{"id":19941,"date":"2015-10-06T13:20:13","date_gmt":"2015-10-06T13:20:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=201303"},"modified":"2015-10-06T13:20:13","modified_gmt":"2015-10-06T13:20:13","slug":"a-lamentavel-decadencia-da-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/10\/ultimas-noticias\/a-lamentavel-decadencia-da-democracia\/","title":{"rendered":"A lament\u00e1vel decad\u00eancia da democracia"},"content":{"rendered":"<p><em>Por\u00a0Roberto Savio*<\/em><\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, outubro\/2015 \u2013 O \u00faltimo estudo global, realizado pela Pesquisa Mundial de Valores, sobre a solidez da democracia em 2015 apresenta dados extremamente preocupantes. Entretanto, \u00e9 amplamente ignorado, exceto pelo jornal norte-americano <em>The New York Times<\/em>, que publicou um informe especial.<\/p>\n<p>Segundo a autorizada institui\u00e7\u00e3o, nos Estados Unidos o n\u00famero de cidad\u00e3os que aprovam a lei que legaliza a posse de armas passou de uma em cada grupo de 15 pessoas em 1995 para uma em cada seis em 2015.<\/p>\n<p>Enquanto entre os nascidos antes da Segunda Guerra Mundial 72% apontaram como o valor mais alto o de viver em uma democracia, para os nascidos depois de 1980 essa porcentagem caiu para menos de 30%.<\/p>\n<p>A propor\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda menor na Europa oriental, onde chega a apenas 24%. Nessa regi\u00e3o o n\u00edvel de renda, um trabalho seguro e a possibilidade de uma aposentadoria s\u00e3o mais importantes do que o tipo de regime sob o qual viver.<\/p>\n<p>Existe, naturalmente, uma explica\u00e7\u00e3o geracional. A democracia foi um tesouro a ser conservado para quem viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial. A gera\u00e7\u00e3o mais jovem tem apenas uma ideia intelectual do que significa viver sob uma ditadura, n\u00e3o uma experi\u00eancia de vida. Com disse Altiero Spinelli no p\u00f3s-guerra, agora todo mundo dorme sem medo de ser acordado durante a noite.<\/p>\n<p>Mas o debate \u00e9 mais complexo. Aceita-se como uma verdade inquestion\u00e1vel que, uma vez que um pa\u00eds se converta em democr\u00e1tico, um sistema alternativo de governo n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, j\u00e1 que os cidad\u00e3os veem a democracia como a \u00fanica forma leg\u00edtima de governo.<\/p>\n<p>Essa teoria pressup\u00f5e que a democracia e o crescimento econ\u00f4mico e social caminham paralelos e, por exemplo, vaticina que, quando a China tiver uma vasta classe m\u00e9dia, necessariamente entrar\u00e1 em um sistema multipartid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Agora existe uma crescente corrente de opini\u00e3o sobre as car\u00eancias e a inefici\u00eancia da democracia. Em tempos do governo militar no Chile (1973-1990), havia os que exaltavam as vantagens do \u201cmodelo chileno\u201d, bem como atualmente alguns afirmam que o \u201cmodelo chin\u00eas\u201d \u00e9 muito mais eficaz e produtivo do que o dif\u00edcil sistema democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria Europa, temos o h\u00fangaro Viktor Orb\u00e1n, primeiro-ministro de um pa\u00eds ex-comunista, que cr\u00edtica a obsolesc\u00eancia da democracia parlamentar. E Orb\u00e1n foi eleito democraticamente.<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 o caso mais estridente. Vladimir Putin, que \u00e9 o modelo supremo da autocracia, tem um apoio popular de aproximadamente 80%.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de refletir sobre as causas da decad\u00eancia da credibilidade das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. \u00c9 apenas um problema geracional ou a legitimidade do sistema pol\u00edtico est\u00e1 cada vez mais em xeque?<\/p>\n<p>Quando se observa o custo da campanha presidencial nos Estados Unidos, que se aproxima dos US$ 4 bilh\u00f5es, se descobre que um pequeno grupo de doadores (130 fam\u00edlias e seus neg\u00f3cios) proporcionou mais da metade do dinheiro arrecadado durante junho pelos pr\u00e9-candidatos republicanos.<\/p>\n<p>A realidade parece diferente da democracia vibrante, o farol do mundo, que a ret\u00f3rica norte-americana proclama permanentemente.<\/p>\n<p>Um estudo publicado no <em>The New York Times <\/em>pelos especialistas pol\u00edticos Martin Giles e Benjamin Page assinala que, enquanto os grupos de interesse e as elites econ\u00f4micas foram muito influentes nos \u00faltimos 30 anos, as opini\u00f5es dos cidad\u00e3os comuns n\u00e3o tiveram praticamente impacto algum, concluindo que \u201cnos Estados Unidos a maioria n\u00e3o governa\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente a crescente desconex\u00e3o entre os cidad\u00e3os e a pol\u00edtica tradicional.