{"id":19330,"date":"2015-07-16T13:21:33","date_gmt":"2015-07-16T13:21:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=197535"},"modified":"2015-07-16T13:21:33","modified_gmt":"2015-07-16T13:21:33","slug":"enfermeira-em-camaroes-escrava-no-kuwait","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/07\/ultimas-noticias\/enfermeira-em-camaroes-escrava-no-kuwait\/","title":{"rendered":"Enfermeira em Camar\u00f5es, escrava no Kuwait"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_197536\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Cameroon-schoolgirls-629x420-629x420.jpg\"><img class=\"wp-image-197536\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Cameroon-schoolgirls-629x420-629x420.jpg\" alt=\"A falta de trabalho leva muitas jovens de Camar\u00f5es a buscar emprego no exterior, \u00e0s vezes com consequ\u00eancias terr\u00edveis. Foto: Ngala Kilian Chimtom\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A falta de trabalho leva muitas jovens de Camar\u00f5es a buscar emprego no exterior, \u00e0s vezes com consequ\u00eancias terr\u00edveis. Foto: Ngala Kilian Chimtom\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Ngala Kilian Chimtom, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Iaund\u00e9, Camar\u00f5es, 16\/7\/2015 \u2013 Provocam indigna\u00e7\u00e3o os relatos de mulheres africanas que buscam emprego no Kuwait e em outros pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e acabam encontrando a escravid\u00e3o. Susan (nome fict\u00edcio) contou entre solu\u00e7os \u00e0 IPS como partiu de Camar\u00f5es, em 2013, com a esperan\u00e7a de encontrar trabalho no Kuwait. \u201cVi cartazes em minha cidade com avisos sobre emprego, anunciando postos de trabalho para enfermeiras e empregadas dom\u00e9sticas no Kuwait. Sendo enfermeira e sem trabalho em Camar\u00f5es decidi aproveitar a oportunidade\u201d, explicou a jovem de 28 anos.<\/p>\n<p>Com ajuda de um agente cujos dados de contato constavam do cartaz, Susan tomou um avi\u00e3o com destino ao Kuwait. Estava entusiasmada com a perspectiva de ganhar at\u00e9 US$ 420 por m\u00eas. Essa \u00e9 a quantia que o agente lhe garantira, e era muito tentadora em compara\u00e7\u00e3o aos cerca de US$ 75 que ganharia em seu pa\u00eds, se tivesse um emprego. Mas a hist\u00f3ria mudou radicalmente quando Susan e outras 46 camaronesas chegaram ao Kuwait, no dia 8 de novembro de 2013. \u201cLevaram todas n\u00f3s para um pequeno c\u00f4modo. Havia muitas mo\u00e7as ali: ganesas, nigerianas e tunisianas\u201d, recordou Susan. Ent\u00e3o, \u201cnos venderam com se f\u00f4ssemos mercadoria\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Susan foi levada por um eg\u00edpcio. \u201cCreio que em sua casa tive ideia do que \u00e9 o inferno\u201d, contou, chorando. Sua jornada de trabalho come\u00e7ava \u00e0s cinco da manh\u00e3 e terminava depois da meia-noite. Com frequ\u00eancia ia para a cama sem ter se alimentado. Por diversas vezes, o homem tentou violent\u00e1-la, e, quando ela amea\u00e7ou denunciar o caso \u00e0 pol\u00edcia, ele respondeu com amea\u00e7as. \u201cMe disse que pagaria a pol\u00edcia para poder me violentar e me matar, e que o caso ficaria por isso mesmo\u201d, acrescentou. Isolada de toda comunica\u00e7\u00e3o com o mundo exterior, Susan disse que encontrou consolo em sua f\u00e9. \u201cRezei, pedi ajuda a Deus\u201d, enfatizou.