{"id":19491,"date":"2015-08-13T12:40:01","date_gmt":"2015-08-13T12:40:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=198731"},"modified":"2015-08-13T12:40:01","modified_gmt":"2015-08-13T12:40:01","slug":"as-lamentaveis-consequencias-do-resgate-grego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/08\/ultimas-noticias\/as-lamentaveis-consequencias-do-resgate-grego\/","title":{"rendered":"As lament\u00e1veis consequ\u00eancias do resgate grego"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_198733\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/GreciaAlexis.jpg\"><img class=\"wp-image-198733\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/GreciaAlexis.jpg\" alt=\"Primeiro Ministro da Gr\u00e9cia, Alexis Tsipras, durante reuni\u00e3o no Parlamento Europeu, na Fran\u00e7a. Foto: Pietro Naj-Oleari\/ European Parliament\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Primeiro Ministro da Gr\u00e9cia, Alexis Tsipras, durante reuni\u00e3o no Parlamento Europeu, na Fran\u00e7a. Foto: Pietro Naj-Oleari\/ European Parliament<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Roberto Savio*<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o Salvador, Bahamas, agosto\/2015 \u2013 O Conselho de Especialistas Econ\u00f4micos do governo alem\u00e3o apresentou, no dia 27 de julho, um informe \u00e0 chanceler Angela Merkel com uma s\u00e9rie de recomenda\u00e7\u00f5es sobre como um pa\u00eds fraco pode sair da zona do euro.<\/p>\n<p>O documento prop\u00f5e basicamente fortalecer a Uni\u00e3o Monet\u00e1ria Europeia. O ministro alem\u00e3o das Finan\u00e7as, Wolfgang Sch\u00e4uble, afirma que a Gr\u00e9cia deve abandonar o euro porque pressup\u00f5e que nunca ser\u00e1 capaz de reembolsar os empr\u00e9stimos que fez, e porque pensa que ser r\u00edgido \u00e9 uma quest\u00e3o de princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Depois do hist\u00f3rico 13 de julho, ao final das negocia\u00e7\u00f5es sobre a Gr\u00e9cia, Sch\u00e4uble afirmou ao seman\u00e1rio alem\u00e3o <em>Der Spiegel<\/em>: \u201cMinha av\u00f3 me ensinou que a benevol\u00eancia \u00e9 a antessala da libertinagem\u201d.<\/p>\n<p>Por sua vez, o presidente do Conselho, Chirstophe Schmidt, declarou que, \u201cpara garantir a coes\u00e3o da uni\u00e3o monet\u00e1ria, temos que levar em conta que o eleitorado dos pa\u00edses credores n\u00e3o est\u00e1 de acordo quanto a financiar os pa\u00edses devedores de forma permanente. Um pa\u00eds membro que n\u00e3o coopera n\u00e3o pode colocar em perigo a exist\u00eancia do euro\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o melhor exemplo da Europa que a Alemanha concebe. Qualquer pa\u00eds que n\u00e3o se submeta \u00e0 ortodoxia germ\u00e2nica ter\u00e1 que deixar a moeda comum. A solidariedade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um valor europeu, a prioridade cabe \u00e0s considera\u00e7\u00f5es fiscais e monet\u00e1rias.<\/p>\n<p>A atual vis\u00e3o germ\u00e2nica, que exclui os valores pol\u00edticos e ideais do fundamento do projeto europeu, provocou uma forte resposta do governo da Fran\u00e7a, que ultimamente se permitiu discordar de Berlim.<\/p>\n<p>A Alemanha sustenta que o federalismo contempla uma exce\u00e7\u00e3o: quando se percebe que um Estado membro da zona do euro desafia as regras da uni\u00e3o monet\u00e1ria, este ser\u00e1 pass\u00edvel da aniquila\u00e7\u00e3o de sua soberania estatal e de sua democracia nacional. Esse \u00e9 o tipo de federalismo que a Alemanha pretende impor na Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/p>\n<p>O presidente franc\u00eas, Fran\u00e7ois Hollande, que enfrenta uma reelei\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, dever ter lido com apreens\u00e3o as mem\u00f3rias de Tim Giethner, secret\u00e1rio do Tesouro entre 2009 e 2013 da administra\u00e7\u00e3o do presidente norte-americano Barack Obama, publicadas no ano passado.