{"id":18819,"date":"2015-04-16T14:16:00","date_gmt":"2015-04-16T14:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=132682"},"modified":"2015-04-16T14:16:00","modified_gmt":"2015-04-16T14:16:00","slug":"camponesas-latino-americanas-abrem-sulcos-de-um-feminismo-proprio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/04\/ultimas-noticias\/camponesas-latino-americanas-abrem-sulcos-de-um-feminismo-proprio\/","title":{"rendered":"Camponesas latino-americanas abrem sulcos de um feminismo pr\u00f3prio"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_132684\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-campesinas-11-591x472-1.jpg\"><img class=\"wp-image-132684\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-campesinas-11-591x472-1.jpg\" alt=\"Um grupo de mulheres ind\u00edgenas participa de um dos debates da V Assembleia Continental de Mulheres do Campo, dentro do VI Congresso da Coordenadoria Latino-Americana de Organiza\u00e7\u00f5es do Campo - Via Camponesa, realizado na localidade argentina de Ezeiza, na Grande Buenos Aires. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"540\" height=\"431\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um grupo de mulheres ind\u00edgenas participa de um dos debates da V Assembleia Continental de Mulheres do Campo, dentro do VI Congresso da Coordenadoria Latino-Americana de Organiza\u00e7\u00f5es do Campo &#8211; Via Camponesa, realizado na localidade argentina de Ezeiza, na Grande Buenos Aires. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ezeiza, Argentina, 16\/4\/2015 \u2013 Organiza\u00e7\u00f5es camponesas da Am\u00e9rica Latina tentam definir os conceitos de um feminismo \u201ccampon\u00eas e popular\u201d, que incorpore uma cosmovis\u00e3o rural, nem sempre coincidente com a vis\u00e3o das mulheres urbanas, ou modelos econ\u00f4micos alternativos.<\/p>\n<p>Para Gregoria Ch\u00e1vez, uma veterana camponesa da prov\u00edncia argentina de Santiago del Estero, o feminismo inclui \u201cas lutas e o apoio dos companheiros para defender as terras. At\u00e9 h\u00e1 pouco, para ela o feminismo era um conceito estranho. Mas, como tantas outras camponesas latino-americanas em suas localidades, agora protagoniza em sua prov\u00edncia as batalhas contra o avan\u00e7o da monocultura da soja e o desalojamento de pequenos produtores.<\/p>\n<p>\u201cPenso que a mulher \u00e9 importante no campo porque tem mais coragem do que o homem. Eu n\u00e3o tenho medo de nada. Sempre digo \u00e0s minhas companheiras que sem coragem n\u00e3o conseguiremos nada\u201d, contou Ch\u00e1vez \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Definir um feminismo pr\u00f3prio n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil para a Coordenadoria Latino-Americana de Organiza\u00e7\u00f5es do Campo &#8211; Via Camponesa, que realiza seu VI Congresso, entre os dias 10 e 17 deste m\u00eas, no munic\u00edpio de Ezeiza, que faz parte da Grande Buenos Aires. Mas seus integrantes t\u00eam claro que n\u00e3o se limita a uma \u201csimples agenda de igualdade de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>O aprofundamento do feminismo no \u00e2mbito rural foi parte do debate da V Assembleia Continental de Mulheres do Campo, um f\u00f3rum realizado no contexto do Congresso, que reuniu 400 delegadas de 18 pa\u00edses latino-americanos e caribenhos e terminou no dia 14.<\/p>\n<p>Como disse Deolinda Carrizo, do argentino Movimento Nacional Campon\u00eas Ind\u00edgena, na assembleia ao menos se tentou \u201cabrir esses sulcos cada vez mais\u201d. O termo feminismo assusta muitas camponesas, segundo Rilma Rom\u00e1n, delegada da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pequenos Agricultores de Cuba e integrante da coordena\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o internacional Via Camponesa, onde, segundo ela, as mulheres s\u00e3o metade dos l\u00edderes.