{"id":18826,"date":"2015-04-16T14:21:11","date_gmt":"2015-04-16T14:21:11","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=132730"},"modified":"2015-04-16T14:21:11","modified_gmt":"2015-04-16T14:21:11","slug":"ataques-com-acido-martirizam-milhares-de-mulheres-na-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/04\/ultimas-noticias\/ataques-com-acido-martirizam-milhares-de-mulheres-na-india\/","title":{"rendered":"Ataques com \u00e1cido martirizam milhares de mulheres na \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_132732\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/acido-629x420.jpg\"><img class=\"wp-image-132732\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/acido-629x420.jpg\" alt=\"Milhares de jovens que sobreviveram aos ataques com \u00e1cido sofrem consequ\u00eancias f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas e sociais. Foto: Zofeen Ebrahim\/IPS\" width=\"540\" height=\"361\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Milhares de jovens que sobreviveram aos ataques com \u00e1cido sofrem consequ\u00eancias f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas e sociais. Foto: Zofeen Ebrahim\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nova D\u00e9lhi, \u00cdndia, 16\/4\/2015 \u2013 Vinita Panicker, de 26 anos, se considera \u201ca mulher mais desafortunada do mundo\u201d. H\u00e1 tr\u00eas anos, seu marido suspeitou que ela tivesse um namoro com seu chefe em uma empresa de programas de inform\u00e1tica na \u00cdndia e atirou uma garrafa de \u00e1cido clor\u00eddrico em seu rosto enquanto ela dormia.<\/p>\n<p>Seu bonito rosto de antes hoje \u00e9 uma superf\u00edcie desfigurada de pele queimada e tensionada, com nariz, l\u00e1bios e p\u00e1lpebras quase completamente sem relevo. A sobrevivente continua cega de um olho, embora tenha gasto US$ 10 mil em 12 cirurgias de reconstitui\u00e7\u00e3o e duas opera\u00e7\u00f5es da vista.<\/p>\n<p>Panicker ganhava sal\u00e1rio de cinco d\u00edgitos em d\u00f3lares como profissional da inform\u00e1tica, e passou a trabalhar como cozinheira em uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos. \u201cMinha vida deu um giro de 180 graus. De profissional de sucesso, me converti em uma rejeitada social sem recursos pr\u00f3prios nem fam\u00edlia\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Os ataques com \u00e1cido causam estragos na vida de milhares de mulheres jovens que rejeitam propostas de casamento, insinua\u00e7\u00f5es sexuais ou que se veem presas no fogo cruzado das disputas dom\u00e9sticas. Na sociedade patriarcal da \u00cdndia, os homens que se sentem desprezados recorrem ao \u00e1cido como arma de repres\u00e1lia.<\/p>\n<p>O \u00e1cido \u201cprejudica e queima a pele severamente, frequentemente deixando expostos e at\u00e9 dissolvendo os ossos\u201d, explicou Rohit Bhargava, dermatologista do hospital Max, em Noida, distrito suburbano do Estado de Uttar Pradesh, onde foram cometidos 185 dos 309 ataques denunciados em 2014 neste pa\u00eds de mais de 1,2 bilh\u00e3o de habitantes. \u201cAlgumas das consequ\u00eancias no longo prazo s\u00e3o cegueira, cicatrizes permanentes no rosto e no corpo, incapacidade e desfigura\u00e7\u00e3o f\u00edsica por toda a vida\u201d, acrescentou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Mas algumas sobreviventes garantem que as cicatrizes psicol\u00f3gicas s\u00e3o as que mais demoram para curar. Tamb\u00e9m h\u00e1 ramifica\u00e7\u00f5es sociais, j\u00e1 que os ataques costumam deixar as v\u00edtimas incapacitadas em diferentes n\u00edveis, o que aumenta sua depend\u00eancia dos familiares, inclusive para atividades cotidianas mais b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Shirin Juwaley, a v\u00edtima que criou a Funda\u00e7\u00e3o Palash para promover reintegra\u00e7\u00e3o social e meios de vida alternativos para pessoas desfiguradas, afirmou que a exclus\u00e3o social \u00e9 muito mais dolorosa do que os danos f\u00edsicos. \u201c\u00c9 muito menos tang\u00edvel, mas a discrimina\u00e7\u00e3o de amigos, familiares e vizinhos d\u00f3i mais\u201d, ressaltou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Em 1998, o marido de Juwaley jogou \u00e1cido nela, depois que ela pediu o div\u00f3rcio. Embora o tenha denunciado v\u00e1rias vezes \u00e0 pol\u00edcia, ele continua livre. Atualmente, Juwaley viaja pelo mundo dando confer\u00eancias sobre o impacto social, econ\u00f4mico e psicol\u00f3gico das queimaduras de \u00e1cido. Sua organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m estuda a exclus\u00e3o social dos que vivem com seus corpos alterados.