{"id":18840,"date":"2015-04-22T13:00:43","date_gmt":"2015-04-22T13:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=132897"},"modified":"2015-04-22T13:00:43","modified_gmt":"2015-04-22T13:00:43","slug":"camponesas-da-patagonia-reescrevem-sua-historia-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/04\/ultimas-noticias\/camponesas-da-patagonia-reescrevem-sua-historia-no-chile\/","title":{"rendered":"Camponesas da Patag\u00f4nia reescrevem sua hist\u00f3ria no Chile"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_132899\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Chica-patagonas-1-629x417.jpg\"><img class=\"wp-image-132899\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Chica-patagonas-1-629x417.jpg\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"358\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A partir da esquerda, Nancy Millar, Blanca Molina e Patricia Mancilla na pequena propriedade de Blanca, no povoado de Valle Simpson, regi\u00e3o de Ays\u00e9n, na Patag\u00f4nia chilena. As tr\u00eas integram a \u00fanica associa\u00e7\u00e3o de mulheres camponesas do ind\u00f4mito territ\u00f3rio austral, o que as ajudou a conquistar sua autonomia econ\u00f4mica e a se empoderarem. Foto: Marianela Jarroud\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Valle Simpson, Chile, 22\/4\/2015 \u2013 Mais de cem camponesas da Patag\u00f4nia chilena se uniram para criar uma associa\u00e7\u00e3o que lhes proporcionasse n\u00e3o s\u00f3 autonomia econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m empoderamento, em uma regi\u00e3o marcada pelo machismo e pela desigualdade de g\u00eanero. Patr\u00edcia Mancilla, Nancy Millar e Blanca Molina conversaram com a IPS sobre suas hist\u00f3rias e como a terra, o artesanato e o trabalho com outras mulheres as ajudaram a superar depress\u00f5es, abusos e desconfian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cFinalmente, conseguimos o reconhecimento para a mulher rural. A mulher camponesa aprendeu a se valorizar. Cada uma tem uma hist\u00f3ria de dor que consegue mitigar com o trabalho conjunto, o di\u00e1logo entre n\u00f3s\u201d, afirmou Mancilla, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Camponesas da Patag\u00f4nia, criada em 2005. \u201cAprendemos a nos valorizar como mulheres e a valorizar nosso trabalho, permitindo que nossas mulheres enviem seus filhos \u00e0 universidade\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Mancilla vive em uma pequena propriedade familiar, na localidade de R\u00edo Paloma, a 53 quil\u00f4metros de Coyhaique, capital da regi\u00e3o de Ays\u00e9n. Sua casa n\u00e3o tem luz, mas, gra\u00e7as a um gerador el\u00e9trico, ela produz no local o que mais gosta de fazer: queijos artesanais de leite de vaca. Atualmente tamb\u00e9m explora o agroturismo familiar, mas um c\u00e2ncer na tireoide a obrigou a reduzir sua atividade.<\/p>\n<p>Em seus tr\u00eas anos \u00e0 frente da Associa\u00e7\u00e3o, ela trabalhou incansavelmente para consolidar a uni\u00e3o e as atividades coletivas de quase 120 camponesas do grupo. Mancilla e suas companheiras aguardam orgulhosas a inaugura\u00e7\u00e3o do Centro de Gest\u00e3o da Mulher Rural de Ays\u00e9n, uma casa que conseguiram por meio de um projeto do governo regional, executado pelo Servi\u00e7o de Habita\u00e7\u00e3o e Urbaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O centro vai servir de ponto de encontro, um lugar para compartilharem suas experi\u00eancias e se capacitarem, e tamb\u00e9m como loja, para exposi\u00e7\u00e3o e venda de seus produtos. As integrantes da Associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 realizam uma feira semanal, toda quarta-feira, onde