{"id":19254,"date":"2015-07-02T12:42:32","date_gmt":"2015-07-02T12:42:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=196958"},"modified":"2015-07-02T12:42:32","modified_gmt":"2015-07-02T12:42:32","slug":"indigenas-do-quenia-defendem-patrimonio-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/07\/ultimas-noticias\/indigenas-do-quenia-defendem-patrimonio-da-humanidade\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas do Qu\u00eania defendem patrim\u00f4nio da humanidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_196959\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/kaya1-629x354.jpg\"><img class=\"wp-image-196959\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/kaya1-629x354.jpg\" alt=\"A comunidade mijikenda, no sul do Qu\u00eania, n\u00e3o s\u00f3 cuida das florestas sagradas como tamb\u00e9m pratica a agricultura e a pecu\u00e1ria. Foto: Miriam Gathigah\/IPS\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A comunidade mijikenda, no sul do Qu\u00eania, n\u00e3o s\u00f3 cuida das florestas sagradas como tamb\u00e9m pratica a agricultura e a pecu\u00e1ria. Foto: Miriam Gathigah\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Miriam Gathigah, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Kaya Kinondo, Qu\u00eania, 2\/7\/2015 \u2013 No sul da prov\u00edncia Costeira do Qu\u00eania fica um dos locais mais singulares do planeta, composto pelos restos de v\u00e1rias aldeias fortificadas, venerados pelo povo ind\u00edgena mijikenda como a morada sagrada de seus ancestrais. Conhecidos localmente como kayas, esses s\u00edtios selv\u00e1ticos remontam ao s\u00e9culo 16, quando, acredita-se, a migra\u00e7\u00e3o de povos pastores da atual Som\u00e1lia deu origem \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias aldeias, que se estendiam ao longo de 200 quil\u00f4metros dessa prov\u00edncia, a cerca de 500 quil\u00f4metros da capital Nair\u00f3bi.<\/p>\n<p>Os kayas prosperaram durante s\u00e9culos, e seus moradores desenvolveram seu pr\u00f3prio idioma e seus costumes. Mas as aldeias come\u00e7aram a se fragmentar no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, devido \u00e0 fome e aos combates armados. Embora hoje em dia estejam desabitados, os mijikendas continuam cuidando dos kayas, que s\u00e3o venerados por serem deposit\u00e1rios de suas antigas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas. Mas agora os kayas correm perigo.<\/p>\n<p>A descoberta, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, de grandes jazidas de minerais de terras raras nessa regi\u00e3o fez com que as florestas se convertessem em alvo para a extra\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento e o deslocamento da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Na medida em que os promotores imobili\u00e1rios e as mineradoras se interessam por essas terras, seus habitantes se preparam para uma luta pelo que o Banco Mundial considera uma das economias de maior crescimento na \u00c1frica subsaariana.<\/p>\n<p>Mnyenze Abdalla Ali, do Conselho de Idosos do kaya Kinondo, que representa uma selva do condado de Kwale, na ponta mais austral da prov\u00edncia, explicou \u00e0 IPS que os mijikendas \u201cse consideram cultural e espiritualmente unidos \u00e0s suas florestas\u201d. A comunidade mijikenda, com um total de 1,9 milh\u00e3o de habitantes, segundo o mais recente censo, compreende nove tribos com l\u00edngua e cultura comuns.