{"id":20061,"date":"2015-11-06T12:34:44","date_gmt":"2015-11-06T12:34:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=202505"},"modified":"2015-11-06T12:34:44","modified_gmt":"2015-11-06T12:34:44","slug":"a-europa-vota-por-um-ontem-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/11\/ultimas-noticias\/a-europa-vota-por-um-ontem-melhor\/","title":{"rendered":"A Europa vota por um ontem melhor"},"content":{"rendered":"<p><em>Por\u00a0Roberto Savio*<\/em><\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, novembro\/2015 \u2013 As recentes elei\u00e7\u00f5es na Su\u00ed\u00e7a e na Pol\u00f4nia s\u00e3o bons indicadores do que ocorrer\u00e1 em outros lugares da Europa com a crescente onda de refugiados. Mas, antes de tudo, \u00e9 preciso fazer considera\u00e7\u00f5es cruciais.<\/p>\n<p>Primeiro, que o sistema atual de rela\u00e7\u00f5es internacionais e de governan\u00e7a nacional deixou de funcionar. Estamos vivendo um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, mas ningu\u00e9m sabe para onde. A esquerda n\u00e3o tem um manifesto e a direita s\u00f3 cavalga no <em>status quo<\/em>. N\u00e3o existe um pensamento pol\u00edtico de longo prazo.<\/p>\n<p>Segundo, vive-se uma \u00e9poca de \u201cnova economia\u201d, baseada na supremacia das finan\u00e7as sobre a produ\u00e7\u00e3o. Funcion\u00e1rios n\u00e3o eleitos, como os governadores dos bancos centrais e os banqueiros, t\u00eam muito mais poder do que antes.<\/p>\n<p>Essa nova economia considera os empregos prec\u00e1rios uma realidade leg\u00edtima, a desigualdade social natural, o mercado como a base exclusiva para o desenvolvimento da sociedade, e que o Estado \u00e9 ineficiente e um freio para o setor privado.<\/p>\n<p>Terceiro, as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas est\u00e3o se ofuscando. Hoje nenhum partido conta com um verdadeiro movimento juvenil. S\u00e3o percebidos cada vez mais como autorreferentes, que consideram os cidad\u00e3os apenas como eleitorado, e s\u00e3o vistos mais como parte do sistema no poder do que como porta-vozes da sociedade.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros da pol\u00edtica (e da corrup\u00e7\u00e3o) crescem ano ap\u00f3s ano. As pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es norte-americanas custar\u00e3o mais de US$ 4 bilh\u00f5es. Segundo a London School of Economics, o custo da campanha eleitoral na Europa aumentou 47% na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Muitos consideram que agora vivemos em uma democracia que est\u00e1 se convertendo em plutocracia.<\/p>\n<p>Quarto, o multilateralismo est\u00e1 em crise. Os Estados Unidos deixaram de ratificar todo tratado internacional, desde a conven\u00e7\u00e3o Internacional sobre os Direitos da Crian\u00e7a at\u00e9 a do Direito Mar\u00edtimo.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) foi marginalizada. As organiza\u00e7\u00f5es regionais, com Uni\u00e3o Africana, Associa\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es do Sudeste Asi\u00e1tico, ou a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, se converteram em notoriamente ineficazes.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia (UE) est\u00e1 saltando da crise existencial do euro (Gr\u00e9cia) para a ainda mais grave dos refugiados. A Gr\u00e3-Bretanha est\u00e1 liderando uma carga contra Bruxelas para a restitui\u00e7\u00e3o de poderes, o que criar\u00e1 um precedente que outros invocar\u00e3o, come\u00e7ando por Hungria e Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender o motivo de os eleitores europeus estarem votando com base na nostalgia pol\u00edtica e na falta de seguran\u00e7a. Diante de um futuro incerto, se fortalece o sonho de voltar a um passado melhor.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es na Su\u00ed\u00e7a e na Pol\u00f4nia premiaram os partidos que prometeram defender a identidade nacional contra os estrangeiros, em particular mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>O caso polon\u00eas \u00e9 emblem\u00e1tico. O pa\u00eds \u00e9 um dos maiores benefici\u00e1rios da ajuda da UE. Quis ingressar na Uni\u00e3o Europeia para conseguir fundos e apoio, mas sem a m\u00ednima inten\u00e7\u00e3o de dar algo em troca, como demonstra a negativa em aceitar imigrantes.