{"id":19895,"date":"2015-09-24T12:21:33","date_gmt":"2015-09-24T12:21:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=200721"},"modified":"2015-09-24T12:21:33","modified_gmt":"2015-09-24T12:21:33","slug":"cancer-dos-desaparecidos-impacta-o-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/09\/ultimas-noticias\/cancer-dos-desaparecidos-impacta-o-mexico\/","title":{"rendered":"C\u00e2ncer dos desaparecidos impacta o M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_200722\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Mexico.jpg\"><img class=\"wp-image-200722\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Mexico.jpg\" alt=\"No restaurante da Par\u00f3quia de San Gerardo, na cidade de Iguala, est\u00e3o penduradas as fotos dos desaparecidos no Estado de Guerrero, no sudoeste do M\u00e9xico. Foto: Daniela Pastrana\/IPS\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">No restaurante da Par\u00f3quia de San Gerardo, na cidade de Iguala, est\u00e3o penduradas as fotos dos desaparecidos no Estado de Guerrero, no sudoeste do M\u00e9xico. Foto: Daniela Pastrana\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Daniela Pastrana, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Iguala, M\u00e9xico, 24\/9\/2015 \u2013 O restaurante da Par\u00f3quia de San Gerardo, no Estado mexicano de Guerrero, se converteu em um memorial do espanto. Longas filas de fotografias cobrem as paredes da galeria. S\u00e3o dezenas de rostos de pessoas ausentes, desaparecidas, raptadas e extra\u00eddas de suas vidas sem deixar rastro. Na maioria s\u00e3o pessoas do norte do Estado, o mais pobre do pa\u00eds e um dos mais assolados pela viol\u00eancia. A base de dados do comit\u00ea de busca soma 350 pessoas desaparecidas e a cada semana aumenta mais.<\/p>\n<p>No \u00faltimo ano, esta par\u00f3quia de Iguala recebeu, toda ter\u00e7a-feira, fam\u00edlias que perderam o medo de denunciar e buscar seus desaparecidos no cemit\u00e9rio clandestino descoberto nos montes que rodeiam esta cidade, depois do desaparecimento de 43 estudantes da escola de magist\u00e9rio rural de Ayotzinapa, no dia 26 de setembro de 2014.<\/p>\n<p>Naquela noite, os estudantes foram atacados pela pol\u00edcia municipal de Iguala \u2013 o que agora se sabe depois de uma \u00e1rdua investiga\u00e7\u00e3o de um grupo de especialistas designados pela Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos \u2013, houve uma a\u00e7\u00e3o concertada entre diferentes for\u00e7as do Estado, inclu\u00eddos militares e federais, que durou v\u00e1rias horas e teve pelo menos nove cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os agentes municipais executaram cinco civis, entre eles dois estudantes; um terceiro foi torturado e seu corpo encontrado horas depois junto de um lix\u00e3o. Foram levados presos outros 43 normalistas, que em sua maioria cursavam o primeiro ano do magist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ao completar o primeiro anivers\u00e1rio desse ataque, no dia 26, s\u00f3 foram localizados um punhado de cinzas e dentro de um saco pl\u00e1stico, enquanto se investiga a prov\u00e1vel descoberta de um segundo. Dos demais n\u00e3o h\u00e1 rastro.<\/p>\n<p>O ataque aos estudantes destapou o esgoto da alian\u00e7a entre pol\u00edticos locais e grupos criminosos, e reviveu a dor dos 30 mil desaparecidos, segundo organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, deixados pela estrat\u00e9gia militar de seguran\u00e7a instaurada pelo presidente Felipe Calder\u00f3n em janeiro de 2007, e deu visibilidade ao Movimento pela Paz, encabe\u00e7ado pelo poeta Javier Sicilia.<\/p>\n<p>Enrique Pe\u00f1a Nieto, na Presid\u00eancia desde dezembro de 2012, manteve a pol\u00edtica de seguran\u00e7a militar, mas seus efeitos ficaram vis\u00edveis por uma estrat\u00e9gia midi\u00e1tica que concentrou seus esfor\u00e7os em promover reformas constitucionais para abrir os setores de energia e telecomunica\u00e7\u00f5es \u00e0 ind\u00fastria privada. S\u00f3 no primeiro ano do seu governo, investiu cerca de US$ 500 milh\u00f5es em publicidade oficial, segundo um estudo conjunto do Centro de An\u00e1lise e Pesquisa Fundar e da Art\u00edculo 19.<\/p>\n<p>Mas a viol\u00eancia se manteve e, segundo uma investiga\u00e7\u00e3o do jornal <em>El Universal<\/em>, publicada esta semana, as procuradorias registraram em 2014 mais de cinco mil desaparecidos. Ou seja, 14 por dia. Tamb\u00e9m destacam casos como o do Estado de Nuevo Le\u00f3n, no norte, onde foram localizados 31 mil restos humanos entre 2011 e 2015, que levaram \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de 30 pessoas.