{"id":1893,"date":"2006-07-14T00:00:00","date_gmt":"2006-07-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1893"},"modified":"2006-07-14T00:00:00","modified_gmt":"2006-07-14T00:00:00","slug":"iraque-curdos-na-terra-de-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/07\/mundo\/iraque-curdos-na-terra-de-ninguem\/","title":{"rendered":"Iraque: Curdos na Terra de Ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>Acampamento de Ruweishid, Jord\u00e2nia, 14\/07\/2006 &ndash; \u00c9 conhecida como Terra de Ningu\u00e9m. Trata-se de uma pequena faixa de deserto na fronteira entre Jord\u00e2nia e Iraque e que n\u00e3o \u00e9 reivindicada por nenhum dos pa\u00edses. <!--more--> Ali, milhares de refugiados curdos esperam a hora de conseguir um lar. Quando milhares de refugiados curdos do Ir\u00e3 abandonaram seu pa\u00eds de origem depois do triunfo, em 1979, da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica, conseguiram instalar-se em Kellar, no norte do Iraque. Nem todos eram civis que fugiam da repress\u00e3o iraniana. Alguns simpatizavam com o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK), organiza\u00e7\u00e3o rebelde dos curdos da Turquia, e parte deles participava da filial desse grupo no Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Como temiam repres\u00e1lias de agentes iranianos por suas atividades, afastaram-se da fronteira Ir\u00e3-Iraque em 1982, rumo ao acampamento de refugiados de Al Tash, nos arredores da cidade iraquiana de Ramadi. \u201cSomos um grupo de moradores e simpatizantes de partidos e organiza\u00e7\u00f5es iranianas contr\u00e1rio ao governo do Ir\u00e3\u201d, disse \u00e0 IPS um desses refugiados, Azad Gvanmiri. \u201cSomos refugiados h\u00e1 27 anos, e h\u00e1 um ano e meio fugimos porque tememos ser atacados pelo regime isl\u00e2mico iraniano. N\u00e3o somos livres. Estamos entre dois pa\u00edses que nos recha\u00e7am. N\u00e3o nos deixam entrar na Jord\u00e2nia. O Acnur nos diz que n\u00e3o \u00e9 problema seu, que depende da Jord\u00e2nia, mas o governo jordaniano diz que o problema \u00e9 do Acnur\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Sadr, um curdo-iraniano que conseguiu chegar \u00e0 Jord\u00e2nia em 2003, lembrou a vida em Al Tash. \u201c\u00c9ramos mais de 10 mil pessoas e o acampamento estava cercado por arame farpado. O governo iraquiano nos deu documentos de identidade que diziam que n\u00e3o t\u00ednhamos direito de nos afastar de Ramadi. Durante todos esses anos n\u00e3o tivermos instala\u00e7\u00f5es, escolas formais ou servi\u00e7os de sa\u00fade. E infelizmente nenhuma organiza\u00e7\u00e3o nos ajudou\u201d, afirmou. Na medida em que a guerra avan\u00e7ava, muitos fugiram do Iraque e conseguiram ref\u00fagio no acampamento de Ruweishid, em territ\u00f3rio jordaniano, onde aguardam para seguir a outros pa\u00edses, especialmente da Europa. Os que ficaram n\u00e3o tiveram tanta sorte.<\/p>\n<p>Depois do segundo ataque contra a cidade de Faluja em 2004, a vida ficou mais dif\u00edcil nessa regi\u00e3o da prov\u00edncia de Al-Anbar, na fronteira com a Jord\u00e2nia. Duas centenas de curdos iranianos do acampamento de Al Tash abandonaram o Iraque em busca do apoio de amigos e familiares da Jord\u00e2nia. Mas, o governo desse pa\u00eds n\u00e3o deixou que entrassem, entendendo que j\u00e1 estava no m\u00e1ximo de suas possibilidades: para os palestinos, inclusive, as fronteiras jordanianas j\u00e1 estavam fechadas, e tiveram que optar pela S\u00edria. Os curdos puderam abandonar o Iraque, mas est\u00e3o presos nesta regi\u00e3o fronteiri\u00e7a conhecida como Terra de Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Com apenas 20 anos, Khabat Muhammadi \u00e9 