<\/p>\n<p>Vale lembrar que at\u00e9 a crise financeira que eclodiu em 2008, a xenofobia e os partidos de direita radical eram marginalizados em quase toda a Europa, mas em pouco tempo se converteram em atores importantes em todo o continente, inclusive em pa\u00edses conhecidos por seu senso c\u00edvico e de toler\u00e2ncia, como a Holanda e os pa\u00edses n\u00f3rdicos.<\/p>\n<p>\u00c9 desconcertante ver trabalhadores e pessoas de baixa renda votarem na Frente Nacional, na Fran\u00e7a, no Movimento 5 Stelle, na It\u00e1lia, no Partido da Independ\u00eancia, no Reino Unido e, agora, Paz e Justi\u00e7a, na Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p>O sonho de regressar a um passado seguro e ordenado \u00e9 o que leva a votar em um partido xen\u00f3fobo, de direita radical e antieuropeu.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale a pena recordar que grande parte dos cidad\u00e3os europeus ainda n\u00e3o recuperou a qualidade de vida que tinha antes de 2008. Os jovens pagam um custo desproporcional por uma crise provocada pelo setor financeiro, que recebeu para seu resgate muito mais dinheiro do que o destinado a pol\u00edticas de emprego ou para a recupera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A nostalgia do passado tamb\u00e9m explica a origem do Tea Party, nos Estados Unidos, criado pela ala radical do Partido Republicano, e a vit\u00f3ria de Justin Trudeau, no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Para o Ocidente apresenta-se um problema.<\/p>\n<p>Atualmente existem 60 milh\u00f5es de refugiados, sem incluir nesse n\u00famero os que fogem de persegui\u00e7\u00f5es sexuais, como os gays na \u00c1frica, ou as mulheres que fogem do Boko Haram, na Nig\u00e9ria. Tampouco est\u00e3o contabilizados aqueles que s\u00e3o obrigados a se deslocar por causa da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 que segundo a ONU ser\u00e3o outros 15 milh\u00f5es at\u00e9 2025 \u2013, aos quais deve-se acrescentar os que escapam da fome e das ditaduras.<\/p>\n<p>A demografia \u00e9 clara. A \u00c1frica ter\u00e1 um bilh\u00e3o de habitantes em 2030, enquanto a Europa perder\u00e1 15 milh\u00f5es at\u00e9 essa data. A Europa que conhecemos, homog\u00eanea, branca, crist\u00e3 e tolerante vai desaparecer. E isso n\u00e3o acontecer\u00e1 sem uma boa dose de sofrimento.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos se converteram em um pa\u00eds multicultural e multi\u00e9tnico em pouco mais de cem anos. De acordo com os registros da ilha de Ellis, o ponto de entrada mais importante de imigrantes, nove milh\u00f5es de irlandeses, alem\u00e3es, austr\u00edacos e escandinavos entraram na \u00e9poca do barco a vapor, bem como mais de oito milh\u00f5es de poloneses, b\u00falgaros, romenos, h\u00fangaros, russos e b\u00e1lticos, e mais de cinco milh\u00f5es de italianos e gregos.<\/p>\n<p>Em umas poucas d\u00e9cadas, um total de 22,5 milh\u00f5es de europeus se converteram em norte-americanos. A Europa n\u00e3o est\u00e1 preparada nem mesmo para um d\u00e9cimo disso&#8230; Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio<\/strong> \u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor do boletim <\/em>Other News<em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Roberto Savio* Roma, It&aacute;lia, novembro\/2015 &ndash; As recentes elei&ccedil;&otilde;es na Su&iacute;&ccedil;a e na Pol&ocirc;nia s&atilde;o bons indicadores do que ocorrer&aacute; em outros lugares da Europa com a crescente onda de refugiados. Mas, antes de tudo, &eacute; preciso fazer considera&ccedil;&otilde;es cruciais. Primeiro, que o sistema atual de rela&ccedil;&otilde;es internacionais e de governan&ccedil;a nacional deixou de funcionar. 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