{"id":19511,"date":"2015-08-17T13:30:27","date_gmt":"2015-08-17T13:30:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=198839"},"modified":"2015-08-17T13:30:27","modified_gmt":"2015-08-17T13:30:27","slug":"indigenas-querem-ser-ouvidos-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/08\/ultimas-noticias\/indigenas-querem-ser-ouvidos-na-argentina\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas querem ser ouvidos na Argentina"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_198840\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Ernestina.jpg\"><img class=\"wp-image-198840\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Ernestina.jpg\" alt=\"A wichi Ernestina Moreno revisa com sua filha e sua neta parte do acampamento que desde 14 de fevereiro mant\u00eam os ind\u00edgenas da prov\u00edncia argentina de Formosa em uma pequena pra\u00e7a entre a Avenida 9 de Julho e a Avenida de Mayo, no centro de Buenos Aires, pedindo que seja reconhecida a propriedade coletiva de suas terras. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A wichi Ernestina Moreno revisa com sua filha e sua neta parte do acampamento que desde 14 de fevereiro mant\u00eam os ind\u00edgenas da prov\u00edncia argentina de Formosa em uma pequena pra\u00e7a entre a Avenida 9 de Julho e a Avenida de Mayo, no centro de Buenos Aires, pedindo que seja reconhecida a propriedade coletiva de suas terras. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Fabiana Frayssinet, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 17\/8\/2015 \u2013 O acampamento ind\u00edgena instalado h\u00e1 seis meses na capital argentina \u00e9 quase invis\u00edvel para quem passa apressado ao seu redor. Pedem que lhes sejam devolvidas suas terras, na prov\u00edncia de Formosa, em uma demarca\u00e7\u00e3o paralisada por desaven\u00e7as territoriais e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Uma grande loja e v\u00e1rias barracas aglomeradas em uma pequena pra\u00e7a no cruzamento da Avenida 9 de Julho com a Avenida de Mayo, abrigam desde 14 de fevereiro cerca de 40 representantes de 46 comunidades dos povos qom, pilag\u00e1, wichi e nivacl\u00e9, agrupadas na organiza\u00e7\u00e3o QoPiWiNi.<\/p>\n<p>Em pleno inverno, a entrevista com seu porta-voz, o wichi Jorge Palomo, transcorre ao abrigo de uma das barracas do acampamento, onde est\u00e3o amontoadas doa\u00e7\u00f5es de roupas, cobertas e alimentos, e sua mulher e sua sogra esquentam uma sopa de cenouras enquanto sua filha de tr\u00eas anos corre ao redor.<\/p>\n<p>\u201cPedimos uma audi\u00eancia ao governo nacional, \u00e0 Suprema Corte, ao Senado e \u00e0 presidente (Cristina Fern\u00e1ndez). Pelo menos que nos abram a porta. Queremos apresentar nossa problem\u00e1tica nesse contexto de urg\u00eancia de despojo desses territ\u00f3rios que pertencem a n\u00f3s ancestralmente como povo ind\u00edgena\u201d, explicou Palomo.<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito \u00e9 intenso e as buzinas ensurdecedoras. Para os ind\u00edgenas, as autoridades tamb\u00e9m parecem surdas \u00e0 sua demanda de reintegra\u00e7\u00e3o de sete mil hectares de terras que, asseguram, \u201clhes foram tirados\u201d pelo governador de Formosa, Gildo Insfr\u00e1n, aliado de Fern\u00e1ndez.<\/p>\n<p>\u201cO territ\u00f3rio onde estamos \u00e9 nosso porque nossos av\u00f3s nos prepararam para isso. Meu av\u00f4 me dizia que n\u00e3o podemos perder a terra porque \u00e9 o que nos d\u00e1 sabedoria, for\u00e7a e vida\u201d, explicou \u00e0 IPS a qom Amanda Asijak, da comunidade Potae Napocna Navogoh (A Primavera, em l\u00edngua qom).<\/p>\n<p>\u201cMas eles chegam e colocam suas demarca\u00e7\u00f5es sem nem mesmo nos consultar\u201d, acrescentou Asijac, companheira do qarash (cacique) F\u00e9lix D\u00edaz, a figura mais emblem\u00e1tica dessa luta que ficou vis\u00edvel com um protesto na estrada perto de sua comunidade, em 2010, cuja repress\u00e3o provocou a morte de dois ind\u00edgenas e um policial.