{"id":19081,"date":"2015-06-02T13:25:36","date_gmt":"2015-06-02T13:25:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=195324"},"modified":"2015-06-02T13:25:36","modified_gmt":"2015-06-02T13:25:36","slug":"milhares-de-tamis-do-sri-lanka-vivem-sob-a-sombra-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/06\/ultimas-noticias\/milhares-de-tamis-do-sri-lanka-vivem-sob-a-sombra-da-guerra\/","title":{"rendered":"Milhares de tamis do Sri Lanka vivem sob a \u201csombra da guerra\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_195325\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/srilanka_1-629x442-629x442.jpg\"><img class=\"wp-image-195325\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/srilanka_1-629x442-629x442.jpg\" alt=\"Jovem que perdeu uma perna durante a guerra olha para a c\u00e2mera junto \u00e0 sua banca de verduras em Mullaitivu, norte do Sri Lanka. Foto: Amantha Perera\/IPS\" width=\"340\" height=\"239\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Jovem que perdeu uma perna durante a guerra olha para a c\u00e2mera junto \u00e0 sua banca de verduras em Mullaitivu, norte do Sri Lanka. Foto: Amantha Perera\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Kanya D\u2019Almeida, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Na\u00e7\u00f5es Unidas, 2\/6\/2015 \u2013 Em muitos sentidos, Jayakumari Balendran personifica a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o do povo tamil nas prov\u00edncias do norte e do leste do Sri Lanka, durante e depois da guerra civil que a\u00e7oitou por 26 anos este pa\u00eds insular do sul da \u00c1sia. Seu filho mais velho foi morto a tiros em 2006, quando trabalhava na cidade costeira de Trincomalee, 300 quil\u00f4metros a leste da capital, Colombo, por \u201cassassinos n\u00e3o identificados\u201d.<\/p>\n<p>Ela foi obrigada a abandonar seu marido quando fugiu de Kilinochchi, uma cidade do norte que, em seu momento, serviu como centro nevr\u00e1lgico administrativo dos Tigres de Liberta\u00e7\u00e3o Tamil Eelam (LTTE), o grupo rebelde que lutava contra as for\u00e7as do governo por um Estado independente para a minoria tamil. Tr\u00eas anos depois, em maio de 2009, quando a guerra terminou, seu segundo filho e dezenas de pessoas morreram no bombardeio ao hospital Puthukkudiyiruppu, em um ataque que as for\u00e7as armadas n\u00e3o reconhecem. Seus dois filhos tinham 19 anos quando morreram.<\/p>\n<p>Seu terceiro e \u00faltimo filho, que foi recrutado \u00e0 for\u00e7a pelo LTTE quando ainda era crian\u00e7a, teria se rendido ao ex\u00e9rcito nesse mesmo m\u00eas, quando o governo ocupou zonas controladas pelos rebeldes e declarou uma vit\u00f3ria decisiva. Desde ent\u00e3o, ela n\u00e3o sabe nada dele, um mau sinal em um pa\u00eds onde os desaparecimentos for\u00e7ados s\u00e3o algo corriqueiro, segundo denunciou a organiza\u00e7\u00e3o Human Rights Watch.<\/p>\n<p>Mas seus problemas n\u00e3o terminaram a\u00ed. Enquanto protestava pelo desaparecimento do filho, Balendran foi enviada \u00e0 pris\u00e3o de Boosa, uma institui\u00e7\u00e3o que \u00e9 sin\u00f4nimo de tortura no Sri Lanka. Depois que o presidente Mahinda Rajapaksa perdeu as elei\u00e7\u00f5es em janeiro deste ano e entregou o governo ao seu ex-ministro da Sa\u00fade, Maithripala Sirisena, Balendran foi libertada, algo que os ativistas consideraram como sinal de um futuro mais seguro e justo.<\/p>\n<p>Mas, quando voltou para sua casa, que encontrou saqueada, Balendran teve que deixar sua filha em uma institui\u00e7\u00e3o religiosa para sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a, enquanto ela se mudava para uma cho\u00e7a, o \u00fanico lugar que podia pagar como m\u00e3e sozinha, j\u00e1 que seu marido morreu de c\u00e2ncer em 2012.<\/p>\n<p>A guerra, os desaparecimentos, a pris\u00e3o, abandonar sua casa, a pobreza, os problemas que definiram sua vida e a de muitos outros nos \u00faltimos dez anos, s\u00e3o alvo de uma investiga\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o independente norte-americana Oakland Institute (OI), a primeira de seu tipo publicada ap\u00f3s o fim da guerra em 2009. O informe, intitulado <i>A Longa Sobra da Guerra<\/i>, questiona as feridas que seguem abertas no que foi a zona de guerra, impedindo que civis como Balendran sigam adiante com suas vidas.<\/p>\n<p>Durante uma entrevista coletiva por telefone, no dia 28 de maio, a diretora-executiva da OI, Anuradha Mittal, afirmou que alguns dos maiores obst\u00e1culos para a reconcilia\u00e7\u00e3o s\u00e3o a forte militariza\u00e7\u00e3o do norte e leste do pa\u00eds, a supress\u00e3o sistem\u00e1tica da hist\u00f3ria e da cultura tamis, e a aus\u00eancia de um mecanismo efetivo para investigar os poss\u00edveis crimes de guerra cometidos pelo governo e pelos rebeldes do LTTE durante a \u00faltima etapa do conflito.