{"id":20016,"date":"2015-10-26T13:07:00","date_gmt":"2015-10-26T13:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=202114"},"modified":"2015-10-26T13:07:00","modified_gmt":"2015-10-26T13:07:00","slug":"bombas-turcas-caem-em-hortas-curdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/10\/ultimas-noticias\/bombas-turcas-caem-em-hortas-curdas\/","title":{"rendered":"Bombas turcas caem em hortas curdas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_202115\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/rinaz.jpg\"><img class=\"wp-image-202115\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/rinaz.jpg\" alt=\" Rinaz Rojelat, o \u00fanico comerciante que resta na aldeia de Zergely, nas montanhas de Qandil, no Curdist\u00e3o iraquiano. Seu com\u00e9rcio fica bem em frente \u00e0s ru\u00ednas das casas de seus vizinhos, destru\u00eddas pelo bombardeio da avia\u00e7\u00e3o turca em agosto deste ano. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Rinaz Rojelat, o \u00fanico comerciante que resta na aldeia de Zergely, nas montanhas de Qandil, no Curdist\u00e3o iraquiano. Seu com\u00e9rcio fica bem em frente \u00e0s ru\u00ednas das casas de seus vizinhos, destru\u00eddas pelo bombardeio da avia\u00e7\u00e3o turca em agosto deste ano. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Karlos Zurutuza, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Montanhas de Qandil, Iraque, 26\/10\/2015 \u2013 Presos na escalada da viol\u00eancia entre o governo de Ancara e o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK), os moradores deste reduto da guerrilha sofrem impotentes os ataques constantes da avia\u00e7\u00e3o turca. Na \u00fanica loja da aldeia de Zergely n\u00e3o faltam umas conhecidas bolachas turcas de chocolate e laranja ou as p\u00e1s para abrir caminho em meio \u00e0 neve. Naturalmente, tamb\u00e9m est\u00e3o \u00e0 venda os populares rel\u00f3gios contendo em sua esfera o rosto de Abdulla Ocalan, o l\u00edder hist\u00f3rico do PKK, preso em um c\u00e1rcere turco desde 1999.<\/p>\n<p>Rinaz Rojelat, seu propriet\u00e1rio, continua vendendo praticamente tudo o que a terra n\u00e3o d\u00e1 aos moradores dessas imponentes montanhas de Qandil. Mas s\u00e3o tempos dif\u00edceis, e ele assegurou \u00e0 IPS que perdeu muitos clientes ultimamente. Ele se refere aos que fugiram e, sobretudo, aos oito vizinhos assassinados no dia 1\u00ba de agosto pela avia\u00e7\u00e3o da Turquia. O cartaz colocado junto \u00e0 sua loja os recorda, bem como os escombros de suas casas, a escassos cem metros.<\/p>\n<p>\u201cA explos\u00e3o me acordou de madrugada. Naquele primeiro ataque morreu uma mulher, e o restante ap\u00f3s um segundo impacto, quando muitos de n\u00f3s tent\u00e1vamos ajudar os feridos\u201d, recordou o comerciante, que continua contemplando incr\u00e9dulo o sinistro cen\u00e1rio \u00e0 frente de sua loja.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Rejelat, muitos preferiram abandonar essas ind\u00f4mitas montanhas para descer para o vale, alguns inclusive at\u00e9 Erbil, a capital administrativa da Regi\u00e3o Aut\u00f4noma Curda no Iraque.<\/p>\n<p>Mohamed Sabah optou por cuidar de seus cultivos e animais em Zergely durante o dia e dormir na casa de alguns familiares em Bagirke, a dez minutos de carro. \u201cDepois do ataque pensei em ir embora e jamais voltar, mas do que iria viver em Erbil? Sou campon\u00eas, minhas terras e meus animais est\u00e3o aqui\u201d, disse esse curdo de 28 anos, em uma horta cheia de pepinos anexa ao entulho.