<\/p>\n<p>\u201cAssusta porque muitas vezes se pensa que feminismo \u00e9 as mulheres estarem sozinhas lutando contra os homens, que somos dois grupos\u201d, explicou Rom\u00e1n \u00e0 IPS. \u201c\u00c9 um tema praticamente novo em nossos debates. Creio que \u00e9 preciso dar um tempo para poder explicar e chegar a um consenso\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Para Carrizo, \u00e9 preciso, por exemplo, explicar temas como o da diversidade sexual. \u201cAntes era muito dif\u00edcil encontrar em uma comunidade camponesa travestis que se manifestassem como tal. Havia muita autorrepress\u00e3o e repress\u00e3o que ainda existe\u201d, \u00a0pontuou. \u201cPara os mais velhos \u00e9 dif\u00edcil entender que h\u00e1 companheiros que t\u00eam outra op\u00e7\u00e3o sexual. Pouco a pouco vamos vendo como abordar o tema e incentiv\u00e1-los a aceitar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<div id=\"attachment_132685\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-campesinas-2.jpg\"><img class=\"wp-image-132685\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-campesinas-2.jpg\" alt=\"Tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de mulheres rurais coletam vagens de alfabrroba no povoado de San Ger\u00f3nimo, na prov\u00edncia de Santiago del Estero, na Argentina. As camponesas latino-americanas produzem metade dos alimentos da regi\u00e3o. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"540\" height=\"405\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de mulheres rurais coletam vagens de alfabrroba no povoado de San Ger\u00f3nimo, na prov\u00edncia de Santiago del Estero, na Argentina. As camponesas latino-americanas produzem metade dos alimentos da regi\u00e3o. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A V Assembleia de mulheres rurais reconhece a \u201ccontribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d do feminismo, mas parte de um conceito diferente do \u201ccapitalismo\u201d, que, segundo Carrizo, imp\u00f4s a explora\u00e7\u00e3o, inclusive de g\u00eanero. Preferem defini-lo sob a lupa da reforma agr\u00e1ria, da disputa contra as transnacionais agr\u00edcolas, da concentra\u00e7\u00e3o de terras e \u00e1gua, do agroneg\u00f3cio e da megaminera\u00e7\u00e3o, que exclui e marginaliza homens e mulheres.<\/p>\n<p>\u201cMas as mulheres, especialmente as do meio rural, sempre foram mais exclu\u00eddas\u201d, disse Marina dos Santos do brasileiro Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que afirmou \u00e0 IPS que tamb\u00e9m est\u00e3o exclu\u00eddas das pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade ou educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil est\u00e3o fechando escolas rurais. Os postos de sa\u00fade, quando existem, n\u00e3o t\u00eam m\u00e9dicos, enfermeiras ou rem\u00e9dios. Muitas mulheres no campo come\u00e7am seu trabalho de parto e por falta de hospitais ou transporte acabam morrendo\u201d, ressaltou Santos. Tamb\u00e9m se marginaliza as mulheres da posse da terra e do acesso ao cr\u00e9dito rural.<\/p>\n<p>\u201cA mulher \u00e9 quem mais trabalha, mas \u00e9 a \u00faltima que tem acesso \u00e0 terra e \u00e9 a mais explorada como m\u00e3o de obra barata. O \u00eaxodo rural fez com que os homens saiam cada vez mais para trabalhar fora, e as mulheres ficaram com a parte de subsist\u00eancia de suas fam\u00edlias\u201d, apontou Santos.<\/p>\n<p>\u201cAs terras s\u00e3o entregues primeiro ao homem. As mulheres que s\u00e3o chefes de fam\u00edlia, que n\u00e3o t\u00eam companheiro, n\u00e3o t\u00eam possibilidades porque devemos ter como refer\u00eancia um homem\u201d, acrescentou Luzdari Molina, da Federa\u00e7\u00e3o Sindical Agropecu\u00e1ria da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>\u201cOutra particularidade, como ocorre na Col\u00f4mbia, \u00e9 que as mulheres do campo ainda s\u00e3o muito pouco escolarizadas, porque t\u00eam de cuidar da fam\u00edlia\u201d, ressaltou Molina \u00e0 IPS. As participantes da V Assembleia destacaram como as tarefas dom\u00e9sticas e o cuidado com a fam\u00edlia se soma ao peso da produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>\u201cEm Santiago del Estero h\u00e1 \u00e9pocas que \u00e9 preciso ir ao curral atender as cabras ou vacas. Quando os homens partem (como trabalhadores tempor\u00e1rios para outras prov\u00edncias) a mulher fica sustentando o trabalho da casa e da terra\u201d, contou Carrizo.