<\/p>\n<p>As mesmas surpresas surgiram na Europa, com a ascens\u00e3o de Jeremy Corbyn na Gr\u00e3-Bretanha e Alexis Tsipras na Gr\u00e9cia, expoentes de esquerda radical. \u00c9 pouco prov\u00e1vel que os partidos tradicionais consigam a maioria na Espanha. E os partidos de extrema direita continuam aumentando. O neonazista Aurora Dourada \u00e9 terceiro na Gr\u00e9cia, por exemplo.<\/p>\n<p>As duas linhas de fratura na Uni\u00e3o Europeia (UE) \u2013 a brecha entre o Norte e o Sul da Europa com rela\u00e7\u00e3o ao modelo de governan\u00e7a econ\u00f4mica (austeridade contra o desenvolvimento) e a brecha entre Europa Ocidental e Europa Oriental com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 solidariedade (refugiados) \u2013 est\u00e3o obscurecendo a legitimidade das institui\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>O fato de em uma noite um grupo de pessoas decidir em Bruxelas o destino de milh\u00f5es de cidad\u00e3os, sem nenhum tipo de consulta, est\u00e1 criando uma terceira divis\u00e3o, mais profunda e mais s\u00e9ria do que as outras duas.<\/p>\n<p>O fato de os dois primeiros resgates gregos terem sido concebidos basicamente para beneficiar os bancos franceses e alem\u00e3es, deixando muito pouco para a economia helena, aumentou a percep\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os de que os bancos s\u00e3o mais importantes do que as pessoas.<\/p>\n<p>Este ano, 3.178 banqueiros europeus receberam mais de um milh\u00e3o de euros, dos quais 2.086 na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>As pessoas com abundante riqueza l\u00edquida, somada a casa e a outras propriedades, somando mais de US$ 1 milh\u00e3o, chegaram a 14,6 milh\u00f5es no ano passado, um aumento de 7% em rela\u00e7\u00e3o a 2013.<\/p>\n<p>O que \u00e9 novo nos \u00faltimos anos \u00e9 que institui\u00e7\u00f5es conservadoras, como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), advertem que o aumento da brecha social constitui um freio para o crescimento econ\u00f4mico, fazendo eco a um estudo da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4micos (OCDE).<\/p>\n<p>O \u00faltimo estudo do FMI alerta para a redu\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia e o aumento de pobres e ricos, claro que em medidas muito diferentes.<\/p>\n<p>Essa queda da classe m\u00e9dia \u00e9 acompanhada por uma polariza\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica e no crescimento constante dos partidos extremistas e xen\u00f3fobos, que agora obt\u00eam votos entre os trabalhadores e os menos favorecidos, que antes votavam em partidos de esquerda, o que est\u00e1 mudando completamente o cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Quem acreditaria que a Dinamarca, um dos poucos pa\u00edses que dedicam 1% de seu or\u00e7amento \u00e0 ajuda ao desenvolvimento (os Estados Unidos chegam a apenas 0,2%), sob press\u00e3o da ala direita do partido governante recha\u00e7aria qualquer refugiado em seu territ\u00f3rio? E que a Hungria recorreria a a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o uma reminisc\u00eancia da \u00e9poca nazista? E que, ao mesmo tempo, a Europa Oriental declare abertamente que est\u00e1 na UE apenas para receber ajuda e n\u00e3o dar nada?<\/p>\n<p>O sistema democr\u00e1tico adquiriu legitimidade por sua capacidade de apoiar valores como justi\u00e7a, solidariedade e o desenvolvimento geral da sociedade. N\u00e3o h\u00e1 precedentes hist\u00f3ricos para prever o que pode ocorrer em um contexto em que os cidad\u00e3os vivam uma deteriora\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica durante d\u00e9cadas e os jovens n\u00e3o vejam um futuro claro.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 precedentes hist\u00f3ricos que nos dizem que as sociedades em crise podem cair facilmente em regimes populistas e autorit\u00e1rios, especialmente se as elites ricas apoiam esse caminho.<\/p>\n<p>Agora deve estar claro para todos que o sistema se decomp\u00f5e e \u00e9 necess\u00e1rio repar\u00e1-lo. Mas essa democracia em queda, com t\u00e3o poucos estadistas e tantos pol\u00edticos, ser\u00e1 capaz de assumir a tarefa? Esta \u00e9 uma quest\u00e3o que, infelizmente, precisamos come\u00e7ar a enfrentar&#8230; Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio<\/strong> \u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor do boletim de not\u00edcias Other News. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Roberto Savio* Roma, It&aacute;lia, outubro\/2015 &ndash; O &uacute;ltimo estudo global, realizado pela Pesquisa Mundial de Valores, sobre a solidez da democracia em 2015 apresenta dados extremamente preocupantes. Entretanto, &eacute; amplamente ignorado, exceto pelo jornal norte-americano The New York Times, que publicou um informe especial. 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