<\/p>\n<div id=\"attachment_202116\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/bombardeio.jpg\"><img class=\"wp-image-202116\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/bombardeio.jpg\" alt=\"Alguns restos do bombardeio contra Zergely, uma das aldeias curdas das imponentes montanhas de Qandil, realizado pela avia\u00e7\u00e3o turca em agosto deste ano. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Alguns restos do bombardeio contra Zergely, uma das aldeias curdas das imponentes montanhas de Qandil, realizado pela avia\u00e7\u00e3o turca em agosto deste ano. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Tr\u00eas de seus familiares ficaram feridos em agosto, e ele j\u00e1 havia perdido um irm\u00e3o em um ataque semelhante em 1997, porque os bombardeios de Qandil est\u00e3o longe de ser resultado da recente conjuntura b\u00e9lica no Curdist\u00e3o. Em todo caso, o certo \u00e9 que os ataques se intensificaram desde o dia 20 de julho deste ano, quando um atentado suicida tirou a vida de mais de 30 jovens ativistas pr\u00f3-curdos, a maioria deles turcos.<\/p>\n<p>Assim, o malogrado processo de paz entre Ancara e os curdos desembocava em uma espiral de viol\u00eancia, cujo epis\u00f3dio mais dram\u00e1tico foi vivido no dia 10 deste m\u00eas, com outro atentado suicida que matou uma centena de pessoas em Ancara. Precisamente, essa \u00faltima aproxima\u00e7\u00e3o entre Turquia e curdos come\u00e7ou oficialmente nas montanhas de Qandil.<\/p>\n<p>Foi durante as celebra\u00e7\u00f5es do Newroz (o ano novo persa e curdo) em mar\u00e7o de 2013 quando se fez p\u00fablico o an\u00fancio de Ocalan, indicando o \u00faltimo cessar-fogo unilateral da guerrilha curda. A falta de hot\u00e9is na regi\u00e3o levou este jornalista a ser acomodado em uma das casas destru\u00eddas em agosto em Zergely. Os mortos eram camponeses, como todos no lugar. Por\u00e9m, a Turquia justifica o bombardeio assegurando que se tratava de \u201cuma base para terroristas do PKK\u201d.<\/p>\n<p>A cerca de dez quil\u00f4metros ao sul, a aldeia de Bokriskan abriga o \u00fanico hospital de Qandil. Trata-se de um modesto edif\u00edcio erguido pela guerrilha ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do anterior na localidade de Leuza, em 2008. Como naquele, o de Bokriskan \u00e9 administrado por uma enfermeira de origem alem\u00e3 que decidiu exercer seu oficio nesta parte do mundo h\u00e1 mais de 20 anos e que adotou para si o nome de Media. Pode ser que se trate apenas de um centro m\u00e9dico, mas os moradores est\u00e3o conscientes de que apenas sua presen\u00e7a pode provocar que o c\u00e9u caia sobre suas cabe\u00e7as com punhos de a\u00e7o. Aqui tampouco seria a primeira vez.<\/p>\n<p>Maryam Hussein dormia em sua casa a poucos metros do hospital quando as bombas ca\u00edram em Zergely. Aquela madrugada foi a \u00faltima vez em que viu seu marido. Ap\u00f3s a explos\u00e3o, Abdul Kadir Abu Baker n\u00e3o vacilou em ir at\u00e9 a aldeia para socorrer os feridos. Morreu no segundo ataque. Sua vi\u00fava disse \u00e0 IPS que n\u00e3o voltou a pisar nem em Bokriskan, nem em Zergely, desde ent\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_202117\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maryam.jpg\"><img class=\"wp-image-202117\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/maryam.jpg\" alt=\"Maryam e Dalyan Hussein, vi\u00fava e cunhado de um dos quatro mortos na aldeia curda de Zerbely, durante ataque da avia\u00e7\u00e3o turca, afirmam que os bombardeios sobre as popula\u00e7\u00f5es das montanhas de Qandil s\u00e3o constantes. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS\" width=\"340\" height=\"191\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Maryam e Dalyan Hussein, vi\u00fava e cunhado de um dos quatro mortos na aldeia curda de Zerbely, durante ataque da avia\u00e7\u00e3o turca, afirmam que os bombardeios sobre as popula\u00e7\u00f5es das montanhas de Qandil s\u00e3o constantes. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>\u201cFui viver com meus pais, mas continuo tendo medo porque aqui n\u00e3o h\u00e1 lugar seguro\u201d, afirmou a vi\u00fava, de sua aldeia natal de Nawchelekan. Ao seu lado, seu irm\u00e3o Dalyan perguntou \u00e0 IPS: \u201cteria sido outro o destino sem a presen\u00e7a do PKK na \u00e1rea?\u201d. \u201cA Turquia n\u00e3o faz distin\u00e7\u00f5es entre civis e guerrilheiros. Al\u00e9m disso, suas bases est\u00e3o muito longe de nossos povoados\u201d, acrescentou Dalyan, que, segundo terceiros, recolheu os restos de seu cunhado em um saco.<\/p>\n<p>Desde o recrudescimento das hostilidades, no m\u00eas de julho, a Turquia assegura ter acabado com a vida de mais de dois mil combatentes do PKK. A guerrilha, por sua vez, afirma que suas perdas n\u00e3o chegam a uma centena. \u201cLevamos muitos anos suportando esses ataques e sabemos de sobra como nos proteger\u201d, disse \u00e0 IPS Sauas Amed, uma alta patente dentro do PKK.<\/p>\n<p>Essa dan\u00e7a de n\u00fameros torna imposs\u00edvel dar estimativas de baixas condizentes com a realidade, mas o que \u00e9 facilmente comprov\u00e1vel \u00e9 o mal-estar pol\u00edtico que as qualificadas como \u201copera\u00e7\u00f5es transfronteiri\u00e7as\u201d pelo Executivo de Ancara provocam neste lado da fronteira.<\/p>\n<p>Em conversa telef\u00f4nica com a IPS desde Bagd\u00e1, Arez Abdula, parlamentar pela Uni\u00e3o Patri\u00f3tica do Curdist\u00e3o na C\u00e2mara de Representantes (deputados) do Iraque, acusou a Turquia de cometer \u201cflagrantes viola\u00e7\u00f5es do direito internacional\u201d. Tamb\u00e9m lamentou que os bombardeios tenham se convertido em \u201crotina desde tempo imemorial\u201d, diante da impot\u00eancia tanto das autoridades de Erbil quanto de Bagd\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, iraquianos, temos n\u00e3o s\u00f3 que suportar essas agress\u00f5es, como tamb\u00e9m que localidades como a cidade de Mosul tenham ca\u00eddo em m\u00e3os do Estado Isl\u00e2mico, gra\u00e7as ao apoio que este recebe da Turquia\u201d, afirmou o deputado. A delicada situa\u00e7\u00e3o tanto pol\u00edtica como econ\u00f4mica que passa o pa\u00eds torna invi\u00e1vel uma resposta contundente a Ancara, acrescentou.<\/p>\n<p>Mas o \u00faltimo comerciante de Zergely assegurou n\u00e3o ter medo dos bombardeios e disse que n\u00e3o partir\u00e1, \u201cnem mesmo se seus clientes desaparecerem\u201d. Sem d\u00favida, seu com\u00e9rcio conheceu tempos melhores, como aquele Newroz de 2013, quando milhares de curdos se reuniram aqui diante do esperado comunicado de Ocalan. \u201cNenhum de n\u00f3s tinha muitas esperan\u00e7as naquele processo de paz. Mas tampouco esper\u00e1vamos isso dois anos depois\u201d, confessou o comerciante, antes de baixar a persiana. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Karlos Zurutuza, da IPS &ndash;&nbsp; Montanhas de Qandil, Iraque, 26\/10\/2015 &ndash; Presos na escalada da viol&ecirc;ncia entre o governo de Ancara e o Partido dos Trabalhadores do Curdist&atilde;o (PKK), os moradores deste reduto da guerrilha sofrem impotentes os ataques constantes da avia&ccedil;&atilde;o turca. 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