<\/p>\n<p>\u201cA diferen\u00e7a \u00e9 que agora as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos est\u00e3o se voltando tamb\u00e9m contra defensores desses direitos e o movimento social organizado\u201d, pontuou \u00e0 IPS o ativista H\u00e9ctor Cerezo, que documentou os desaparecimentos for\u00e7ados de defensores e l\u00edderes sociais nos \u00faltimos quatro anos.<\/p>\n<p>Durante o mandato de Nieto, \u201cdocumentamos 81 defensores v\u00edtimas de desaparecimento for\u00e7ado; no de Calder\u00f3n foram 55. No total, s\u00e3o 136 defensores, de 2006 at\u00e9 hoje, que comprovadamente foram levados pelo Estado\u201d, ressaltou Cerezo. \u201cPode parecer pouco em um universo de milhares de desaparecidos, mas indica um aumento nas estrat\u00e9gias de controle social por parte do Estado mexicano\u201d, apontou o ativista.<\/p>\n<p>O informe <em>Defender os Direitos Humanos no M\u00e9xico: A Repress\u00e3o Pol\u00edtica, Uma Pr\u00e1tica Generalizada<\/em>, apresentado no dia 27 de agosto pelo Comit\u00ea Cerezo M\u00e9xico e pela Campanha Nacional Contra o Desaparecimento For\u00e7ado, documenta 860 viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos contra ativistas e lutadores sociais, entre junho de 2014 e maio deste ano.<\/p>\n<p>O registro de viola\u00e7\u00f5es inclui coletivos (47 organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e 35 comunidades) e um aumento de deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, que quase duplicou. Entre elas est\u00e3o as derivadas de um protesto de diaristas agr\u00edcolas no Estado da Baixa Calif\u00f3rnia, que trabalham em condi\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o, e as mobiliza\u00e7\u00f5es de professores durante o processo eleitoral de junho nos Estados de Oaxaca e Guerrero, nas quais dois manifestantes foram assassinados.<\/p>\n<p>Para Cerezo, o desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapa se insere nessa estrat\u00e9gia de controle social. \u201cN\u00e3o se explicaria a brutalidade, a dimens\u00e3o da agress\u00e3o e que o governo tenha assumido tanto custo pol\u00edtico somente por uma quest\u00e3o de drogas. \u00c9 um desaparecimento \u2018exemplar\u2019 para o movimento dos direitos humanos e o movimento social\u201d, enfatizou.<\/p>\n<p>Em todo caso, o brutal ataque aos estudantes deixou evidente a gravidade da crise de direitos humanos no M\u00e9xico. Investiga\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas documentaram este ano pelo menos 80 execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais cometidas pelo ex\u00e9rcito e pela Pol\u00edcia Federal em tr\u00eas supostos combates com grupos do crime organizado, nos Estados de M\u00e9xico e Michoac\u00e1n. Em Iguala, as brigadas civis, que sa\u00edram em busca de seus familiares nos montes, localizaram 104 corpos em fossas clandestinas, embora apenas nove tenham sido identificados.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em Ayotzinapa. Est\u00e1 assim em todo o pa\u00eds\u201d, disse \u00e0 IPS uma das brigadistas, Graciela P\u00e9rez, que busca sua filha desaparecida h\u00e1 tr\u00eas anos na zona sul de Tamaulipas (750 quil\u00f4metros ao norte de Iguala), onde ela sozinha documentou a localiza\u00e7\u00e3o de 50 fossas clandestinas entre janeiro e fevereiro deste ano.<\/p>\n<p>A crise for\u00e7ou uma visita ao local da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), solicitada por organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, que acontecer\u00e1 entre os dias 28 deste m\u00eas e 2 de outubro. Al\u00e9m disso, no Congresso aguardam discuss\u00e3o quatro iniciativas para uma Lei Geral de Desaparecimento For\u00e7ado que permita tipificar o crime.<\/p>\n<p>\u201cO desaparecimento for\u00e7ado de um grande grupo de pessoas, integrantes de um movimento social, \u00e9 o primeiro de seu tipo no M\u00e9xico contempor\u00e2neo\u201d, diz o informe do Comit\u00ea Cerezo, se referindo ao desaparecimento dos estudantes. Os pais dos normalistas desaparecidos em Iguala iniciaram, no dia 23, jejum de 43 horas, um dia antes de serem recebidos pelo Presidente, enquanto para o dia 26 est\u00e1 convocada uma grande marcha na capital mexicana, pedindo o esclarecimento do caso. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Daniela Pastrana, da IPS &ndash;&nbsp; Iguala, M&eacute;xico, 24\/9\/2015 &ndash; O restaurante da Par&oacute;quia de San Gerardo, no Estado mexicano de Guerrero, se converteu em um memorial do espanto. 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