comercializam juntas suas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_132900\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-patagonas-2.jpg\"><img class=\"wp-image-132900\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-patagonas-2.jpg\" alt=\"Blanca Molina mostra orgulhosa uma ab\u00f3bora, plantada de forma org\u00e2nica em uma das quatro estufas que construiu com suas m\u00e3os em sua pequena propriedade em Valle Simpson, no sul patag\u00f4nio do Chile. Foto: Marianela Jarroud\/IPS\" width=\"540\" height=\"358\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Blanca Molina mostra orgulhosa uma ab\u00f3bora, plantada de forma org\u00e2nica em uma das quatro estufas que construiu com suas m\u00e3os em sua pequena propriedade em Valle Simpson, no sul patag\u00f4nio do Chile. Foto: Marianela Jarroud\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A regi\u00e3o de Ays\u00e9n \u00e9 uma das menos povoadas do Chile, com 105 mil habitantes, e tamb\u00e9m a de menor densidade. Em contraste, nessa regi\u00e3o de frio austral e vasta biodiversidade, s\u00e3o in\u00fameros os rios caudalosos, lagos e geleiras, terrenos f\u00e9rteis e recursos marinhos.<\/p>\n<p>A Patag\u00f4nia cobre 1,06 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados do extremo sul americano, dos quais 75% ficam na Argentina e o restante em Ays\u00e9n e na regi\u00e3o de Magalh\u00e3es, mais ao sul. Essa regi\u00e3o natural abriga diversos ecossistemas e in\u00fameras esp\u00e9cies de flora e fauna, incluindo aves, mam\u00edferos, r\u00e9pteis e anf\u00edbios, alguns sem identifica\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 o \u00faltimo ref\u00fagio do huemul, um cervo end\u00eamico do Chile, que corre risco de extin\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, segundo especialistas em ambiente, a regi\u00e3o possui uma das maiores reservas de \u00e1gua doce do planeta.<\/p>\n<p>Ays\u00e9n, cora\u00e7\u00e3o da Patag\u00f4nia chilena, esconde em suas esplendorosas paisagens uma das regi\u00f5es mais pobres e vulner\u00e1veis do pa\u00eds, onde 9,97% da popula\u00e7\u00e3o vive na pobreza e 4,22% na indig\u00eancia. Por isso, ativistas locais buscam consolidar a regi\u00e3o como uma reserva de vida autossustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cQueremos que o que temos seja cuidado e que se comercialize apenas o que nossa regi\u00e3o produz\u201d, explicou Mancilla. \u201cH\u00e1 outros lugares que s\u00e3o bonitos, mas nada se compara com o natural de nossa regi\u00e3o. Ainda comemos frangos, ovos org\u00e2nicos, e toda \u00a0verdura e fruta que nasce em nossa regi\u00e3o \u00e9 org\u00e2nica, n\u00e3o se usa qu\u00edmicos\u201d, destacou.<\/p>\n<div id=\"attachment_132901\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-patagonas-3.jpg\"><img class=\"wp-image-132901\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/chica-patagonas-3.jpg\" alt=\"As artes\u00e3s, que integram a Associa\u00e7\u00e3o Sindical de Mulheres Camponesas da Patag\u00f4nia, ao sul do Chile, esperam a inaugura\u00e7\u00e3o do centro comunit\u00e1rio, para poderem exibir e vender ali seus produtos. Enquanto isso, os oferecem em feiras p\u00fablicas e em espa\u00e7os emprestados por outras organiza\u00e7\u00f5es de mulheres da regi\u00e3o de Ays\u00e9n. Foto: Marianela Jarroud\/IPS\" width=\"540\" height=\"358\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">As artes\u00e3s, que integram a Associa\u00e7\u00e3o Sindical de Mulheres Camponesas da Patag\u00f4nia, ao sul do Chile, esperam a inaugura\u00e7\u00e3o do centro comunit\u00e1rio, para poderem exibir e vender ali seus produtos. Enquanto isso, os oferecem em feiras