{"id":19897,"date":"2015-09-28T12:15:54","date_gmt":"2015-09-28T12:15:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=200918"},"modified":"2015-09-28T12:15:54","modified_gmt":"2015-09-28T12:15:54","slug":"os-quatro-rumos-da-uniao-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/09\/ultimas-noticias\/os-quatro-rumos-da-uniao-europeia\/","title":{"rendered":"Os quatro rumos da Uni\u00e3o Europeia"},"content":{"rendered":"<p><em>Por\u00a0Roberto Savio*<\/em><\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, setembro\/2015 \u2013 A zona do euro foi constru\u00edda sem garantir suas vigas e agora come\u00e7am a aparecer rachaduras. A ideia de que uma moeda comum seria suficiente para integrar 19 pa\u00edses talvez tivesse sido poss\u00edvel, se a gera\u00e7\u00e3o anterior de l\u00edderes pol\u00edticos competentes ainda estivesse em atividade.<\/p>\n<p>Os atuais pol\u00edticos s\u00e3o incapazes de sonhos e vis\u00f5es. Na Uni\u00e3o Europeia (UE), a irresol\u00favel crise dos refugiados \u00e9 um bom exemplo de falta de solidariedade.<\/p>\n<p>No que j\u00e1 passou deste ano, aumentou a brecha Norte-Sul no continente. Os pa\u00edses credores do norte da Europa n\u00e3o querem ajudar os pa\u00edses devedores do Sul.<\/p>\n<p>Agora surge outra divis\u00e3o, entre Europa oriental e ocidental. Os pa\u00edses do leste n\u00e3o t\u00eam a menor inten\u00e7\u00e3o de assumir nenhuma responsabilidade na crise dos refugiados. A imagem que simboliza esta atitude \u00e9 a da jornalista h\u00fangara Petra Laszlo, captada aplicando uma rasteira em um refugiado que corre com seu filho nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos algumas reflex\u00f5es. A primeira, sobre a identidade da Europa. Muitos d\u00e3o como certo que todos os pa\u00edses europeus compartilham uma hist\u00f3ria e uma cultura comuns.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 muito mais importante do que costumamos assumir, mas n\u00e3o passemos por alto a respeito de um simples fato hist\u00f3rico: a Europa que se projetava no mundo era somente sua metade ocidental.<\/p>\n<p>A Europa em tempos de col\u00f4nias e imp\u00e9rios era somente a de Portugal, Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Holanda, B\u00e9lgica, Gr\u00e3-Bretanha e Alemanha.<\/p>\n<p>Nenhum pa\u00eds da Europa Oriental, come\u00e7ando pela \u00c1ustria e terminando com a Pol\u00f4nia, teve uma col\u00f4nia. Mais tarde, quando o colonialismo e o imperialismo expandiram o com\u00e9rcio e as finan\u00e7as sob o controle de grandes empresas ocidentais, na Europa Oriental n\u00e3o surgiu nenhuma corpora\u00e7\u00e3o transnacional.<\/p>\n<p>A Europa internacional, na realidade, era Europa Ocidental. Em 1991, ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, a Sociedade Internacional para o Desenvolvimento (SID) organizou uma confer\u00eancia em Viena entre os presidentes do Senado e das Comiss\u00f5es Parlamentares de Assuntos Exteriores da agora \u201clivre\u201d Europa Oriental e seus pares ocidentais. Os ocidentais queriam conhecer a pol\u00edtica dos orientais para os pa\u00edses do Sul em desenvolvimento.<\/p>\n<p>A um parlamentar polon\u00eas foi dada a tarefa de falar em nome da regi\u00e3o oriental. Sua posi\u00e7\u00e3o pode ser resumida em algumas frases.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o nos sentimos agradecidos \u00e0 Europa, mas aos Estados Unidos. Se n\u00e3o fosse por eles ainda estar\u00edamos sob o comunismo.<\/p>\n<p>\u2013 Gastamos muito dinheiro e esfor\u00e7os na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina, porque a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nos ordenava faz\u00ea-lo durante a Guerra Fria. Agora que somos livres, n\u00e3o podemos nos preocupar com esses pa\u00edses. Em primeiro lugar, devemos nos desenvolver, e, quando alcan\u00e7armos o n\u00edvel da Europa Ocidental, voltaremos a pensar no Sul.<\/p>\n<p>\u2013 O comunismo nos privou de nosso n\u00edvel de vida, e queremos recuper\u00e1-lo. Isto tamb\u00e9m \u00e9 um dever do Ocidente. Mais nos valeria nos unir aos Estados Unidos. Como isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, nos uniremos \u00e0 Europa. O fazemos para obter os recursos que necessitamos e \u00e9 vossa obriga\u00e7\u00e3o nos dar.<\/p>\n<p>\u2013 Nossa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que se deve deixar de destinar recursos aos pa\u00edses da \u00c1frica, \u00c1sia, Am\u00e9rica Latina e, por outro lado, encaminhar esses recursos, e outros que possam encontrar, para n\u00f3s.