{"id":19381,"date":"2015-07-24T13:25:07","date_gmt":"2015-07-24T13:25:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=197959"},"modified":"2015-07-24T13:25:07","modified_gmt":"2015-07-24T13:25:07","slug":"sacerdotisas-preservam-sementes-de-milho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/07\/ultimas-noticias\/sacerdotisas-preservam-sementes-de-milho\/","title":{"rendered":"Sacerdotisas preservam sementes de milho"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_197960\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/sacerdotistas.jpg\"><img class=\"wp-image-197960\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/sacerdotistas.jpg\" alt=\"Sacerdotisas da comunidade tribal de dongria kondh, na \u00cdndia, realizam um elaborado ritual antes de irem em busca de sementes de milho. Foto: Manipadma Jena\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Sacerdotisas da comunidade tribal de dongria kondh, na \u00cdndia, realizam um elaborado ritual antes de irem em busca de sementes de milho. Foto: Manipadma Jena\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Manipadma Jena, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Niyamgiri, \u00cdndia, 24\/7\/2015 \u2013 Um grupo de mulheres no Estado de Odisha, na \u00cdndia, dan\u00e7a ritmicamente e oferece uma can\u00e7\u00e3o ao deus da floresta em troca de uma colheita abundante. Com panelas de barro na cabe\u00e7a e suas criaturas espirituais \u00e0s costas \u2013 uma pomba ou uma galinha \u2013, partem a p\u00e9 de Kadaraguma, seu povoado na cordilheira de Niyamgiri, no distrito de Rayagada. Pertencentes \u00e0 tribo dos dongria kondhs, habitantes das florestas que veneram as colinas circundantes como a morada sagrada de seu deus, Nyiam Raja, essas mulheres s\u00e3o sacerdotisas, conhecidas no dialeto local como <em>bejunis<\/em>.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia \u00e9 a primeira etapa de uma viagem a um povoado vizinho para recolher uma rara variedade de milho, o alimento b\u00e1sico da tribo de mais de dez mil habitantes. No passado, esse cereal resistente e de alto valor nutritivo era cultivado em enormes extens\u00f5es de terra em toda a \u00cdndia. Aqui, nas colinas de Niyamgiri, os dongria kondhs acreditam firmemente nos benef\u00edcios do milho e dedicam partes das ladeiras montanhosas \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o desenvolvimento industrial e a minera\u00e7\u00e3o neste Estado rico em recursos minerais absorveram muitos hectares de terra e relegaram a segundo plano o cultivo resistente \u00e0 seca. Um programa p\u00fablico que subsidia o arroz tamb\u00e9m contribuiu para a queda na produ\u00e7\u00e3o e no consumo do milho, para tristeza das comunidades ind\u00edgenas que asseguram que sua fonte local de alimentos n\u00e3o s\u00f3 protege sua sa\u00fade como tamb\u00e9m tem valor espiritual e cultural.<\/p>\n<p>\u201cSomos dongria kondhs. Vamos morrer sem nossos morros e nossas sementes sagradas\u201d, afirmou \u00e0 IPS uma das sacerdotisas. \u201cQuando era menina soube que colh\u00edamos mais de 30 variedades tradicionais de milho\u201d, recordou Dasara Kadraka, que aos 68 anos \u00e9 a sacerdotisa mais veterana das 22 aldeias que colaboram na preserva\u00e7\u00e3o do cereal. \u201cH\u00e1 dez anos estava reduzido a 11 variedades e, atualmente, s\u00f3 s\u00e3o cultivadas duas\u201d, afirmou \u00e0 IPS.