p\u00fablicas e em espa\u00e7os emprestados por outras organiza\u00e7\u00f5es de mulheres da regi\u00e3o de Ays\u00e9n. Foto: Marianela Jarroud\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para isso, agricultoras como Blanca Molina plantam seus produtos de forma org\u00e2nica, utilizado seus pr\u00f3prios dejetos. De fato, as integrantes da \u00fanica associa\u00e7\u00e3o de mulheres rurais da Patag\u00f4nia chilena se destacam pelo fato de seus produtos serem todos ecologicamente sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 quem diga que essa terra n\u00e3o \u00e9 boa para plantar, mas sei que \u00e9 f\u00e9rtil. Sempre estou inovando, plantando coisas para ver se d\u00e3o. Gra\u00e7as a Deus nesta terra tudo d\u00e1. J\u00e1 comprovei e posso mostrar\u201d, defendeu Molina, apontando seus cultivos. Ela construiu com suas m\u00e3os quatro estufas que ocupam boa parte de seu terreno em Valle Simpson, a 20 quil\u00f4metros de Coyhaique.<\/p>\n<p>Molina mostra um a um os frutos de seu esfor\u00e7o: ab\u00f3boras, alcachofras (<i>Cynara cardunculus<\/i>), pepinos (<i>Cucumis sativus<\/i>), repolhos ou couves (<i>Brassica oleracea<\/i>) e at\u00e9 mesmo curcubitas (<i>Curbubita ficifolia<\/i>), produto pouco habitual para uma regi\u00e3o t\u00e3o fria. Ela assegurou que a terra a enche de vida, ainda mais agora, que sofre de depress\u00e3o por causa da morte de seus dois filhos, uma trag\u00e9dia sobre a qual prefere n\u00e3o falar. \u201cFoi a terra que a jogou para cima\u201d, afirmou Mancilla, ao seu lado, sorrindo.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que essas tr\u00eas mulheres, todas casadas e com filhos de diferentes idades, mudam o semblante quando adentram a terra, em meio aos montes patag\u00f4nios e da planta\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, da qual emanam aromas inigual\u00e1veis.<\/p>\n<p>Elas se conhecem h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, quando, junto a outro pequeno grupo de mulheres, criaram a Associa\u00e7\u00e3o, com o apoio do Programa de Forma\u00e7\u00e3o e Capacita\u00e7\u00e3o para Mulheres Camponesas, impulsionado por um conv\u00eanio governamental entre o Instituto de Desenvolvimento Agropecu\u00e1rio e a Funda\u00e7\u00e3o para a Promo\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento da Mulher.<\/p>\n<p>Este programa, criado em 1992, tem por objetivo apoiar mulheres camponesas e\/ou pequenas produtoras de fam\u00edlias rurais, para contribuir com o aumento de suas rendas mediante a consolida\u00e7\u00e3o de iniciativas econ\u00f4mico-produtivas associadas ao mundo rural. At\u00e9 agora, 20 mil delas foram beneficiadas.<\/p>\n<p>Molina afirmou que, com a ajuda do programa, \u201cagora a mulher tem mais direitos e outra renda para ajudar a alimentar a fam\u00edlia\u201d. Nancy Millar, que vive em \u00d1irehuao, a 80 quil\u00f4metros de Coyhaique, \u00e9 artes\u00e3 em l\u00e3, couro e madeira, e refor\u00e7ou essa ideia: \u201cA mulher camponesa aprendeu a se empoderar, a conhecer seus direitos\u201d.<\/p>\n<p>As tr\u00eas concordaram que Ays\u00e9n \u00e9 uma regi\u00e3o onde o machismo historicamente tem sido muito forte. \u201cAt\u00e9 o dia de hoje existe, mas o estamos controlando\u201d, pontuou Mancilla. A maior resist\u00eancia \u00e0 sua Associa\u00e7\u00e3o, na verdade, encontraram dentro de suas fam\u00edlias. \u201cA grande maioria nos dizia \u2018j\u00e1 vai sair de casa\u2019, e quando volt\u00e1vamos nos diziam \u2018aonde foi? Andou fazendo bobagens?\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Apesar de no come\u00e7o se mostrarem reticentes, atualmente os maridos sentem orgulho delas, porque veem os frutos. \u201cAgora nos acompanham\u201d, comentam as tr\u00eas mulheres, \u201csobretudo quando assamos uma novilha\u201d, disseram rindo.