{"id":19507,"date":"2015-08-14T13:20:37","date_gmt":"2015-08-14T13:20:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=198829"},"modified":"2015-08-14T13:20:37","modified_gmt":"2015-08-14T13:20:37","slug":"brasil-fim-de-um-ciclo-sem-outro-a-vista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/08\/ultimas-noticias\/brasil-fim-de-um-ciclo-sem-outro-a-vista\/","title":{"rendered":"Brasil: fim de um ciclo sem outro \u00e0 vista"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_198830\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Margaridas-12-08-2015-61-850x501-629x372.jpg\"><img class=\"wp-image-198830\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Margaridas-12-08-2015-61-850x501-629x372.jpg\" alt=\"A presidente Dilma Rousseff coloca o chap\u00e9u de uma trabalhadora rural, com o qual foi presenteada no dia 13 de agosto em Bras\u00edlia, no encerramento da marcha nacional de mulheres no campo. Manter sobre sua cabe\u00e7a a chefia do Estado \u00e9 uma tarefa que se complica dia a dia para a mandat\u00e1ria. Foto: Lula Marques\/Ag\u00eancia PT\" width=\"340\" height=\"201\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A presidente Dilma Rousseff coloca o chap\u00e9u de uma trabalhadora rural, com o qual foi presenteada no dia 13 de agosto em Bras\u00edlia, no encerramento da marcha nacional de mulheres no campo. Manter sobre sua cabe\u00e7a a chefia do Estado \u00e9 uma tarefa que se complica dia a dia para a mandat\u00e1ria. Foto: Lula Marques\/Ag\u00eancia PT<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 14\/8\/2015 \u2013 A crise que atormenta os brasileiros \u00e9 basicamente pol\u00edtica e n\u00e3o permite vislumbrar uma sa\u00edda. \u00c9 o fim de um ciclo, segundo diversas an\u00e1lises, mas n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que algo novo esteja sendo gestado. O Brasil vive uma \u201ccrise de hemegonia\u201d, na qual n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7as pol\u00edticas com propostas consistentes e capazes de dar algum rumo ao pa\u00eds na disputa pelo poder, segundo o diretor do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase), C\u00e2ndido Grzybowski.<\/p>\n<p>\u201cO risco desse vazio \u00e9 que pode acontecer uma surpresa, como a ascens\u00e3o de um \u2018salvador da p\u00e1tria\u2019 ao poder\u201d, advertiu Grzybowski \u00e0 IPS. Os exemplos que costuma mencionar v\u00e3o de Adolf Hitler e Benito Mussolini aos mais recentes, como o ex-presidente Fernando Collor, que sofreu processo de impeachment por corrup\u00e7\u00e3o em 1992.<\/p>\n<p>Mas o mais evidente para a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a economia, que entrou em recess\u00e3o em 2014 e se prognostica seu prolongamento durante 2016, com desemprego e infla\u00e7\u00e3o em alta, e o esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o nos neg\u00f3cios da Petrobras que j\u00e1 levou \u00e0 pris\u00e3o grandes empres\u00e1rios e amea\u00e7a muitos l\u00edderes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Nessa crise de m\u00faltiplas dimens\u00f5es, a presidente Dilma Rousseff enfrenta ainda uma rebeli\u00e3o de aliados na C\u00e2mara dos Deputados, uma rejei\u00e7\u00e3o popular recorde segundo as pesquisas, press\u00f5es pelo seu impeachment ou sua ren\u00fancia e o rein\u00edcio de protestos de rua, com anunciadas mobiliza\u00e7\u00f5es para o dia 16.<\/p>\n<p>O Partido dos Trabalhadores (PT) perdeu, segundo os termos de Grzybowski, a hegemonia que tornou efetiva com a vit\u00f3ria de seu l\u00edder m\u00e1ximo, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2002. Resistiu ao esc\u00e2ndalo de 2005, em que teve seus principais dirigentes presos, acusados de obterem recursos fraudulentos para subornar parlamentares, conseguiu a reelei\u00e7\u00e3o de Lula em 2006 e imp\u00f4s Dilma Rousseff como sua sucessora, tamb\u00e9m reeleita em 2013.