{"id":20065,"date":"2015-11-06T12:46:31","date_gmt":"2015-11-06T12:46:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=202512"},"modified":"2015-11-06T12:46:31","modified_gmt":"2015-11-06T12:46:31","slug":"mulheres-em-greve-reprodutiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/11\/ultimas-noticias\/mulheres-em-greve-reprodutiva\/","title":{"rendered":"Mulheres em greve reprodutiva"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/grafico1.jpg\"><img class=\"alignright wp-image-202513\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/grafico1.jpg\" alt=\"grafico\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a>Por\u00a0Joseph Chamie*<\/em><\/p>\n<p>Nova York, Estados Unidos, 6\/11\/2015 \u2013 As mulheres t\u00eam menos de dois filhos, em m\u00e9dia, em 83 pa\u00edses, quase a metade da popula\u00e7\u00e3o mundial. E em alguns outros, como Alemanha, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, Pol\u00f4nia, Cingapura, Coreia do Sul e Espanha, a fecundidade se aproxima de um filho por mulher, o que est\u00e1 abaixo do n\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o. Em grande parte, devido \u00e0s decis\u00f5es das mulheres em mat\u00e9ria de reprodu\u00e7\u00e3o, as proje\u00e7\u00f5es indicam que as popula\u00e7\u00f5es de 48 pa\u00edses ser\u00e3o mais reduzidas e ter\u00e3o estruturas et\u00e1rias com mais pessoas idosas at\u00e9 meados deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Em um futuro mais distante, as perspectivas nessas na\u00e7\u00f5es se agravar\u00e3o, com popula\u00e7\u00f5es mais reduzidas e de maior idade at\u00e9 o final deste s\u00e9culo. Por exemplo, se no Jap\u00e3o a fertilidade se mantiver em 1,4 nascimento por mulher, de seus atuais 127 milh\u00f5es de habitantes restar\u00e3o 64 milh\u00f5es at\u00e9 2100, 40% dos quais ter\u00e3o mais de 65 anos. As mesmas perspectivas demogr\u00e1ficas se repetem em muitos outros pa\u00edses quando n\u00e3o s\u00e3o alteradas as baixas taxas de fecundidade, como Alemanha, It\u00e1lia, R\u00fassia e Coreia do Sul.<\/p>\n<p>Segundo as tend\u00eancias demogr\u00e1ficas observadas nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas, quando a taxa de natalidade cai abaixo do n\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o, especialmente quando \u00e9 de 1,6 nascimento por mulher, tende a permanecer igual. E, mesmo que essa taxa aumente de alguma forma, o n\u00famero de mulheres em idade de procriar diminuir\u00e1 em muitos pa\u00edses com baixas taxas de natalidade, o que derivar\u00e1 em um n\u00famero menor de nascimentos.<\/p>\n<p>Embora existam poucas pesquisas emp\u00edricas a respeito, os pa\u00edses tendem a olhar a queda da natalidade e o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o com grave preocupa\u00e7\u00e3o. Acredita-se que essa tend\u00eancia demogr\u00e1fica ter\u00e1 graves consequ\u00eancias sobre os interesses nacionais, ao prejudicar o crescimento econ\u00f4mico, a defesa, a integridade cultural, as pens\u00f5es e a sa\u00fade, especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos cuidados com os idosos.<\/p>\n<p>Alguns governos \u2013 como os da Alemanha, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, R\u00fassia, Cingapura e Coreia do Sul \u2013 conclu\u00edram que s\u00e3o necess\u00e1rios os esfor\u00e7os de interven\u00e7\u00e3o para elevar a taxa de natalidade, e dessa forma frear a diminui\u00e7\u00e3o e o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos tempos, esse duplo problema demogr\u00e1fico fez com que a China anunciasse o fim da pol\u00edtica de filho \u00fanico para permitir dois filhos por casal.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar das pol\u00edticas estatais, de v\u00e1rias iniciativas pr\u00f3-natalidade, a noite familiar, os \u201ccruzeiros do amor\u201d, os servi\u00e7os para encontrar seu par, os incentivos \u00e0 maternidade e os apelos ao patriotismo e ao dever c\u00edvico, os esfor\u00e7os para aumentar a fertilidade para perto do n\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o, em geral, n\u00e3o conseguiram convencer as mulheres a terem mais filhos.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses com baixa natalidade, a fecundidade permaneceu abaixo do n\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muitos fatores ou raz\u00f5es para a fecundidade ter ca\u00eddo abaixo desse n\u00edvel e se manter baixa. O casamento como institui\u00e7\u00e3o social avalizada decaiu na medida em que o div\u00f3rcio e a separa\u00e7\u00e3o ficaram mais comuns e aceit\u00e1veis. Al\u00e9m disso, j\u00e1 n\u00e3o se atribui ao casamento apenas finalidades reprodutivas.<\/p>\n<p>As oportunidades em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o, emprego, mobilidade e independ\u00eancia econ\u00f4mica, somadas \u00e0 anticoncep\u00e7\u00e3o, permitem \u00e0 mulher retardar ou diretamente renunciar \u00e0 maternidade. Em muitos pa\u00edses desenvolvidos, especialmente na Europa, 10% das mulheres em torno dos 40 anos n\u00e3o t\u00eam filhos, e em alguns, como Alemanha, It\u00e1lia e Holanda, a propor\u00e7\u00e3o se aproxima dos 20%.