{"id":1962,"date":"2006-07-14T00:00:00","date_gmt":"2006-07-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1962"},"modified":"2006-07-14T00:00:00","modified_gmt":"2006-07-14T00:00:00","slug":"argentina-desemprego-cai-mais-rapido-do-que-a-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/07\/america-latina\/argentina-desemprego-cai-mais-rapido-do-que-a-pobreza\/","title":{"rendered":"Argentina: Desemprego cai mais r\u00e1pido do que a pobreza"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 14\/07\/2006 &ndash; O ciclo de alto desemprego iniciado na Argentina em meados da d\u00e9cada de 90 parece chegar ao fim. Entretanto, a cria\u00e7\u00e3o de novos postos de trabalho ainda n\u00e3o consegue reduzir os \u00edndices de pobreza, indig\u00eancia e desigualdade aos n\u00edveis daquele per\u00edodo. <!--more--> \u201cA chave para entender esta aparente falta de vincula\u00e7\u00e3o entre queda do desemprego e persist\u00eancia de valores insatisfat\u00f3rios de outros indicadores sociais \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o do trabalho informal\u201d, explica o soci\u00f3logo Ernesto Kritz, da consultoria Sociedade de Estudos Trabalhistas (Sel)<\/p>\n<p>Atualmente, 44% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa trabalham na economia informal, sem seguro de sa\u00fade nem contribui\u00e7\u00e3o para uma aposentadoria. Com semelhante n\u00edvel de desemprego, em 1994 a porcentagem de pessoas ocupadas que trabalhavam na informalidade era de 30%. \u201cA informalidade est\u00e1 muito concentrada em empresas pequenas, onde \u00e9 dif\u00edcil competir de outra maneira a n\u00e3o ser com sal\u00e1rios baixos e \u2018em negro\u2019, porque t\u00eam produtividade muito baixa\u201d, explicou Kritz \u00e0 IPS. \u201cDever\u00edamos, pelo menos, voltar a esses 30% anteriores \u00e0 crise\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O desemprego na Argentina havia se mantido historicamente abaixo dos 10% at\u00e9 maio de 1994, quando subiu para 10,7% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa (PEA), para n\u00e3o parar por quase uma d\u00e9cada. Era a \u00e9poca do auge da pol\u00edtica de cunho neoliberal impulsionada por Washington e imposta pelo governo de Carlos Menem (1989-1999). Foi em maio de 2002 quando a porcentagem de pessoas sem trabalho, apesar de procur\u00e1-lo, atingiu o recorde de 21,5%, em conseq\u00fc\u00eancia do colapso econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico que levou a levantes populares e \u00e0 ren\u00fancia do presidente Fernando de la Rua na metade de seu mandato de quatro anos.<\/p>\n<p>Desde esse n\u00edvel m\u00e1ximo o flagelo do desemprego come\u00e7ou uma curva descendente. Assim, retrocedeu quase a metade no primeiro trimestre deste ano, ficando em 11,4%. Mais ainda, como antecipou o presidente N\u00e9stor Kirchner \u2013 aos an\u00fancios t\u00e9cnicos &#8211; a medi\u00e7\u00e3o de maio teria chegado a 9,8% da PEA, um resultado semelhante ao n\u00edvel existente antes do processo de privatiza\u00e7\u00f5es e de abertura irrestrita da economia. Embora haja um setor de desempregados n\u00e3o compreendidos na estat\u00edstica porque recebem uma renda atrav\u00e9s do subs\u00eddio ao desemprego e que se fosse exclu\u00eddo elevaria esse indicador para 12%, Kritz observa \u201cuma tend\u00eancia claramente decrescente\u201d no problema. \u201cA Argentina est\u00e1 diante da possibilidade certa de fechar esse ciclo\u201d, previu o diretor do Sel.