<\/p>\n<p>\u201cAs camponesas n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas como trabalhadoras. Em minha regi\u00e3o (o departamento colombiano de Boyac\u00e1) estamos de p\u00e9 desde as tr\u00eas da manh\u00e3 para ordenhar vacas, cuidar da casa, preparar o desjejum para oper\u00e1rios, atender nossa pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o e o dia vai acabando\u201d, disse Molina.<\/p>\n<p>As mulheres rurais, segundo Carrizo, tamb\u00e9m s\u00e3o as que historicamente exercem o papel de \u201cguardi\u00e3s das sementes\u201d, e por isso vivem como \u201cviol\u00eancia\u201d as tentativas de \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o das sementes\u201d. Tamb\u00e9m sentem como viol\u00eancia as fumiga\u00e7\u00f5es com pesticidas, porque afetam \u201ca sa\u00fade de nossos filhos e a nossa, porque causam abortos espont\u00e2neos, malforma\u00e7\u00f5es e ac\u00famulo desses venenos no leite materno\u201d, destacou a representante argentina.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a brasileira Santos destacou que os problemas de g\u00eanero que s\u00e3o comuns para as mulheres urbanas, se agravam para as que vivem no campo. Deu como exemplo o caso da viol\u00eancia dom\u00e9stica, que piora porque as delegacias especializadas da mulher est\u00e3o nas cidades.<\/p>\n<p>Segundo Molina, na Col\u00f4mbia \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada que garanta \u00e0s mulheres se afastar do territ\u00f3rio onde s\u00e3o agredidas\u201d, o que evita as den\u00fancias. \u201cOs vizinhos dizem n\u00e3o se meter, que assuntos de casal s\u00e3o acertados debaixo das cobertas. Mas, quando se chega a extremos, a comunidade vai ao enterro e celebra missas para que salvem a alma do pobre marido. \u00c9 muito triste, mas \u00e9 real\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 como abordar esses temas, \u00e0s vezes aceitos como naturais. \u201cNo campo h\u00e1 muito machismo e muitas mulheres o trazem incorporado desde que nascem\u201d, ressaltou a cubana Rom\u00e1n. \u201cH\u00e1 companheiras ou companheiros que acreditam que queremos que se separem das fam\u00edlias, ou o div\u00f3rcio\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Por isso deveria ser considerada a \u201cdiferen\u00e7a de cosmovis\u00e3o de cada povo\u201d, pontuou Carrizo. \u201cA mulher camponesa na Col\u00f4mbia, por exemplo, n\u00e3o se sente identificada como feminista. O que chama a aten\u00e7\u00e3o (na mulher urbana) \u00e9 uma quest\u00e3o de classe, elas t\u00eam certas comodidades e atividades diferentes das suas\u201d, afirmou Molina.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes arrastamos essa concep\u00e7\u00e3o do feminismo como aprendemos, de que para enfrentar o machismo \u00e9 preciso tamb\u00e9m ter uma atitude opressora. Mas aqui n\u00e3o se trata de pregar isso, mas de um feminismo com uma atitude de solidariedade entre companheiras e companheiros\u201d, destacou Carrizo.<\/p>\n<p><b>A iniquidade em n\u00fameros<\/b><\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO), 58 milh\u00f5es de mulheres vivem em zonas rurais da Am\u00e9rica Latina e representam uma pe\u00e7a fundamental da seguran\u00e7a alimentar regional, da preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e da produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas, apesar de produzirem metade dos alimentos da regi\u00e3o, as mulheres rurais vivem em situa\u00e7\u00e3o de desigualdade social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Daquelas com mais de 15 anos, apenas 40% contam com renda pr\u00f3pria e apenas 30% possuem t\u00edtulo de posse da terra, 10% dos cr\u00e9ditos e 5% da assist\u00eancia t\u00e9cnica. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ezeiza, Argentina, 16\/4\/2015 &ndash; Organiza&ccedil;&otilde;es camponesas da Am&eacute;rica Latina tentam definir os conceitos de um feminismo &ldquo;campon&ecirc;s e popular&rdquo;, que incorpore uma cosmovis&atilde;o rural, nem sempre coincidente com a vis&atilde;o das mulheres urbanas, ou modelos econ&ocirc;micos alternativos. 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