{"id":1979,"date":"2006-08-21T00:00:00","date_gmt":"2006-08-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1979"},"modified":"2006-08-21T00:00:00","modified_gmt":"2006-08-21T00:00:00","slug":"mercosul-quem-controla-a-gua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/08\/america-latina\/mercosul-quem-controla-a-gua\/","title":{"rendered":"Mercosul: Quem controla a &aacute;gua?"},"content":{"rendered":"<p>C&oacute;rdoba, Argentina, 21\/08\/2006 &ndash; Movimentos sociais de Brasil, Argentina, Bol&iacute;via, Chile e Uruguai, que trabalharam duramente para recuperar servi&ccedil;os de &aacute;gua privatizados na d&eacute;cada de 90, se reuniram na cidade argentina de C&oacute;rdoba para uma troca de experi&ecirc;ncias e definir a&ccedil;&otilde;es, agora que algumas empresas est&atilde;o se retirando da regi&atilde;o. <!--more--> \u201cO grande desafio, talvez, maior at&eacute; do que tivemos na luta para recuperar as empresas de &aacute;gua privatizada, &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de uma gest&atilde;o alternativa deste recurso que seja p&uacute;blica e participativa\u201d, disse &agrave; IPS o porta-voz da Coordenadora pela Defesa da &Aacute;gua e da Vida da Bol&iacute;via, Oscar Olivera.<\/p>\n<p>Na Bol&iacute;via, o movimento contra a privatiza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de &aacute;gua pot&aacute;vel e saneamento existe h&aacute; anos e teve, inclusive, cinco vitimas fatais em mobiliza&ccedil;&otilde;es de rua em La Paz e El Alto, das quais participaram 500 mil pessoas. Em 2000, os moradores resistiram a aumentos nas tarifas de at&eacute; 300%. A conta de &aacute;gua equivalia a 20% da renda familiar. Agora, a corpora&ccedil;&atilde;o francesa Suez-Lyonnaise des Eaux \u2013 com contrato de concess&atilde;o por 40 anos, desde 1999 \u2013 est&aacute; em processo de retirada do pa&iacute;s e a Bol&iacute;via contam com um Minist&eacute;rio da &Aacute;gua, al&eacute;m de uma organiza&ccedil;&atilde;o social disposta a participar da administra&ccedil;&atilde;o desse recurso. \u201cO governo de Evo Morales teve de cumprir o mandato e criou o minist&eacute;rio\u201d, explicou Olivera.<\/p>\n<p>No contexto da 25&ordf; Reuni&atilde;o de C&uacute;pula do Mercosul, que aconteceu nesta ter&ccedil;a e quarta-feira na capital da prov&iacute;ncia de C&oacute;rdoba \u2013 800 quil&ocirc;metros a noroeste de Buenos Aires \u2013 organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil da regi&atilde;o participam da C&uacute;pula dos Povos pela Soberania e a Integra&ccedil;&atilde;o, que termina nesta quinta-feira com uma caminhada pelas ruas da cidade. Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela integram o Mercosul. Nesse ambiente, a Comiss&atilde;o Popular pela Recupera&ccedil;&atilde;o da &Aacute;gua de C&oacute;rdoba, formada por organiza&ccedil;&otilde;es sociais e sindicais e partidos pol&iacute;ticos, convocou entidades sul-americanas que trabalharam pela recupera&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua em v&aacute;rios pa&iacute;ses para um debate sobre o fracasso da privatiza&ccedil;&atilde;o do setor e os modelos de gest&atilde;o p&uacute;blica. No &uacute;ltimo ano, a Suez se retirou, ou est&aacute; em processo de retirada, da explora&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de &aacute;gua na Argentina, Bol&iacute;via e no Uruguai, que haviam sido privatizados nos anos 90.<\/p>\n<p>Para expor a experi&ecirc;ncia do manejo governamental falou Dieter Warshof, da Associa&ccedil;&atilde;o de Empresas Municipais de &Aacute;gua e Esgoto do Brasil, que representa cerca de 1.500 empresas gerenciadas por prefeituras brasileiras, muitas delas com participa&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es sociais. A preocupa&ccedil;&atilde;o recorrente dos participantes &eacute; construir um \u201cnovo\u201d modelo de manejo desse recurso h&iacute;drico. \u201cFomos eficientes contra as empresas privatizadas, mas n&atilde;o para propor um modelo alternativo\u201d, afirmou o argentino Alberto Mu&ntilde;oz, da prov&iacute;ncia de Santa F&eacute;. E nisto muitos concordam.