<\/p>\n<p>E seu caso n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. Brenda, outra camaronesa que teve a sorte de conseguir escapar, conta uma experi\u00eancia semelhante no Kuwait. Ela tinha que lavar os animais de estima\u00e7\u00e3o de seu amo, que inclu\u00eda gatos e serpentes. Contou que \u201cdividia o mesmo banheiro com os gatos. Eu os chamava de meus irm\u00e3os, porque eram as \u00fanicas \u2018pessoas\u2019 com as quais conversava\u201d.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 n\u00e3o aguentavam mais, as duas comunicaram aos seus empregadores que n\u00e3o estavam dispostas a continuar trabalhando. Brenda disse que, quando ela insistiu nisso, foi expulsa da casa. \u201cNesse momento estava t\u00e3o fraca, estava morrendo de verdade e n\u00e3o sabia para onde ir\u201d, afirmou. Ap\u00f3s vagar durante dois dias, ela se viu diante da embaixada da Rep\u00fablica Centro-Africana e dormiu mais dois dias diante do pr\u00e9dio at\u00e9 ser resgatada.<\/p>\n<p>Por sua vez, Susan foi colocada no porta-malas de um carro e levada de volta ao agente que a trouxera do aeroporto. \u201cOs fatos aconteceram t\u00e3o rapidamente que me vi passando uma semana na pris\u00e3o de imigra\u00e7\u00e3o e mais tr\u00eas dias na pris\u00e3o de deporta\u00e7\u00e3o\u201d, explicou. Finalmente, quando ambas foram colocadas em um voo com destino a Camar\u00f5es, tiveram confiscados seus pertences, menos seus passaportes e a roupa que vestiam.<\/p>\n<p>A magnitude do problema \u00e9 preocupante. O \u00cdndice Mundial da Escravid\u00e3o, publicado anualmente pela funda\u00e7\u00e3o australiana Walk Free, calcula que em 2013 havia 750 mil pessoas escravizadas no Oriente M\u00e9dio e no norte da \u00c1frica. Segundo o documento, nos \u00faltimos sete anos, Ar\u00e1bia Saudita e Kuwait foram classificadas no n\u00edvel tr\u00eas dos pa\u00edses onde ocorre tr\u00e1fico de seres humanos e abusos trabalhistas. O n\u00edvel tr\u00eas indica que os governos n\u00e3o cumprem plenamente as normas m\u00ednimas referentes ao tr\u00e1fico de pessoas, nem tomam as medidas necess\u00e1rias para remedi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da \u00c1frica, pessoas da \u00cdndia, Nepal, Uzbequist\u00e3o e demais pa\u00edses \u201cmigram voluntariamente em busca de trabalho dom\u00e9stico, convencidas pela promessa feita pelas ag\u00eancias de emprego de conseguirem trabalho rent\u00e1vel. Ao entrarem no pa\u00eds, se veem enganadas e escravizadas, dentro dos limites de um sistema de patroc\u00ednio legal\u201d, acrescenta o informe.<\/p>\n<p>Susan e Brenda voltaram aos seus pa\u00edses, mas sofreram pelo trauma que lhes causou a terr\u00edvel experi\u00eancia no Kuwait. O Centro de Trauma para as V\u00edtimas do Tr\u00e1fico de Pessoas, em Camar\u00f5es, ofereceu ajuda a elas. \u201cTentamos fazer com que se sintam em casa\u201d, disse Beatriz Titanji, vice-presidente da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEstiveram expostas a maus tratos. Disseram a elas que eram animais, que tinham peste, e quando entravam em um carro ou um c\u00f4modo, aplicavam um aerossol para tirar o suposto cheiro. N\u00e3o posso imaginar tratarem um filho meu dessa maneira\u201d, disse Titanji \u00e0 IPS. Ela pediu ao governo que investigue e processe os agentes, gere postos de trabalho e vigie os aeroportos para evitar que os cidad\u00e3os de Camar\u00f5es busquem trabalho no Oriente M\u00e9dio. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Ngala Kilian Chimtom, da IPS &ndash;&nbsp; Iaund&eacute;, Camar&otilde;es, 16\/7\/2015 &ndash; Provocam indigna&ccedil;&atilde;o os relatos de mulheres africanas que buscam emprego no Kuwait e em outros pa&iacute;ses do Oriente M&eacute;dio e acabam encontrando a escravid&atilde;o. 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