<\/p>\n<p>Quando Geithner se encontrou com Sch\u00e4uble para interceder por Atenas, a resposta foi que a Gr\u00e9cia deve sair do euro como sinal de advert\u00eancia para outros pa\u00edses com problemas fiscais, como Espanha, Fran\u00e7a e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Agora, Hollande se levanta em defesa dos valores comunit\u00e1rios, ao lan\u00e7ar um conjunto de propostas para refor\u00e7ar a integra\u00e7\u00e3o europeia, que vai em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 de Berlim.<\/p>\n<p>A Alemanha, naturalmente, insiste em fazer valer sua pr\u00f3pria vis\u00e3o. Mas o eixo Paris-Berlim, que foi concebido como o n\u00facleo da integra\u00e7\u00e3o europeia, se debilitou seriamente depois de 13 de julho, quando a Alemanha for\u00e7ou a ado\u00e7\u00e3o de um acordo insustent\u00e1vel sobre a Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Portanto, agora estamos diante de um realinhamento importante. A Fran\u00e7a foi um pa\u00eds que sempre impediu todo avan\u00e7o substancial na integra\u00e7\u00e3o europeia, tentando ceder o m\u00ednimo de sua soberania nacional. Votou contra toda medida radical de integra\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo veto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma Comunidade Europeia de Defesa em 1964.<\/p>\n<p>\u201cUm dia negro para a Europa\u201d, foi o coment\u00e1rio do ex-chanceler Konrad Adenauer nessa oportunidade.<\/p>\n<p>Hoje em dia \u00e9 a Alemanha que est\u00e1 decidida a mudar o curso da integra\u00e7\u00e3o, passando de um projeto pol\u00edtico para um sistema monet\u00e1rio de c\u00e2mbio fixo, baseado nos interesses dos pa\u00edses credores: um des\u00edgnio no qual algumas democracias s\u00e3o mais iguais do que outras.<\/p>\n<p>Segundo o di\u00e1rio <em>Frankfurter Allgemeine Zeitung<\/em>, Sch\u00e4uble declarou aos seus colegas da UE que a Comiss\u00e3o Europeia, seu \u00f3rg\u00e3o executivo, adquiriu muito poder e est\u00e1 interferindo nos assuntos pol\u00edticos, que seriam alheios ao seu mandato. E prop\u00f5e transferir algumas fun\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o para um \u00f3rg\u00e3o puramente t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>\u00c9 uma crua realidade que o acordo de 13 de julho procurou eliminar a pol\u00edtica e a discricionariedade do funcionamento da uni\u00e3o monet\u00e1ria, e que essa ideia foi durante muito tempo apreciada pelos franceses. Por\u00e9m, agora os franceses desejam aprofundar a integra\u00e7\u00e3o regional, como uma forma de prote\u00e7\u00e3o diante dos \u00edmpetos hegem\u00f4nicos de Berlim.<\/p>\n<p>Devemos admitir que estamos diante do fim da UE como projeto pol\u00edtico baseado na solidariedade rec\u00edproca. A Europa est\u00e1 em decad\u00eancia. A uni\u00e3o monet\u00e1ria j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas um passo para uma uni\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica, tal como a conceberam Helmut Kohl e Fran\u00e7ois Mitterrand ap\u00f3s a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha e a cria\u00e7\u00e3o do euro em 1999.<\/p>\n<p>De fato, estamos voltando a uma vers\u00e3o mais t\u00f3xica do velho mecanismo de c\u00e2mbio monet\u00e1rio da d\u00e9cada de 1990, que deixou os pa\u00edses presos em um mecanismo que se modelou principalmente para a Alemanha, e que levou \u00e0 sa\u00edda da libra esterlina e \u00e0 sa\u00edda tempor\u00e1ria da lira italiana.<\/p>\n<p>Mas o euro, como afirma o pr\u00eamio Nobel de Economia, Paul Krugman, se converteu agora em uma armadilha para baratas, que uma vez que se tenham entrado ficam presas, e, como n\u00e3o podem sair, t\u00eam de aceitar o <em>diktat<\/em> do credor.<\/p>\n<p>Outro pr\u00eamio Nobel, Joseph Stigliz, que foi economista-chefe do Banco Mundial, afirma que a atual pol\u00edtica europeia de austeridade a todo custo \u00e9 como voltar ao s\u00e9culo 19, quando se encarcerava os devedores. Tal como o devedor preso, impedido de produzir alguma renda para pagar sua d\u00edvida, a recess\u00e3o que se aprofunda na Gr\u00e9cia far\u00e1 com que esse pa\u00eds seja cada vez menos capaz de reembolsar suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m diz em voz alta (salvo Stiglitz) \u00e9 que no plano de resgate grego a principal raz\u00e3o do extremismo das novas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 dar uma li\u00e7\u00e3o ao partido governante, Siryza, e ao pr\u00f3prio povo grego, que teve a ousadia de recha\u00e7ar as exorta\u00e7\u00f5es dos l\u00edderes europeus para votar contra esse partido de esquerda radical.