{"id":19274,"date":"2015-07-06T12:35:49","date_gmt":"2015-07-06T12:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=197060"},"modified":"2015-07-06T12:35:49","modified_gmt":"2015-07-06T12:35:49","slug":"bengalis-arriscam-tudo-para-fugir-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/07\/ultimas-noticias\/bengalis-arriscam-tudo-para-fugir-da-pobreza\/","title":{"rendered":"Bengalis arriscam tudo para fugir da pobreza"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_197061\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/bangladesh-629x354.jpg\"><img class=\"wp-image-197061\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/bangladesh-629x354.jpg\" alt=\"Homens abandonados em alto mar por traficantes de pessoas foram resgatados pela Guarda Fronteiri\u00e7a de Bangladesh e se reuniram com suas fam\u00edlias em Teknaf, localidade da cidade de Cox\u2019s Bazar. Foto: Abdur Rahman\/IPS\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Homens abandonados em alto mar por traficantes de pessoas foram resgatados pela Guarda Fronteiri\u00e7a de Bangladesh e se reuniram com suas fam\u00edlias em Teknaf, localidade da cidade de Cox\u2019s Bazar. Foto: Abdur Rahman\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Naimul Haq, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Teknaf, Bangladesh, 6\/7\/2015 \u2013 Com apenas 16 anos, o bengali Mohammad Yasin j\u00e1 viveu um inferno, do qual conseguiu escapar por milagre. Ap\u00f3s sobreviver a uma perigosa travessia pelo Oceano \u00cdndico, amontoado com outras 115 pessoas no por\u00e3o de uma prec\u00e1ria embarca\u00e7\u00e3o, com pouqu\u00edssimo alimento, sem \u00e1gua e poucas esperan\u00e7as de chegar vivo \u00e0 costa. Yasin viu morrer de fome um companheiro de viagem, um destino do qual quase n\u00e3o consegue se salvar.<\/p>\n<p>O jovem, que vivia com sua fam\u00edlia de sapateiros pobres em Teknaf, povoado do extremo sul da cidade de Cox\u2019s Bazar, em Bangladesh, come\u00e7ou a chorar ao contar sua hist\u00f3ria. A mesma que se repete pelo \u00eaxodo em massa de migrantes e refugiados pol\u00edticos no sudeste da \u00c1sia, uma situa\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m em alerta v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de direitos humanos e a pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU).<\/p>\n<p>Yasin contou \u00e0 IPS que tudo come\u00e7ou quando um grupo de homens do vizinho distrito de Bandarban prometeu lev\u00e1-lo \u00e0 Mal\u00e1sia para procurar trabalho, junto com outras cinco pessoas de Teknaf. Com renda de US$ 80 mensais e fam\u00edlia de quatro pessoas, que inclui o pai doente do rapaz, a Mal\u00e1sia parecia um \u201cdestino sonhado\u201d para ele, pois conseguiria ganhar dinheiro suficiente para ajudar seus parentes.<\/p>\n<p>\u201cO homem nos disse que n\u00e3o ter\u00edamos de pagar nada agora, mas que \u2018deduziriam\u2019 US$ 2.600 de cada quando encontr\u00e1ssemos trabalho na Mal\u00e1sia\u201d, explicou o debilitado adolescente. \u201cEm uma manh\u00e3 ensolarada da \u00faltima semana de abril, levaram um grande grupo de homens e mulheres para a ilha deserta de Shah Porir Dwip, e nesse mesmo dia, horas mais tarde, embarcamos em um grande barco de madeira\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>J\u00e1 no meio da ba\u00eda de Bengala, no porto de Chaungthar, na cidade malaia de Pathein, se juntaram ao grupo alguns mu\u00e7ulmanos rohingya. Esta minoria \u00e9tnica sofre uma persegui\u00e7\u00e3o religiosa em Myanmar e agora constitui o grosso do movimento de seres humanos existente nesta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Junto com os dez organizadores, que eram traficantes, o grupo era formado por 130 pessoas. A forma como chegariam ao destino, ou quando chegariam, era uma inc\u00f3gnita para os passageiros. Esses homens tinham suas vidas em suas m\u00e3os. \u201cOs suprimentos eram escassos e a comida e a \u00e1gua racionada a cada tr\u00eas dias. Muitos vomitaram enjoados por causa do movimento do barco ao sulcar as poderosas ondas\u201d, contou Mohammad Ripon, do distrito bengali de Narayanganj.<\/p>\n<p>Durante o dia, os traficantes abriam a escotilha por onde entrava um sol abrasador. \u00c0 noite, a fechavam e os passageiros congelavam. Al\u00e9m disso, n\u00e3o havia quem conseguisse dormir entre o pranto e as queixas das pessoas doentes e assustadas. N\u00e3o sabiam nada e ningu\u00e9m se atreveu a perguntar, por medo de sofrer viol\u00eancia f\u00edsica ou ser jogado no mar. Seus captores j\u00e1 haviam batido em v\u00e1rios passageiros por perguntarem demais.