<\/p>\n<p>No entanto, o especialista lembrou que a cria\u00e7\u00e3o de postos de trabalho, associada ao ritmo de crescimento da economia, n\u00e3o se traduziu em uma melhora equivalente de outros indicadores sociais, como pobreza, indig\u00eancia, informalidade no emprego e distribui\u00e7\u00e3o desigual da renda. Com tal n\u00edvel de desocupa\u00e7\u00e3o, \u201cos desequil\u00edbrios sociais s\u00e3o maiores do que em 1994\u201d, alertou. Inclusive, como estes indicadores tamb\u00e9m est\u00e3o em um processo de recupera\u00e7\u00e3o, sua evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais lenta. A pobreza, apesar de retroceder de maneira not\u00e1vel, ainda afetava no final do ano passado 33,8% dos 38 milh\u00f5es de argentinos, depois de ter atingido o recorde de 52,4% no primeiro semestre de 2003, mas muito longe dos 20,4% existentes em 1994.<\/p>\n<p>Por outro lado, os mesmos dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Censos (Indec) mostram que a indig\u00eancia alcan\u00e7ou o mesmo per\u00edodo 12,2%, 15,4 pontos percentuais a menos do que no momento culminante da crise em 2003. Mas essa franca redu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o chega ao n\u00edvel de 4,4% que havia em 1994 quando o desemprego chegou aos dois d\u00edgitos. A respeito da desigualdade, o Sel adverte em seu relat\u00f3rio de junho que, \u201cn\u00e3o s\u00f3 \u00e9 sensivelmente maior do que no in\u00edcio do ciclo de alto desemprego em 199,4 mas que tamb\u00e9m \u00e9 praticamente igual o registrado durante a crise de 2001, quando a taxa de desempregados chegara a 21,8%.<\/p>\n<p>Por isso Kritz afirma que a chave est\u00e1 na informalidade, que n\u00e3o cede apesar de uma maior ocupa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um problema estrutural de empresas pequenas. Isto j\u00e1 se notava em 1994, quando o indicador estava em 30%, mas que se acentuou depois da crise e muitos ainda temem registrar os desempregados\u201d, afirmou. Este fen\u00f4meno trava a cria\u00e7\u00e3o de trabalho digno. Segundo o Indec, desde 2002, um empregado registrado obteve 92% de aumento salarial contra 36% obtidos por um que permanece \u201cem negro\u201d. Hoje, na Argentina, 80% dos lares pobres s\u00e3o mantidos por uma pessoa ocupada que trabalha no setor informal e tem um sal\u00e1rio muito baixo. O dado foi divulgado este m\u00eas pelo Minist\u00e9rio da Economia.<\/p>\n<p>Apesar da recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e da cria\u00e7\u00e3o de emprego, a redu\u00e7\u00e3o da pobreza est\u00e1 paralisada por causa das baixas rendas. Ter emprego j\u00e1 n\u00e3o garante que um chefe ou uma chefe de fam\u00edlia deixe de ser pobre, conclui o estudo oficial. Dessa faixa de trabalhadores ocupados que permanecem pobres, 41% est\u00e3o registrados e 51% n\u00e3o. O restante presta algum tipo de servi\u00e7o ao Estado em troca de um magro subs\u00eddio equivalente a cerca de US$ 50 por m\u00eas. Estes dados revelam que n\u00e3o se chega ao crescimento econ\u00f4mico sustentado desde 2003, e seu correlato de cria\u00e7\u00e3o de empregos, para melhorar os indicadores sociais e o governo de Kirchner come\u00e7ar a perceb\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, alguns jornalistas se queixaram de supostas press\u00f5es do governo diante da divulga\u00e7\u00e3o de dados oficiais sobre distribui\u00e7\u00e3o da renda pelos quais a brecha entre ricos e pobres cresceu no \u00faltimo ano. Inclusive, as autoridades estudam mudan\u00e7as na hist\u00f3rica medi\u00e7\u00e3o. O certo \u00e9 que no primeiro trimestre de 2006 os mais ricos receberam uma renda 29,2% maior do que os mais pobres, e no mesmo per\u00edodo de 2005 os em melhores posi\u00e7\u00f5es recebiam 26,9% a mais do que os menos favorecidos na distribui\u00e7\u00e3o da renda. Esta brecha \u00e9 mais acentuada do que em 1995, quando indicava uma diferen\u00e7a de 19 vezes. A distribui\u00e7\u00e3o atual mostra um avan\u00e7o dos setores m\u00e9dios que recuperam renda, mas em uma estrutura social que ainda distribui de maneira muito desigual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 14\/07\/2006 &ndash; O ciclo de alto desemprego iniciado na Argentina em meados da d\u00e9cada de 90 parece chegar ao fim. 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