{"id":19241,"date":"2015-06-30T13:10:50","date_gmt":"2015-06-30T13:10:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=196859"},"modified":"2015-06-30T13:10:50","modified_gmt":"2015-06-30T13:10:50","slug":"panama-e-nicaragua-dois-canais-e-um-sonho-novamente-compartilhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/06\/ultimas-noticias\/panama-e-nicaragua-dois-canais-e-um-sonho-novamente-compartilhado\/","title":{"rendered":"Panam\u00e1 e Nicar\u00e1gua, dois canais e um sonho novamente compartilhado"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_196860\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/canaldoPanama.jpg\"><img class=\"wp-image-196860\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/canaldoPanama.jpg\" alt=\"As novas eclusas do Canal do Panam\u00e1 contam com tecnologia radicalmente superior \u00e0s constru\u00eddas h\u00e1 cem anos, e suas comportas s\u00e3o rodantes e n\u00e3o com dobradi\u00e7as. Na foto, um dos oper\u00e1rios na c\u00e2mara do canal ampliado em Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico. Foto: Iral\u00eds Fragiel\/IPS \" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">As novas eclusas do Canal do Panam\u00e1 contam com tecnologia radicalmente superior \u00e0s constru\u00eddas h\u00e1 cem anos, e suas comportas s\u00e3o rodantes e n\u00e3o com dobradi\u00e7as. Na foto, um dos oper\u00e1rios na c\u00e2mara do canal ampliado em Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico. Foto: Iral\u00eds Fragiel\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Iral\u00eds Fragiel, IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Cidade do Panam\u00e1, Panam\u00e1, 30\/6\/2015 \u2013 Nicholas Suchecki Guill\u00e9n \u00e9 cego. Mas, para ele, era um sonho conhecer a amplia\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1. Tocar a c\u00e2mara de concreto e ser parte da nova hist\u00f3ria de seu pa\u00eds. Seus p\u00e9s se apoiaram sobre o terceiro jogo de eclusas em Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico. Ele teve o privil\u00e9gio de integrar o \u00faltimo grupo que p\u00f4de visitar o complexo antes de come\u00e7ar sua inunda\u00e7\u00e3o, um longo processo que nesse lado come\u00e7ou no dia 22 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Assim como esse garoto de 11 anos, muitos panamenhos visitaram gratuitamente as novas eclusas, com visitas promovidas pela Autoridade do Canal do Panam\u00e1 (ACP), \u00f3rg\u00e3o estatal que dirige a via interoce\u00e2nica desde que foi devolvida pelos Estados Unidos, em 1999.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um orgulho ver o que fizemos. Quando foram constru\u00eddas as primeiras eclusas, participaram 222 panamenhos. Agora foram 36.276\u201d, afirmou \u00e0 IPS o engenheiro Luis Ferreira, porta-voz da ACP. A amplia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m representa uma promessa de crescimento econ\u00f4mico. \u201cO dinheiro arrecadado com o Canal foi superior a US$ 9 bilh\u00f5es entre 2000 e 2014. Com as novas eclusas, se prev\u00ea que possa chegar a US$ 3 bilh\u00f5es por ano\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A obra, que neste final de m\u00eas j\u00e1 completou 89,8%, exigiu investimento de US$ 5,25 bilh\u00f5es e come\u00e7ou no dia 3 de setembro de 2007. Seu funcionamento comercial ser\u00e1 ativado no primeiro trimestre de 2016. Com esse megaprojeto, o Panam\u00e1 espera aumentar o tr\u00e2nsito di\u00e1rio dos atuais 35 a 40 navios para 48 a 51 embarca\u00e7\u00f5es. O novo canal tamb\u00e9m permitir\u00e1 a circula\u00e7\u00e3o de navios de maior capacidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_196861\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Panama-ACP-001.jpg\"><img class=\"wp-image-196861\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Panama-ACP-001.jpg\" alt=\"In\u00edcio do enchimento das novas eclusas do ampliado Canal do Panam\u00e1, em Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico. A monumental obra j\u00e1 est\u00e1 90% pronta e entrar\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o no come\u00e7o de 2016. Foto: Cortesia da Autoridade do Canal do Panam\u00e1\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">In\u00edcio do enchimento das novas eclusas do ampliado Canal do Panam\u00e1, em Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico. A monumental obra j\u00e1 est\u00e1 90% pronta e entrar\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o no come\u00e7o de 2016. Foto: Cortesia da Autoridade do Canal do Panam\u00e1<\/p><\/div>\n<p>Atualmente, passam pelo Canal embarca\u00e7\u00f5es que podem transportar at\u00e9 cinco mil toneladas e, com a amplia\u00e7\u00e3o, os chamados navios NeoPanamax poder\u00e3o carregar at\u00e9 13 mil toneladas. As novas eclusas t\u00eam 427 metros de comprimento e funcionar\u00e3o com 16 comportas rodantes. O emblem\u00e1tico pr\u00e9dio do Empire State, de Nova York, caberia deitado, incluindo sua antena, no canal ampliado.