<\/p>\n<p>Em lugar do casamento, muitas mulheres e muitos homens preferem morar juntos, evitando tr\u00e2mites legais, responsabilidades sociais e compromissos de longo prazo. Mesmo se decidem casar, muitos est\u00e3o satisfeitos de continuar com seu companheiro ou sua companheira apenas como casal.<\/p>\n<p>Cada vez mais homens e mulheres jovens buscam a realiza\u00e7\u00e3o pessoal e o desenvolvimento de suas carreiras em lugar de se concentrar na fam\u00edlia e nos filhos. E, ap\u00f3s muitos anos nessa situa\u00e7\u00e3o, muitas pessoas se acostumam a um estilo de vida urbana, de elevado <em>status<\/em> econ\u00f4mico e social e com liberdades ilimitadas.<\/p>\n<p>As mulheres tamb\u00e9m dizem que n\u00e3o t\u00eam filhos porque n\u00e3o encontram um companheiro apropriado e disposto a compartilhar igualmente a paternidade e as tarefas dom\u00e9sticas. Por exemplo, quando perguntaram a uma jovem japonesa se desejaria ter um filho, ela respondeu: \u201cN\u00e3o, porque para ter um beb\u00ea teria que me casar com um beb\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, muitas jovens concluem que n\u00e3o podem viver com a renda de uma s\u00f3 pessoa e que os dois est\u00e3o obrigados a trabalhar. Os custos adicionais que sup\u00f5em os filhos, al\u00e9m da necessidade de economizar para uma longa aposentadoria, elevam as necessidades econ\u00f4micas das fam\u00edlias e representam um poderoso freio \u00e0 procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro fator que incide na baixa fecundidade em muitos pa\u00edses \u00e9 a falta de apoio suficiente e de servi\u00e7os sociais para os que t\u00eam filhos, especialmente para as fam\u00edlias monoparentais. Esse assunto se tornou particularmente importante porque a maioria das mulheres n\u00e3o se dedica apenas \u00e0 maternidade, tamb\u00e9m s\u00e3o trabalhadoras. As exig\u00eancias profissionais, de desenvolvimento da carreira, e da paternidade, somadas aos custos da cria\u00e7\u00e3o dos filhos, constituem os \u201cobst\u00e1culos para o segundo filho\u201d.<\/p>\n<p>Diante dessas circunst\u00e2ncias urgentes, em especial porque a maior parte do peso da cria\u00e7\u00e3o dos filhos ainda recai sobre as mulheres, muitas delas resistem a ter um segundo filho. E quando algumas decidem vencer esse obst\u00e1culo, comparativamente menos est\u00e3o dispostas a considerar a possibilidade de ter um terceiro ou mais.<\/p>\n<p>Algumas mulheres, e tamb\u00e9m homens, limitaram sua fecundidade preocupados pela superpopula\u00e7\u00e3o mundial e suas consequ\u00eancias prejudiciais ao ambiente. Est\u00e3o convencidos de que o mundo seria um lugar muito melhor e mais sustent\u00e1vel para viver com menor taxa de natalidade, o que derivaria em uma futura popula\u00e7\u00e3o mundial bem menor.<\/p>\n<p>Os programas e as pol\u00edticas estatais para incentivar as mulheres a terem mais filhos, a fim de frear a diminui\u00e7\u00e3o e o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se chocaram com obje\u00e7\u00f5es e resist\u00eancias \u00e0 interfer\u00eancia e \u00e0 intromiss\u00e3o desnecess\u00e1rias do Estado na vida das mulheres.<\/p>\n<p>Na Alemanha, por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de um incentivo econ\u00f4mico para as mulheres dedicadas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de seus filhos foi duramente criticada por desestimular a popula\u00e7\u00e3o feminina a desenvolver uma carreira profissional, que se promove e se espera dos homens e dos pais.<\/p>\n<p>Conseguir\u00e3o os governos convencer as mulheres a suspender sua greve reprodutiva e ter um maior n\u00famero de filhos, dessa forma aumentando a taxa de natalidade pr\u00f3ximo do n\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o? Parece muito duvidoso.<\/p>\n<p>Segundo seu comportamento atual e seu discurso, as mulheres em pa\u00edses com baixa natalidade provavelmente n\u00e3o aumentem o n\u00famero de filhos pelo bem do pa\u00eds, pelos limitados incentivos econ\u00f4micos ou por outros programas estatais pr\u00f3-natalidade. A maioria das jovens decidiu n\u00e3o regressar aos pap\u00e9is tradicionais e limitados marcados pela reprodu\u00e7\u00e3o, que desempenharam suas m\u00e3es e suas av\u00f3s.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, no futuro pr\u00f3ximo, a fertilidade nos pa\u00edses de baixa natalidade permanecer\u00e1 abaixo do n\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Joseph Chamie <\/strong>\u00e9 consultor independente em demografia e ex-diretor da Divis\u00e3o de Popula\u00e7\u00e3o Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Joseph Chamie* Nova York, Estados Unidos, 6\/11\/2015 &ndash; As mulheres t&ecirc;m menos de dois filhos, em m&eacute;dia, em 83 pa&iacute;ses, quase a metade da popula&ccedil;&atilde;o mundial. 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