<\/p>\n<p>Cada tribo tem seu pr\u00f3prio kaya, que significa \u201clar\u201d ou povoado constru\u00eddo em uma clareira da floresta, detalhou Ali. \u201cNada pode ser tirado da selva, nem mesmo um galho ca\u00eddo pode ser usado como lenha em nossas casas\u201d, acrescentou Hamisi Juma, uma residente local. Em consequ\u00eancia, os 50 kayas espalhados pelos condados de Kwale, Mombasa e Kilifi, na prov\u00edncia Costeira, abrigam um n\u00edvel bastante alto de biodiversidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_196960\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/kaya2.jpg\"><img class=\"wp-image-196960\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/kaya2.jpg\" alt=\"A comunidade cuida detalhadamente dos arredores das florestas kayas, que tamb\u00e9m s\u00e3o o cemit\u00e9rio de seus ancestrais. Foto: Miriam Gathigah\/IPS\" width=\"340\" height=\"180\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A comunidade cuida detalhadamente dos arredores das florestas kayas, que tamb\u00e9m s\u00e3o o cemit\u00e9rio de seus ancestrais. Foto: Miriam Gathigah\/IPS<\/p><\/div>\n<p>O minist\u00e9rio de Meio Ambiente, \u00c1gua e Recursos Naturais do Qu\u00eania declarou a zona um ponto excepcional de biodiversidade e se comprometeu a destinar os fundos e recursos necess\u00e1rios para sua prote\u00e7\u00e3o. Mas a regi\u00e3o \u00e9 algo mais do que um rico cintur\u00e3o ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) acrescentou, em 2008, os kayas \u00e0 sua prestigiosa lista de s\u00edtios de Patrim\u00f4nio Mundial, se referindo \u00e0 \u00e1rea como \u201cum exemplo excepcional de assentamento humano tradicional representativo de uma intera\u00e7\u00e3o \u00fanica com o ambiente\u201d. A Unesco tamb\u00e9m assinalou que os kayas representam uma \u201cfonte fundamental do sentido de \u2018estar no mundo\u2019 do povo mijikenda e de seu lugar dentro do cen\u00e1rio cultural contempor\u00e2neo do Qu\u00eania\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as florestas s\u00e3o muito apreciadas como reposit\u00f3rios de plantas e ervas medicinais, segundo Eunice Adhiambo, gestora de projetos do Centro Ujamaa, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que apoia a luta dos mijikendas para preservar os kayas. No Qu\u00eania, \u201c35% dos s\u00edtios de maior valor de conserva\u00e7\u00e3o encontram-se aqui\u201d, acrescentou. \u201cSe os promotores se sa\u00edrem bem, perderemos grande parte da riqueza que a m\u00e3e natureza nos deu. Temos a responsabilidade de conservar este presente porque n\u00e3o podemos compr\u00e1-lo em nenhum lugar\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem todos nesse pa\u00eds de 20 milh\u00f5es de pessoas compartilham seu sentir, em particular os economistas, investidores e respons\u00e1veis pol\u00edticos interessados em que se cumpra a expans\u00e3o econ\u00f4mica prevista, de 5,4%, em 2014, para 6% ou 7% at\u00e9 2017.<\/p>\n<div id=\"attachment_196961\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/kaya3.jpg\"><img class=\"wp-image-196961\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/kaya3.jpg\" alt=\"A ind\u00fastria mineradora degradou seriamente algumas florestas kaya, sobretudo no condado de Kilifi, na prov\u00edncia Costeira do Qu\u00eania. Foto: Miriam Gathigah\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A ind\u00fastria mineradora degradou seriamente algumas florestas kaya, sobretudo no condado de Kilifi, na prov\u00edncia Costeira do Qu\u00eania. Foto: Miriam Gathigah\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Em 2012, a mineradora Cortec Mining Kenya Ltd anunciou que havia encontrado uma jazida de minerais de terras raras no valor de US$ 62,4 bilh\u00f5es e que investiria at\u00e9 US$ 200 milh\u00f5es em um empreendimento em Mrima Hill, local de v\u00e1rias florestas kayas. A empresa projetou produ\u00e7\u00e3o inicial anual entre 2.900 e 3.600 toneladas de ni\u00f3bio, um elemento utilizado em soldas de alta temperatura para tipos especiais de a\u00e7o, como os usados na produ\u00e7\u00e3o de gasodutos, autom\u00f3veis e motores \u00e0 rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os especialistas calculam que a mina de Mrima Hill \u00e9 a sexta maior do mundo, com vida \u00fatil entre 16 e 18 anos, o que colocaria o Qu\u00eania na lista dos principais exportadores de ni\u00f3bio. Mas, devido \u00e0 rea\u00e7\u00e3o adversa de organiza\u00e7\u00f5es ambientais e outros grupos da sociedade civil diante do projeto, preocupados pelo impacto da minera\u00e7\u00e3o em s\u00edtios ecol\u00f3gicos e culturais sens\u00edveis, o governo revogou a permiss\u00e3o inicial de 21 anos concedida \u00e0 companhia.