{"id":20006,"date":"2015-10-23T13:04:02","date_gmt":"2015-10-23T13:04:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=202055"},"modified":"2015-10-23T13:04:02","modified_gmt":"2015-10-23T13:04:02","slug":"fim-de-megaprojetos-gera-elefantes-brancos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/10\/ultimas-noticias\/fim-de-megaprojetos-gera-elefantes-brancos\/","title":{"rendered":"Fim de megaprojetos gera elefantes brancos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_202056\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/edificio.jpg\"><img class=\"wp-image-202056\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/edificio.jpg\" alt=\"O moderno conjunto Enterprise, de dois edif\u00edcios, com todos seus escrit\u00f3rios, lojas e outras \u00e1reas vazios. \u00c9 um dos muitos \u201celefantes brancos\u201d deixados na cidade de Itabora\u00ed, sudeste brasileiro, ao ser abortado megaprojeto petroqu\u00edmico e petroleiro da Petrobras. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O moderno conjunto Enterprise, de dois edif\u00edcios, com todos seus escrit\u00f3rios, lojas e outras \u00e1reas vazios. \u00c9 um dos muitos \u201celefantes brancos\u201d deixados na cidade de Itabora\u00ed, sudeste brasileiro, ao ser abortado megaprojeto petroqu\u00edmico e petroleiro da Petrobras. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Itabora\u00ed, Brasil, 23\/10\/2015 \u2013 Itabora\u00ed ainda recorda suas origens em um munic\u00edpio formado ao longo de uma rodovia, crescendo para os dois lados de sua larga avenida central. Mas h\u00e1 alguns anos esta cidade do sudeste do Brasil se encheu de grandes e modernos edif\u00edcios, agora todos vazios, ou quase.<\/p>\n<p>A quantidade de \u201celefantes brancos\u201d, ou obras caras sem uso, nessa cidade de 230 mil habitantes, a 45 quil\u00f4metros do Rio de Janeiro, \u00e9 um \u201cdos choques violentos\u201d causados pelo Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), explicou \u00e0 IPS o secret\u00e1rio municipal de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Luiz Fernando Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>\u201cO primeiro impacto foi o an\u00fancio, feito em 2006 pelo ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010), do projeto que contemplaria duas refinarias e duas unidades petroqu\u00edmicas que gerariam, segundo estimativa da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, 221 mil empregos\u201d, afirmou Guimar\u00e3es. Esse dado da respeitada funda\u00e7\u00e3o de estudos econ\u00f4micos, com sede no Rio de Janeiro, superava o total de habitantes do munic\u00edpio, que era de 218 mil em 2010, segundo o censo daquele ano.<\/p>\n<p>O complexo custaria cerca de US$ 6,5 bilh\u00f5es, segundo as proje\u00e7\u00f5es iniciais, mas valer\u00e1 mais que o dobro e para colocar em opera\u00e7\u00e3o uma s\u00f3 refinaria com capacidade de processar 165 mil barris por dia de petr\u00f3leo. A unidade petroqu\u00edmica e a segunda refinaria foram eliminadas.<\/p>\n<p>Seu an\u00fancio e o in\u00edcio das obras em 2008 \u201cconverteram Itabora\u00ed em um Eldorado (m\u00edtico lugar cheio de ouro), atraindo brasileiros de todas as partes e muitos estrangeiros. Os alugu\u00e9is dispararam, os pre\u00e7os dos alimentos e servi\u00e7os subiram loucamente, terrenos para moradias tiveram seu valor elevado em mais de dez vezes\u201d, recordou o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>O emprego de aproximadamente 30 mil oper\u00e1rios e a expectativa de uma ampla industrializa\u00e7\u00e3o em torno da petroqu\u00edmica atra\u00edram muitos investimentos diante da expectativa de que a cidade, \u201cuma das mais pobres do pa\u00eds\u201d, desfrutaria de forte prosperidade\u201d, contou \u00e0 IPS o secret\u00e1rio da Fazenda do munic\u00edpio, Rodney Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m houve a explos\u00e3o de neg\u00f3cios imobili\u00e1rios, com a constru\u00e7\u00e3o de modernos edif\u00edcios. Foram planejados ainda quatro grandes hot\u00e9is, dos quais dois foram constru\u00eddos. Em poucos anos a cidade ganhou cerca de quatro mil unidades comerciais, entre escrit\u00f3rios e lojas, segundo Guimar\u00e3es, cuja secretaria passou a ser denominada de Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Integra\u00e7\u00e3o com o Comperj. Este antigo empres\u00e1rio petroleiro cuida agora da rela\u00e7\u00e3o da prefeitura com o reduzido megaprojeto da Petrobras.