{"id":1964,"date":"2006-07-14T00:00:00","date_gmt":"2006-07-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1964"},"modified":"2006-07-14T00:00:00","modified_gmt":"2006-07-14T00:00:00","slug":"india-aumentam-os-testes-de-remedios-com-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/07\/mundo\/india-aumentam-os-testes-de-remedios-com-pobres\/","title":{"rendered":"\u00cdndia: Aumentam os testes de rem\u00e9dios com pobres"},"content":{"rendered":"<p>Bangalore, \u00cdndia, 14\/07\/2006 &ndash; Em busca de aumentar seus ganhos atrav\u00e9s de testes com medicamentos baratos, as multinacionais farmac\u00eauticas recorrem cada vez mais \u00e0 \u00cdndia, que conta com muitos doentes pobres e sem instru\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de pessoal m\u00e9dico qualificado e boa infra-estrutura para pesquisas. <!--more--> A tend\u00eancia j\u00e1 havia ficado em destaque no relat\u00f3rio 2005 da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (Unctad), publicado em 1&ordm; de setembro passado. O organismo estimou que os laborat\u00f3rios poderiam reduzir entre 20% e 30% os custos com pesquisa e desenvolvimento atrav\u00e9s da entrega a terceiros na \u00cdndia. Mas existem alguns obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de casos de testes n\u00e3o \u00e9ticos realizados por organiza\u00e7\u00f5es contratadas para pesquisas foi reportada pela imprensa locai e internacional. Em abril, um informe investigativo da rede brit\u00e2nica BBC citou v\u00e1rios exemplos nesse sentido, e agora as autoridades acordam para o que pode ser uma explora\u00e7\u00e3o em grande escala de pacientes confiados, que necessitam desesperadamente de rem\u00e9dios para v\u00e1rias doen\u00e7as. J\u00e1 est\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o o caso de \u201cuso equivocado\u201d de uma empresa farmac\u00eautica que induziu os m\u00e9dicos a prescreverem para mais de 400 mulheres Letrozolo, um rem\u00e9dio para tratar c\u00e2ncer de mama. Os resultados dos testes encobertos foram usados para promover o medicamento, cujo uso n\u00e3o estava aprovado.<\/p>\n<p>Em 2000, a subdiretora-geral do Conselho Indiano de Pesquisa M\u00e9dica, Vasanthi Muthuswamy, controlou a reda\u00e7\u00e3o de novas pautas para este tipo de pesquisa no pa\u00eds. Ela disse \u00e0 IPS que \u00e9 comum pacientes da \u00cdndia participarem de testes sem saberem no qu\u00ea est\u00e3o se metendo. \u201cOs m\u00e9dicos produzem formul\u00e1rios e pedem que assinem na linha pontilhada. Os pacientes acreditam que isso tem a ver com o tratamento e concordam\u201d, afirmou. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 casos em que os pacientes t\u00eam conhecimento da situa\u00e7\u00e3o. Na cidade de Bangalore, Lakshmikanth, de 62 anos, participou duas vezes de uma experi\u00eancia com novo medicamento para asma e, como funcionou e era gr\u00e1tis, est\u00e1 esperando que o chamem novamente.<\/p>\n<p>\u201cO novo rem\u00e9dio funcionou realmente bem, mas desde o fim dos testes, em janeiro, tive de voltar a usar o antigo. Minha situa\u00e7\u00e3o piorou, assim, estou esperando um novo teste. N\u00e3o tenho medo dos efeitos colaterais. N\u00e3o tiver nenhum da \u00faltima vez\u201d, assegurou. \u201cDurante os testes, o rem\u00e9dio foi gratuito e me fizeram checagem completa de sa\u00fade a cada duas semanas. Isso me d\u00e1 um sentimento de seguran\u00e7a, pois n\u00e3o posso pagar esses exames\u201d, contou.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Lakshmikanth est\u00e1 preocupada porque tem de correr com ele para o hospital cada vez que perde a consci\u00eancia por suas dificuldades respirat\u00f3rias. Geralmente, ele evita ir ao centro assistencial, porque com sua pens\u00e3o mensal de aproximadamente US$ 135 n\u00e3o d\u00e1 para comprar os rem\u00e9dios caros para asma. No hospital, os m\u00e9dicos dizem que chamar\u00e3o Lakshmikanth e outros pacientes para um novo estudo do medicamento desenvolvido pelo laborat\u00f3rio GlaxoSmithKline, mas n\u00e3o podem trat\u00e1-lo regularmente, j\u00e1 que ainda \u00e9 preciso demonstrar que essa subst\u00e2ncia \u00e9 segura e efetiva. Muthuswamy considera que isso n\u00e3o \u00e9 certo e considera que Lakshmikanth tinha o direito de continuar recebendo esse medicamento de teste j\u00e1 que funcionou para ele.