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de 2015, o governo confirmou a decis\u00e3o de um tribunal que revogou a permiss\u00e3o, e anunciou que o Estado controlaria a prospec\u00e7\u00e3o dos minerais. No dia 20 de mar\u00e7o, o ministro de Minera\u00e7\u00e3o, Najib Balala, declarou, em um comunicado de imprensa, que \u201cnem a Cortec nem outra empresa poder\u00e3o trabalhar em Mrima. Esta ser\u00e1 gerida em nome do povo do Qu\u00eania e, especialmente, das pessoas dos condados de Mrima e Kwale em seu conjunto\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, as comunidades ind\u00edgenas continuam vendo com preocupa\u00e7\u00e3o a ambiciosa agenda de desenvolvimento econ\u00f4mico do Qu\u00eania. Os setores de minera\u00e7\u00e3o e o de im\u00f3veis se converteram nos principais motores do crescimento do pa\u00eds, e as jazidas minerais de terras raras poderiam ser um grande impulso nesse sentido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a descoberta, em 2013, de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural no condado de Turkana, na fronteira entre Qu\u00eania e Sud\u00e3o do Sul, junto com a not\u00edcia de que os exploradores haviam encontrado tit\u00e2nio ao longo dos 500 quil\u00f4metros de costa, reavivou o temor de que as florestas kayas fossem invadidas e destru\u00eddas.<\/p>\n<p>O Centro Ujamaa afirma que algumas comunidades ind\u00edgenas come\u00e7am a ceder \u00e0s press\u00f5es das ind\u00fastrias mineradoras e \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de dinheiro r\u00e1pido que os empres\u00e1rios oferecem. O kaya Chivara, no condado de Kilifi, por exemplo, est\u00e1 completamente degradado devido \u00e0 invas\u00e3o humana, enquanto outros, sobretudo no condado de Kwale, rico em minerais, est\u00e3o em alto risco.<\/p>\n<p>\u201cA iminente extra\u00e7\u00e3o de ni\u00f3bio seguramente degradar\u00e1 a floresta\u201d, alertou Adhiambo, destacando que os mijikendas ter\u00e3o um papel importante na luta para impedir todo desenvolvimento potencialmente destrutivo.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, o kaya Kinondo est\u00e1 em boas m\u00e3os. O Conselho de Idosos se mant\u00e9m vigilante sobre a prote\u00e7\u00e3o das florestas. \u201cSe houver m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es dentro dessa floresta, uma maldi\u00e7\u00e3o cai sobre voc\u00ea e cremos que \u00e9 poss\u00edvel que nem consiga sair com vida\u201d, advertiu Rashid Bakari, um guia que trabalha com jovens da comunidade para levar os visitantes aos kayas, em entrevista \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o do Qu\u00eania tamb\u00e9m \u00e9 uma fonte de prote\u00e7\u00e3o. Em seu artigo 44 diz que a resolu\u00e7\u00e3o de disputas sobre terras consuetudin\u00e1rias deve incluir a participa\u00e7\u00e3o da comunidade. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Esta reportagem faz parte de uma s\u00e9rie concebida em colabora\u00e7\u00e3o com o Ecosocialist Horizons.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Miriam Gathigah, da IPS &ndash;&nbsp; Kaya Kinondo, Qu&ecirc;nia, 2\/7\/2015 &ndash; No sul da prov&iacute;ncia Costeira do Qu&ecirc;nia fica um dos locais mais singulares do planeta, composto pelos restos de v&aacute;rias aldeias fortificadas, venerados pelo povo ind&iacute;gena mijikenda como a morada sagrada de seus ancestrais. 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