<\/p>\n<p>Stiglitz demonstra como algumas condi\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 Gr\u00e9cia na realidade t\u00eam o prop\u00f3sito de defender os interesses dos credores, dando o exemplo do leite, que \u00e9 produzido em n\u00edvel local e distribu\u00eddo rapidamente, j\u00e1 que o leite fresco encanta os gregos.<\/p>\n<p>Mas Hollande e outros pa\u00edses exportadores de leite desejavam ter acesso ao mercado grego, inclusive com leite n\u00e3o t\u00e3o fresco. Por esse motivo, em 2014 a chamada <em>troika<\/em> obrigou a Gr\u00e9cia a abandonar o r\u00f3tulo de \u201cfresco\u201d em seu leite realmente fresco e estender a sua data de validade.<\/p>\n<p>N\u00e3o por casualidade os pa\u00edses que pediam para serem admitidos no euro, como a Pol\u00f4nia, retiraram sua solicita\u00e7\u00e3o. O euro se converteu em um tema pol\u00edtico urgente, com partidos pol\u00edticos em toda a UE pedindo para deixar a moeda \u00fanica.<\/p>\n<p>O tema se converteu na primeira linha de a\u00e7\u00e3o dos que se op\u00f5em \u00e0 integra\u00e7\u00e3o europeia. At\u00e9 agora, a resposta dos governos era que a Constitui\u00e7\u00e3o Europeia tornava imposs\u00edvel a sa\u00edda de um Estado membro. Mas agora que o Conselho de Especialistas Econ\u00f4micos do governo alem\u00e3o lan\u00e7ou uma proposta concreta de como faz\u00ea-lo, essa linha de defesa est\u00e1 desmoronando.<\/p>\n<p>Muitos analistas concordam que Merkel est\u00e1 brincando com fogo. A Alemanha n\u00e3o pode continuar sendo um l\u00edder com credibilidade de uma coaliz\u00e3o de pa\u00edses do Norte e do Leste da Europa ignorando as realidades e necessidades da Europa do Sul. Isso ser\u00e1 insustent\u00e1vel, inclusive no m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p>Entretanto, o mundo segue seu curso. Estima-se que em sete anos a \u00cdndia vai superar a China como o pa\u00eds mais povoado do mundo, em algumas poucas d\u00e9cadas a Nig\u00e9ria ter\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o maior do que a dos Estados Unidos, enquanto a Europa se converter\u00e1 na regi\u00e3o com mais idosos e a menor produtividade.<\/p>\n<p>Entretanto, a Europa ter\u00e1 que enfrentar quatro cavaleiros do apocalipse:<\/p>\n<p>1 &#8211; Resolver suas rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia;<\/p>\n<p>2 &#8211; Chegar a um acordo comum sobre como lidar com o dram\u00e1tico fluxo de imigrantes, quando os 28 pa\u00edses da UE nem mesmo s\u00e3o capazes de chegar a um acordo para receber 40 mil pessoas em uma regi\u00e3o de 500 milh\u00f5es;<\/p>\n<p>3 &#8211; Uma pol\u00edtica efetiva diante do explosivo Oriente M\u00e9dio e do terrorismo;<\/p>\n<p>4 &#8211; A resposta ao pedido da Gr\u00e3-Bretanha de um novo acordo no contexto da UE.<\/p>\n<p>Podemos vaticinar com certeza que essas negocia\u00e7\u00f5es, que se baseiam exclusivamente em quest\u00f5es econ\u00f4micas, ser\u00e3o o golpe de gra\u00e7a no sonho europeu original. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio<\/strong> \u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor de Other News. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Roberto Savio* S&atilde;o Salvador, Bahamas, agosto\/2015 &ndash; O Conselho de Especialistas Econ&ocirc;micos do governo alem&atilde;o apresentou, no dia 27 de julho, um informe &agrave; chanceler Angela Merkel com uma s&eacute;rie de recomenda&ccedil;&otilde;es sobre como um pa&iacute;s fraco pode sair da zona do euro. O documento prop&otilde;e basicamente fortalecer a Uni&atilde;o Monet&aacute;ria Europeia. 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