<\/p>\n<p>Mas as atuais investiga\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e da Policia Federal sobre a pilhagem nos grandes projetos petroleiros s\u00e3o avassaladoras. O PT \u00e9 apontado como principal articulador da rede que desviou, segundo estimativas da Petrobras baseadas nas investiga\u00e7\u00f5es judiciais, o equivalente a cerca de US$ 1,8 bilh\u00e3o. Dois de seus dirigentes est\u00e3o detidos desde o dia 3 de agosto.<\/p>\n<p>Pelo menos 23 acusados decidiram colaborar com a justi\u00e7a e outros negociam acordos de dela\u00e7\u00e3o para reduzir penas, um mecanismo legal brasileiro que permite aos ju\u00edzes obter informa\u00e7\u00f5es cada dia mais detalhadas e mais extensas sobre a corrup\u00e7\u00e3o aparentemente generalizada em muitos setores. Dezenas de empres\u00e1rios presos, incluindo os presidentes das duas maiores construtoras brasileiras, s\u00e3o um resultado parcial do processo.<\/p>\n<p>Logo ser\u00e1 a vez dos pol\u00edticos que s\u00f3 costumam ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), um privil\u00e9gio dos parlamentares e de altos membros do governo. J\u00e1 est\u00e3o envolvidos pelo menos 31 legisladores, incluindo os presidentes da C\u00e2mara Federal, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, al\u00e9m de dois governadores e 14 ex-parlamentares, a maioria do PT e de seu principal s\u00f3cio na coaliz\u00e3o governante, o PMDB.<\/p>\n<p>Com o esc\u00e2ndalo e seu governo adotando pol\u00edticas econ\u00f4micas que antes condenava e cometendo outras incoer\u00eancias, o PT sofre dissens\u00f5es internas ao mesmo tempo em que perde apoio em setores antes incondicionais.<\/p>\n<div id=\"attachment_198831\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Lula.jpg\"><img class=\"wp-image-198831\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Lula.jpg\" alt=\"O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva em um ato, no dia 12 de agosto em Bras\u00edlia, quando afirmou que viajar\u00e1 pelo pa\u00eds para resgatar o apoio popular ao governo e ao Partido dos Trabalhadores. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva em um ato, no dia 12 de agosto em Bras\u00edlia, quando afirmou que viajar\u00e1 pelo pa\u00eds para resgatar o apoio popular ao governo e ao Partido dos Trabalhadores. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil<\/p><\/div>\n<p>\u201c\u00c9 o fim de um ciclo do PT hegem\u00f4nico, que adotou pr\u00e1ticas tradicionais da pol\u00edtica brasileira desde o in\u00edcio da Rep\u00fablica\u201d, em 1889, admitiu Tarso Genro, dirigente e ide\u00f3logo do partido, que foi ministro da Justi\u00e7a e da Educa\u00e7\u00e3o de Lula e depois governou o Rio Grande do Sul. Os problemas \u00e9ticos do PT, ao se envolver com a corrup\u00e7\u00e3o, \u201cs\u00e3o um componente secund\u00e1rio, que deriva da vis\u00e3o pol\u00edtica tradicional \u00e0 qual se rendeu\u201d, ressaltou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Para superar sua crise atual, \u201cter\u00e1 que se reinventar, preservar sua vis\u00e3o ut\u00f3pica, mas isso n\u00e3o significa voltar \u00e0s suas origens\u201d, os sindicatos das d\u00e9cadas de 1970 e 1980. \u201cHoje se reconhece que temos uma sociedade muito mais complexa\u201d, admitiu Genro, advogado e agora dedicado a \u201crefundar\u201d seu partido. Grzybowski duvida da possibilidade de se reformar o PT como uma for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o capaz de recuperar a hegemonia.