<\/p>\n<p>Embora o governo de Sirisena tenha dado passos para a desmilitariza\u00e7\u00e3o, com a designa\u00e7\u00e3o de um funcion\u00e1rio civil como governador da prov\u00edncia do norte no lugar do ex-comandante das for\u00e7as de seguran\u00e7a que ocupava o cargo, a presen\u00e7a de um soldado em cada seis civis \u00e9 uma carga para muitos habitantes cansados da guerra.<\/p>\n<p>Segundo o informe da OI, o ministro da Defesa, Ruwan Wijewardene, declarou, em fevereiro, que o governo n\u00e3o retirar\u00e1 nem limitar\u00e1 a presen\u00e7a militar na pen\u00ednsula de Jaffna. Al\u00e9m disso, como apontou Mittal, o ex\u00e9rcito n\u00e3o \u00e9 passivo \u201ce se dedica \u00e0 promo\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, opera luxuosos hot\u00e9is tur\u00edsticos, excurs\u00f5es de observa\u00e7\u00e3o de baleias, agricultura e outros empreendimentos comerciais em terras confiscadas da popula\u00e7\u00e3o local\u201d.<\/p>\n<p>Cerca de 90 mil dos aproximadamente 480 mil refugiados nos \u00faltimos meses de luta ainda vivem em abrigos improvisados, segundo estat\u00edsticas publicadas em 2014 pela organiza\u00e7\u00e3o independente norueguesa Centro de Monitoramento do Deslocamento Interno.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente dif\u00edcil para as vi\u00favas da guerra, que somam entre 40 mil e 55 mil e que agora devem manter suas fam\u00edlias por sua pr\u00f3pria conta. Para as mulheres como Balendran, a pobreza e o desemprego se combinam com a incerteza por seus familiares desaparecidos para criar uma cultura de medo e dor.<\/p>\n<p>O OI recorre a dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e de institui\u00e7\u00f5es religiosas na regi\u00e3o de Vanni para calcular que h\u00e1 entre 70 mil e 140 mil desaparecidos. \u201cMuitas m\u00e3es, como eu, v\u00e3o de um lugar a outro em busca dos filhos\u201d, contou Balendran \u00e0 imprensa, no dia 28 de maio. \u201cPrecisamos de respostas. O governo deve ao menos organizar um lugar onde possamos visitar nossos filhos. Quero meu filho\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Seus reclamos poderiam ser um desafio decisivo para o governo aplicar um processo de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional centrado em uma investiga\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel sobre os abusos cometidos durante a guerra.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2014, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o que teria iniciado a investiga\u00e7\u00e3o dos crimes de guerra, mas o governo da \u00e9poca proibiu a entrada no pa\u00eds dos investigadores independentes. Apesar dos obst\u00e1culos, as Na\u00e7\u00f5es Unidas pretendiam publicar suas conclus\u00f5es este ano, mas aceitou o pedido do novo governo para adiar a divulga\u00e7\u00e3o por seis meses, o que lhe valeu cr\u00edticas.<\/p>\n<p>\u201cDiante dos antecedentes de falta de a\u00e7\u00e3o do governo, a press\u00e3o internacional \u00e9 fundamental para toda a\u00e7\u00e3o decisiva. Em lugar de buscar seus interesses geoestrat\u00e9gicos, Estados Unidos, \u00cdndia e outros pa\u00edses devem exigir a divulga\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o da ONU\u201d, afirmou Mittal. Com o informe do OI \u201cs\u00f3 pretendemos recordar ao governo que h\u00e1 pessoas, comunidades, centenas de milhares de fam\u00edlias, que esperam justi\u00e7a\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortos nas \u00faltimas fases da guerra continua sendo muito discutido, tanto no Sri Lanka como pela comunidade internacional. Os dados da ONU indicam que morreram 40 mil pessoas, mas para o governo anterior n\u00e3o passavam de oito mil mortes. Um novo livro escrito pelo centro de investiga\u00e7\u00e3o Professores Universit\u00e1rios pelos Direitos Humanos afirma que o n\u00famero real poderia girar em torno dos cem mil mortos. Essa \u00e9 uma das muitas quest\u00f5es que um processo justo de reconcilia\u00e7\u00e3o poderia responder. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Kanya D&rsquo;Almeida, da IPS &ndash;&nbsp; Na&ccedil;&otilde;es Unidas, 2\/6\/2015 &ndash; Em muitos sentidos, Jayakumari Balendran personifica a dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o do povo tamil nas prov&iacute;ncias do norte e do leste do Sri Lanka, durante e depois da guerra civil que a&ccedil;oitou por 26 anos este pa&iacute;s insular do sul da &Aacute;sia. 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