<\/p>\n<p>Mu&ntilde;oz &eacute; membro da organiza&ccedil;&atilde;o Usu&aacute;rios e Consumidores de Ros&aacute;rio, que faz parte da Assembl&eacute;ia Provincial pelo Direito da &Aacute;gua em Santa F&eacute;. \u201cNecessitamos mudar a id&eacute;ia de empresa estatal pela de empresa p&uacute;blica porque o Estado nem sempre representa os interesses p&uacute;blicos\u201d, alertou. \u201cTemos que nos envolver\u201d, ressaltou este ativista que em sua prov&iacute;ncia liderou o processo contra a privatiza&ccedil;&atilde;o da empresa estatal de &aacute;gua, controlada por Suez.<\/p>\n<p>Anil Naidoo, coordenador da campanha internacional Blue Planet Project (Projeto Planeta Azul), com sede no Canad&aacute;, foi o &uacute;nico convidado de fora da Am&eacute;rica do Sul. \u201cNeste processo &eacute; importante n&atilde;o substituir um imp&eacute;rio por outro, saber muito bem o que queremos fazer\u201d, destacou. Em conversa com a IPS, Naidoo afirmou que a Am&eacute;rica do Sul &eacute;, neste momento, \u201co cora&ccedil;&atilde;o do movimento pelo direito humano &agrave; &aacute;gua\u201d e assegurou que \u201c&eacute; nesta regi&atilde;o onde est&atilde;o sendo criadas novas id&eacute;ias sobre como manejar o recurso. O movimento &eacute; forte e por isso queremos apoi&aacute;-lo\u201d, disse entusiasmado.<\/p>\n<p>O sindicalista Luis Baz&aacute;, que coordena a comiss&atilde;o popular de C&oacute;rdoba para a reestatiza&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, ressaltou a oportunidade do encontro. \u201cQueremos articular uma mesma pol&iacute;tica sobre o manejo da &aacute;gua da &aacute;gua no Mercosul, para que seja considerada um bem p&uacute;blico e um direito essencial\u201d,disse &agrave; IPS. \u201cVamos pedir aos presidentes que isto seja institucionalizado, porque em alguns pa&iacute;ses as empresas privadas est&atilde;o se retirando pela persist&ecirc;ncia dos movimentos sociais, mas h&aacute; casos ainda contradit&oacute;rios, como o da Argentina\u201d afirmou.<\/p>\n<p>O presidente N&eacute;stor Kirchner rescindiu este ano o contrato com a Suez sobre concess&atilde;o do servi&ccedil;o de &aacute;gua e saneamento na cidade de Buenos Aires e arredores e criou uma nova empresa p&uacute;blica. Na prov&iacute;ncia de Santa F&eacute; ocorreu algo semelhante. Mu&ntilde;oz recordou que a companhia francesa, que desfrutaria do neg&oacute;cio por 30 anos, ficou apenas 10 no pa&iacute;s. Contratos n&atilde;o-cumpridos, aumentos injustificados de tarifas e a m&aacute; qualidade do servi&ccedil;o for&ccedil;aram sua retirada, no come&ccedil;o deste ano, como ocorreu em outros pa&iacute;ses. Por press&atilde;o da assembl&eacute;ia formada em Santa F&eacute;, o governo imp&ocirc;s a sa&iacute;da a sa&iacute;da da Suez. Agora, 50% da &Aacute;guas de Santa F&eacute; pertencem ao governo provincial, 40% aos munic&iacute;pios e 10% aos sindicatos.<\/p>\n<p>\u201c&Eacute; uma transi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; o que queremos. Mas,pelo menos conseguimos derrotar a empresa privatizada que n&atilde;o era totalmente eficiente. Para n&oacute;s, isto &eacute; como a etapa final da era da privatiza&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m queremos maior participa&ccedil;&atilde;o de universidades e organiza&ccedil;&otilde;es sociais no controle da empresa\u201d, afirmou Mu&ntilde;oz. Por outro lado, em C&oacute;rdoba o movimento de resist&ecirc;ncia conseguiu que a Suez anunciasse sua sa&iacute;da este ano, mas n&atilde;o consegue fazer com que o governo provincial aceite o controle do servi&ccedil;o. A administra&ccedil;&atilde;o ofereceu transferir as a&ccedil;&otilde;es para outra companhia privada, de capital nacional, e a comiss&atilde;o popular impugnou esse ato nos tribunais.