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 que todo o esfor\u00e7o passa por \u201cum sistema pol\u00edtico colonizado, herdado da ditadura militar\u201d, que n\u00e3o favorece respostas \u00e0s demandas da sociedade, pontuou o soci\u00f3logo que dirige o Ibase, uma das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais mais reconhecidas do Brasil. \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 falhou ao n\u00e3o renovar a pol\u00edtica, n\u00e3o mudou as regras para os partidos, que continuam com o monop\u00f3lio do processo eleitoral. A democracia ainda est\u00e1 por ser feita nessa \u00e1rea\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Essa Constitui\u00e7\u00e3o, que institucionalizou a redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira ap\u00f3s a ditadura militar (1964-1985), reconheceu direitos de variados setores sociais, como o dos ind\u00edgenas sobre suas terras ancestrais, a inf\u00e2ncia, os deficientes, ao mesmo tempo em que detalha os deveres do Estado. Por isso \u00e9 atacada por economistas ortodoxos como fonte de gastos p\u00fablicos crescentes, impondo o cr\u00f4nico aumento do d\u00e9ficit fiscal e da carga tribut\u00e1ria, cujo agravamento nos \u00faltimos anos conspira contra o governo Dilma. Isso freia o crescimento econ\u00f4mico, acrescentam.<\/p>\n<p>Apesar dessas cr\u00edticas, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel mobilizar multid\u00f5es contra uma Constitui\u00e7\u00e3o que representa conquistas para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 um fator de estabilidade, que favorece a perman\u00eancia da presidente, amea\u00e7ada de impeachment, ou outros mecanismos de destitui\u00e7\u00e3o legal, quase em seguida ao in\u00edcio de seu segundo mandato. Na vis\u00e3o opositora, a alternativa \u00e9 manter um governo em agonia at\u00e9 janeiro de 2019, com a economia e a situa\u00e7\u00e3o social em deteriora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA presidente enfrenta uma crise anunciada, pelas promessas feitas durante a campanha eleitoral do ano passado\u201d, segundo Jo\u00e3o Alberto Capiberibe, senador pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), partido que abandonou a coaliz\u00e3o governante em 2013. \u201cMas a crise de credibilidade n\u00e3o afeta apenas a mandat\u00e1ria, ela \u00e9 a s\u00edntese da pol\u00edtica nacional, em que tamb\u00e9m o Congresso Nacional est\u00e1 submerso no descr\u00e9dito\u201d, afirmou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Para o senador, o problema n\u00e3o \u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o, mas \u201co clientelismo, o excesso de empregos p\u00fablicos e a corrup\u00e7\u00e3o\u201d, que imp\u00f5em \u201cgastos desenfreados aos governos, tanto em n\u00edvel nacional como estadual e municipal\u201d. E afirmou que, \u201csem mudar o sistema eleitoral, nada muda\u201d, defendendo o fim do financiamento empresarial das campanhas \u201cpara que o poder econ\u00f4mico n\u00e3o continue determinando quem ser\u00e1 eleito. Nenhum pa\u00eds do mundo gasta tanto como o Brasil em seu processo eleitoral\u201d.<\/p>\n<p>Essa simples mudan\u00e7a n\u00e3o tem apoio no parlamento, mas tem no STF, onde uma maioria de seis de seus 11 magistrados considerou inconstitucional o apoio financeiro de empresas a candidatos, acolhendo uma a\u00e7\u00e3o da Ordem dos Advogados do Brasil. O argumento foi que as empresas n\u00e3o t\u00eam direitos pol\u00edticos. Mas o pedido de um magistrado de um tempo para examinar melhor o assunto suspendeu a publica\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a e frustrou o movimento para reduzir custos e, por fim, a corrup\u00e7\u00e3o, nos processos eleitorais brasileiros.<\/p>\n<p>Grande parte do dinheiro desviado da Petrobras foi destinada, segundo os acusados, para financiar campanhas eleitorais e partidos. Isso e a hegemonia do PT fazem parte de um ciclo que parece terminar no Brasil, mas no horizonte, no momento, s\u00f3 aparecem incertezas. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 14\/8\/2015 &ndash; A crise que atormenta os brasileiros &eacute; basicamente pol&iacute;tica e n&atilde;o permite vislumbrar uma sa&iacute;da. &Eacute; o fim de um ciclo, segundo diversas an&aacute;lises, mas n&atilde;o h&aacute; ind&iacute;cios de que algo novo esteja sendo gestado. 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