{"id":20044,"date":"2015-11-03T14:07:41","date_gmt":"2015-11-03T14:07:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=202345"},"modified":"2015-11-03T14:07:41","modified_gmt":"2015-11-03T14:07:41","slug":"megaprojetos-sonho-efemero-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/11\/ultimas-noticias\/megaprojetos-sonho-efemero-no-brasil\/","title":{"rendered":"Megaprojetos, sonho ef\u00eamero no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_202346\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Complexo-Petroqu%C3%ADmico.jpg\"><img class=\"wp-image-202346\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Complexo-Petroqu%C3%ADmico.jpg\" alt=\"Entre o mato, parte das estruturas do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), no m\u00eas passado, vista da margem do rio Caceribu, o ponto mais pr\u00f3ximo das instala\u00e7\u00f5es ao qual que se pode chegar. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Entre o mato, parte das estruturas do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), no m\u00eas passado, vista da margem do rio Caceribu, o ponto mais pr\u00f3ximo das instala\u00e7\u00f5es ao qual que se pode chegar. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Itabora\u00ed, Brasil, 3\/11\/2015 \u2013 Viver como m\u00fasico de uma banda militar \u00e9 o sonho de Jackson Coutinho, de 21 anos, depois que se dissiparam as esperan\u00e7as de que um complexo petroqu\u00edmico industrializaria esta cidade pr\u00f3xima ao Rio de Janeiro, a capital do Estado do Rio de Janeiro. \u201cTentarei concursos da Marinha, do Ex\u00e9rcito e at\u00e9 da Pol\u00edcia Militar, mas s\u00f3 para ser m\u00fasico, n\u00e3o um policial\u201d, contou o jovem, que toca contrabaixo em bandas formadas com seus amigos em Itabora\u00ed.<\/p>\n<p>At\u00e9 o ano passado, ele era oper\u00e1rio do cons\u00f3rcio QGIT na constru\u00e7\u00e3o do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj). Era ajudante das m\u00e1quinas que fizeram a terraplenagem onde foi implantada a Unidade de Processamento de G\u00e1s Natural (UPGN). Jackson perdeu o emprego no come\u00e7o deste ano, quando se intensificaram as demiss\u00f5es em massa, produto da crise na Petrobras, propriet\u00e1ria do Comperj.<\/p>\n<p>O megaprojeto arrancou com or\u00e7amento inicial de US$ 6,5 bilh\u00f5es e j\u00e1 custou mais que o dobro, apesar de sofrer dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o e agora contemplar apenas uma refinaria e a UPGN. Perdeu sua parte mais cara e industrializada, a unidade petroqu\u00edmica, porque a Petrobras n\u00e3o conseguiu s\u00f3cios para o projeto. A queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e o esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o que atinge a companhia desde mar\u00e7o de 2014, envolvendo dezenas de pol\u00edticos e empres\u00e1rios acusados de desviar milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares de seus neg\u00f3cios, acabaram sepultando os planos de construir a maior petroqu\u00edmica latino-americana nesta cidade.<\/p>\n<p>As perdas s\u00e3o imensas. \u201cDe 14 unidades ou edif\u00edcios em cuja constru\u00e7\u00e3o trabalhei, apenas quatro ou cinco ser\u00e3o aproveitados\u201d, afirmou Rog\u00e9rio Henrique Louren\u00e7o, de 26 anos, t\u00e9cnico em edifica\u00e7\u00f5es que por cinco anos trabalhou em obras do Comperj.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos \u201celefantes brancos\u201d \u2013 as caras edifica\u00e7\u00f5es sem uso e quase conclu\u00eddas dentro dos 45 quil\u00f4metros quadrados que o mutilado megaprojeto ocupa \u2013, s\u00e3o muitos os equipamentos adquiridos e a infraestrutura constru\u00edda, que agora exigem uma cara manuten\u00e7\u00e3o para um futuro incerto. A isso se somam gastos de compensa\u00e7\u00f5es e mitiga\u00e7\u00e3o dos impactos sociais e ambientais, que incluem saneamento, recupera\u00e7\u00e3o dos rios e reflorestamento, obriga\u00e7\u00f5es que se mant\u00eam nas dimens\u00f5es acordadas, sem redu\u00e7\u00e3o correspondente \u00e0 sofrida pelo Complexo.