<\/p>\n<p>\u201cO rem\u00e9dio \u00e9 seguro para este paciente, e ele j\u00e1 foi exposto aos poss\u00edveis riscos\u201d, acrescentou o doutor Chandra Gulhati, editor do \u00cdndice Mensal Indiano de Especialidades M\u00e9dicas. Como a maioria dos indianos, Lakshmikanth n\u00e3o tem seguro de sa\u00fade, e n\u00e3o pode reclamar junto \u00e0 GlaxoSmithKline, porque n\u00e3o recebeu nenhum documento que comprove que participou dos testes. Como as companhias farmac\u00eauticas se mostram t\u00e3o reticentes em aceitar sua responsabilidade pelos pacientes com os quais realizam testes, agora est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil para elas cooptar alguns hospitais e m\u00e9dicos s\u00e9rios.<\/p>\n<p>\u201cNo ano passado, nosso hospital rejeitou um teste porque o laborat\u00f3rio somente pagaria o tratamento se ficasse demonstrado que seu rem\u00e9dio causava efeitos colaterais. Mas o que deveria fazer um paciente sem dinheiro at\u00e9 que isso ficasse esclarecido?\u201d, perguntou o m\u00e9dico Sanjeev Jain, do prestigioso Instituto Nacional para a Sa\u00fade Mental e as Neuroci\u00eancias, localizado nesta cidade. \u201cMuitos m\u00e9dicos com os quais converso parecem muito preocupados por seus pacientes e \u00e0s vezes rejeitam testes. Mas, por acaso, isso resolve o problema geral? Obtemos cerca de US$ 4 mil por paciente. Isso \u00e9 muito dinheiro na \u00cdndia, porque as pessoas reduzem seus custos, disse Jain.<\/p>\n<p>Segundo Gulhati, freq\u00fcentemente os rem\u00e9dios s\u00e3o muito caros para as pessoas que participam dos testes. Por exemplo, \u201co Herceptin, do laborat\u00f3rio Roche para tratamento do c\u00e2ncer. Foi testado na \u00cdndia e entrou no mercado em 2003. Aqui, ningu\u00e9m pode compr\u00e1-lo\u201d. Funcion\u00e1rios da GlaxoSmithKline disseram \u00e0 IPS que n\u00e3o podem se responsabilizar pelo que, alegam, tem a ver com o acesso das pessoas aos servi\u00e7os m\u00e9dicos. A \u00cdndia quer que os testes cl\u00ednicos sejam autorizados pelo comit\u00ea \u00e9tico do hospital que realizar\u00e1 o julgamento e pela Controladoria Geral de F\u00e1rmacos, que faz parte do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, isto \u00e9 apenas uma revis\u00e3o de documentos, e h\u00e1 incidentes onde falta uma autoriza\u00e7\u00e3o adequada. A aprova\u00e7\u00e3o da Controladoria tampouco \u00e9 necess\u00e1ria para testar medicamentos que j\u00e1 est\u00e3o no mercado. Curiosamente, esse organismo n\u00e3o passa informa\u00e7\u00e3o para Muthuswamy. \u201cN\u00e3o temos nenhuma pista do que est\u00e1 ocorrendo, especialmente em hospitais privados. N\u00f3s autorizamos anualmente cerca de 150 testes cl\u00ednicos para companhias internacionais, em meio a tr\u00eas ou quatro coloca\u00e7\u00f5es\u201d, disse o titular da Controladoria, Ashwini Kumar. A maioria desses experimentos buscam a autoriza\u00e7\u00e3o de um rem\u00e9dio na Europa ou nos Estados Unidos e n\u00e3o beneficiam pacientes da \u00cdndia.<\/p>\n<p>O vice-controlador, B. Ramteke, disse que, com apenas quatro medicamentos, tr\u00eas bioqu\u00edmicos e um punhado de funcion\u00e1rios administrativos, \u00e9 imposs\u00edvel que o \u00f3rg\u00e3o cuide de todos os pedidos que chegam. \u201cSomos respons\u00e1veis por autorizar os testes e os medicamentos no mercado indiano. Isso \u00e9 muito trabalho para pouca gente\u201d, explicou. Gulhati disse ter forte evid\u00eancia de que a Controladoria \u00e9 corrupta. \u201c\u00c9 uma grande raz\u00e3o para se preocupar\u201d, disse um associado para os testes cl\u00ednicos de uma organiza\u00e7\u00e3o indiana