<\/p>\n<p>O Fundo Internacional de Sobreviventes ao \u00c1cido (Asti), uma organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria com sede em Londres, calcula que a cada ano acontecem cerca de mil ataques com \u00e1cido na \u00cdndia. Mas, devido \u00e0 aus\u00eancia de estat\u00edsticas oficiais, outros ativistas dizem que esse n\u00famero poderia chegar a 400 ataques por m\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cO temor por repres\u00e1lias impede que muitas mulheres denunciem sua terr\u00edvel experi\u00eancia\u201d, explicou Ashish Shukla, coordenador de Parem os Ataques com \u00c1cido, uma organiza\u00e7\u00e3o independente com sede em Nova D\u00e9lhi, que reabilitou mais de cem v\u00edtimas desde sua funda\u00e7\u00e3o, em 2013. Esses ataques \u201cs\u00e3o inclusive piores do que a viola\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que as v\u00edtimas, geralmente mulheres, s\u00e3o submetidas \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o di\u00e1ria. A maioria \u00e9 rejeitada e condenada ao ostracismo\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O ativista afirmou que a apatia oficial e do p\u00fablico provoca a dupla vitimiza\u00e7\u00e3o das sobreviventes. \u201cS\u00e3o obrigadas a comparecer v\u00e1rias vezes perante a justi\u00e7a, relatar seu trauma e visitar m\u00e9dicos, enquanto devem lidar com sua trag\u00e9dia pessoal pela desfigura\u00e7\u00e3o f\u00edsica, perda de emprego e discrimina\u00e7\u00e3o social\u201d, destacou Shukla.<\/p>\n<p>Segundo a Lei de Direito Penal (Emenda) de 2013, a condena\u00e7\u00e3o para quem ataca com \u00e1cido outra pessoa varia do m\u00ednimo de dez anos at\u00e9 pris\u00e3o perp\u00e9tua. A Suprema Corte da \u00cdndia determinou, em julho de 2013, que todos os Estados devem regular a venda de subst\u00e2ncias como \u00e1cido clor\u00eddrico, sulf\u00farico ou n\u00edtrico, que os atacantes costumam utilizar, e que os compradores devem apresentar documento com fotografia que os identifique, no momento da compra. J\u00e1 os vendedores devem registrar o nome e o endere\u00e7o de cada cliente.<\/p>\n<p>Mas a maioria dos comerciantes com os quais a IPS conversou ignoravam a medida. \u201c\u00c9 a primeira vez que ou\u00e7o falar dessa decis\u00e3o\u201d, disse Suresh Gupta, dono da Gupta Stores, pequena loja em Noida. Os ativistas alertam que esse horroroso tipo de viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o cessar\u00e1 enquanto o governo n\u00e3o dificultar a aquisi\u00e7\u00e3o dessas subst\u00e2ncias. Atualmente, as garrafas de um litro de \u00e1cido podem ser compradas sem receita por apenas US$ 0,33.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do m\u00eas, a Suprema Corte determinou que os hospitais privados devem tratar gratuitamente os sobreviventes de ataques com \u00e1cido e que os Estados devem tomar medidas contra os centros m\u00e9dicos que n\u00e3o cumprirem a medida.<\/p>\n<p>Os especialistas recomendam que a \u00cdndia siga o exemplo de seus vizinhos Paquist\u00e3o e Bangladesh. Neste \u00faltimo, os ataques com \u00e1cido baixaram de 492 casos em 2002 para 75 em 2014, segundo a Asti, depois que o governo incorporou a pena de morte para esse tipo de crime. Leis mais severas no Paquist\u00e3o permitiram aumento de 300% no n\u00famero de mulheres que denunciam os ataques.<\/p>\n<p>A \u00cdndia avan\u00e7a mais lentamente, embora os governos dos Estados de Haryana e Uttar Pradesh tenham dado um bom exemplo ao financiarem a totalidade do custo de tratamento m\u00e9dico de alguns sobreviventes.<\/p>\n<p>Rita Saa \u00e9 um exemplo. Essa jovem de 20 anos, que precisou abandonar os estudos ap\u00f3s um ataque com \u00e1cido que sofreu em 2012 por parte de seu primo, hoje \u00e9 uma mulher economicamente independente. Trabalha no Cafe Sheroes\u2019 Hangout, uma iniciativa da Parem os Ataques com \u00c1cido na cidade de Agra, em Uttar Pradesh, que emprega v\u00e1rios sobreviventes. \u201cA campanha e o governo me ajudaram muito. Hoje tenho emprego, sal\u00e1rio digno, boa comida, alojamento e me mantenho sozinha\u201d, contou Saa.<\/p>\n<p>Embora a maioria das v\u00edtimas sejam mulheres, segundo os ativistas tamb\u00e9m cresce o n\u00famero de homens atacados com \u00e1cido, j\u00e1 que um ter\u00e7o de todos os casos denunciados por ano se deve a disputas sobre a propriedade, ou financeiras entre homens. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Nova D&eacute;lhi, &Iacute;ndia, 16\/4\/2015 &ndash; Vinita Panicker, de 26 anos, se considera &ldquo;a mulher mais desafortunada do mundo&rdquo;. H&aacute; tr&ecirc;s anos, seu marido suspeitou que ela tivesse um namoro com seu chefe em uma empresa de programas de inform&aacute;tica na &Iacute;ndia e atirou uma garrafa de &aacute;cido clor&iacute;drico em seu rosto enquanto ela dormia. 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