<\/p>\n<p>Diaz tamb\u00e9m organizou o primeiro acampamento em Buenos Aires, no ano seguinte, para denunciar a repress\u00e3o da qual eram v\u00edtimas e que terminou mais de tr\u00eas meses depois com a assinatura de um acordo, cujo descumprimento os levou de novo \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>Em 2000, a Argentina ratificou o Conv\u00eanio 169 sobre os Povos Ind\u00edgenas e Tribais, da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, que garante seu direito \u00e0 terra e o acesso a recursos naturais, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, enquanto determina como obrigat\u00f3ria a consulta em decis\u00f5es que dizem respeito aos seus habitats.<\/p>\n<p>De fato, os ind\u00edgenas de Formosa tamb\u00e9m pedem que suas comunidades sejam dotadas de servi\u00e7os de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, \u00e1gua e luz el\u00e9trica, al\u00e9m de apoio no desenvolvimento de sua cultura. \u201cTenho quatro filhos j\u00e1 grandes e eles j\u00e1 defenderam nosso territ\u00f3rio porque tamb\u00e9m t\u00eam seus filhos. Sempre digo que temos que defend\u00ea-lo porque, do contr\u00e1rio, vir\u00e3o se instalar e quando se instalam provocam tiroteios na comunidade\u201d, contou Asijak.<\/p>\n<p>Sua comunidade, cerca de 1.200 quil\u00f4metros ao norte de Buenos Aires, \u00e9 uma amostra do descuido em que vivem os povos origin\u00e1rios de Formosa. Quase todas 350 prec\u00e1rias moradias, onde vivem 1.770 pessoas em 500 hectares, carecem de \u00e1gua pot\u00e1vel e eletricidade, enquanto a comunidade n\u00e3o conta com nenhum saneamento.<\/p>\n<p>No dia 10 de julho, junto com o pr\u00eamio Nobel da Paz 1980, Adolfo P\u00e9rez Esquivel, e a presidente da organiza\u00e7\u00e3o M\u00e3es da Pra\u00e7a de Mayo (Linha Fundadora), Nora Corti\u00f1as, delegados dos ind\u00edgenas em protesto foram recebidos pelo secret\u00e1rio de Direitos Humanos, Mart\u00edn Fresneda. Na oportunidade, o secret\u00e1rio afirmou que ser\u00e1 criada uma mesa de di\u00e1logo para ouvir as reclama\u00e7\u00f5es e constatar os problemas de cada grupo.<\/p>\n<div id=\"attachment_198841\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Papa-Francisco-y-F%C3%A9lix-Diaz.jpg\"><img class=\"wp-image-198841\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/Papa-Francisco-y-F%C3%A9lix-Diaz.jpg\" alt=\"F\u00e9lix D\u00edaz, o qarashe (cacique) da comunidade Potae Napocna Navogoh (A Primavera) e o emblema da luta dos ind\u00edgenas da prov\u00edncia argentina de Formosa, em defesa de seu territ\u00f3rio, durante um encontro, em 2013 no Vaticano, com o papa Francisco, de nacionalidade argentina. Foto: Cortesia Dunitar\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">F\u00e9lix D\u00edaz, o qarashe (cacique) da comunidade Potae Napocna Navogoh (A Primavera) e o emblema da luta dos ind\u00edgenas da prov\u00edncia argentina de Formosa, em defesa de seu territ\u00f3rio, durante um encontro, em 2013 no Vaticano, com o papa Francisco, de nacionalidade argentina. Foto: Cortesia Dunitar<\/p><\/div>\n<p>Mas Fresneda insinuou que h\u00e1 quest\u00f5es alheias \u00e0 compet\u00eancia do governo federal, neste pa\u00eds onde o Censo de 2010 determinou que, de uma popula\u00e7\u00e3o total de 40,11 milh\u00f5es de pessoas, quase um milh\u00e3o se definem como ind\u00edgenas ou seus descendentes, distribu\u00eddas em 32 povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cEstabelecemos a necessidade de convocar a prov\u00edncia de Formosa para participar desse di\u00e1logo porque o eixo das reclama\u00e7\u00f5es passa por quest\u00f5es territoriais\u201d, destacou Fresneda. \u201cA discuss\u00e3o se centra em qual \u00e9 o alcance da ocupa\u00e7\u00e3o territorial p\u00fablica e atual que t\u00eam hoje as comunidades origin\u00e1rias\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O funcion\u00e1rio ressaltou que o Instituto Nacional de Assuntos Ind\u00edgenas (Inai) j\u00e1 avaliou e registrou 650 comunidades e sete milh\u00f5es de hectares como ind\u00edgenas, dos aproximadamente 12 milh\u00f5es que s\u00e3o reclamados pelos povos origin\u00e1rios e que equivalem a 10% do territ\u00f3rio argentino.