?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria recente demonstra que o Ocidente se imiscuiu em uma s\u00e9rie de conflitos (Kosovo em 1999, Afeganist\u00e3o em 2001, Iraque em 2003, L\u00edbia em 2011 e S\u00edria em 2012) sem ver al\u00e9m das consequ\u00eancias imediatas e sem fazer uma an\u00e1lise de longo prazo.<\/p>\n<p>Os custos dos conflitos sempre superaram os benef\u00edcios previstos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelo colapso da Iugosl\u00e1via, \u00e9 necess\u00e1rio recordar que o Ocidente sustenta tr\u00eas princ\u00edpios do direito internacional em virtude do qual protege a si mesmo do resultado de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Primeiro, o princ\u00edpio da inviolabilidade das fronteiras nacionais de um Estado, que n\u00e3o foi aplicado \u00e0 Servia, mas \u00e9 aplicado \u00e0 Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>O segundo princ\u00edpio \u00e9 o da livre determina\u00e7\u00e3o dos povos, utilizado em Kosovo para a minoria albanesa, mas que n\u00e3o \u00e9 considerado v\u00e1lido agora para as popula\u00e7\u00f5es russas da Ucr\u00e2nia ocidental.<\/p>\n<p>O terceiro \u00e9 o direito de interven\u00e7\u00e3o para a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias, que se utilizou na L\u00edbia e agora est\u00e1 sendo considerado para a S\u00edria.<\/p>\n<p>O drama dos conflitos dos B\u00e1lc\u00e3s se deveu a uma a\u00e7\u00e3o totalmente unilateral da Alemanha, quando entre 1991 e 1992 decidiu separar Cro\u00e1cia e Eslov\u00eania da Federa\u00e7\u00e3o Iugoslava, por consider\u00e1-las sua \u00e1rea de interesse econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Foi a primeira vez que a Alemanha desempenhou um papel firme, com o apoio dos Estados Unidos. Tratou-se de um reflexo da Guerra Fria: acabemos com a Iugosl\u00e1via, \u00fanico pa\u00eds de esquerda depois da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, inspirado em um Estado socialista em lugar de uma economia de mercado.<\/p>\n<p>A S\u00e9rvia, que se considerava herdeira do Reino da Iugosl\u00e1via (do qual Tito havia criado a Iugosl\u00e1via Socialista), interveio e houve um terr\u00edvel conflito.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00e9 interessante observar que, h\u00e1 apenas algumas semanas, o Tribunal Internacional de Justi\u00e7a sentenciou que nem S\u00e9rvia nem Cro\u00e1cia haviam realizado uma guerra genocida. A not\u00edcia foi divulgada em numerosos meios de comunica\u00e7\u00e3o, mas sem uma palavra de contextualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois houve o caso do Iraque, quando o atentado contra as Torres G\u00eameas em setembro de 2001 serviu de justificativa para atacar o pa\u00eds, com base em afirma\u00e7\u00f5es de que o l\u00edder iraquiano Saddam Hussein apoiava a Al Qaeda, o grupo respons\u00e1vel pelo atentado em Nova York, e que possu\u00eda armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa que representavam uma amea\u00e7a imediata para os Estados Unidos e seus aliados.<\/p>\n<p>As duas acusa\u00e7\u00f5es, que se mostraram falsas, foram propagadas \u00e0s cegas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O certo \u00e9 que o motivo da guerra, que custou pelo menos US$ 2 trilh\u00f5es e muitas mortes e destrui\u00e7\u00f5es materiais, foi o petr\u00f3leo iraquiano.<\/p>\n<p>Antes da guerra, a produ\u00e7\u00e3o anual total do Iraque era de 3,7 milh\u00f5es de barris di\u00e1rios. Atualmente, uma parte est\u00e1 sob controle do Estado Isl\u00e2mico e outra dos curdos, que somam mais de um ter\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o que acontece com o Afeganist\u00e3o onde n\u00e3o h\u00e1 petr\u00f3leo? Nesse pa\u00eds foram gastos US$ 2 trilh\u00f5es&#8230; E o prop\u00f3sito dessa guerra era apenas o de eliminar a Al Qaeda e seu l\u00edder Osama bin Laden.<\/p>\n<p>Entre outras coisas, se disse que a democracia seria instaurada no Afeganist\u00e3o. Mas, depois de mais de 50 mil mortos, ningu\u00e9m mais fala em fortalecer as institui\u00e7\u00f5es. Os Estados Unidos e seus aliados est\u00e3o simplesmente tratando de se livrar de um pa\u00eds cujo futuro \u00e9 sombrio.<\/p>\n<p>Agora se imp\u00f5e a seguinte pergunta: como \u00e9 poss\u00edvel que os governantes respons\u00e1veis por esses epis\u00f3dios n\u00e3o sejam capazes de ver al\u00e9m das consequ\u00eancias imediatas e sejam incapazes de encarar a pol\u00edtica externa sem fazer an\u00e1lise de longo prazo?<\/p>\n<p>Por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel que nenhum dos governantes que participaram da interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia tenha questionado se era acertada ou apresentava muito mais riscos do que benef\u00edcios, apesar de sua convic\u00e7\u00e3o de que Muammar Gaddafi era um vil\u00e3o que deveria ser eliminado? Algum deles se perguntou o que aconteceria depois?<\/p>\n<p>E o que dizer dos pol\u00edticos que n\u00e3o imaginaram o que significaria apoiar uma guerra para eliminar Bashar al Assad na S\u00edria e o que poderia acontecer depois?<\/p>\n<p>Ao que parece, a C\u00e2mara dos Lordes tem raz\u00e3o. A pol\u00edtica est\u00e1 nas m\u00e3os de son\u00e2mbulos.<\/p>\n<p>O Ocidente se fez respons\u00e1vel por pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o vi\u00e1veis (Kosovo), pela desintegra\u00e7\u00e3o de outros (Iugosl\u00e1via e agora, provavelmente, Iraque) e da abertura de zonas de instabilidade (L\u00edbia e S\u00edria).<\/p>\n<p>E, na Ucr\u00e2nia, a interven\u00e7\u00e3o ocidental se prop\u00f5e a atrair o pa\u00eds para a UE e empurr\u00e1-la para a Otan, provocando, dessa forma, um conflito de inimagin\u00e1veis consequ\u00eancias com a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Todos esses erros custaram centenas de milhares de vidas, milh\u00f5es de refugiados e, no total, um custo m\u00ednimo de US$ 7 trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem poder\u00e1 despertar os son\u00e2mbulos? Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <\/i><b><i>Roberto Savio <\/i><\/b><i>\u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor da newsletter Other News. \u00a0\u00a0\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma, It&aacute;lia, abril\/2015 &ndash; A Gr&atilde;-Bretanha &eacute; acusada de &ldquo;sonambulismo&rdquo; na crise da Ucr&acirc;nia. A imputa&ccedil;&atilde;o vem nada mais nada menos do que da C&acirc;mara dos Lordes, que normalmente &eacute; considerada um manancial de an&aacute;lises cr&iacute;ticas. 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