<\/p>\n<p>Os desafios dessas mulheres se centram agora em \u201cter um hectare pr\u00f3prio, da organiza\u00e7\u00e3o, para ali receberem suas capacita\u00e7\u00f5es\u201d, e comprar uma caminhonete, \u201cpara podermos nos deslocar com facilidade para as feiras locais e para quando as mulheres precisam de apoio em seus traslados, especialmente as de muita idade\u201d, constatou Mancilla.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um desafio maior: que os direitos de \u00e1gua passem a ser pr\u00f3prios e que n\u00e3o dependam de uma companhia para ter acesso aos recursos h\u00eddricos necess\u00e1rios. No Chile vigora um C\u00f3digo de \u00c1guas, que foi redigido pela ditadura militar do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que transformou o recurso em propriedade privada, dando ao Estado a faculdade de conceder direitos de aproveitamento \u00e0 empresas, de forma gratuita e de maneira perp\u00e9tua. Al\u00e9m disso, permite a compra, venda ou arrendamento desses direitos sem levar em considera\u00e7\u00e3o prioridades de uso.<\/p>\n<p>\u201cPor que devemos pagar direitos de \u00e1gua se a gente nasceu e se criou no campo e sempre teve acesso \u00e0 \u00e1gua?\u201d, questionou Mancilla. \u201cPor que tem de haver mais impostos para o pequeno campon\u00eas?\u201d, acrescentou. Contudo, essas mulheres garantem que cada uma coloca tudo de si na cria\u00e7\u00e3o de seus produtos. \u201cTudo o que fazemos \u00e9 com carinho; se uma elabora um queijo o faz com o maior cuidado, quer que saia bem porque disso depende sua renda. Os tecidos de Nancy, as verduras de Blanca, tudo fazemos com paix\u00e3o\u201d, concluiu.<\/p>\n<p><b>Autonomia for\u00e7ada<\/b><\/p>\n<p>Apesar do machismo hist\u00f3rico, as mulheres da Patag\u00f4nia tiveram que assumir desde sempre a produ\u00e7\u00e3o e a gest\u00e3o dos alimentos e dos recursos naturais, com trabalhos em produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria, hort\u00edcola, frut\u00edcola, lenha, turismo rural e artesanato, entre outros, al\u00e9m do cuidado de suas fam\u00edlias e do lar.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres da Patag\u00f4nia tiveram que parir sem hospitais, tiveram que criar os filhos quando esse territ\u00f3rio era in\u00f3spito, al\u00e9m de fazer a organiza\u00e7\u00e3o social dessas comunidades que come\u00e7aram a criar\u201d, contou \u00e0 IPS a dirigente social Claudia Torres.<\/p>\n<p>\u201cOs homens trabalhavam com os animais ou a madeira e partiam duas vezes ao ano por quatro meses. Ent\u00e3o, a mulher se acostumou a se organizar e a n\u00e3o depender do homem se n\u00e3o voltasse\u201d, acrescentou Torres.<\/p>\n<p>Apesar do papel protagonista, \u201cquando chegavam os funcion\u00e1rios do governo para falar com os camponeses, sempre se dirigiam aos homens\u201d, enfatizou Mancilla. \u201cN\u00e3o entendiam que por tr\u00e1s deles havia mulheres fundamentais para o \u00eaxito da produ\u00e7\u00e3o\u201d, resssaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* <i>Esta reportagem \u00e9 parte de uma s\u00e9rie concebida em colabora\u00e7\u00e3o com Ecosocialista Horizons.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Valle Simpson, Chile, 22\/4\/2015 &ndash; Mais de cem camponesas da Patag&ocirc;nia chilena se uniram para criar uma associa&ccedil;&atilde;o que lhes proporcionasse n&atilde;o s&oacute; autonomia econ&ocirc;mica, mas tamb&eacute;m empoderamento, em uma regi&atilde;o marcada pelo machismo e pela desigualdade de g&ecirc;nero. 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