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um m\u00eas e meio sofrendo essa tortura, a Guarda Costeira de Bangladesh conduziu o barco para a ilha de San Martin, diante da costa de Cox\u2019s Bazar, bem perto de onde havia come\u00e7ado a viagem dos esperan\u00e7osos imigrantes. S\u00f3 depois que emergiram, pele e osso e olhos fundos, foi que se deram conta de que a tripula\u00e7\u00e3o havia abandonado o barco. Apesar das pen\u00farias, o grupo teve sorte, as pessoas sobreviveram e n\u00e3o perderam nem seus pertences nem seu dinheiro.<\/p>\n<p>Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, cerca de 88 mil pessoas, na maioria bengalis pobres ou mu\u00e7ulmanos rohingya deslocados de Myanmar, tentaram cruzar a fronteira com Tail\u00e2ndia, Mal\u00e1sia ou Indon\u00e9sia no prazo de 15 meses. Delas, cerca de 63 mil fizeram a tentativa entre janeiro e dezembro de 2014, e outras 25 mil no primeiro trimestre deste ano. E, destas, cerca de 300 morreram em alto mar. Desde outubro de 2014, 620 pessoas perderam a vida em travessias marinhas perigosas n\u00e3o planejadas na ba\u00eda de Bengala.<\/p>\n<p>Para piorar as coisas, a descoberta de redes de traficantes levou os governos da regi\u00e3o, em particular os da Tail\u00e2ndia e da Mal\u00e1sia, a investirem contra as chegadas irregulares, impedindo a atraca\u00e7\u00e3o de barcos e, \u00e0s vezes, at\u00e9 rebocando-os de volta para alto mar, apesar de terem a bordo pessoas desesperadas.<\/p>\n<p>Os imigrantes de Bangladesh fogem da pobreza e do desemprego em seu pa\u00eds de aproximadamente 157 milh\u00f5es de pessoas, 31% dos quais s\u00e3o pobres. O Escrit\u00f3rio de Estat\u00edsticas desse pa\u00eds diz que o desemprego afeta 4,53% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, o que significa que 6,7 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam trabalho.<\/p>\n<p>O soldador Mohammad Hasan, de 34 anos, procedente da aldeia de Boliadangi, no distrito de Thakurgaon, \u00e9 um dos muitos que sonharam com uma vida mais pr\u00f3spera em um pa\u00eds diferente. \u201cVendi minha terra ancestral para viajar rumo \u00e0 Mal\u00e1sia, onde esperava conseguir emprego na constru\u00e7\u00e3o, porque minha renda n\u00e3o era suficiente para uma fam\u00edlia de seis pessoas\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Ele ganhava US$ 100 por m\u00eas, mas n\u00e3o era tarefa f\u00e1cil alimentar sete pessoas com cerca de US$ 15 por dia. Desesperado, colocou sua vida nas m\u00e3os dos traficantes de pessoas e embarcou com destino \u00e0 Mal\u00e1sia. No come\u00e7o deste ano, abandonado pelos que lhe prometeram uma travessia segura, ele e outros cem homens foram encontrados \u00e0 deriva diante da costa da Tail\u00e2ndia. Felizmente, todos sobreviveram, mas perderam o dinheiro pago pela viagem.<\/p>\n<p>Entre 60% e 70% da popula\u00e7\u00e3o bengali vive da agricultura, e a vasta maioria tem dificuldades para sobreviver. Aninda Dutta, que trabalha para a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es neste pa\u00eds, explicou que \u201cem Bangladesh h\u00e1 um forte v\u00ednculo entre migra\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico humano, pois uma travessia que come\u00e7a por motivos econ\u00f4micos se torna um caso de tr\u00e1fico devido \u00e0s circunst\u00e2ncias\u201d.<\/p>\n<p>Tais \u201ccircunst\u00e2ncias\u201d s\u00e3o pagamentos por extors\u00e3o aos chamados agentes, redes de traficantes e golpistas, outras formas de abuso durante a travessia, como viol\u00eancia sexual, roubo de seus pertences no mar ou abandono sem um centavo em diferentes lugares, principalmente na Tail\u00e2ndia ou Mal\u00e1sia, onde ficam \u00e0 merc\u00ea da ira das correspondentes autoridades migrat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Em uma tentativa de cortar o problema pela raiz, a Guarda Fronteiri\u00e7a de Bangladesh instalou mais postos de controle para aumentar a vigil\u00e2ncia, e prop\u00f4s que o governo endure\u00e7a as normas de registro de embarca\u00e7\u00f5es. Mas, enquanto as autoridades n\u00e3o atenderem o problema subjacente da pobreza extrema, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que o \u00eaxodo diminua no curto prazo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Naimul Haq, da IPS &ndash;&nbsp; Teknaf, Bangladesh, 6\/7\/2015 &ndash; Com apenas 16 anos, o bengali Mohammad Yasin j&aacute; viveu um inferno, do qual conseguiu escapar por milagre. 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