{"id":19527,"date":"2015-08-20T13:00:29","date_gmt":"2015-08-20T13:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=199123"},"modified":"2015-08-20T13:00:29","modified_gmt":"2015-08-20T13:00:29","slug":"uma-crise-economica-com-muitos-culpados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/08\/ultimas-noticias\/uma-crise-economica-com-muitos-culpados\/","title":{"rendered":"Uma crise econ\u00f4mica com muitos culpados"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_199124\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/deposito-de-ferro.jpg\"><img class=\"wp-image-199124\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/deposito-de-ferro.jpg\" alt=\"Dep\u00f3sito de ferro ao ar livre no porto de Ponta da Madeira, norte do Brasil, por onde a privatizada empresa Vale exporta milh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio para a China. Durante este s\u00e9culo, o Brasil se desindustrializou e ficou mais dependente da exporta\u00e7\u00e3o de produtos b\u00e1sicos para a China, um dos fatores da depress\u00e3o econ\u00f4mica atual. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Dep\u00f3sito de ferro ao ar livre no porto de Ponta da Madeira, norte do Brasil, por onde a privatizada empresa Vale exporta milh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio para a China. Durante este s\u00e9culo, o Brasil se desindustrializou e ficou mais dependente da exporta\u00e7\u00e3o de produtos b\u00e1sicos para a China, um dos fatores da depress\u00e3o econ\u00f4mica atual. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 20\/8\/2015 \u2013 Entre erros do governo, um sistema financeiro vampiresco, uma Constitui\u00e7\u00e3o populista ou a paralisia mundial est\u00e1 na raiz da atual crise econ\u00f4mica no Brasil, segundo economistas. H\u00e1 culpados em todas as ideologias.<\/p>\n<p>A desacelera\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 a causa preferida dos atuais governantes para justificar a recess\u00e3o brasileira, que os economistas com maior acompanhamento na m\u00eddia atribuem \u00e0 presidente Dilma Rousseff, por abandonar o trip\u00e9 macroecon\u00f4mico de sucesso: austeridade fiscal, meta de infla\u00e7\u00e3o baixa e c\u00e2mbio flutuante.<\/p>\n<p>Entre a popula\u00e7\u00e3o leiga, cresceu a opini\u00e3o simples de que tudo se deve \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, diante do esc\u00e2ndalo de subornos na Petrobras. As investiga\u00e7\u00f5es, iniciadas em 2014, apontam para o desvio de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em beneficio de dezenas de empres\u00e1rios e pol\u00edticos, em boa parte j\u00e1 presos.<\/p>\n<p>Com a recess\u00e3o deste ano, que provavelmente se prolongar\u00e1 por todo o ano de 2016, segundo os especialistas, o Brasil sofre uma deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica refletida no desemprego em alta, em infla\u00e7\u00e3o de 9,56% interanual no fechamento de julho, e taxa de juros de refer\u00eancia entre as mais altas do mundo.<\/p>\n<p>\u201cO que trava a economia brasileira \u00e9 o sistema financeiro, que drena somas gigantescas que deixam de servir \u00e0 produ\u00e7\u00e3o\u201d, segundo diagn\u00f3stico de Ladislau Dowbor, professor de economia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo e consultor de v\u00e1rias ag\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Os juros cobrados do consumidor brasileiro por bancos e empresas comerciais em julho deste ano foram de 126,74% ao ano, na m\u00e9dia de seis formas de cr\u00e9dito, segundo o monitoramento sistem\u00e1tico realizado pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Executivos de Finan\u00e7as, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade (Anefac). A taxa mais elevada, a dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, chegou a 334,84%. \u201cNo com\u00e9rcio, os juros para compra a prazo de alguns produtos superam os 100%, enquanto na Europa limita-se a cerca de 13%\u201d, destacou Dowbor \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Apesar desses \u201cjuros extorsivos\u201d, os brasileiros recorrem cada dia mais ao cr\u00e9dito. Em abril, as fam\u00edlias destinavam 46,5% de sua renda para o pagamento de d\u00edvidas, mais que o dobro da propor\u00e7\u00e3o de dez anos atr\u00e1s, segundo o Banco Central. \u201cDessa maneira, o sistema trava a demanda, j\u00e1 que as pessoas deixam de consumir para pagar d\u00edvidas\u201d, pontuou o economista.<\/p>\n<p>As empresas tamb\u00e9m pagam juros brutais, que chegavam a 61,22%, na m\u00e9dia de diferentes formas de financiamento em julho, segundo a Anefac. Empr\u00e9stimos para capital de trabalho ou circulante, os mais baratos, custavam 32,61%, com tend\u00eancia de alta. \u201cAqui, se trava os investimentos e o pa\u00eds perde recursos que poderiam expandir a produ\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Dowbor.<\/p>\n<div id=\"attachment_199125\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/cartao.jpg\"><img class=\"wp-image-199125\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/cartao.jpg\" alt=\"As fam\u00edlias brasileiras dedicam 46,5% de sua renda para pagar d\u00edvidas por cr\u00e9ditos contra\u00eddos, o que limita sua capacidade de consumo e causa contra\u00e7\u00e3o da demanda interna. Foto: IBC\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">As fam\u00edlias brasileiras dedicam 46,5% de sua renda para pagar d\u00edvidas por cr\u00e9ditos contra\u00eddos, o que limita sua capacidade de consumo e causa contra\u00e7\u00e3o da demanda interna. Foto: IBC<\/p><\/div>\n<p>O governo tamb\u00e9m tem sua capacidade de investimento reduzida, ao pagar os juros de sua d\u00edvida interna pela taxa de refer\u00eancia fixada pelo Banco Central (BC), atualmente de 14,25%. A eleva\u00e7\u00e3o dessa taxa pelo BC desde o ano passado anula com juros o esfor\u00e7o fiscal do governo. O aumento dos juros pagos supera em muito a redu\u00e7\u00e3o de gastos no or\u00e7amento federal, agravando o desequil\u00edbrio em um momento de arrecada\u00e7\u00e3o reduzida pela recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, os bancos registram ganhos recordes apesar da queda da economia, da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio. As quatro maiores institui\u00e7\u00f5es financeiras lucraram, no primeiro semestre deste ano, 40% mais do que em igual per\u00edodo de 2014.