<\/p>\n<div id=\"attachment_197961\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Millet-Pix-2-2.jpg\"><img class=\"wp-image-197961\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Millet-Pix-2-2.jpg\" alt=\"A sacerdotisa Dasara Kadraka explica porque a tribo se dedica a preservar as sementes ancestrais. Foto: Manipadma Jena\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A sacerdotisa Dasara Kadraka explica porque a tribo se dedica a preservar as sementes ancestrais. Foto: Manipadma Jena\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Dasara \u00e9 oriunda de Kadaraguma, aldeia de 31 casas que tem papel fundamental na coleta das sementes, que consiste em um complexo ritual. A p\u00e9, as sacerdotisas visitam os povoados que cultivam uma variedade antiga de milho. Elas oferecem a galinha e a pomba \u00e0 bejuni local, e em troca pedem quatro medidas de sementes para encher quatro cestas de bambu, que despejam sobre um tecido branco.<\/p>\n<p>As sementes s\u00e3o, ent\u00e3o, distribu\u00eddas em partes iguais entre cinco fam\u00edlias da aldeia das sacerdotisas viajantes, para serem plantadas em junho. Gra\u00e7as \u00e0 chuva, a colheita resultante em dezembro equivale, em m\u00e9dia, a 50 vezes a quantidade de semente plantada. Como pagamento, as sacerdotisas entregam oito cestas do cereal aos seus vizinhos, o dobro das sementes que receberam inicialmente.<\/p>\n<p>As not\u00edcias sobre as variedades pouco comuns de sementes s\u00e3o passadas de boca em boca. Membros da comunidade dom, vizinha dos dongria kondhs, atuam como mensageiros. As visitas dos doms a localidades distantes permitiram recentemente a preserva\u00e7\u00e3o de milho em desaparecimento: o khidi janha, aparentado com o sorgo, no povoado de Jangojodi, e uma vers\u00e3o do milho rabo de raposa chamada kanga-arka, na aldeia de Sagadi.<\/p>\n<div id=\"attachment_197962\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Millet-Pix-3-2.jpg\"><img class=\"wp-image-197962\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Millet-Pix-3-2.jpg\" alt=\"O pur\u00ea de milho \u00e9 transportado em caba\u00e7as que mant\u00eam uma temperatura est\u00e1vel, mesmo ao sol. Foto: Manipadma Jena\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O pur\u00ea de milho \u00e9 transportado em caba\u00e7as que mant\u00eam uma temperatura est\u00e1vel, mesmo ao sol. Foto: Manipadma Jena\/IPS<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 60 anos, o milho ocupava 40% das terras cultivadas com cereais na \u00cdndia. Atualmente, esse n\u00famero caiu para apenas 11%. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) revela que a produ\u00e7\u00e3o de milho come\u00e7ou a diminuir com a mudan\u00e7a do mil\u00eanio, e que os n\u00edveis em 2010 pouco superam os de 1990. Em Niyamgiri, os n\u00fameros s\u00e3o piores.<\/p>\n<p>\u201cO plano do governo que incentivou cultivos comerciais como abacaxi, c\u00farcuma e gengibre na comunidade dongri kondh invadiu 50% das terras dedicadas ao milho nos \u00faltimos 15 anos\u201d, afirmou Susanta Kumar Dalai, um volunt\u00e1rio do setor social que trabalha com a tribo.<\/p>\n<p>Como o milho cresce bem em situa\u00e7\u00e3o adversa, prospera em condi\u00e7\u00f5es de seca e n\u00e3o exige irriga\u00e7\u00e3o al\u00e9m da chuva habitual, as comunidades rurais n\u00e3o entendem a decis\u00e3o do governo que pretende limitar sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O milho tamb\u00e9m fornece altas quantidades de prote\u00ednas, vitamina B e minerais como magn\u00e9sio, pot\u00e1ssio, zinco e cobre aos povos tribais, e preenche os vazios nutricionais que n\u00e3o podem ser complementados com outros alimentos mais caros. A desnutri\u00e7\u00e3o em Niyamgiri \u00e9 comum, e a fome extrema, que o governo mede segundo sua refer\u00eancia de ingest\u00e3o di\u00e1ria de 2.400 calorias, alcan\u00e7a 83% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os moradores locais afirmaram \u00e0 IPS que as pr\u00e1ticas agr\u00edcolas tradicionais, como os cultivos mistos e os h\u00e1bitos alimentares antigos, poderiam resolver muitos problemas. \u201cQuando t\u00ednhamos mais variedades de milho, plant\u00e1vamos at\u00e9 nove cereais e lentinha diferentes em uma \u00e1rea\u201d, disse Krusna Kadraka, de 53 anos, chefe da aldeia de Kadaraguma.