<\/p>\n<p>O segundo choque foi a decis\u00e3o de reduzir o projeto a uma \u00fanica refinaria, que s\u00f3 foi divulgado em 2014. \u201cMas a mudan\u00e7a ocorreu em 2010 e a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi informada. Eu sabia porque v\u00e1rias subsidi\u00e1rias de Petrobras e da Braskem (a maior petroqu\u00edmica brasileira) deixaram o cons\u00f3rcio\u201d, afirmou o secret\u00e1rio. \u201cImagine que uma faculdade local preparava a abertura de um curso na \u00e1rea petroqu\u00edmica, pensando nos empregos do Comperj. Quando o avisei, o diretor quase me mata\u201d, contou.<\/p>\n<div id=\"attachment_202057\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/loja.jpg\"><img class=\"wp-image-202057\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/loja.jpg\" alt=\"A loja Barzarz\u00e3o, que vende materiais de constru\u00e7\u00e3o e utilidades dom\u00e9sticas na cidade de Itabora\u00ed, sudeste brasileiro. Esse com\u00e9rcio duplicou suas vendas ao come\u00e7ar a constru\u00e7\u00e3o do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro, mas depois ca\u00edram verticalmente quando a Petrobras cancelou a parte petroqu\u00edmica do projeto. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A loja Barzarz\u00e3o, que vende materiais de constru\u00e7\u00e3o e utilidades dom\u00e9sticas na cidade de Itabora\u00ed, sudeste brasileiro. Esse com\u00e9rcio duplicou suas vendas ao come\u00e7ar a constru\u00e7\u00e3o do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro, mas depois ca\u00edram verticalmente quando a Petrobras cancelou a parte petroqu\u00edmica do projeto. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o foram canceladas apenas a petroqu\u00edmica e a segunda refinaria, como tamb\u00e9m \u201ca constru\u00e7\u00e3o da primeira est\u00e1 parada e, de acordo com a Petrobras, busca-se financiamento para conclu\u00ed-la\u201d, acrescentou. Isso apesar de as obras j\u00e1 estarem 87% prontas.<\/p>\n<p>Nos 45 quil\u00f4metros quadrados adquiridos para instalar o Comperj, a Petrobras avan\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o da Unidade Processadora de G\u00e1s Natural, que emprega cerca de tr\u00eas mil funcion\u00e1rios. \u201cAp\u00f3s constru\u00ed-la restar\u00e3o apenas 80 empregados para a opera\u00e7\u00e3o\u201d, segundo Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>A cidade acusou o golpe. Os grandes pr\u00e9dios comerciais ficaram vazios e, ao se percorrer suas ruas, se v\u00ea cont\u00ednuas placas de \u201caluga-se\u201d, enquanto a maioria dos pontos comerciais est\u00e1 fechada. \u201cA terra das laranjas se transformou na terra dos elefantes brancos\u201d, brincou Bruno Soares, gerente da loja de materiais de constru\u00e7\u00e3o e utilidades dom\u00e9sticas Bazarz\u00e3o, na avenida 22 de Maio, a principal de Itabora\u00ed.<\/p>\n<p>Sua loja n\u00e3o foi registrada como fornecedora do Comperj, mas ainda assim sofreu seu maremoto. \u201cNossas vendas ca\u00edram 50% desde o final de 2014\u201d, estimou Soares, mas reconhecendo que na realidade voltaram ao n\u00edvel anterior ao abortado auge trazido pelo Comperj. \u201cO neg\u00f3cio subiu e caiu em cinco anos, r\u00e1pido demais. Outros com\u00e9rcios fecharam e os munic\u00edpios vizinhos tamb\u00e9m foram prejudicados. Itabora\u00ed seria uma pot\u00eancia na Am\u00e9rica Latina se o complexo petroqu\u00edmico seguisse em frente, mas caiu devido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o comum entre a popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 de Itabora\u00ed, diante da informa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria sobre o esc\u00e2ndalo dos subornos multimilion\u00e1rios nos projetos da Petrobras, incluindo o Comperj, que envolve dezenas de pol\u00edticos e construtoras.<\/p>\n<div id=\"attachment_202058\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/edificio2.jpg\"><img class=\"wp-image-202058\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/edificio2.jpg\" alt=\"Entrada do luxuoso edif\u00edcio Hellix, com seus escrit\u00f3rios quase vazios. A Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico da prefeitura de Itabora\u00ed, sudeste brasileiro, se instalou em algumas de suas salas que est\u00e3o com aluguel muito barato por causa da falta de demanda depois que a Petrobr\u00e1s reduziu drasticamente o megaprojeto petroleiro e petroqu\u00edmico em suas imedia\u00e7\u00f5es. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Entrada do luxuoso edif\u00edcio Hellix, com seus escrit\u00f3rios quase vazios. A Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico da prefeitura de Itabora\u00ed, sudeste brasileiro, se instalou em algumas de suas salas que est\u00e3o com aluguel muito barato por causa da falta de demanda depois que a Petrobr\u00e1s reduziu drasticamente o megaprojeto petroleiro e petroqu\u00edmico em suas imedia\u00e7\u00f5es. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Valcir Jos\u00e9 Vieira, dono de um estacionamento tamb\u00e9m no centro da cidade, concorda com Soares. \u201cEntre 2006 e 2014, meu estacionamento estava sempre cheio, entravam 200 autom\u00f3veis por dia, hoje chegam cem no m\u00e1ximo\u201d, pontuou \u00e0 IPS. A queda come\u00e7ou em novembro do ano passado e o obrigou a reduzir o pre\u00e7o que cobrava por hora de R$ 5 para R$ 2.<\/p>\n<p>Para a prefeitura o desastre \u00e9 duplo. A arrecada\u00e7\u00e3o caiu vertiginosamente, enquanto se manteve o aumento de gastos causado pelo truncado megaprojeto e a ilus\u00e3o do progresso. O Imposto Sobre Servi\u00e7os, principal renda municipal, proporcionou durante o auge da constru\u00e7\u00e3o do Comperj cerca de R$ 250 mil, quantia que cair\u00e1 em 40% este ano, segundo a Secretaria de Fazenda. A arrecada\u00e7\u00e3o de outros tributos cai igualmente, pela insolv\u00eancia das empresas em crise.<\/p>\n<p>Entretanto, os gastos n\u00e3o diminuem. A aflu\u00eancia de oper\u00e1rios e fam\u00edlias seduzidas pela expectativa de muitos empregos e prosperidade geral do munic\u00edpio fez aumentar a demanda por sa\u00fade, escolas e outros servi\u00e7os p\u00fablicos. \u201cO Hospital Municipal atendia 500 pessoas por dia em seu servi\u00e7o de emerg\u00eancia e saltou para duas mil desde 2013\u201d, apontou Mendon\u00e7a. A prefeitura destina 30% do or\u00e7amento \u00e0 sa\u00fade, o dobro do exigido por lei, ressaltou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a administra\u00e7\u00e3o municipal que deixou o poder em 2012 contratou por concurso dois mil novos funcion\u00e1rios, baseada nas novas demandas e expectativas de renda. A arrecada\u00e7\u00e3o de impostos sofreu uma regress\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel demitir os funcion\u00e1rios, que t\u00eam estabilidade garantida no Brasil. \u00c9 gasto que fica. Os dois secret\u00e1rios se queixam de que n\u00e3o houve compensa\u00e7\u00e3o do Comperj pelos impactos provocados no munic\u00edpio, tampouco investimentos para mitigar os efeitos danosos do abortado megaprojeto.<\/p>\n<p>Diante dos fatos consumados, a prefeitura busca alternativas de desenvolvimento. Guimar\u00e3es est\u00e1 convencido de que a log\u00edstica ser\u00e1 a principal atividade futura de Itabora\u00ed. A cidade fica em um cruzamento de v\u00e1rias rodovias, ainda fora do congestionamento da regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro, e no centro de uma \u00e1rea que compreende atividades petroleiras alheias ao Comperj, como portos, estaleiros e ind\u00fastrias variadas, descreveu o secret\u00e1rio. Os munic\u00edpios afetados pela redu\u00e7\u00e3o do projeto se mobilizaram para pressionar a Petrobr\u00e1s para que ao menos reinicie a constru\u00e7\u00e3o da primeira refinaria.<\/p>\n<p>Itabora\u00ed tamb\u00e9m aposta na pequena empresa. A Secretaria de Guimar\u00e3es criou um Centro do Empreendedor, destinado a acelerar a forma\u00e7\u00e3o de microempresas e formalizar as que agora operam no setor informal. Constru\u00e7\u00e3o para pequenas obras, como reformas de casas e servi\u00e7os de est\u00e9tica s\u00e3o os neg\u00f3cios que mais s\u00e3o abertos agora. \u201cRivalizam com as igrejas evang\u00e9licas\u201d, disse \u00e0 IPS o coordenador do centro, Wilson Pereira. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Itabora&iacute;, Brasil, 23\/10\/2015 &ndash; Itabora&iacute; ainda recorda suas origens em um munic&iacute;pio formado ao longo de uma rodovia, crescendo para os dois lados de sua larga avenida central. Mas h&aacute; alguns anos esta cidade do sudeste do Brasil se encheu de grandes e modernos edif&iacute;cios, agora todos vazios, ou quase. 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