<\/p>\n<p>Em 2006, a Lei 26.160 de Comunidades Ind\u00edgenas declarou a emerg\u00eancia da posse e da propriedade comunit\u00e1ria, e disp\u00f4s sobre a realiza\u00e7\u00e3o do registro de todos os territ\u00f3rios tradicionais que os povos origin\u00e1rios ocupam. Mas as comunidades de QoPiWiNi pedem que seja refeito o processo em seus territ\u00f3rios, porque afirmam que foi feito sem sua presen\u00e7a e consulta. \u201cH\u00e1 pouco vieram uns japoneses dizendo que essa terra havia sido vendida para eles, que o governador lhes vendera, mas \u00e9 nossa\u201d, disse \u00e0 IPS a wichi Ernestina Moreno.<\/p>\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o de terras demora quando o processo envolve prov\u00edncias com jurisdi\u00e7\u00e3o sobre seus recursos naturais, admitiu o Inai. Precisamente, conflitos como os de Formosa se agravam quando tocam interesses econ\u00f4micos provinciais vinculados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de hidrocarbonos, minera\u00e7\u00e3o, monocultura de soja, expans\u00e3o pecu\u00e1ria, ind\u00fastria florestal e grandes projetos de infraestrutura.<\/p>\n<p>\u201cCom a soja deveriam ter nos avisado quando far\u00e3o um desmonte, que ocorre muito, mas nunca o fizeram\u201d, afirmou Palomo, a t\u00edtulo de exemplo. Tamb\u00e9m citou obras que cortam seu territ\u00f3rio e sobre as quais n\u00e3o foram consultados, como o Gasoduto do Nordeste Argentino.<\/p>\n<p>\u201cEm todo o pa\u00eds roubaram terras de todas as comunidades e o governo se prop\u00f4s a n\u00e3o ouvi-los\u201d, destacou em entrevista \u00e0 IPS a ativista Corti\u00f1as. \u201cEles, os ind\u00edgenas de Formosa, n\u00e3o querem esmola mas viver de seu trabalho. Eles ca\u00e7am, pescam, plantam, e com isso se alimentam. N\u00e3o querem que a soja invada tudo, que \u00e9 o neg\u00f3cio para os que v\u00eam de fora\u201d, acrescentou a l\u00edder Corti\u00f1as.<\/p>\n<p>Segundo a organiza\u00e7\u00e3o internacional Grain, a cada ano s\u00e3o desmatados na Argentina mais de 200 mil hectares nativos pelo avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola, fundamentalmente pela expans\u00e3o da monocultura da soja. Esse avan\u00e7o \u00e9 evidente em Formosa e outras tr\u00eas prov\u00edncias vizinhas do norte (Chaco, Salta e Santiago del Estero), que concentram 80% desse desmatamento.<\/p>\n<p>\u201cQueremos a terra para progredir. A queremos para semear, para criar nossas coisas, como cabras\u201d, afirmou Moreno, que acampa junto com suas duas filhas e uma neta.<\/p>\n<p>Desde um autom\u00f3vel que passa na Avenida 9 de Julho, um casal v\u00ea os ind\u00edgenas. Estamos com voc\u00eas! Os apoiamos!, gritam. Palomo sorri e agradece de longe. \u201cSe n\u00e3o derem nossas terras, v\u00e3o limitar nossos jovens cada vez mais. Corre-se o risco de j\u00e1 n\u00e3o poderem praticar nossa cultura ancestral da ca\u00e7a, pesca e do artesanato&#8230; de desaparecer. Mas parece que \u00e9 o que querem\u201d, lamentou Palomo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabiana Frayssinet, da IPS &ndash;&nbsp; Buenos Aires, Argentina, 17\/8\/2015 &ndash; O acampamento ind&iacute;gena instalado h&aacute; seis meses na capital argentina &eacute; quase invis&iacute;vel para quem passa apressado ao seu redor. Pedem que lhes sejam devolvidas suas terras, na prov&iacute;ncia de Formosa, em uma demarca&ccedil;&atilde;o paralisada por desaven&ccedil;as territoriais e econ&ocirc;micas. 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