<\/p>\n<p>Os munic\u00edpios sob influ\u00eancia do Comperj, especialmente Itabora\u00ed, perdem de vista o desenvolvimento prometido em 2006, quando o ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010) anunciou o projeto. Na \u00e9poca afirmou que contaria com duas refinarias e duas unidades petroqu\u00edmicas, uma b\u00e1sica e outra para produtos associados, al\u00e9m de centrais de servi\u00e7os e capacita\u00e7\u00e3o dos t\u00e9cnicos necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, um centro de pesquisas econ\u00f4micas, estimou que a petroqu\u00edmica fomentaria o surgimento de um polo industrial de pl\u00e1sticos. Entre 362 empresas, em um cen\u00e1rio conservador, e 724, em um cen\u00e1rio otimista, se instalariam em suas imedia\u00e7\u00f5es. Essa industrializa\u00e7\u00e3o acelerada geraria entre 117 mil e 168 mil empregos no Estado do Rio de Janeiro, pouco mais de um ter\u00e7o concentrado na \u00e1rea de influ\u00eancia direta. Itabora\u00ed, como sede do Comperj, seria o munic\u00edpio mais beneficiado, deixando de ser um dos mais pobres do Estado e uma cidade-dormit\u00f3rio, cujos residentes trabalham em outras cidades vizinhas.<\/p>\n<p>\u201cDesmoronou o castelo\u201d, resumiu Louren\u00e7o, demitido em mar\u00e7o de 2014, quando perdeu for\u00e7a a malograda constru\u00e7\u00e3o petroqu\u00edmica. Com tr\u00eas filhos pequenos, agora sobrevive de trabalhos ocasionais, principalmente em pequenas constru\u00e7\u00f5es. Estava distribuindo folhetos de publicidade na rua mais central de Itabora\u00ed quando conversou com a IPS. Seu sonho \u00e9 ser funcion\u00e1rio p\u00fablico concursado, para ter emprego est\u00e1vel. \u201cNo Comperj tive empregos bem remunerados, mas tempor\u00e1rios\u201d, lamentou. Seus cinco anos ali se fragmentaram em contratos de poucos meses em numerosas empresas.<\/p>\n<div id=\"attachment_202347\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Rogerio.jpg\"><img class=\"wp-image-202347\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Rogerio.jpg\" alt=\"Rog\u00e9rio Henrique Louren\u00e7o, de 26 anos, trabalhou cinco anos na constru\u00e7\u00e3o do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), como empregado de v\u00e1rias empresas. Agora sobrevive na cidade de Itabora\u00ed, base do truncado megaprojeto, com apenas pequenos e eventuais trabalhos para manter sua fam\u00edlia de tr\u00eas filhos. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Rog\u00e9rio Henrique Louren\u00e7o, de 26 anos, trabalhou cinco anos na constru\u00e7\u00e3o do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), como empregado de v\u00e1rias empresas. Agora sobrevive na cidade de Itabora\u00ed, base do truncado megaprojeto, com apenas pequenos e eventuais trabalhos para manter sua fam\u00edlia de tr\u00eas filhos. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Experi\u00eancia semelhante teve Francisco Assun\u00e7\u00e3o, de 22 anos, que trabalhou quase dois em tr\u00eas das dezenas de empresas que participaram da constru\u00e7\u00e3o do Comperj. Agora, procura sobreviver com uma moto-t\u00e1xi, \u201cmas as pessoas, sem dinheiro, preferem caminhar\u201d, por isso tamb\u00e9m trabalha na constru\u00e7\u00e3o ou em restaurantes. \u201cGanhava mais nos empregos do Comperj\u201d. O sal\u00e1rio era de apenas R$ 1.150, mas com 40% adicionais para alimenta\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia m\u00e9dica, acrescentou.<\/p>\n<p>Coutinho conseguiu permanecer 18 meses em um mesmo emprego, o que lhe permitiu ser promovido e ganhar o suficiente para comprar um autom\u00f3vel. \u201cFoi um sonho que passou\u201d, afirmou. Embora se concentre em seu futuro musical, tem um \u201cplano b\u201d, que \u00e9 estudar contabilidade, embora n\u00e3o goste de matem\u00e1tica. \u201cTenho amigos contadores\u201d, disse. Por\u00e9m, acredita que o Comperj \u201cretomar\u00e1 seu plano original (de complexo petroqu\u00edmico), porque ali foi investido muito dinheiro e se chegou a um ponto sem retorno\u201d. Estima-se que 80% das obras est\u00e3o completados.<\/p>\n<p>Para esses jovens, a experi\u00eancia oper\u00e1ria real\u00e7ou a aus\u00eancia de horizontes em Itabora\u00ed, mesmo integrando a din\u00e2mica regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. Com 230 mil habitantes e 343 anos de hist\u00f3ria, segue fiel \u00e0 sua origem de um povoado surgido em torno de uma estrada, agora sua larga e dominante avenida central. A escassa atividade produtiva local, quase limitada a olarias e laranjais, n\u00e3o oferece empregos nem est\u00edmulo intelectual para a juventude.