<\/p>\n<p>No momento da colheita, cada casa tinha v\u00e1rias \u201cgulis\u201d (cestas de bambu com capacidade de at\u00e9 200 quilos) cheias de cereais. Agora que as variedades de cereais s\u00e3o substitu\u00eddas por monoculturas como o arroz, 27 das 31 fam\u00edlias do povoado colhem apenas duas gulis de gr\u00e3os por ano em suas \u00e1reas individuais de um hectare.<\/p>\n<div id=\"attachment_197963\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Millet-Pix-4-1.jpg\"><img class=\"wp-image-197963\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Millet-Pix-4-1.jpg\" alt=\"Um grupo de sacerdotisas discute seus planos antes de sair em busca das variedades de milho \u201cque est\u00e3o desaparecendo\u201d em um povoado no leste da \u00cdndia. Foto: Manipadma Jena\/IPS\" width=\"340\" height=\"239\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um grupo de sacerdotisas discute seus planos antes de sair em busca das variedades de milho \u201cque est\u00e3o desaparecendo\u201d em um povoado no leste da \u00cdndia. Foto: Manipadma Jena\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Mankombu Sambavisan Swaminathan, destacado geneticista de 88 anos, disse \u00e0 IPS que a \u00cdndia desenvolveu uma \u201chierarquia dos gr\u00e3os\u201d, pela qual o arroz \u2013 um cultivo lucrativo para os empres\u00e1rios que vendem fertilizantes e uma importante fonte de renda em raz\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 considerado superior aos cultivos mais tradicionais.<\/p>\n<p>Diante da insist\u00eancia de Swaminathan, o milho ser\u00e1 inclu\u00eddo no sistema p\u00fablico de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, que entrega cereais subsidiados a dois ter\u00e7os dos 1,2 bilh\u00e3o de habitantes da \u00cdndia, alimentando 820 milh\u00f5es de pessoas. Embora o sistema esteja repleto de corrup\u00e7\u00e3o, converteu grandes popula\u00e7\u00f5es rurais em consumidoras de arroz e relegou o milho ao lugar de gr\u00e3o \u201cordin\u00e1rio\u201d, destinado a ser forragem para o gado e n\u00e3o um alimento b\u00e1sico para os seres humanos.<\/p>\n<p>Swaminathan destaca que n\u00e3o se quer apenas que o governo da \u00cdndia reconhe\u00e7a o milho, mas que a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) dedique um ano internacional ao que ele chama de \u201ccultivo \u00f3rf\u00e3o\u201d, porque, apesar de ter sido muito popular, agora est\u00e1 abandonado por um sistema cada vez mais globalizado e impulsionado pelas exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa medida poderia ser justamente o que precisa a \u00cdndia, que tem uma das mais altas taxas de fome no mundo. Segundo a FAO, 194,6 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o \u201cdesnutridas\u201d nesse pa\u00eds. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade calcula que 1,3 milh\u00e3o de crian\u00e7as morrem de desnutri\u00e7\u00e3o a cada ano na \u00cdndia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Esta reportagem \u00e9 parte de uma s\u00e9rie concebida em colabora\u00e7\u00e3o com Ecosocialista Horizons.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Manipadma Jena, da IPS &ndash;&nbsp; Niyamgiri, &Iacute;ndia, 24\/7\/2015 &ndash; Um grupo de mulheres no Estado de Odisha, na &Iacute;ndia, dan&ccedil;a ritmicamente e oferece uma can&ccedil;&atilde;o ao deus da floresta em troca de uma colheita abundante. 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