<\/p>\n<p>Cada navio utiliza em sua passagem cerca de 197 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua doce procedentes do lago Gat\u00fan. Com as novas eclusas, foi criado um sistema que permite economizar ao menos 7% do recurso, mediante recipientes de reutiliza\u00e7\u00e3o que reciclar\u00e3o a \u00e1gua tr\u00eas vezes antes de despej\u00e1-la no mar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem tudo \u00e9 positivo. Para Marco Gand\u00e1segui, soci\u00f3logo e professor da Universidade do Panam\u00e1, a arrecada\u00e7\u00e3o proveniente do Canal n\u00e3o \u00e9 aproveitada para um desenvolvimento com inclus\u00e3o social neste pa\u00eds de 3,8 milh\u00f5es de pessoas, e teme que o mesmo aconte\u00e7a com sua amplia\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 grande preocupa\u00e7\u00e3o quanto a que a amplia\u00e7\u00e3o do canal sirva \u00e0 marinha mercante e n\u00e3o \u00e0s pessoas\u201d, afirmou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Segundo Gand\u00e1segui, \u201cos que nos governam n\u00e3o estabeleceram um plano de desenvolvimento nacional e algumas localidades nem mesmo t\u00eam \u00e1gua pot\u00e1vel. Desde 2000, foram arrecadados US$ 25 bilh\u00f5es e se desconhece como foram investidos\u201d. O professor deu como exemplo do d\u00e9ficit de desenvolvimento criado pelo dinheiro obtido com o canal o fato de apenas 40% da for\u00e7a de trabalho panamenha ter emprego formal, enquanto 60% atua no setor informal. \u201cTemos uma estrutura social que poderia ser mudada com essa enorme riqueza gerada pelo Canal\u201d, ressaltou.<\/p>\n<div id=\"attachment_196862\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Nicholas.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-196862\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Nicholas.jpg\" alt=\"Nicholas Suchecki Guill\u00e9n, menino cego de 11 anos, concretizando seu sonho de tocar as eclusas da amplia\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, no complexo de Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico, no dia 25 deste m\u00eas, durante a \u00faltima visita permitida antes de come\u00e7ar o enchimento da monumental obra. Foto: Iral\u00eds Fragiel\/IPS\" width=\"375\" height=\"500\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Nicholas Suchecki Guill\u00e9n, menino cego de 11 anos, concretizando seu sonho de tocar as eclusas da amplia\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, no complexo de Cocol\u00ed, na costa do Oceano Pac\u00edfico, no dia 25 deste m\u00eas, durante a \u00faltima visita permitida antes de come\u00e7ar o enchimento da monumental obra. Foto: Iral\u00eds Fragiel\/IPS<\/p><\/div>\n<p>A Uni\u00e3o de Pr\u00e1ticos do Canal do Panam\u00e1 realiza protestos desde 2014 diante da ACP por sua gest\u00e3o da obra. O \u00faltimo foi no dia 3 deste m\u00eas, quando tamb\u00e9m denunciou, em um comunicado, que o processo \u201csofreu trope\u00e7o ap\u00f3s trope\u00e7o\u201d, com \u201ccustos adicionais, improvisos e atrasos\u201d. O maior contratempo durante a constru\u00e7\u00e3o foi registrado em 2014, quando em fevereiro o cons\u00f3rcio encarregado da obra, o Grupo Unidos pelo Canal (GUPC), paralisou os trabalhos por 15 dias, porque a ACP rejeitou assumir alegados aumentos nos custos.<\/p>\n<p>Segundo dados da ACP, atualmente as reclama\u00e7\u00f5es por custos adicionais do GUPS, liderado pela construtora espanhola Sacyr Vallehermoso, totalizam US$ 2,337 bilh\u00f5es e est\u00e3o em processo de resolu\u00e7\u00e3o por uma junta especial. A primeira dessas reclama\u00e7\u00f5es resolvidas foi de US$ 463 milh\u00f5es de custo adicional, pela menor qualidade do basalto fornecido por uma mina local. A ACP informou que reconheceu apenas US$ 233 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Outra sombra que paira sobre a amplia\u00e7\u00e3o do Canal \u00e9 o projeto de constru\u00e7\u00e3o do Canal da Nicar\u00e1gua, que for\u00e7ar\u00e1 o Panam\u00e1 a se mover em um novo xadrez mar\u00edtimo. Nicar\u00e1gua e Panam\u00e1 t\u00eam uma hist\u00f3ria compartilhada com o Canal. David McCullough conta em seu livro <i>Um Caminho Entre Dois Mares<\/i> que o primeiro estudo sobre a constru\u00e7\u00e3o do canal surgiu em 1811 e designava a Nicar\u00e1gua com \u201ca rota com menos dificuldades\u201d. E acrescenta que, inicialmente, se propunha a entrada do canal pela desembocadura do nicaraguense rio San Juan, porque \u201catravessar pelo Panam\u00e1 era mais curto, mas o da Nicar\u00e1gua estava mais pr\u00f3ximo dos Estados Unidos\u201d.