<\/p>\n<div id=\"attachment_202348\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Jackson.jpg\"><img class=\"wp-image-202348\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Jackson.jpg\" alt=\"Jackson Coutinho, de 21 anos, conseguiu comprar um autom\u00f3vel trabalhando durante 18 meses em uma construtora do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj). Agora, desempregado, seu desejo \u00e9 ingressar como m\u00fasico em uma banda militar e estudar contabilidade. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Jackson Coutinho, de 21 anos, conseguiu comprar um autom\u00f3vel trabalhando durante 18 meses em uma construtora do Complexo Petroqu\u00edmico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj). Agora, desempregado, seu desejo \u00e9 ingressar como m\u00fasico em uma banda militar e estudar contabilidade. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 uma cidade que n\u00e3o cultiva sua identidade cultural, \u201csem lazer, pra\u00e7as ou locais de conviv\u00eancia\u201d para a popula\u00e7\u00e3o, apontou \u00e0 IPS a estudante de servi\u00e7o social Franciellen Fonseca, que participa da pesquisa Indicadores de Cidadania (Incid). Realizada pelo Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase), essa pesquisa monitora a vig\u00eancia de direitos civis nos 14 munic\u00edpios sob influ\u00eancia do Comperj, desenvolvendo um sistema de indicadores sobre como a popula\u00e7\u00e3o vive, garante e percebe tais direitos.<\/p>\n<p>Seu mais recente estudo, sobre \u201ca invis\u00edvel cidadania dos trabalhadores e das trabalhadoras do Comperj\u201d, destaca a car\u00eancia e a dificuldade de se obter informa\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no projeto. Negar dados da situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 \u201cuma grave viola\u00e7\u00e3o de direitos, j\u00e1 que impede o acompanhamento de perto dos efeitos e impactos desses megaempreendimentos na vida das pessoas\u201d, diz o documento do Incid. N\u00e3o se sabe o n\u00famero de empregados nas obras. Fala-se em 30 mil no apogeu da constru\u00e7\u00e3o, entre 2012 e 2013, e os dados s\u00e3o discrepantes desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Os jovens demitidos ouvidos pela IPS acreditam que os trabalhadores locais eram minoria na constru\u00e7\u00e3o, contrariando a promessa de priorizar a m\u00e3o de obra local. Uma das in\u00fameras greves que paralisaram as obras foi para reclamar exatamente a contrata\u00e7\u00e3o de mais oper\u00e1rios locais, recordou Coutinho. A alega\u00e7\u00e3o era que n\u00e3o havia trabalhadores qualificados para as fun\u00e7\u00f5es exigidas. Mas, quando aparecia um bem capacitado, era exigida uma imposs\u00edvel experi\u00eancia pr\u00e9via ou simplesmente n\u00e3o era contratado, acrescentou Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>A \u201cinvisibilidade\u201d a que se submeteu o mundo trabalhista do Comperj, apesar de seu contexto urbano, foi quebrada pelas frequentes greves e focos de viol\u00eancia, que colocam em xeque o antigo sindicato. O sucessor, o Sindicato de Trabalhadores em Montagem e Manuten\u00e7\u00e3o de Itabora\u00ed, nasceu em junho de 2014, para enfrentar situa\u00e7\u00e3o diferente, atropelado pelas crescentes demiss\u00f5es em massa. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Itabora&iacute;, Brasil, 3\/11\/2015 &ndash; Viver como m&uacute;sico de uma banda militar &eacute; o sonho de Jackson Coutinho, de 21 anos, depois que se dissiparam as esperan&ccedil;as de que um complexo petroqu&iacute;mico industrializaria esta cidade pr&oacute;xima ao Rio de Janeiro, a capital do Estado do Rio de Janeiro. &ldquo;Tentarei concursos da [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/11\/ultimas-noticias\/megaprojetos-sonho-efemero-no-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[27,2781,2458,3179,2931,2783],"class_list":["post-20044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-brasil","tag-featured","tag-inter-press-service","tag-mario-osava","tag-megaprojeto","tag-news3"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20044"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20044\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20045,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20044\/revisions\/20045"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}