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existe uma drenagem de arrecada\u00e7\u00e3o por fraudes tribut\u00e1rias, que alimentam as transfer\u00eancias ilegais para o exterior desta pot\u00eancia latino-americana com 202 milh\u00f5es de habitantes. O Brasil tem cerca de US$ 520 bilh\u00f5es evadidos em para\u00edsos fiscais, segundo estima a revista brit\u00e2nica <em>The Economist<\/em>. Representa pouco dos US$ 20 trilh\u00f5es de todo o mundo, mas equivale a 28% do produto interno bruto (PIB) do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dowbor reconhece a dificuldade de \u201ccorrigir\u201d essas distor\u00e7\u00f5es, em um pa\u00eds onde \u201co sistema financeiro \u00e9 o problema central\u201d. As condi\u00e7\u00f5es adversas compreendem a elei\u00e7\u00e3o de numerosos parlamentares e membros dos poderes executivos com o apoio financeiro de grandes empresas, um Congresso dominado por bancadas de setores poderosos, como os ruralistas, e a concentra\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o em apenas quatro fam\u00edlias, apontou o economista.<\/p>\n<p>Mas, segundo Dowbor, \u201ch\u00e1 alternativas. Pode-se enfrentar o desafio com medidas regulat\u00f3rias\u201d e o cen\u00e1rio internacional tende a ajudar, com a crise financeira se esfriando em pa\u00edses industrializados.<\/p>\n<p>Parece um mist\u00e9rio o funcionamento da economia brasileira com esse n\u00edvel de taxa de juros, que multiplica por dez ou mais as vigentes em outros pa\u00edses. Essa singularidade resistiu at\u00e9 agora \u00e0s tentativas de se reduzir a extravag\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A presidente o fez nos primeiros anos de sua primeira administra\u00e7\u00e3o (2011-2014), usando os bancos estatais para oferecer cr\u00e9dito mais barato e for\u00e7ar a competi\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o deu resultado e sua \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d degenerou em paralisia, aumento insustent\u00e1vel do d\u00e9ficit p\u00fablico e infla\u00e7\u00e3o que duplica a meta de 4,5%.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a \u201cdrenagem\u201d financeira o que mais preocupa os economistas mais presentes nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O Brasil tem um desequil\u00edbrio fiscal estrutural, cuja origem muitos identificam no contrato social constante da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>A sociedade quer um Estado de bem-estar social que a economia brasileira, em seu n\u00edvel de desenvolvimento, n\u00e3o consegue atender. Por isso o gasto p\u00fablico cresceu sistematicamente acima do PIB entre 1991 e 2014, segundo um estudo realizado por tr\u00eas economistas vinculados ao opositor e centrista PSDB. Como resultado, a carga tribut\u00e1ria aumentou de 25% para cerca de 35% do PIB no mesmo per\u00edodo, sem impedir a deteriora\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\u201cO grave desequil\u00edbrio fiscal do Brasil reflete a concess\u00e3o desenfreada de benef\u00edcios p\u00fablicos incompat\u00edveis com a arrecada\u00e7\u00e3o nacional. Prometemos mais do que temos. Deixamos para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es as contas a serem pagas\u201d, diz o estudo do PSDB.<\/p>\n<p>\u201cDe fato, a Constitui\u00e7\u00e3o criou muitos direitos, sem questionar como seriam financiados, e seguiu uma cont\u00ednua aplica\u00e7\u00e3o de direitos sem que ningu\u00e9m perguntasse como ser\u00e3o pagos\u201d, pontuou \u00e0 IPS Fernando Cardim de Carvalho, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. \u201cGerou-se uma expectativa, que fatalmente seria fraudada, de que a democracia resolveria tudo, como se fosse m\u00e1gica\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como economista \u201cp\u00f3s-keynesiano\u201d (corrente de adeptos do pensamento do brit\u00e2nico John Maynard Keynes, 1883-1946), Cardim considera, ao contr\u00e1rio dos defensores do ajuste fiscal ortodoxo, que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o crescimento econ\u00f4mico. Como \u201cningu\u00e9m quer pagar a conta\u201d de tais direitos, \u201cs\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel distribuir renda, sem penalizar ningu\u00e9m, se a arrecada\u00e7\u00e3o estiver em expans\u00e3o\u201d, afirmou o professor. O problema \u00e9 que a economia cresceu pouco desde a d\u00e9cada de 1980 e os sucessivos governos adotaram pol\u00edticas insuficientes nesse sentido, apontou.<\/p>\n<p>E agora a segunda administra\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff colocou em marcha medidas contradit\u00f3rias com sua ideologia e suas promessas eleitorais, e que acentuar\u00e3o a recess\u00e3o, com um ajuste fiscal de emerg\u00eancia e mais altas do custo do dinheiro. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 20\/8\/2015 &ndash; Entre erros do governo, um sistema financeiro vampiresco, uma Constitui&ccedil;&atilde;o populista ou a paralisia mundial est&aacute; na raiz da atual crise econ&ocirc;mica no Brasil, segundo economistas. H&aacute; culpados em todas as ideologias. 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