<\/p>\n<p>Os estudos t\u00e9cnicos determinaram que o Panam\u00e1 era o lugar ideal. Os franceses j\u00e1 haviam escavado um caminho para constru\u00ed-lo, embora o projeto tenha fracassado. O presidente norte-americano Theodore Roosevelt inclinou-se, em 1903, pelo Panam\u00e1 e com esse fim apoiou a separa\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio da Col\u00f4mbia. Em 1914, terminou a constru\u00e7\u00e3o da via interoce\u00e2nica, que ficou sob controle militar at\u00e9 que a assinatura dos tratados Torrijos-Carter estabeleceram, em 1977, sua devolu\u00e7\u00e3o no \u00faltimo dia do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>\u201cMinha opini\u00e3o \u00e9 que os nicaraguenses percebem que o desenvolvimento de seu pa\u00eds foi truncado quando os Estados Unidos escolheram o rio Chagres, no Panam\u00e1, para fazer o canal. \u00c9 a sombra de um sonho n\u00e3o realizado\u201d, disse \u00e0 IPS o antrop\u00f3logo Stanley Heckadon. Mas, de 1811 at\u00e9 agora, as coisas mudaram. E a rota do rio San Juan se desfez, possivelmente pelas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, por se tratar de um rio binacional, compartilhado com a Costa Rica. \u201cAo n\u00e3o escolher a rota do rio San Juan, cuidado, o sonho da Nicar\u00e1gua se torna irrealiz\u00e1vel\u201d, alertou.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo participou em mar\u00e7o de um encontro de 15 especialistas de alto n\u00edvel, convocado pela Universidade da Fl\u00f3rida, em Miami, nos Estados Unidos, para avaliar o impacto ambiental do tra\u00e7ado nicaraguense, quando foi alertado sobre o irrepar\u00e1vel dano \u00e0 biodiversidade e aos corpos de \u00e1gua do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Heckadon explicou que o painel considerou muito inconveniente o fato de a rota escolhida ser a do rio de Punta Gorda, muito mais larga do que a do San Juan. O investimento no projeto da Nicar\u00e1gua \u00e9 de US$ 50 bilh\u00f5es, dez vezes mais do que o custo da amplia\u00e7\u00e3o do canal panamenho.<\/p>\n<p>O canal nicaraguense ser\u00e1 significativamente mais longo do que o do Panam\u00e1, \u201cque tem 80 quil\u00f4metros. O da Nicar\u00e1gua pretende ter 280 quil\u00f4metros. No Panam\u00e1 um barco demora de dez a 12 horas para ir do Pac\u00edfico ao Atl\u00e2ntico ou vice-versa, e na Nicar\u00e1gua demorar\u00e1 de dois a tr\u00eas dias\u201d, afirmou Ferreira, da ACP. Por\u00e9m, tanto Ferreira quanto Gad\u00e1segui coincidem em ver de maneira positiva a constru\u00e7\u00e3o de um canal na Nicar\u00e1gua, pois \u201ch\u00e1 mercado para todos\u201d.<\/p>\n<p><b>Impacto irrevers\u00edvel<\/b><\/p>\n<p>Stanley Heckadon assegurou que os impactos na Nicar\u00e1gua da rota selecionada ser\u00e3o \u201cmonumentais\u201d no aspecto ambiental e, se a gigantesca obra for concretizada, se estar\u00e1 jogando com o futuro de sua popula\u00e7\u00e3o. Da reuni\u00e3o em Miami participaram representantes do cons\u00f3rcio chin\u00eas Hong Kong Nicaragua Development (HKND), concession\u00e1rio do projeto, e da empresa respons\u00e1vel pelo estudo de impacto ambiental, a Environmental Resources Management, mas a informa\u00e7\u00e3o apresentada foi considerada insuficiente pelo painel.<\/p>\n<p>O controle dos dados, o estudo ambiental ter sido feito em apenas um ano e meio, as curtas observa\u00e7\u00f5es sobre a biodiversidade e os planos insuficientes para restaurar as bacias afetadas, entre outros aspectos, foram fatores de alarme para os especialistas. \u201cA parte hidrol\u00f3gica era um dos grandes vazios de informa\u00e7\u00e3o. O que acontecer\u00e1 se dentro de cinco anos tivermos uma grande seca? O lago da Nicar\u00e1gua (Cocibolca) \u00e9 o maior lago de \u00e1gua doce da Am\u00e9rica Central e do qual depende uma grande quantidade de pessoas\u201d, advertiu Heckadon.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo recordou que a rota nicaraguense passar\u00e1 por cinco \u00e1reas protegidas de biodiversidade do Corredor Biol\u00f3gico Mesoamericano. \u201cAl\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o sobre minorias ind\u00edgenas e comunidades negras. Sa\u00edmos preocupados, com mais d\u00favidas do que respostas\u201d, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Iral&iacute;s Fragiel, IPS &ndash;&nbsp; Cidade do Panam&aacute;, Panam&aacute;, 30\/6\/2015 &ndash; Nicholas Suchecki Guill&eacute;n &eacute; cego. Mas, para ele, era um sonho conhecer a amplia&ccedil;&atilde;o do Canal do Panam&aacute;. Tocar a c&acirc;mara de concreto e ser parte da nova hist&oacute;ria de seu pa&iacute;s. 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