<\/p>\n<p>O dram\u00e1tico \u00eaxodo de refugiados \u00e9 uma consequ\u00eancia direta das pol\u00edticas da Europa e dos Estados Unidos no mundo \u00e1rabe. A invas\u00e3o do Iraque, e sobretudo as a\u00e7\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o incompetente de Washington, abriu a caixa de Pandora da qual surgiu o Estado Isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>A isto se deve acrescentar a catastr\u00f3fica interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia encabe\u00e7ada por Nicolas Sarkozy (presidente da Fran\u00e7a entre 2007 e 2012), bem como a intromiss\u00e3o dos Estados Unidos e da Europa na S\u00edria. Os 200 mil s\u00edrios mortos e os mais de quatro milh\u00f5es de refugiados pesam na consci\u00eancia de R\u00fassia, Estados Unidos e pa\u00edses europeus e \u00e1rabes, que est\u00e3o lutando em uma guerra pelo poder na S\u00edria.<\/p>\n<p>Mas os cidad\u00e3os da Europa Oriental sentem que nada t\u00eam a ver com as invas\u00f5es no Oriente M\u00e9dio. Segundo eles, \u201cnos unimos \u00e0 UE para receber ajuda e turistas, n\u00e3o imigrantes\u201d.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m explica a indiferen\u00e7a da Europa do Leste com o drama grego. \u00c9 outro sintoma do fato de que a UE de 28 membros, desgarrada por contrastes Norte-Sul e Leste-Oeste, parece dividida em quatro.<\/p>\n<p>Entretanto, todos exaltam as posturas da chanceler alem\u00e3, Angela Merkel, sobre a quest\u00e3o dos refugiados. Na verdade, ela est\u00e1 seguindo mais o c\u00e9rebro do que o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Merkel conhece as proje\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas que indicam que a Europa e a Alemanha necessitam de uma maci\u00e7a aflu\u00eancia de imigrantes se desejam continuar sendo competitivos em n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>As proje\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) indicam que no curto prazo \u00e9 necess\u00e1rio receber ao menos 20 milh\u00f5es de pessoas para compensar a escassez de fertilidade interna.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno bem conhecido \u00e9 crucial para o futuro da Europa. Entretanto, esta regi\u00e3o de quase 500 milh\u00f5es de pessoas, pressionada pela ascens\u00e3o de partidos xen\u00f3fobos, durante meses esteve debatendo como dar abrigo a 45 mil refugiados, o que \u00e9 um bom exemplo de como a Europa perdeu seu rumo.<\/p>\n<p>Os refugiados j\u00e1 representam 25% da popula\u00e7\u00e3o do L\u00edbano, enquanto a \u00faltima onda de refugiados rumo \u00e0 UE equivale a um insignificante 0,11% de seus habitantes. Os 11 milh\u00f5es de imigrantes ilegais nos Estados Unidos representam 3,5% de uma popula\u00e7\u00e3o racialmente heterog\u00eanea de 320 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Merkel sabe que a partir do pr\u00f3ximo ano a popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 come\u00e7ar\u00e1 a diminuir, enquanto a R\u00fassia perde 800 mil cidad\u00e3os a cada ano.<\/p>\n<p>A iniciativa de Merkel tamb\u00e9m teve o efeito positivo de colocar os partidos europeus de extrema direita contra a parede. Por\u00e9m, h\u00e1 60 milh\u00f5es de refugiados no mundo e n\u00e3o existe uma pol\u00edtica de responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o a eles.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos agem como se nada tivessem a ver com os quatro milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios, os quais em sua grande maioria fugiram para pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o ricos, como L\u00edbano, Jord\u00e2nia e Turquia.<\/p>\n<p>Agora seu secret\u00e1rio de Estado, John Kerry, considera a possibilidade de receber at\u00e9 cem mil refugiados at\u00e9 2017, enquanto nenhum dos 14 candidatos presidenciais considera o tema dos refugiados durante a campanha pr\u00e9-eleitoral.<\/p>\n<p>Nem falar dos monarcas dos pa\u00edses do Golfo, que participam ativamente da destrui\u00e7\u00e3o da S\u00edria. Ajudam os refugiados mediante grandes contribui\u00e7\u00f5es financeiras, mas inferiores ao que investem na guerra.<\/p>\n<p>Dever\u00edamos deixar de declamar solidariedade e come\u00e7ar a falar de responsabilidade. \u00c9 isto o que devemos exigir. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio<\/strong> \u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor do boletim de not\u00edcias <\/em>Other News<em>. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Roberto Savio* Roma, It&aacute;lia, setembro\/2015 &ndash; A zona do euro foi constru&iacute;da sem garantir suas vigas e agora come&ccedil;am a aparecer rachaduras. A ideia de que uma moeda comum seria suficiente para integrar 19 pa&iacute;ses talvez tivesse sido poss&iacute;vel, se a gera&ccedil;&atilde;o anterior de l&iacute;deres pol&iacute;ticos competentes ainda estivesse em atividade. 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