<\/p>\n<p>\u201cO contrato impede que o operador t&eacute;cnico transfira as a&ccedil;&otilde;es para outra empresa\u201d, afirmou Baz&aacute;n, e nisso se baseou sua representa&ccedil;&atilde;o na justi&ccedil;a. Enquanto o conflito n&atilde;o se resolve, o movimento analisa qual caminho seguir. No momento, observa as experi&ecirc;ncias na regi&atilde;o e sabe que &eacute; o que n&atilde;o quer. A participa&ccedil;&atilde;o de sindicatos na gest&atilde;o da &aacute;gua e vetada por quase todas as organiza&ccedil;&otilde;es que resistiram &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o. \u201cDefendem interesses corporativos, quando n&atilde;o diretamente os das empresas privadas\u201d, queixou-se o boliviano. Todos concordam que uma nova companhia p&uacute;blica deve partir da id&eacute;ia de considerar a &aacute;gua como um bem social, n&atilde;o uma mercadoria, e seu acesso &eacute; um direito humano b&aacute;sico. Imaginam subs&iacute;dios cruzados para que quem tem mais pague mais, e que seja proibido suspender o servi&ccedil;o por inadimpl&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>\u201cO presidente Kirchner reestatizou a empresa &Aacute;guas Argentinas e criou a &Aacute;gua e Saneamento S.A., mas detectamos que a nova companhia estatal tamb&eacute;m corta o servi&ccedil;o por falta de pagamento, e n&atilde;o &eacute; isso que queremos. Outro participante, da prov&iacute;ncia de Rio Negro, recordou que em seu distrito o servi&ccedil;o de &aacute;gua nunca foi privatizado, mas acabou parcialmente entregue ao manejo de companhias particulares. \u201cA esvaziaram e n&atilde;o fizeram nada de bom\u201d, contou.<\/p>\n<p>No Uruguai, um plebiscito em 2004 habilitou a reforma da Constitui&ccedil;&atilde;o para declarar a &aacute;gua como bem p&uacute;blico e proibir a privatiza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de distribui&ccedil;&atilde;o e saneamento. Pouco depois ca&iacute;ram as concess&otilde;es das empresas &Aacute;guas da Costa, da espanhola &Aacute;guas de Barcelona (filial da Suez) e Uragu&aacute; (subsidi&aacute;ria, por sua vez, da &Aacute;guas de Bilbao) que controlam o servi&ccedil;o no departamento de Maldonado. Entretanto, Sebasti&aacute;n Valdomir, da Rede Amigos da Terra \u2013 membro da Comiss&atilde;o Nacional em Defesa da &Aacute;gua e da Vida no Uruguai \u2013 disse &agrave; IPS que as companhias recorreram ao Centro Internacional de Acerto de Diferen&ccedil;a de Investimentos (CIADI), do Banco Mundial, para conseguir ressarcimentos. \u201cDevemos iniciar uma campanha regional de den&uacute;ncia desta estrat&eacute;gia das empresas. A &aacute;gua n&atilde;o pode estar sujeita ao que diz o CIADI\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Por fim, Olivera, da Bol&iacute;via, considerou que mesmo havendo vontade dos novos governos sul-americanos no sentido de avan&ccedil;ar na reestatiza&ccedil;&atilde;o, resta muito por fazer. Em seu pa&iacute;s est&atilde;o sendo elaboradas propostas para levar &agrave; Assembl&eacute;ia Constituinte para gerar espa&ccedil;os de participa&ccedil;&atilde;o. \u201c&Eacute; preciso, agora, desprivatizar a pol&iacute;tica, acabar com o monop&oacute;lio da palavra dos dirigentes e come&ccedil;ar a ouvir o que as pessoas querem\u201d, recomendou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C&oacute;rdoba, Argentina, 21\/08\/2006 &ndash; Movimentos sociais de Brasil, Argentina, Bol&iacute;via, Chile e Uruguai, que trabalharam duramente para recuperar servi&ccedil;os de &aacute;gua privatizados na d&eacute;cada de 90, se reuniram na cidade argentina de C&oacute;rdoba para uma troca de experi&ecirc;ncias e definir a&ccedil;&otilde;es, agora que algumas empresas est&atilde;o se retirando da regi&atilde;o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/08\/america-latina\/mercosul-quem-controla-a-gua\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5,9,4],"tags":[21],"class_list":["post-1979","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","category-globalizacao","category-mundo","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1979"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1979\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}