o l\u00edder e porta-voz dos residentes do acampamento. \u201cEm 11 de janeiro sa\u00edmos daqui para nos reunirmos com funcion\u00e1rios do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur). N\u00e3o temos alimento, o ambiente est\u00e1 ruim. Temos muitos problemas, mas n\u00e3o nos receberam\u201d, disse \u00e0 IPS. H\u00e1 quase um ano e meio os refugiados na Terra de Ningu\u00e9m esperam pela oportunidade de encontrar uma vida em paz, \u00e0 margem da guerra e do caos no Iraque e em seu pa\u00eds natal. Todos os dias, meninos e meninas do acampamento \u2013 quase a metade de sua popula\u00e7\u00e3o \u2013 se dirigem \u00e0 estrada entre Am\u00e3 e Bagd\u00e1 para pedir \u00e1gua e comida aos caminhoneiros.<\/p>\n<p>Os dirigentes do assentamento tentaram enviar adultos para essa tarefa, mas os motoristas s\u00f3 demonstravam compaix\u00e3o com as crian\u00e7as. \u201cSe eu fosse at\u00e9 os caminhoneiros iraquianos, n\u00e3o me dariam nem um pouco de \u00e1gua para beber\u201d, disse Gvanmiri. Mas as crian\u00e7as, muitas vezes, nem mesmo pedem. Simplesmente, pegam \u00e1gua ou combust\u00edvel dos caminh\u00f5es. \u201c\u00c0s vezes os motoristas as repreendem\u201d, contou Muhammadi. As crian\u00e7as do acampamento da Terra de Ningu\u00e9m erst\u00e3o por toda a parte. Cinq\u00fcenta e um por cento dos refugiados ali t\u00eam menos de 18 anos, e vivem mais na estrada. Houve sete partos. Um dos beb\u00eas morreu, pois a m\u00e3e sangrou muito.<\/p>\n<p>O Acnur manteve reiterados contatos com a popula\u00e7\u00e3o do acampamento para resolver sua situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o apresentou nenhuma solu\u00e7\u00e3o que os refugiados considerassem aceit\u00e1vel. Esta semana, um representante da ag\u00eancia e o governo do Curdist\u00e3o iraquiano visitaram o acampamento da Terra de Ningu\u00e9m para oferecer aos habitantes um lugar para se assentarem com seus compatriotas do norte do Iraque. Os refugiados n\u00e3o aceitaram. Muitos recordam seus familiares ca\u00e7ados no Curdist\u00e3o iraquiano por agentes do regime do aiatol\u00e1 Ruhollah Khomeini, o arquiteto da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica iraniana. \u201cEu tinha tr\u00eas anos quando mataram meu pai em 1986, em Suleimaniyah\u201d, contou um homem que se identificou como Barzan.<\/p>\n<p>O Acnur n\u00e3o respondeu \u00e0s mensagens de e-mail enviadas pela IPS perguntando sobre os curdos na Terra de Ningu\u00e9m. Os refugiados dizem acreditar que esta ag\u00eancia da ONU os trata como refugiados econ\u00f4micos, quando s\u00e3o refugiados pol\u00edticos. \u201cOs batizamos de Acampamentos dos \u00d3rf\u00e3os da Comunidade Internacional\u201d, disse Gvanmiri. \u201cQueremos ter nossos direitos reconhecidos. N\u00e3o podemos viver no Iraque durante 27 anos sem direitos legais nem identidade, porque somos as v\u00edtimas. Nosso problema n\u00e3o \u00e9 a fome, \u00e9 pol\u00edtico. Somos humanos e dever\u00edamos viver todos como humanos debaixo do c\u00e9u\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Os refugiados na Terra de Ningu\u00e9m ficam sem op\u00e7\u00f5es. J\u00e1 amea\u00e7aram com uma greve de fome caso o governo jordaniano continue negando-lhes ref\u00fagio, e assim, o Acnur continua negando-se a intervir em seu favor. \u201cN\u00e3o podemos continuar vivendo assim\u201d, disse Khabat Muhammadi. \u201cIsto \u00e9 como uma pris\u00e3o. N\u00e3o podemos viver outros 27 anos na Terra de Ningu\u00e9m\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acampamento de Ruweishid, Jord\u00e2nia, 14\/07\/2006 &ndash; \u00c9 conhecida como Terra de Ningu\u00e9m. 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