{"id":1938,"date":"2006-07-14T00:00:00","date_gmt":"2006-07-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1938"},"modified":"2006-07-14T00:00:00","modified_gmt":"2006-07-14T00:00:00","slug":"jornalismo-colaborador-da-ips-e-assassinado-no-iraque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/07\/mundo\/jornalismo-colaborador-da-ips-e-assassinado-no-iraque\/","title":{"rendered":"Jornalismo: Colaborador da IPS \u00e9 assassinado no Iraque"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e3o Francisco, EUA, 14\/07\/2006 &ndash; O iraquiano Alaa Hassan, colaborador da IPS, foi assassinado em Bagd\u00e1 quando se dirigia ao trabalho, no \u00faltimo dia 28. Tinha 35 anos. Deixa sua m\u00e3e, cinco irm\u00e3os e cinco irm\u00e3s e sua mulher gr\u00e1vida do primeiro filho. Alaa n\u00e3o foi morto por ser jornalista. <!--more--> De fato, come\u00e7ou h\u00e1 pouco tempo a colaborar com a IPS na coleta de informa\u00e7\u00e3o. Quando homens armados o emboscaram e metralharam seu carro, foi simplesmente porque estava no lugar errado, na hora errada, em mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia que tragou o Iraque desde que foi invadido pelos Estados Unidos, em mar\u00e7o de 2003.<\/p>\n<p>No mesmo dia em que Alaa foi assassinado, a ag\u00eancia de not\u00edcias Reuters informava sobre outros 11 incidentes violentes nesse pa\u00eds, incluindo carros-bomba que mataram trabalhadores em Baquba, 50 quil\u00f4metros a nordeste de Bagd\u00e1, e comerciantes no distrito de Shia Qadamiya. Pelo menos quatro policiais e um soldado norte-americano morreram em diferentes ataques. Em Baquba, o ex\u00e9rcito dos Estados Unidos admitiu ter matado um \u201cn\u00e3o-combatente\u201d durante invas\u00e3o de uma resid\u00eancia. A maior parte das pessoas mortas nesse 28 de junho \u2013 como as dezenas de milhares de civis iraquianos que morreram nos \u00faltimos tr\u00eas anos \u2013 passaram a fazer parte das estat\u00edsticas. Como conhec\u00edamos Alaa, podemos contar sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Alaa vivia na localidade de al-Tajiyyat, nordeste de Bagd\u00e1, perto do Rio Tigre, em uma das casas reservadas para empregados do Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria quando Saddam Hussein era presidente (1979-2003). Administrava o invent\u00e1rio de uma loja de artigos para escrit\u00f3rios na rua Matunabbi, regi\u00e3o do famoso mercado de livros da capital iraquiana. Sua casa ficava ao lado do que havia sido uma f\u00e1brica de eletr\u00f4nica, e atravessando a rua estava a antiga sede do Instituto de Estudos \u00c1rabes e Nacionais sobre Petr\u00f3leo. As duas instala\u00e7\u00f5es foram saqueadas depois da invas\u00e3o norte-americana em 2003. Mais tarde, a for\u00e7a ocupante as transformou em bases militares. Portanto, a vizinhan\u00e7a de Alaa era freq\u00fcentemente bombardeada pela resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O \u00fanico caminho entre sua casa e o centro de Bagd\u00e1 \u00e9 a ponta al-Muthana sobre o Tigre, local habitual de ataques rebeldes. Por causa de uma curva e um posto de controle policial, cada ve\u00edculo que cruza a ponte deve reduzir a velocidade. Muitas vezes por semana morre gente ali. Quando Alaa cruzou a ponte, homens armados dispararam suas metralhadoras. Recebeu seis tiros. Outro passageiro ficou gravemente ferido. Nesse mesmo dia Alaa havia se queixado de precisar cruzar a ponte. Pouco antes, seu amigo Abu Laith foi morto no mesmo lugar. \u201cVoltava para casa do trabalho e algu\u00e9m apareceu e o matou\u201d, contara Alaa.<\/p>\n<p>\u201cSei que \u00e9 perigoso sair de casa. Mas o que posso fazer? Tenho de continuar vivendo\u201d, havia dito por telefone ao seu irm\u00e3o Salam. Alaa estava sempre em perigo. \u201cOs americanos constru\u00edram uma base em frente \u00e0 minha casa, onde havia um instituto governamental, e outra ao lado, na f\u00e1brica al-Karrama\u201d, contou ao seu irm\u00e3o. \u201cQuando sa\u00edmos, os americanos est\u00e3o na porta da rua. O muro de sua base est\u00e1 diante da casa. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 seguro ir at\u00e9 a rua principal, a meio quil\u00f4metro de dist\u00e2ncia\u201d. Alaa Hassan nasceu perto da antiga cidade da Babil\u00f4nia, no centro do pa\u00eds, em uma fam\u00edlia de 11 irm\u00e3os. Sua m\u00e3e era dona de casa e seu pai empregado dos tribunais. Jovem, se mudou para os arredores de Bagd\u00e1 e come\u00e7ou a trabalhar como programador de computadores no Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Se casou em 2000. Durante o regime de Saddam, ningu\u00e9m podia se casar (ou abrir uma loja ou um neg\u00f3cio) sem um atestado de boa conduta. Mas aparentemente Alaa se casou sem seguir os procedimentos. Algu\u00e9m denunciou o fato e Alaa foi preso em um centro de torturas durante nove meses. \u201cA fam\u00edlia teve de pagar um suborno para encontr\u00e1-lo\u201d, lembra Salam. \u201cO tinham colocado em um armaz\u00e9m perto da escola de Direito. Ele apanhava nas m\u00e3os e no corpo. Tinha hematomas por toda parte\u201d. Salam recorda que o visitou nesse lugar.<\/p>\n<p>\u201cEra um grande armaz\u00e9m com muitos quartos no andar superior. As torturas eram praticadas em uma \u00e1rea aberta para que os demais prisioneiros pudessem assistir. Finalmente, decidiram lev\u00e1-lo a julgamento. Ele foi condenado a 25 anos de pris\u00e3o, mas pagamos um suborno e reduziram a pena para tr\u00eas anos\u201d. Alaa cumpria sua senten\u00e7a na infame pris\u00e3o de Abu Ghraib, entre criminosos perigosos e presos pol\u00edticos. Ali permaneceu at\u00e9 pouco antes da invas\u00e3o norte-americana, quando Saddam anunciou uma anistia geral. Alaa deixou a pris\u00e3o traumatizado. Divorciou-se e voltou para a Babil\u00f4nia.<\/p>\n<p>Viveu com sua fam\u00edlia at\u00e9 tr\u00eas meses depois da queda de Saddam. Ent\u00e3o, decidiu procurar trabalho novamente. Quando um primo lhe conseguiu emprego em uma papelaria na rua Mutanabbi, voltou a Bagd\u00e1. Casou-se novamente tr\u00eas meses antes de morrer. Na semana passada ficou sabendo que sua mulher estava gr\u00e1vida. Como ocorre a muitas fam\u00edlias de v\u00edtimas da viol\u00eancia iraquiana, a de Alaa teve dificuldades para realizar o vel\u00f3rio e o enterro. Quando um dos irm\u00e3os telefonou foi ao necrot\u00e9rio de Bagd\u00e1 para retirar o corpo, um empregado o alertou para n\u00e3o ir porque a \u00e1rea estava controlada por rebeldes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, seus familiares e amigos se reuniram e, todos armados, caminharam at\u00e9 o local debaixo de fogo. Ao chegarem, tiveram de andar entre os mortos para encontrar o corpo de Alaa. Ele foi enterrado na cidade sagrada de Nayaf, centro do pa\u00eds. Foi uma viagem dif\u00edcil, porque as estradas n\u00e3o s\u00e3o seguras. Os familiares conseguiram que milicianos do Ex\u00e9rcito Mahdi, do cl\u00e9rigo xiita Muqtada al-Sadr, os escoltassem na viagem e durante o funeral. A fam\u00edlia de Alaa enfrentar\u00e1 o luto tradicional de 40 dias em sua casa na Babil\u00f4nia. Todos seus parentes est\u00e3o se mudando de Bagd\u00e1. \u201cAs conseq\u00fc\u00eancias das pessoas mortas permanecer\u00e3o no futuro do Iraque, pois todas t\u00eam fam\u00edlias. A nova gera\u00e7\u00e3o crescer\u00e1 sem pais\u201d, disse Salam. \u201cSe isto continuar por mais tr\u00eas ou quatro anos, cada fam\u00edlia no Iraque ser\u00e1 afetada por esta guerra e ser\u00e1 muito dif\u00edcil a paz voltar ao pa\u00eds\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>(*) O autor e Alaa Hassan informaram sobre a crescente viol\u00eancia e as divis\u00f5es sect\u00e1rias em Basra, sul do Iraque; a respeito de graves fatos ignorados, na localidade de haditha, bombardeada pelo ex\u00e9rcito dos Estados Unidos no ano passado, e sobre as rea\u00e7\u00f5es locais ao assassinato em junho de Abu Musab al-Zarqawi, o jordaniano que liderou a rede Al Qaeda no Iraque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Francisco, EUA, 14\/07\/2006 &ndash; O iraquiano Alaa Hassan, colaborador da IPS, foi assassinado em Bagd\u00e1 quando se dirigia ao trabalho, no \u00faltimo dia 28. Tinha 35 anos. 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Alaa n\u00e3o foi morto por ser jornalista. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/07\/mundo\/jornalismo-colaborador-da-ips-e-assassinado-no-iraque\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":457,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4],"tags":[],"class_list":["post-1938","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/457"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1938"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1938\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}