contratada para pesquisas. Esta pessoa, que pediu para n\u00e3o ser identificada, \u00e9 uma das muitas que coordena este tipo de testes para laborat\u00f3rios internacionais. \u201cQuem se aproxima da Controladoria \u00e9 consultor bem pago pela companhia. Isso assegura que tudo seja aprovado\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Muthswamy gostaria que fossem racionalizados os comit\u00eas \u00e9ticos nos hospitais. \u201cFreq\u00fcentemente o decano de uma faculdade de Medicina preside o comit\u00ea, e isto \u00e9 ilegal. Alguns comit\u00eas aprovam entre 80 e 100 projetos de pesquisa por reuni\u00e3o. \u00c9 imposs\u00edvel fazer isso seriamente. Uma quantidade de m\u00e9dicos me disse que sua \u00fanica forma\u00e7\u00e3o para realizar testes procede da empresa ou de organiza\u00e7\u00f5es contratadas para pesquisas\u201d, afirmou Muthswamy, que treina comit\u00eas e m\u00e9dicos com apoio do exterior. \u201cMas \u00e9 muito dif\u00edcil chegar a todo o pa\u00eds. Precisamos de mais dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs grandes laborat\u00f3rios oferecem viagens ao exterior aos m\u00e9dicos, que depois come\u00e7am a realizar provas cl\u00ednicas para essas companhias\u201d, disse o doutor S. P. Kalantri, do Instituto Mahatma Gandhi em Sevagram, uma \u00e1rea rural na \u00cdndia central. Ele mesmo realizou v\u00e1rias experi\u00eancias. S. Thanikanchalam, cardiologista do hospital Sri Ramachandra, na cidade de Channai, garante que se negou a fazer um teste cir\u00fargico para uma empresa internacional porque considerou pouco \u00e9tico o fato de o grupo placebo tamb\u00e9m ser operado. N\u00e3o sabe se algum outro hospital realizou o teste. \u201cSe um hospital se nega, contatamos outro\u201d, disse o associado para os testes cl\u00ednicos.<\/p>\n<p>As empresas maiores asseguram que, como as reputa\u00e7\u00f5es arranhadas custam mais do que os testes cl\u00ednicos, os atores se mant\u00eam dentro dos limites \u00e9ticos. \u201cN\u00f3s fazemos checagens rigorosas e usamos auditores. Na \u00cdndia, n\u00e3o trabalhamos atrav\u00e9s de organiza\u00e7\u00f5es contratadas para pesquisas\u201d, disse Chris Hunter-Ward, do GlaxoSmithKline-Biologicals. \u201c\u00c0s vezes, traduzimos os documentos de consentimento em 10 idiomas. Aos pacientes damos duas semanas para pensar e aos m\u00e9dicos uma semana de treinamento antes de cada teste. N\u00e3o podemos fazer muito mais. Nunca interrompemos um teste por raz\u00f5es \u00e9ticas. A \u00cdndia tem os sistemas corretos para fazer os testes cl\u00ednicos\u201d, disse Hunter-Ward.<\/p>\n<p>Mas nem todos est\u00e3o convencidos. Segundo Muthuwamy, \u00e9 necess\u00e1rio maior controle. No momento, o que ela diz n\u00e3o se pode ouvir acima do som das caixas registradoras. A consultora McKinsey estima que at\u00e9 2010 os laborat\u00f3rios multinacionais ter\u00e3o investido at\u00e9 US$ 1,5 bilh\u00e3o na ind\u00fastria das terceiriza\u00e7\u00f5es de testes cl\u00ednicos na \u00cdndia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bangalore, \u00cdndia, 14\/07\/2006 &ndash; Em busca de aumentar seus ganhos atrav\u00e9s de testes com medicamentos baratos, as multinacionais farmac\u00eauticas recorrem cada vez mais \u00e0 \u00cdndia, que conta com muitos doentes pobres e sem instru\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de pessoal m\u00e9dico qualificado e boa infra-estrutura para pesquisas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/07\/mundo\/india-aumentam-os-testes-de-remedios-com-pobres\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1546,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,4,7],"tags":[21],"class_list":["post-1964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-globalizacao","category-mundo","category-saude","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1546"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1964\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}